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segunda-feira, 21 de julho de 2025

Amizade Digital, Méritos de Cristo e a Geografia da Fé

Vivemos em tempos em que o conceito de amizade é frequentemente dissolvido no caldo ralo das redes sociais. Para muitos, ser "amigo" é apenas aceitar uma solicitação, clicar num botão. Mas amizade, como sabiam os antigos, é coisa muito mais séria. Aristóteles já distinguia a  amizade da utilidade, pois para ele havia duas amizades: a de prazer e a verdadeira amizade — aquela fundada na virtude e no bem comum1. Ora, essa distinção, embora milenar, continua atualíssima no contexto digital.

Ao contrário da minha colega Cinthia Madeira, que adota o critério da convivência presencial como condição sine qua non para o vínculo digital, eu compreendi que a ausência de contato físico não é impedimento para a comunhão de espírito. Meu critério é outro: estudo o perfil de quem me adiciona, examino as postagens, as interações, as confissões públicas de fé e, sobretudo, procuro detectar a conformidade com o Todo que vem de Deus2. Se encontro afinidade nos fundamentos — e, mais ainda, a defesa de valores monárquicos, que compreendo como uma forma superior de organização do bem comum fundada na ordem transcendente —, aceito o vínculo.

Essa escolha não é casual, mas deliberada. A monarquia, compreendida aqui como símbolo da hierarquia natural e da autoridade derivada de Deus3, é para mim um critério espiritual e político. Da mesma forma, a geografia não limita minha busca por interlocutores: se a alma daquela pessoa está orientada pelo mesmo eixo que norteia a minha, podemos conversar em profundidade, nos méritos de Cristo, ainda que estejamos em hemisférios opostos.

As redes sociais, nesse sentido, tornam-se um instrumento de comunhão espiritual e intelectual — não uma vitrine de vaidades, mas um mosteiro digital, onde se pode encontrar, de tempos em tempos, monges dispersos, anacoretas conectados por fios invisíveis da graça.

Essa postura evita o risco de sermos escravizados pela cultura do algoritmo, que estimula conexões superficiais e impessoais. Ao fazer uso inteligente da rede, recuso o automatismo e abraço o discernimento. A amizade digital verdadeira exige estudo, oração e leitura atenta dos sinais — aquilo que os antigos chamavam de discernimento dos espíritos4.

Referências

  1. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Abril Cultural, 1984. (Os Pensadores).

  2. Cf. ROMANOS 12,2: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”

  3. DE MAISTRE, Joseph. Do Papa. São Paulo: É Realizações, 2010. O autor defende que a monarquia é reflexo na terra da ordem celeste, e que a autoridade legítima só pode provir de Deus.

  4. SANTO INÁCIO DE LOYOLA. Exercícios Espirituais. São Paulo: Loyola, 1999. Nos Exercícios, Inácio ensina a distinguir o bom espírito do mau, algo essencial para qualquer discernimento — inclusive nas redes.

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