1. O problema levantado por Bastiat
Em A Lei, Frédéric Bastiat apresenta uma questão que permanece atual quando se examina o fundamento do sufrágio universal: a participação política pressupõe algum critério de capacidade.
A questão parece simples, mas possui consequências profundas, pois se a decisão política produz efeitos sobre toda a comunidade, não basta perguntar se determinado indivíduo possui capacidade para praticar atos da vida civil. É também preciso perguntar se ele possui também a capacidade necessária para compreender aquilo sobre o qual está deliberando.
Aqui aparece uma distinção fundamental: capacidade jurídica não se confunde com capacidade política, pois uma pessoa pode ser plenamente capaz perante o Direito Civil e, ainda assim, possuir conhecimento político muito limitado, uma vez que ela pode compreender perfeitamente as consequências jurídicas de comprar uma casa, celebrar um contrato ou administrar seus bens e, ao mesmo tempo, não compreender minimamente a história, as instituições, a economia ou os fundamentos espirituais da comunidade política à qual pertence.
O problema do sufrágio, portanto, não termina quando se constata a capacidade jurídica do eleitor.Na verdade. ele apenas começa.
2. A igualdade jurídica não é igualdade de juízo
Um dos maiores problemas da concepção puramente quantitativa do sufrágio consiste em confundir duas formas distintas de igualdade: a primeira é a igualdade jurídica: perante a lei, onde as pessoas possuem a mesma dignidade fundamental e não devem ser tratadas arbitrariamente como cidadãos de primeira ou segunda categoria, enquanto a segunda seria uma suposta igualdade cognitiva ou política:, fundada na ideia de que, pelo simples fato de todos possuírem igual dignidade jurídica, suas opiniões políticas teriam necessariamente o mesmo peso epistemológico.
Uma coisa, porém, não decorre da outra, pois o fato de duas pessoas possuírem igual dignidade perante a lei não significa que possuam igual conhecimento histórico, igual experiência política, igual capacidade de discernimento ou igual compreensão das consequências de determinada decisão.
É precisamente nesse ponto que a crítica ao sufrágio universal adquire uma dimensão mais profunda, pois quando todos os votos são simplesmente somados, o mecanismo eleitoral não distingue entre aquele que estudou cuidadosamente determinada questão e aquele que nada sabe sobre ela; entre aquele que conhece a história de suas instituições e aquele que forma sua opinião a partir de uma impressão momentânea; entre aquele que compreende a relação entre uma decisão política e suas consequências futuras e aquele que apenas reage a uma propaganda.
O sufrágio transforma todas essas manifestações em unidades aritméticas: um homem, um voto e - a igualdade política, nesse sentido, transforma-se em igualdade de quantidade. E a quantidade, nesse sentido, não é conhecimento.
3. O eleitorado como órgão de validação
É nesse ponto que surge uma questão ainda mais grave, pois se o Estado passa a ser considerado como a realidade suprema da vida social — de modo que tudo deva estar dentro dele e nada possa existir legitimamente fora dele ou contra ele —, ocorre uma transformação na própria natureza da experiência política. Nesse sentido, o Estado deixa de ser compreendido como instrumento da comunidade e passa a ser apresentado como o próprio princípio organizador da comunidade.
Nesse cenário, o eleitorado corre o risco de transformar-se em um órgão de validação, pois a pergunta deixa de ser "qual decisão corresponde verdadeiramente ao bem da comunidade?" e passa a ser a qual decisão consegue obter a quantidade necessária de votos para ser considerada legítima?"
Essa mudança é decisiva, pois o voto deixa de ser compreendido primordialmente como um ato de discernimento e passa a funcionar como mecanismo de autenticação. E nesse sentido a quantidade substitui a qualidade, pois o eleitorado pode ser reduzido a uma espécie de grande contador de legitimidade: contabilizam-se votos, somam-se maiorias e, uma vez atingido determinado número, considera-se resolvida a questão.
Isso pode levar a uma tirania da maioria uma maioria pode estar errada e uma minoria pode estar certa, pois a aritmética eleitoral não possui, por si mesma, capacidade para resolver essa questão.
4. A pátria não é só uma mera população administrada
É aqui que se torna necessária uma concepção mais profunda de pátria, pois ela não pode ser reduzida ao território sobre o qual um Estado exerce soberania nem à soma estatística dos indivíduos registrados como seus cidadãos.Se tomamos a pátria como lar, em Cristo, por Cristo e para Cristo, estamos afirmando que a comunidade política possui uma dimensão que ultrapassa a administração estatal, pois o lar não é simplesmente o lugar onde se encontram determinados indivíduos, mas uma realidade histórica, cultural, moral e espiritual que recebe os indivíduos, forma-os e lhes transmite uma herança, pois o indivíduo nasce dentro de uma comunidade que já existia antes dele, recebe uma língua que não inventou, recebe costumes que não criou, recebe uma história que não escreveu, recebe instituições que não construiu sozinho, recebe uma terra que não produziu e, ao receber tudo isso, torna-se responsável por aquilo que recebeu.
A política, portanto, não deveria ser concebida como simples disputa entre indivíduos isolados para determinar quem controlará a máquina estatal - ela deveria ser compreendida como uma forma de responsabilidade pela continuidade da comunidade. É nesse sentido que a ideia de nacionidade adquire importância, pois tomar a pátria como um lar significa reconhecer que pertencer a uma nação não consiste simplesmente em possuir uma nacionalidade jurídica, mas em participar de uma realidade histórica que deve ser recebida, conservada, julgada e transmitida.
5. Capacidade política
A partir dessa concepção, pode-se formular uma ideia de capacidade política, pois eka seria algo mais amplo do que a capacidade jurídica, uma vez que pressuporia, entre outras coisas:
- conhecimento mínimo da realidade histórica da comunidade;
- compreensão das instituições políticas;
- capacidade de distinguir fatos de propaganda;
- percepção das consequências das decisões políticas;
- compreensão de que o Estado não esgota a realidade da comunidade;
- reconhecimento de que a política envolve responsabilidade perante as gerações futuras;
- capacidade de deliberar tendo em vista o bem comum, e não apenas interesses imediatos.
Isso não significa afirmar que somente especialistas deveriam participar da vida política.
O problema é outro: reconhecer que a participação política possui uma dimensão intelectual e moral, uma vez que não basta possuir uma identidade jurídica de eleitor. É necessário formar-se como cidadão.
A grande questão, portanto, não seria simplesmente "quem possui o direito de votar?", mas também "que tipo de homem é necessário formar para que o exercício do voto seja realmente um ato político?"
Essa segunda pergunta é frequentemente esquecida.
6. A experiência medieval e a política como conselho
Por isso, a experiência política medieval merece atenção. Seria incorreto idealizar a Idade Média ou afirmar que somente nobres votavam em todos os lugares e circunstâncias, pois as instituições medievais variaram enormemente conforme o tempo e o espaço.
Há, entretanto, um elemento particularmente interessante: a política medieval era fortemente estruturada pela ideia de conselho, pois o governante não aparecia necessariamente como um indivíduo que simplesmente consultava uma massa abstrata de cidadãos para descobrir a vontade numérica do povo. Existiam comunidades, corporações, ordens, municípios, clérigos, nobres e representantes de diferentes grupos sociais que participavam, de maneiras variadas, da formação das decisões.
A política era, portanto, menos atomizada, uma vez que O homem aparecia inserido em comunidades concretas. E isso ajuda a compreender uma diferença fundamental entre duas concepções políticas: o eleitorado como agregado de indivíduos e o povo como comunidade organizada.
No primeiro caso, cada indivíduo aparece como uma unidade estatística, enquanto no segundo cada indivíduo aparece como membro de uma realidade que o antecede e que continuará existindo depois dele. A diferença, nesse sentido, é enorme.
7. O problema da quantificação
É precisamente aqui que a crítica de Bastiat pode ser aproximada de uma crítica mais ampla à quantificação da política, pois quando o eleitorado é tratado como uma grandeza numérica, a qualidade dos seus componentes torna-se secundária. O que importa é o número: dez mil votos valem mais que nove mil porque dez mil é uma quantidade maior que nove mil.
Essa relação matemática nada nos diz sobre a verdade das proposições que esses votos expressam - a matemática pode nos dizer quantos indivíduos escolheram determinada alternativa, mas ela não pode nos dizer, por si mesma, por que escolheram essa alternativa, se compreenderam aquilo que estavam escolhendo ou se a decisão é verdadeira, justa ou prudente, pois o número mede a extensão da preferência, mas não mede sua verdade.
Essa distinção é particularmente importante quando o Estado transforma o resultado eleitoral em fonte última de legitimidade, pois a vontade da maioria pode determinar quem ocupará determinado cargo ou qual decisão será adotada dentro das regras de uma ordem constitucional. No entanto, a maioria não transforma automaticamente o falso em verdadeiro, o injusto em justo ou o imprudente em prudente.
8. A verdadeira questão do sufrágio
Por isso, o problema do sufrágio não deveria ser reduzido à oposição entre sufrágio universal e sufrágio restrito, pois essa oposição permanece excessivamente superficial.
A questão anterior é saber o que se espera do eleitor, pois se o eleitor é concebido apenas como unidade estatística, o sufrágio naturalmente será compreendido como contagem; se o eleitor é concebido como membro responsável de uma comunidade histórica, o sufrágio passa a ser compreendido como uma forma de participação nessa responsabilidade.
Nesse segundo sentido, a educação política torna-se muito mais importante, pois uma sociedade que pretende possuir instituições livres precisa formar homens capazes de compreender a liberdade e compreender a liberdade significa compreender também seus limites, suas responsabilidades e as condições históricas que tornam possível exercê-la.
A liberdade política não consiste simplesmente em poder apertar um botão ou depositar uma cédula. Ela também pressupõe discernimento.
9. O eleitor como responsável pelo lar
Se a pátria é tomada como um lar em Cristo, o eleitor deixa de ser apenas alguém que escolhe administradores do Estado, uma vez que ele passa a ser alguém que participa da determinação do destino de uma comunidade que recebeu de seus antepassados e transmitirá aos seus descendentes.
Essa perspectiva modifica inteiramente o significado do voto, pois ele deixa de ser uma manifestação isolada de preferência individual e passa a ser um ato de responsabilidade comunitária.
O cidadão não se interroga apenas o que ele deseja, mas também sobre o que é conveniente para a comunidade da qual faz parte. E numa perspectiva ainda mais profunda: ele também se interroga o que ele deve fazer para conservar aquilo que recebeu e de modo a transmiti-lo de maneira digna àqueles que virão depois dele. É nesse ponto que a política volta a adquirir uma dimensão propriamente humana, pois o cidadão deixa de ser apenas eleitor para tornar-se guardião de uma herança.
10. Conclusão
A crítica de Bastiat ao sufrágio universal permite, portanto, formular uma questão que ultrapassa a simples discussão sobre regras eleitorais, pois a capacidade política não pode ser confundida com a mera capacidade jurídica, uma vez que Ser juridicamente capaz significa possuir condições para praticar determinados atos reconhecidos pelo ordenamento e ser politicamente capaz exige algo mais, pois implica compreender, ainda que em graus diferentes, a realidade comunitária sobre a qual as decisões políticas incidirão.
Quando essa distinção é esquecida, o eleitorado pode ser reduzido a um mecanismo de validação numérica, pois a política passa a funcionar como uma espécie de aritmética da legitimidade: vence aquilo que consegue reunir mais unidades de voto.
Mas a pátria não é uma planilha e o povo não é uma mera soma. Além disso, o Estado não é a totalidade da vida humana, pois se a pátria deve ser tomada como lar, em Cristo, por Cristo e para Cristo, então a participação política precisa ser compreendida dentro de uma realidade maior que a simples administração estatal, uma vez que i cidadão pertence a uma história, recebe uma herança e assume uma responsabilidade. Nesse sentido, a verdadeira questão do sufrágio talvez não seja simplesmente quantos podem votar, mas que tipo de homem deve ser formado para que o voto seja um ato de responsabilidade perante a pátria.
A discussão sobre a capacidade eleitoral começa, portanto, muito antes da urna: ela começa na formação do cidadão.