A migração começa muito antes do deslocamento físico. Antes que alguém atravesse um oceano, mude de cidade ou abandone a terra em que nasceu, existe uma pergunta anterior: o que torna possível trocar o conhecido pelo desconhecido? Em Life of Pi, Yann Martel formula esse problema por meio da imagem de uma montanha de dificuldades — documentos, costumes, estranhamento, insegurança — que o migrante precisa escalar porque espera encontrar, além do horizonte, uma vida melhor.
Mas essa imagem pode ser levada mais longe: a montanha não precisa apenas ser escalada, uma vez que ela pode ser escavada, pois quando sucessivas gerações preparam uma terra distante para receber outras pessoas, cada uma delas retira algumas pedras dessa montanha. O que inicialmente era hostil, estranho e inacessível vai sendo convertido em espaço habitável; depois, em comunidade; finalmente, em lar. É nesse sentido que servir a Cristo em terras distantes exige mais do que simplesmente enviar homens para lugares remotos: é necessário preparar esses lugares para que homens e famílias possam neles viver, trabalhar, educar seus filhos e reconhecer, mesmo a milhares de quilômetros de sua terra de origem, um mesmo lar em Cristo, por Cristo e para Cristo.
Os dois operários da construção de uma terra
O antigo vocabulário português permite compreender uma distinção especialmente fecunda, pois de um lado encontra-se o missionário, particularmente representado na experiência ibérica pela figura do jesuíta, enquanto de outro encontra-se o colono, entendido no sentido antigo associado ao cultivo, ao trabalho da terra e à formação material do assentamento.
Ambos trabalham sobre uma terra, mas não exatamente sobre a mesma dimensão dela.
O missionário trabalha sobretudo sobre a terra humana, pois ele aprende línguas, ensina, catequiza, escreve gramáticas, funda escolas, organiza comunidades e procura transmitir uma concepção do homem e de seu destino último. Sua obra, quando autenticamente cristã, não consiste simplesmente em transportar costumes europeus para outro território, mas em anunciar uma verdade considerada universal: a dignidade da pessoa criada por Deus e chamada à comunhão com Ele.
O colono, por sua vez, trabalha primordialmente sobre a terra física. Cultiva, constrói, cria circuitos de abastecimento, produz alimentos, estabelece casas, oficinas e atividades econômicas. Onde antes existia apenas uma possibilidade geográfica, começa a surgir uma estrutura material capaz de sustentar famílias.
Por isso, esses dois operários são complementares, pois o missionário prepara o homem para a terra; o colono prepara a terra para o homem. A continuidade das gerações completa a operação, transformando ambos — homem e terra — em comunidade histórica.
Evangelizar não é simplesmente ocupar
Essa distinção exige, entretanto, um cuidado fundamental, pois a experiência histórica das Américas portuguesa e espanhola não pode ser reduzida a uma narrativa linear de evangelização e desenvolvimento. Houve conflitos, exploração, escravidão, coerção, destruição de comunidades e profundas contradições entre os princípios cristãos proclamados e determinadas práticas dos agentes humanos que operavam no além-mar, em muitos desses casos, passando por cima do que era determinado pelas Ordenações Filipinas, Afonsinas e Manuelinas.
A própria tradição cristã oferece os critérios pelos quais essas práticas podem ser julgadas, pois se Cristo é a verdade e se a verdade é fundamento da liberdade, a cristianização autêntica não pode significar simplesmente submeter alguém pela força, uma vez que fé obtida apenas mediante coerção exterior contradiz o próprio princípio de adesão pessoal à verdade.
Isso torna extremamente importante distinguir expansão política,.povoamento, desenvolvimento econômico, evangelização de colonização, pois historicamente essas realidades frequentemente caminharam juntas, mas não são conceitualmente idênticas. É justamente dessa tensão que emerge uma das questões centrais da história ibero-americana: como construir uma sociedade cristã em terras distantes sem transformar a pessoa humana em simples instrumento de projeto ambição imperialista, pois a noção de colônia, que é uma categoria modena, não bate com a realidade da obra social que Portugal e Espanha fizeram em prol da Cristandade.
O problema não invalida o projeto civilizacional. Ao contrário: fornece o critério pelo qual ele deve permanentemente ser corrigido.
Portugal, Espanha e a construção material da distância
Quando observadas conjuntamente, as experiências portuguesa e espanhola revelam algo maior do que a simples ampliação territorial de dois Estados europeus, uma vez que se tratou da construção gradual de uma vasta infraestrutura capaz de tornar habitáveis e conectáveis territórios separados por oceanos, florestas, montanhas e enormes distâncias, uma vez que portos foram estabelecidos; caminhos foram abertos; cidades foram fundadas; terras foram cultivadas; rotas marítimas passaram a funcionar regularmente; instituições religiosas, jurídicas e administrativas foram transplantadas e adaptadas; línguas adquiriram dimensões continentais; universidades, hospitais, confrarias, paróquias, missões e instituições de assistência foram criados.
Esse processo possui uma importância geoeconômica enorme, uma vez que a distância física permanecia,o custo humano de povoá-lo diminuía, poia um território distante deixa de ser verdadeiramente remoto quando existem meios regulares de se chegar até ele, instituições capazes de receber o recém-chegado, alimentos suficientes para sustentá-lo, uma linguagem na qual ele possa comunicar-se e uma comunidade dentro da qual possa situar sua existência.
É assim que a distância e o estranhamento começam a ser transformada em familiaridade.
A montanha começa a ser escavada
A máxima tradicionalmente atribuída a Confúcio segundo a qual aquele que remove uma montanha começa carregando pequenas pedras oferece uma boa metáfora para esse processo, pois nenhuma geração remove toda a montanha, uma vez que cada geração remove algumas pedras, pois uma família que se estabelece numa região distante remove algumas; m agricultor que começa a produzir alimentos remove outras; uma estrada remove várias; um porto remove milhares; uma escola, uma universidade, uma paróquia, um hospital e um arquivo removem outras tantas; uma tradução também remove uma pedra, pois aquilo que antes estava intelectualmente preso a uma língua torna-se acessível a outra comunidade; uma rota comercial remove outra; uma legislação que reconhece direitos e torna previsíveis as relações sociais remove mais uma.
O resultado acumulado durante séculos pode ser extraordinário: aquilo que para a primeira geração parecia situado “além do horizonte” transforma-se, para uma geração posterior, em destino perfeitamente concebível. Essa é talvez uma das características mais importantes da civilização: herdamos montanhas parcialmente escavadas por pessoas que morreram antes de nascermos.
Capital de gerações
O migrante raramente chega a uma terra inteiramente virgem de relações humanas. Geralmente encontra aquilo que poderíamos chamar de um capital de gerações: encontra estradas que não construiu; utiliza portos que não fundou; habita cidades projetadas por outros; recorre a instituições jurídicas formuladas antes de seu nascimento; fala línguas que atravessaram séculos; frequenta igrejas construídas por mãos desconhecidas; compra alimentos produzidos por uma cadeia de trabalhadores que jamais conhecerá.
É esse capital acumulado que torna uma migração sustentável. Nesse sentido, o ato de emigrar não deve ser visto apenas sob o ponto de vista daquele que parte, mas também deve ser analisado sob o ponto de vista daqueles que, durante décadas ou séculos, prepararam o lugar para sua chegada.
A verdadeira infraestrutura migratória é histórica.
Da terra distante ao lar
Nesse ponto aparece uma distinção decisiva entre território e lar, pois o território é uma realidade geográfica, enqaunto o lar é uma realidade relacional, uma vez que uma pessoa pode residir durante anos num território sem jamais considerá-lo verdadeiramente seu lar; por outro lado, pode reconhecer como parte de sua casa existencial lugares separados por enorme distância física quando entre eles existe continuidade familiar, espiritual, econômica e institucional.
É daí que nasce a possibilidade de uma espécie de continentalização das almas, pois uma família pode estar distribuída entre diferentes cidades ou mesmo diferentes continentes e ainda assim constituir uma unidade, uma vez que cada lugar oferece algo distinto: trabalho, educação, segurança, conhecimento, produção, acesso marítimo, comércio ou vida religiosa. A distância geográfica deixa de significar necessariamente ruptura.
Diferentes pontos do território tornam-se complementares, pois o que os une não é a contiguidade do solo, mas uma comunidade de finalidade. Essa é uma forma particularmente profunda de se compreender a expressão “um mesmo lar em Cristo, por Cristo e para Cristo”, pois o lar cristão não precisa ser imaginado exclusivamente como um ponto no mapa - ele pode constituir uma rede de lugares unidos pela família, pelo trabalho, pela fé e pelo serviço.
A verdade como infraestrutura invisível
Existe ainda outra espécie de infraestrutura, menos visível do que estradas e portos, mas talvez mais importante: a confiança: nenhuma comunidade complexa sobrevive sem algum grau de verdade compartilhada, uma vez que contratos pressupõem que as palavras possuam significado; moedas pressupõem confiança; instituições dependem de registros verdadeiros, pois o comércio exige expectativa de cumprimento das obrigações, a ciência depende da possibilidade de verificar afirmações e o Direito perde sua função quando a falsidade se converte em regra. Nesse sentido, a verdade não é simplesmente uma virtude privada. Ela se constitui numa infraestrutura social.
A afirmação cristã de que Cristo é “o caminho, a verdade e a vida” adquire aqui uma consequência social profunda, pois se a verdade liberta, então a construção de uma sociedade verdadeiramente livre exige estruturas que permitam ao homem conhecer a realidade e agir responsavelmente dentro dela, pois uma migração fundada em mentira, exploração ou falsas promessas pode deslocar pessoas, mas dificilmente produzirá um lar - a sustentabilidade material, portanto, não basta, uma vez que é necessário também aquilo que poderíamos chamar de sustentabilidade na verdade.
O colono transforma a geografia
Existe igualmente uma dimensão econômica nessa construção: o trabalho do colono demonstra que a geografia não é simplesmente um dado passivo, pois a terra possui características naturais, mas a ação humana pode revelar potencialidades antes inutilizadas, já que um porto natural pode permanecer economicamente irrelevante durante séculos até que seja integrado a uma rede de navegação; uma planície fértil pode produzir pouco até receber técnicas adequadas de cultivo; uma posição estratégica pode possuir enorme valor geopolítico, mas permanecer subutilizada enquanto não houver infraestrutura capaz de conectá-la.
O trabalho humano, nesse sentido. transforma a geografia em ativo. pois o colono não ocupa simplesmente o espaço: ele converte potencial geográfico em sustentação humana.
Mas a finalidade cristã impede que essa transformação seja vista exclusivamente em termos de maximização econômica, pois a terra é trabalhada para que possa sustentar pessoas, famílias e comunidades e a economia volta assim ao seu significado mais elementar: administração da casa. E, quando a casa se torna continental, a economia doméstica começa igualmente a adquirir dimensão geográfica mais ampla.
Servir a Cristo em terras distantes
Chegamos, então, a uma compreensão mais exigente dessa expressão servir a Cristo em terras distantes não significa simplesmente ir para longe, mas contribuir para que aquilo que está longe deixe de ser hostil ao desenvolvimento integral da pessoa humana
Pode-se fazer isso construindo uma escola, cultivando alimentos traduzindo um livro, criando uma empresa, fundando uma instituição, construindo uma estrada, formando uma família, ensinando uma língua, preservando documentos, estabelecendo relações comerciais honestas, organizando uma comunidade religiosa. Cada uma dessas atividades remove algumas pedras da montanha.
Nem todos verão o resultado final - talvez quase ninguém veja, pois as grandes obras históricas raramente pertencem a uma geração isolada.
Conclusão: a civilização como a escavação da montanha e processo de superação da distância
A história da expansão humana pode ser compreendida como uma progressiva transformação da distância, pois primeiro existe o desconhecido; depois, aparece o caminho; em seguida, surge o assentamento; o assentamento produz comunidade; a comunidade gera memória histórica. E a memória histórica transforma o território em lar.
Nesse processo, missionário e colono representam duas dimensões complementares da obra humana: um cultiva pessoas; o outro cultiva a terra. Quando ambos são ordenados pela verdade e pelo reconhecimento da dignidade humana, sua obra pode ultrapassar a simples ocupação territorial e tornar-se construção civilizacional.
Pode-se, portanto, formular a tese da seguinte maneira: o missionário prepara o homem para a terra; o colono prepara a terra para o homem; as gerações transformam ambos em lar; e a verdade determina se esse lar servirá efetivamente à liberdade.
A montanha que separa o homem das terras distantes não desaparece de uma vez: Ela é escavada, pedra por pedra, estrada por estrada, livro por livro, família por família, de geração em geração, ponto a ponto.E, quando a obra é orientada para um bem que transcende cada indivíduo e cada geração, lugares fisicamente separados podem finalmente ser reconhecidos como partes de uma mesma casa, a ponto de serem tomados como um mesmo lar em Cristo, por Cristo e para Cristo.
Bibliografia comentada
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MARTEL, Yann. Life of Pi. Canongate, 2001.
A passagem sobre a migração funciona como o ponto de partida literário do artigo: o migrante aceita enfrentar o desconhecido porque espera encontrar uma vida melhor. A importância de Martel para a argumentação não está em oferecer uma teoria sociológica da migração, mas em fornecer a imagem da “montanha” formada pela distância, pelas formalidades e pelo estranhamento, que o artigo posteriormente transforma na metáfora de uma montanha que gerações sucessivas podem escavar. A obra foi publicada originalmente em 2001; a Canongate mantém edições posteriores do romance. -
BLUTEAU, Raphael. Vocabulario Portuguez & Latino, aulico, anatomico, architectonico, bellico, botanico.... Coimbra/Lisboa, 1712–1728. 8 v. e 2 suplementos.
É uma fonte primária fundamental para recuperar o campo semântico do português dos séculos XVII e XVIII, evitando projetar automaticamente sobre palavras como “colono”, “lavrador” e termos correlatos os significados políticos que adquiriram posteriormente. A Brasiliana da USP confirma que o Vocabulario foi publicado entre 1712 e 1728, em oito volumes e dois suplementos. Para o artigo, Bluteau é especialmente importante porque permite fundamentar historicamente a figura do colono como homem associado ao trabalho produtivo da terra. -
ACOSTA, José de. De procuranda Indorum salute. 1577; edições modernas pelo Consejo Superior de Investigaciones Científicas.
Talvez seja uma das fontes mais diretamente relacionadas à tese do artigo. O próprio arranjo de uma edição moderna é revelador: os primeiros livros aparecem associados à “pacificação e colonização”, enquanto os seguintes tratam de “educação e evangelização”. Isso permite estudar, a partir de um jesuíta do século XVI, como organização temporal, formação humana e missão religiosa podiam ser pensadas conjuntamente — ainda que seja necessário analisar criticamente as categorias próprias daquele período. -
ACOSTA, José de. Historia natural y moral de las Indias. Sevilha, 1590.
Complementa o De procuranda porque Acosta procura compreender simultaneamente natureza, geografia, povos, costumes e organização humana do mundo americano. É particularmente útil para a ideia desenvolvida no artigo de que a ação humana não se realiza sobre um espaço abstrato: clima, relevo, recursos e condições territoriais interferem na possibilidade de formar comunidades duradouras. A edição original foi publicada em Sevilha em 1590. -
VITORIA, Francisco de. Relectio de Indis [De Indis]. 1539.
Francisco de Vitoria é indispensável para introduzir a dimensão jurídico-moral que impede que “preparar uma terra” seja confundido com possuir licença ilimitada para dominar os seus habitantes. Em suas reflexões sobre os indígenas americanos, Vitoria examina títulos de domínio, autoridade, comunicação entre povos, guerra e limites da ação espanhola. É, portanto, uma ponte especialmente importante entre o artigo e o Direito: a expansão territorial passa a ser submetida a critérios de justiça que não dependem simplesmente da vontade do conquistador. A Relectio de Indis foi apresentada em Salamanca em 1539. -
LAS CASAS, Bartolomé de. Brevísima relación de la destrucción de las Indias. 1552.
Deve entrar na bibliografia precisamente para impedir uma leitura idealizada da colonização. Las Casas documenta e denuncia violências cometidas contra populações indígenas. Sua presença ajuda a sustentar uma distinção essencial do artigo: evangelização, colonização, exploração econômica e conquista política podem historicamente coexistir, mas não são moralmente equivalentes. Uma obra que pretenda falar da construção cristã de comunidades precisa reconhecer também os momentos em que agentes cristãos agiram contra os princípios que professavam. -
HANKE, Lewis. The Spanish Struggle for Justice in the Conquest of America. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1949.
Hanke é particularmente valioso porque demonstra que a conquista espanhola provocou, já no século XVI, uma verdadeira controvérsia jurídica, teológica e moral dentro do próprio mundo hispânico. Assim, Vitoria e Las Casas não aparecem como acidentes isolados: eles integram um debate mais amplo sobre legitimidade da conquista, tratamento dos indígenas e limites do poder imperial. Isso fortalece a parte do artigo que afirma que a própria tradição cristã fornece critérios para julgar criticamente as práticas históricas dos cristãos. -
BOXER, C. R. The Portuguese Seaborne Empire, 1415–1825. London: Hutchinson, 1969.
É uma referência clássica para compreender a amplitude espacial do império marítimo português, suas redes comerciais, seus estabelecimentos ultramarinos e suas estruturas sociais e administrativas. Para a tese da escavação da distância, Boxer permite observar como portos, rotas marítimas, enclaves, cidades e relações comerciais diminuíram progressivamente o custo efetivo da distância entre regiões separadas por oceanos. A obra foi publicada em 1969 e cobre o período de 1415 a 1825. -
ELLIOTT, J. H. Empires of the Atlantic World: Britain and Spain in America, 1492–1830. New Haven: Yale University Press, 2006.
A vantagem de Elliott está no método comparativo. Ao colocar lado a lado experiências imperiais distintas, ele ajuda a evitar explicações monocausais sobre colonização. Para o artigo, essa abordagem é metodologicamente útil porque permite distinguir modelos de ocupação, instituições, relações com populações locais e formas de integração territorial. É também um bom antídoto contra transformar “colonização” numa categoria uniforme. -
CONCÍLIO VATICANO II. Dignitatis Humanae: Declaração sobre a liberdade religiosa. 7 dez. 1965.
Este documento dá fundamento magisterial a uma distinção central do artigo. A busca da verdade possui uma exigência moral, mas a adesão religiosa não pode resultar de coerção externa; a liberdade religiosa está fundada na dignidade da pessoa humana. Isso permite formular com maior rigor a afirmação segundo a qual cristianizar não significa simplesmente dominar. Uma comunidade “sustentada na verdade” não pode contradizer a própria verdade mediante uma imposição que destrua a liberdade responsável da pessoa. -
JOÃO PAULO II. Redemptoris Missio. 7 dez. 1990.
É uma referência fundamental para definir propriamente a missão cristã. João Paulo II apresenta a atividade missionária como consequência da própria vida da Igreja e insiste na renovação da fé e da vida cristã que acompanha a missão. No artigo, serve para evitar que o “missionário” seja reduzido a agente sociológico de expansão territorial: sua razão especificamente cristã de existir é a missão evangelizadora. -
JOÃO PAULO II. Laborem Exercens. 14 set. 1981.
É a obra magisterial mais diretamente relacionada à figura do colono enquanto trabalhador. João Paulo II parte da ideia de que o trabalho traz a marca da pessoa e ocorre numa comunidade de pessoas. Isso permite aprofundar teologicamente a expressão “o colono prepara a terra para o homem”: o trabalho não deve ser entendido apenas como alteração material do espaço ou produção de riqueza, mas como atividade propriamente humana, cujo sujeito permanece sendo a pessoa. -
JOÃO PAULO II. Veritatis Splendor. 6 ago. 1993.
Fornece o fundamento teológico mais direto para a relação entre verdade e liberdade desenvolvida no artigo. A encíclica começa afirmando que a verdade ilumina a inteligência humana e forma a liberdade. Por isso, encaixa-se precisamente na noção de “sustentabilidade na verdade”: não basta criar condições materiais que possibilitem deslocamento, produção e prosperidade; a liberdade humana precisa estar orientada por uma compreensão verdadeira do bem.
Como essa bibliografia estrutura a tese
Com essas referências, o argumento passa a possuir quatro camadas documentais bem distintas. Bluteau fornece a camada lexical; Acosta, Vitoria, Las Casas, Hanke, Boxer e Elliott, a histórica e jurídico-institucional; Dignitatis Humanae, Redemptoris Missio, Laborem Exercens e Veritatis Splendor, a antropológica e teológica; e Martel, a imagem literária inicial da migração e da montanha.
Isso é importante porque as expressões “os dois operários”, “escavação da montanha”, “capital de gerações”, “sustentabilidade na verdade” e “continentalização das almas” devem aparecer claramente como categorias interpretativas do próprio artigo. A bibliografia não precisa conter alguém que tenha utilizado exatamente essas expressões; ela precisa fornecer os dados históricos, jurídicos, lexicais e teológicos cuja articulação permite chegar legitimamente a essa síntese.
A tese central, então, fica ainda mais precisa:
O missionário prepara o homem para a terra; o colono prepara a terra para o homem; as gerações transformam ambos em lar; e a verdade estabelece os limites morais dentro dos quais essa transformação pode ser verdadeiramente libertadora.
Com Vitoria, Las Casas e Dignitatis Humanae incorporados à bibliografia, há ainda uma salvaguarda conceitual decisiva: “um mesmo lar em Cristo, por Cristo e para Cristo” não pode significar homogeneização pela força. A unidade cristã proposta pelo artigo é uma unidade de finalidade e comunhão, não a supressão da dignidade, da liberdade ou da personalidade histórica dos povos. É justamente essa distinção que torna a sua metáfora da montanha mais forte: a montanha deve ser escavada para que as pessoas possam atravessá-la livremente — não para que sejam empurradas através dela.