Introdução: quando a medida perde o sentido
Uma das características mais profundas da civilização moderna consiste na tendência a transformar a mensuração em critério universal de realidade e valor, pois aquilo que pode ser contado, calculado, comparado e convertido em grandezas parece adquirir uma legitimidade própria, enquanto aquilo que resiste à quantificação corre o risco de ser considerado irrelevante. O problema, entretanto, não reside na existência de medidas, cálculos ou instrumentos de avaliação. A questão fundamental é saber a que finalidade essas medidas servem e segundo qual princípio se determina a sua legitimidade.
Em O reino da quantidade e os sinais dos tempos, René Guénon identifica na progressiva predominância da quantidade um dos traços característicos da modernidade, pois a quantidade originalmente um aspecto da realidade e um instrumento legítimo de conhecimento, tende a emancipar-se das determinações qualitativas que conferem sentido às coisas e o que deveria servir à compreensão da realidade passa a pretender que a própria realidade seja reduzida àquilo que pode ser mensurado.
Essa transformação possui consequências que ultrapassam o domínio da economia, pois ela atinge a política, a educação, a cultura, a vida moral e a própria compreensão do homem. Quando a medida deixa de servir a uma finalidade e passa a constituir um fim em si mesma, o homem corre o risco de se tornar servidor dos instrumentos que criou. É nesse ponto que a crítica guénoniana do Império da Quantidade pode ser articulada com a crítica aristotélica da crematística, com a concepção cristã da verdade como fundamento da liberdade e com a reflexão de Viktor Frankl sobre a necessidade humana de encontrar sentido para a existência.
O argumento central deste artigo é que a quantidade somente recupera sua legitimidade quando subordinada a uma ordem de finalidades que não se esgota na própria mensuração. Nessa ordem, a medida deixa de ser um critério absoluto e se converte em instrumento da justa proporção. A criação humana, por sua vez, deixa de reivindicar uma autonomia absoluta e pode adquirir o caráter de ícone: uma realidade que, sem negar sua consistência própria, remete à verdade e ao bem que a transcendem.
1. O Império da Quantidade e a absolutização da medida
Medir é uma atividade legítima da razão., uma vez que a arquitetura exige cálculos, a medicina utiliza indicadores, a economia recorre a estatísticas e a administração necessita de instrumentos de avaliação. Sem a quantificação, inúmeras atividades humanas se tornariam mais difíceis ou mesmo impossíveis.
O problema começa quando se confunde a possibilidade de mensurar alguma coisa com a possibilidade de esgotar seu significado por meio da mensuração. O valor de uma obra literária, por exemplo, não se identifica integralmente com o número de exemplares vendidos; a qualidade da educação não pode ser reduzida à quantidade de informações transmitidas; a prosperidade de uma sociedade não se confunde necessariamente com o crescimento de seus indicadores econômicos. Em todos esses casos, a quantidade fornece informações relevantes, mas não determina, por si só, a finalidade em função da qual essas informações devem ser interpretadas.
O Império da Quantidade surge precisamente quando essa distinção se perde, pois a mensuração deixa de ser um instrumento subordinado ao juízo racional e passa a determinar os critérios pelos quais a própria realidade será considerada valiosa. A consequência disso é uma inversão entre meios e fins., uma vez que já não se produz riqueza para atender às necessidades da vida, mas a vida passa a ser organizada para se produzir riqueza indefinidamente por que já não se busca mais o conhecimento para se compreender a realidade, mas acumular informação como esta, por si mesma, constituísse sabedoria, dando origem ao senso de se conservar o que é conveniente, ainda que dissociado da verdade - e nesse ponto, a mentalidade conservantista vira mentalidade revolucionária, porque Já não técnicas já não são usadas para se realizar bens humanos voltados ao bem comum, mas para se avaliar os bens humanos segundo os ditames desses sistemas técnicos pautados nessa lógica conservantista.
A medida, nesse contexto, torna-se autônoma, pois ela deixa de responder à pergunta sobre o que é bom e passa a oferecer uma resposta aparentemente suficiente à pergunta sobre o que é maior, mais rápido, mais rentável ou mais eficiente, mas nenhuma dessas grandezas contém, por si mesma, a justificação última da verdade, pois a eficiência depende da finalidade a que serve, a produtividade exige que se determine o que merece ser produzido, a acumulação pressupõe uma resposta à questão de por que acumular. Sem essa referência, o crescimento quantitativo pode prosseguir indefinidamente sem que o seu sentido se torne mais claro.
O Império da Quantidade não se caracteriza, portanto, simplesmente pela presença de números, mas pela pretensão de fazer dos números a medida suprema do valor.
2. Aristóteles e a crítica da crematística
A crítica aristotélica da crematística permite compreender a estrutura moral dessa inversão.
em A Política, Aristóteles distingue a aquisição de bens orientada às necessidades da vida da busca ilimitada de riqueza que transforma a acumulação monetária em finalidade autônoma. Nesse sentido, a economia, considerada em sua relação com a administração da casa e com as necessidades humanas, encontra uma medida naquilo que contribui para a vida boa, enquanto a crematística, em sua forma criticada por Aristóteles, rompe essa relação quando a obtenção de riqueza passa a ser perseguida sem um limite determinado pela finalidade da existência.
A diferença entre essas duas modalidades não depende necessariamente da quantidade de dinheiro possuída, pois uma pessoa pode administrar uma grande riqueza em função de finalidades legítimas, assim como pode transformar uma pequena acumulação em objeto de uma busca desordenada. O critério decisivo é a posição que a riqueza ocupa na hierarquia dos bens, pois quando a riqueza se constitui um meio, sua aquisição pode ser julgada segundo a finalidade para a qual ela é empregada, mas quando se converte em fim último, perde-se o princípio interno que permitiria determinar quando a acumulação é suficiente.
Nesse sentido, a riqueza monetária possui uma característica que torna essa inversão particularmente perigosa, pois ela permite a acumulação potencialmente indefinida. Ao contrário de muitos bens cujo uso está vinculado a necessidades determinadas, o dinheiro pode ser continuamente convertido em novas possibilidades de aquisição - nesse sentido, se a acumulação se torna o próprio fim, não existe, no interior dessa lógica, um critério suficiente para se declarar concluído o processo. E o resultado disso é uma atividade que se justifica pela própria continuidade, uma vez que a riqueza como um fim em si mesmo leva à a acumulação dos poderes de usar, gozar e dos bens como um fim em si mesmo, a ponto de estarem concentrados em poucas nãos e isso vai para continuar se expandindo sem limite, justamente porque se convencionou conservar, na maneira conveniente e dissociada da verdade que o aumento da quantidade da riqueza monetária indica necessariamente sucesso na vida, o que é um engodo, pois um biedny pode ter contato físico com uma quantidade monstruosa de riqueza, mas esse contato é apenas mera detenção, uma vez que ele não tem a permissão de Deus para tomar posse da riqueza e tornar-se um bogaty (um príncipe, nos méritos de Cristo) a ponto de servir a outro Cristos necessitados de modo a aperfeiçoar a liberdade da muitos (ubogis), pois o sentido da riqueza é servir ao bem comum da comunidade.
É nesse sentido que a crítica aristotélica da crematística converge com a crítica guénoniana do Império da Quantidade, pois ambas permitem interrogar uma ordem na qual os instrumentos deixam de servir aos fins humanos e passam a reivindicar uma finalidade própria. Essa convergência não significa que Aristóteles e Guénon sustentem a mesma filosofia, pois Aristóteles parte de uma concepção teleológica da natureza e da vida ética, enquanto Guénon interpreta a predominância moderna da quantidade a partir de uma perspectiva tradicional e metafísica. Apesar dessas diferenças, ambos fornecem recursos para criticar a emancipação de um princípio instrumental em relação à ordem que deveria legitimá-lo.
3. O homem como ser capaz de errar e a necessidade de uma medida superior
A possibilidade de se transformar os meios em fins está ligada a uma característica fundamental da condição humana: o homem pode errar, uma vez que o erro não consiste apenas em formular um juízo intelectualmente falso, pois ele pode também manifestar-se na desordem da vontade, quando um bem particular é tratado como se fosse o bem supremo. Nesse sentido o homem pode reconhecer corretamente a utilidade de determinada coisa e, ainda assim, atribuir-lhe uma importância desproporcional, pois o dinheiro é útil em si mesmo , mas ele não constitui, por si só, a finalidade última da existência humana; o conhecimento em si mesmo é um bem, mas a acumulação de informações não equivale necessariamente à sabedoria; o poder pode ser necessário à realização de determinados objetivos, mas ele não se justifica apenas pelo fato de ampliar a capacidade de se impor a própria vontade contra a vontade de muitos.
Nesse sentido, a condição humana é marcada pela necessidade de se distinguir os bens particulares e o princípio segundo o qual esses bens devem ser ordenados.
Na tradição aristotélica, essa questão se relaciona com a finalidade da vida humana e com a formação das virtudes, enquanto na tradição cristã ela recebe uma dimensão teológica mais radical, pois os bens criados não constituem o fundamento último de si mesmos, uma vez que sua existência e sua inteligibilidade remetem a Deus. E essa afirmação não implica desprezar o mundo, a razão ou as realizações humanas. Ao contrário: significa reconhecer que as coisas criadas possuem uma realidade e um valor que não dependem de sua transformação em absolutos.
Nesse sentido, o homem erra quando toma uma parte pelo todo, um meio pelo fim ou um bem limitado pelo bem supremo. E a idolatria representa uma forma particularmente expressiva desse erro porque o ídolo atribui a si próprio, a uma realidade finita, uma posição que não pode legitimamente ocupar, uma vez que essa posição é própria da natureza divina, de natureza imortal.
Por isso, a crítica do Império da Quantidade não pode se limitar à denúncia dos números ou dos mecanismos econômicos, mas precisa alcançar a questão antropológica que se encontra por trás da absolutização da medida: a dificuldade de reconhecer que nem tudo aquilo que é útil, mensurável ou desejável pode constituir a finalidade última da existência, pois se o homem fosse a medida absoluta de todas as coisas, suas preferências e construções poderiam reivindicar uma autoridade definitiva apenas por serem humanas e na perspectiva cristã, entretanto, a inteligência e a liberdade humanas não são fundamentos absolutos do ser e do bem, pois são capacidades criadas, por meio das quais o homem pode conhecer a verdade, realizar o bem e participar de uma ordem que não instituiu por conta própria.
A liberdade não exige, portanto, que o homem se transforme em criador absoluto dos critérios que orientam sua existência, mas exige que possa reconhecer a verdade sobre os bens e ordenar sua vontade de acordo com ela.
4. Da quantidade à qualidade: a recuperação da justa proporção
Se o problema não está na mensuração enquanto tal, a superação do Império da Quantidade não pode consistir na simples rejeição dos cálculos ou das técnicas quantitativas, uma vez que é necessário restabelecer a relação entre a medida e a finalidade, pois uma medida é adequada quando corresponde à natureza daquilo que se pretende conhecer ou realizar.
Essa adequação não depende apenas da exatidão matemática. Embora a exatidão possa ser indispensável, ela depende também da pertinência do critério escolhido e da finalidade em função da qual o resultado será interpretado, pois uma empresa pode elevar sua produtividade e, simultaneamente, comprometer a qualidade de seus produtos ou as condições de trabalho de seus empregados, pois uma instituição de ensino pode aumentar o volume de conteúdos transmitidos sem formar pessoas capazes de julgar racionalmente o que aprenderam, um sistema político pode multiplicar procedimentos administrativos sem tornar mais justa a distribuição de responsabilidades e benefícios.
Em todos esses casos, a mensuração pode ser correta dentro de seu domínio específico e, ainda assim, insuficiente para orientar a totalidade da ação, pois a justa proporção não significa encontrar uma média aritmética entre dois extremos, pois na ética aristotélica o meio-termo é determinado pela razão prática em relação às circunstâncias e à finalidade virtuosa da ação. Nesse sentido, a medida adequada não é simplesmente a que ocupa uma posição intermediária, mas aquela que corresponde ao que a situação exige à luz do bem humano. Aplicada à crítica do Império da Quantidade, essa concepção permite afirmar que a medida deve ser julgada segundo a qualidade da finalidade a que serve, pois o número de livros lidos não substitui a compreensão do que foi lido, nem o volume de recursos acumulados não determina, isoladamente, a justiça de sua utilização, assim como a velocidade de execução de uma tarefa não constitui o critério definitivo de sua excelência.
Visto por esse lado, a qualidade não elimina a quantidade, pois ela estabelece o horizonte dentro do qual a quantidade adquire significado. Nesse sentido, recuperar a justa proporção significa devolver à razão a capacidade de distinguir entre o crescimento que realiza um bem e o crescimento que apenas amplia uma grandeza, pois reconhece que uma atividade pode ser quantitativamente expansiva e qualitativamente regressiva.
Nesse sentido, a medida torna-se justa quando deixa de pretender determinar sozinha o valor das coisas e passa a contribuir para uma avaliação orientada pela verdade, pela finalidade e pelo bem.
5. Do ídolo ao ícone: a criação humana diante do Criador
A distinção entre ídolo e ícone permite levar essa reflexão ao seu fundamento teológico. Na tradição cristã, especialmente na teologia das imagens de São João Damasceno, a imagem não deve ser confundida com o protótipo ao qual remete, pois a imagem possui uma função representativa e pode orientar o olhar para uma realidade que a ultrapassa. O problema surge quando se confere àquilo que é criado uma posição absoluta, como se pudesse substituir a realidade última da qual depende.
Nesse sentido, o ídolo encerra a atenção em si mesmo, pois exige uma forma de adesão que transforma uma realidade limitada em objeto de absolutização., enquanto o ícone, por sua vez, remete para além de si, pois sua significação não se esgota na materialidade daquilo que apresenta, pois sua função é tornar presente, de modo representativo, uma realidade que não se reduz à própria imagem.
Essa distinção pode ser empregada, com as devidas cautelas, para interpretar a relação entre as criações humanas e a transcendência, pois o homem cria obras, instituições, técnicas, conceitos e formas artísticas. Essas realizações podem possuir valor real, mas não são fundamentos absolutos de si mesmas, pois sua excelência não exige que reivindiquem independência em relação à verdade e ao bem. Muito pelo contrário, elas podem ser julgadas segundo a capacidade de realizar bens humanos e de expressar aspectos inteligíveis da realidade, pois uma obra intelectual, por exemplo, não se torna valiosa por afirmar a autoridade absoluta de seu autor, pois sua excelência depende de sua relação com a verdade, da consistência de seus argumentos e de sua contribuição para a compreensão do real. Do mesmo modo, uma instituição não se legitima apenas por sua capacidade de sobreviver, crescer ou acumular recurso, pois ela precisa ser examinada em função do bem que pretende realizar e dos efeitos que produz.
A analogia com o ícone não deve, contudo, ser aplicada automaticamente a qualquer realização humana, pois uma obra não se torna um ícone simplesmente porque seu autor declara uma intenção religiosa, mas é necessário que a referência ao que a transcende faça parte de sua orientação e de seu significado.
Nesse sentido, a teologia cristã distingue, o ato criador de Deus da atividade criativa humana, uma vez que Deus é Criador em sentido próprio, enquanto o homem cria em sentido derivado, utilizando capacidades, materiais e possibilidades que não produziu a partir do nada. Nesse sentido, o homem pode, assim, ser entendido como instrumento de uma atividade criadora que encontra em Deus seu fundamento último, pois sua inteligência não é anulada por essa condição. Ao contrário: é precisamente porque possui inteligência e vontade que ele pode participar conscientemente da realização de bens, da produção de obras e da busca da verdade. Nesse sentido, a criação humana deixa de competir com a do Criador quando reconhece seu caráter derivado, pois sua dignidade não depende de reivindicar uma autonomia absoluta, mas de realizar, dentro dos limites da condição humana, aquilo que corresponde à verdade e ao bem.
A diferença decisiva é esta: enquanto o ídolo pretende ocupar o lugar último da existência humana, o ícone reconhece que seu significado depende de uma realidade que o ultrapassa.
6. A verdade como fundamento da liberdade
Essa concepção de criação conduz à questão da liberdade, pois na tradição cristã a liberdade não se reduz à multiplicação das possibilidades de escolha e a capacidade de escolher entre inúmeras alternativas não garante que o indivíduo saiba distinguir entre o bem e o mal, entre aquilo que o aperfeiçoa e aquilo que o escraviza.
O Evangelho de São João apresenta uma formulação decisiva dessa relação: conhecer a verdade está ligado à libertação (João 8,32). A afirmação não deve ser interpretada como se qualquer conhecimento factual produzisse automaticamente liberdade moral, pois seu alcance é mais profundo: a verdade permite reconhecer a realidade e, com isso, orientar a vontade para além do engano e da desordem, uma vez que a liberdade exige que o homem possa reconhecer a finalidade de suas ações. Sem essa referência, a multiplicação das escolhas pode converter-se em submissão a desejos que se renovam indefinidamente, pois um indivíduo pode possuir mais recursos, mais alternativas de consumo e maior capacidade de intervenção no mundo e, ainda assim, tornar-se dependente de critérios de sucesso que nunca consegue satisfazer. Se sua identidade passa a depender exclusivamente de resultados mensuráveis, então ele permanece submetido à necessidade de demonstrar continuamente que alcançou uma grandeza superior - e nesse ponto, ele se torna um biedny, um escravo dos dias atuais, ainda que tenha contato físico com uma grande quantidade de dinheiro. Nesse caso, a quantidade não amplia necessariamente a liberdade, mas pode criar novas formas de dependência.
Nesse sentido, a crítica do Império da Quantidade revela, a uma diferença entre a liberdade entendida como expansão ilimitada das possibilidades e a liberdade entendida como capacidade de agir racionalmente em direção ao bem, pois a primeira pode multiplicar os meios sem esclarecer os fins, enquanto a segunda exige que os meios sejam julgados segundo uma ordem de finalidades que não se reduz às preferências momentâneas do indivíduo, pois a verdade liberta porque permite que o homem reconheça os limites e a finalidade dos bens particulares, uma vez que ela não elimina a necessidade de escolher, mas oferece critérios para que a escolha não seja governada exclusivamente por impulsos, convenções ou sistemas de avaliação que se impõem como absolutos.
Por isso, a recuperação da justa proporção é também uma recuperação da liberdade, pois quando a medida volta a servir ao bem, o homem deixa de ser governado exclusivamente pela necessidade de aumentar aquilo que pode ser contado e recupera a possibilidade de perguntar o que merece ser buscado.
7. Viktor Frankl e a crise do sentido
A reflexão de Viktor Frankl sobre a vontade de sentido acrescenta uma dimensão existencial a esse argumento.
Em Em busca de sentido, Frankl destaca a importância de encontrar um sentido para a existência, mesmo diante de circunstâncias extremamente adversas. Sua abordagem possui fundamentos próprios e não deve ser confundida com a metafísica de Guénon ou com a teologia cristã.
Ainda assim, existe um ponto de contato relevante entre essas perspectivas: a insuficiência de uma vida orientada exclusivamente pela obtenção de resultados externos, pois o aumento dos recursos disponíveis não resolve automaticamente a questão do sentido, uma vez que uma sociedade pode aperfeiçoar seus sistemas produtivos, ampliar sua capacidade técnica e multiplicar as possibilidades de consumo sem responder à pergunta fundamental sobre a finalidade de tudo isso. Nesse sentido, a técnica pode indicar como realizar determinada operação, a economia pode avaliar os custos de uma atividade, a estatística pode identificar tendências e regularidades, mas nenhuma dessas operações, isoladamente, determina se o objetivo perseguido merece ser considerado um bem último, pois a questão do sentido surge quando o homem precisa relacionar suas ações com uma finalidade que justifique o esforço de realizá-las, uma vez que uma vida orientada exclusivamente por resultados mensuráveis corre o risco de transformar a própria existência em uma sequência indefinida de metas, pois cada objetivo alcançado serve apenas como ponto de partida para outro, sem que se encontre um princípio capaz de conferir unidade ao conjunto.
O problema não consiste em estabelecer metas ou buscar resultados, mas em imaginar que a acumulação de resultados possa substituir a necessidade de encontrar sentido. Nesse sentido, a crítica do Império da Quantidade encontra uma consequência antropológica decisiva, pois quando a quantidade se emancipa da finalidade, o homem pode tornar-se cada vez mais eficiente na realização de objetivos cuja importância já não consegue justificar, uma vez que a crise não é necessariamente uma falta de recursos ou de possibilidades, mas a incapacidade de determinar a que esses recursos e possibilidades devem servir.
Nesse sentido, a vontade de sentido permite compreender por que o aumento quantitativo não equivale necessariamente ao aperfeiçoamento humano, pois o homem não vive apenas de meios, instrumentos e resultados: ele precisa compreender a relação entre suas ações e aquilo que considera digno de ser realizado.
Na perspectiva cristã, essa questão pode receber uma resposta transcendente: o sentido último não se esgota nas realizações temporais, porque a existência humana se compreende em relação a Deus. Essa resposta, entretanto, constitui uma afirmação teológica específica, e não uma conclusão que se possa atribuir diretamente à psicologia de Frankl.
8. A civilização como instrumento ou como finalidade
A crítica desenvolvida até aqui permite formular uma pergunta sobre a própria organização da civilização: as instituições e os sistemas econômicos existem para servir ao homem, ou o homem é progressivamente submetido às exigências de funcionamento desses sistemas?
Uma instituição pode começar com uma finalidade legítima e, ao longo do tempo, passar a tratar a própria continuidade como seu objetivo supremo, mas uma organização criada para prestar determinado serviço pode terminar subordinando o serviço à expansão de sua estrutura, enquanto um sistema econômico concebido para organizar a produção e a distribuição de bens pode ser avaliado predominantemente pela capacidade de reproduzir seu crescimento.
Esses fenômenos não significam que toda expansão institucional ou econômica seja indesejável, mas significam que o crescimento não pode constituir, por si só, a prova definitiva de legitimidade, pois uma instituição precisa ser julgada pelo bem que realiza, enquanto uma atividade econômica precisa ser examinada em relação às necessidades humanas, aos custos que produz e aos fins que persegue e uma política pública precisa ser avaliada não apenas pelos indicadores que melhora, mas também pela pertinência desses indicadores e pelos efeitos concretos de sua aplicação.
O problema do Império da Quantidade manifesta-se quando os instrumentos de avaliação deixam de ser submetidos ao juízo racional e passam a determinar o que será reconhecido como bem. Nesse contexto, o homem corre o risco de ser reduzido à função que desempenha dentro de um sistema: unidade produtiva, consumidor, indicador estatístico, recurso humano ou portador de competências economicamente valorizáveis.
Essas categorias podem ser úteis para finalidades específicas, mas tornam-se redutoras quando pretendem esgotar a compreensão da pessoa, pois o homem possui dimensões intelectuais, morais, afetivas e espirituais que não podem ser adequadamente compreendidas por um único sistema de mensuração, uma vez que a dignidade humana não depende de produtividade, rentabilidade ou prestígio, pois uma civilização ordenada segundo o bem precisa reconhecer essa diferença e seus instrumentos devem permanecer subordinados às finalidades humanas, e estas, por sua vez, precisam ser compreendidas à luz de uma concepção da verdade e do bem que não se reduza à eficiência operacional.
A alternativa ao Império da Quantidade não é a ausência de organização ou de técnica, mas uma ordem na qual a técnica não reivindique o direito de determinar, sozinha, os objetivos da existência.
9. A redenção da medida: do cálculo à ordem do ser
A mensuração não precisa ser abandonada para que a qualidade seja recuperada, pois é necessário, antes, compreender que o cálculo ocupa uma posição determinada dentro da atividade racional.
A razão não se limita a calcular - ela também investiga princípios, distingue finalidades, avalia argumentos e procura compreender o que torna uma ação boa ou uma realidade inteligível. Nesse sentido, o cálculo responde a questões importantes, mas delimitadas, pois ele pode determinar a quantidade de recursos necessária à execução de uma obra, mas não estabelece, sozinho, se a obra é justa, assim como pode estimar o rendimento de um investimento, embora não determine se a finalidade desse investimento mereça prioridade sobre outras necessidades humanas, assim como pode medir a extensão de um fenômeno, mas não esgotar seu significado.
A medida precisa, portanto, ser integrada a um juízo mais amplo e essa integração permite compreender a diferença entre a precisão quantitativa e a justa proporção, pois a primeira diz respeito à exatidão de uma mensuração segundo critérios definidos, enquanto a segunda exige avaliar a pertinência desses critérios em relação à natureza da coisa e à finalidade da ação.
A medida justa não é aquela que pretende dizer tudo sobre a realidade, mas aquela que conhece seu domínio e reconhece aquilo que não pode determinar por si mesma. Sob uma perspectiva cristã, essa humildade da razão corresponde ao reconhecimento de que o homem não é o fundamento último da verdade, pois a razão humana pode conhecer aspectos reais do mundo, desenvolver técnicas e produzir obras de grande valor, sem que por isso adquira uma autoridade absoluta sobre o ser e o bem.
É nesse sentido que a criação humana encontra sua dignidade, uma vez que ela não encontra a pretensão de substituir o Criador, a possibilidade de participar conscientemente de uma ordem que a antecede e a ultrapassa. Nesse sentido, a passagem do ídolo ao ícone representa uma transformação da relação entre o homem e suas próprias obras, pois o homem deixa de atribuir a suas criações uma autossuficiência impossível e passa a julgá-las segundo a verdade que procuram expressar e o bem que podem realizar, pois a medida deixa de ser um instrumento de dominação da realidade e se converte em instrumento de compreensão, uma vez que a quantidade deixa de reivindicar uma soberania que não lhe pertence e recupera sua função dentro de uma ordem qualitativa e a liberdade deixa de ser identificada com a multiplicação indefinida das possibilidades e volta a ser compreendida como capacidade de reconhecer e perseguir o bem.
Conclusão: o verdadeiro sentido da medida
O Império da Quantidade representa uma inversão da ordem dos fins quando transforma a mensuração em critério absoluto de valor, pois a quantidade, que deveria servir ao conhecimento e à realização de bens determinados, passa a reivindicar uma finalidade própria, uma vez que riqueza deixa de servir à vida; a produtividade deixa de servir à produção de bens humanos; o conhecimento deixa de servir à verdade. Em todos esses casos, o instrumento tende a ocupar o lugar da finalidade.
Nesse sentido, a crítica aristotélica da crematística permite identificar a estrutura econômica dessa inversão, pois a reflexão sobre a condição humana mostra que ela está ligada à possibilidade de transformar bens particulares em absolutos, enquanto a tradição cristã oferece uma resposta teológica ao problema ao afirmar que os bens criados encontram seu fundamento último em Deus, pois a distinção entre ídolo e ícone, por sua vez, permite compreender a diferença entre uma criação que reivindica autossuficiência e uma obra que reconhece seu caráter derivado e remete para além de si mesma.
Viktor Frankl acrescenta que a multiplicação dos meios e dos resultados não elimina a necessidade humana de encontrar sentido, pois uma civilização pode tornar-se quantitativamente mais poderosa sem se tornar, na mesma proporção, mais capaz de responder às questões fundamentais da existência.
A recuperação da justa proporção exige, portanto, que a quantidade volte a ocupar seu lugar próprio, uma vez que não se trata de rejeitar a mensuração, mas de restituir-lhe a finalidade, pois não se trata de negar o valor das criações humanas, mas de reconhecer que seu valor não depende de uma pretensão de autonomia absoluta, já que a verdade torna-se fundamento da liberdade quando o homem deixa de tratar como absoluto aquilo que é apenas um meio, enquanto a qualidade recupera sua importância quando a medida passa a ser julgada segundo a natureza e a finalidade das coisas. Nesse sentid, a criação humana adquire caráter de ícone quando sua excelência não se encerra em si mesma, mas remete à verdade e ao bem que a transcendem.
O contrário do Império da Quantidade não é a ausência de medida, mas a justa proporção; não é a rejeição da criação humana, mas o reconhecimento de seu fundamento; não é a multiplicação indefinida dos meios, mas a recuperação do sentido dos fins, pois quando a medida se subordina à verdade, ela deixa de ser um ídolo; quando a criação humana reconhece que não é o fundamento último de si mesma, ela pode tornar-se expressão de uma ordem que não inventou, mas que é capaz de conhecer e servir.
É nesse horizonte que a inteligência humana encontra sua dignidade, não na pretensão de ocupar o lugar do Criador, mas na liberdade de participar conscientemente da ordem do verdadeiro e do bem.
Bibliografia comentada
ARISTÓTELES. Política.
Especialmente importante para a distinção entre a aquisição de bens orientada às necessidades da vida e a busca ilimitada de riqueza. Oferece o fundamento clássico para compreender a inversão pela qual os meios econômicos passam a constituir fins autônomos.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco.
Permite compreender a relação entre a finalidade da vida humana, a virtude e a razão prática. É especialmente relevante para distinguir a justa medida de uma simples média quantitativa.
DAMASCENO, João. Tratados em defesa das imagens sagradas.
Referência para a compreensão teológica da imagem, de sua relação com o protótipo e da distinção entre representação e adoração. Deve ser lida no contexto da controvérsia iconoclasta e da tradição cristã sobre as imagens.
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido.
Apresenta a reflexão sobre a vontade de sentido e a capacidade humana de encontrar significado para a existência mesmo diante do sofrimento. Contribui para mostrar por que a obtenção de resultados externos não substitui a necessidade de uma finalidade existencial.
GUÉNON, René. O reino da quantidade e os sinais dos tempos.
Obra central para a crítica da predominância da quantidade na civilização moderna. Oferece o eixo metafísico da discussão sobre a perda das determinações qualitativas e a redução da realidade a grandezas mensuráveis.
SANTO AGOSTINHO. A doutrina cristã.
Importante para a reflexão sobre a ordem do amor, a interpretação e a relação entre os bens criados e Deus. Ajuda a compreender como a desordem moral pode surgir quando um bem limitado é tratado como finalidade suprema.
BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo João, 8,32.
A afirmação de que a verdade liberta fornece uma referência teológica fundamental para a relação entre verdade, liberdade e superação do erro. Seu significado deve ser compreendido no contexto do Evangelho, e não como uma fórmula genérica segundo a qual qualquer informação produz automaticamente liberdade.