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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Paraguai: o país mediterrâneo entre dois oceanos - como a geografia transformou uma aparente desvantagem em vantagem estratégica?

Durante boa parte da história sul-americana, a ausência de litoral foi considerada uma das grandes desvantagens estruturais do Paraguai. Um país sem saída direta para o oceano dependeria necessariamente dos territórios vizinhos para alcançar os mercados mundiais. Essa condição, em princípio, parecia condená-lo a uma posição periférica: enquanto Brasil, Argentina, Chile, Peru e Uruguai possuíam portos marítimos, o Paraguai estaria obrigado a atravessar fronteiras estrangeiras para participar do comércio internacional.

É nesse sentido que a observação sobre a condição paraguaia como expressão de um Estado sem acesso ao mar encontra sua lógica tradicional. Mas a geografia não é uma sentença imutável, pois uma circunstância que pode ser desvantajosa em determinado sistema econômico pode adquirir valor estratégico quando a organização das redes de transporte se modifica.

É precisamente isso que começa a ocorrer no Paraguai, pois o país não deixou de ser mediterrâneo, nem tampouco passou a possuir um litoral. O que mudou foi o significado econômico de estar no interior do continente, já que o Paraguai encontra-se entre algumas das maiores economias e áreas produtoras da América do Sul, pois ao sul e ao leste está o Brasil; ao sul e a oeste, a Argentina; ao norte e noroeste, a Bolívia. Seu território ocupa uma posição central na Bacia do Prata e é atravessado pelo sistema hidroviário Paraguai–Paraná, que proporciona uma ligação natural entre o interior sul-americano e o Atlântico.

Portanto, a primeira característica geoeconômica do Paraguai é paradoxal: o país não está na periferia do sistema sul-americano; ele está no meio dele.

O paradoxo do país sem litoral

É importante distinguir duas coisas: Uma é possuir acesso direto ao mar, enquanto outra é possuir posição estratégica nas redes que conduzem ao mar, já que o Paraguai não possui a primeira, mas possui condições excepcionais para desenvolver a segunda. Historicamente, isso já podia ser observado na Hidrovia Paraguai–Paraná, pois a navegação fluvial conecta o interior sul-americano ao Atlântico por meio dos grandes portos da Bacia do Prata, uma vez que a própria condição mediterrânea do Paraguai produziu, uma necessidade: ele precisava transformar seus vizinhos em corredores de acesso ao mundo. 

Essa dependência poderia permanecer exclusivamente como vulnerabilidade, mas acabou gerando outra possibilidade: o país tornou-se indispensável aos próprios vizinhos. É aí que surge a sua verdadeira transformação geopolítica e geoconômca

De território dependente a território de passagem

A grande mudança provocada pelo Corredor Bioceânico é que o Paraguai deixa de ser apenas um país que precisa atravessar territórios estrangeiros para chegar ao oceano, pois ele passa a ser território necessário para que outros países alcancem o oceano alternativo.

Essa diferença é extraordinária, pois o Brasil possui litoral atlântico, mas suas regiões produtoras do Centro-Oeste estão extraordinariamente distantes dos portos do Pacífico, enqaunto a Argentina possui acesso ao Atlântico, mas suas regiões setentrionais também podem se beneficiar de novas conexões terrestres. Já a Bolívia permanece mediterrânea e procura diversificar suas possibilidades de acesso aos mercados internacionais.

O Paraguai encontra-se justamente entre esses espaços, pois o Corredor Bioceânico de Capricórnio está sendo estruturado para conectar áreas produtivas do Brasil aos portos do norte do Chile atravessando Paraguai e Argentina.

O significado geopolítico disso é maior do que simplesmente construir uma estrada, pois é a transformação de uma posição geográfica em infraestrutura estratégica.

Do Chaco como dobradiça continental

É nesse ponto que o Chaco Paraguaio assume importância excepcional, pois durante muito tempo o Chaco foi precisamente aquilo que caracteriza uma periferia: um espaço gigantesco, pouco povoado, de grandes propriedades, grandes distâncias e infraestrutura relativamente escassa. Mas tudo está prestes a mudar, pois uma nova infraestrutura atravessará o Chaco desde Carmelo Peralta, na fronteira brasileira, até Pozo Hondo, na fronteira argentina, estruturando um eixo transversal que antes não existia com a mesma capacidade logística.

A ponte sobre o rio Paraguai entre Carmelo Peralta e Porto Murtinho é o exemplo mais concreto dessa transformação, pois ela conecta diretamente o território paraguaio ao Mato Grosso do Sul e integra uma cadeia terrestre que pretende ligar os espaços produtivos brasileiros aos portos do Pacífico.

O território paraguaio passa, assim, a funcionar como uma espécie de ponte continental, não uma ponte entre duas margens marítimas pertencentes ao próprio Paraguai, evidentemente, mas uma ponte territorial entre dois sistemas oceânicos da América do Sul.

A dependência pode inverter-se

Aqui está talvez o ponto mais importante da questão: normalmente, quando se fala de um país sem litoral, pensa-se em dependência, pois o país sem mar depende dos países marítimos.

Isso continua sendo parcialmente verdadeiro, mas existe uma segunda relação: os países marítimos podem passar a depender do país interior para conectar seus mercados e territórios entre si.

Essa inversão é a chave da nova geopolítica paraguaia, pois o Brasil não precisa do Paraguai para chegar ao Atlântico, já que possui uma imensa extensão litorânea, mas determinadas regiões brasileiras podem ganhar uma alternativa economicamente interessante para alcançar o Pacífico atravessando o Paraguai e a Argentina.

O Chile não precisa do Paraguai para acessar o Pacífico, mas seus portos podem tornar-se portas de entrada para mercadorias provenientes do interior brasileiro e paraguaio, enquanto sua posição no Pacífico pode adquirir importância adicional justamente porque existe uma conexão terrestre atravessando o coração da América do Sul.

A Argentina também possui litoral atlântico, mas determinadas regiões do norte argentino podem integrar-se ao corredor de maneira mais eficiente, além de se beneficiarem da circulação internacional que atravessará seu território.

O Paraguai, portanto, passa a desempenhar uma função que seus vizinhos marítimos não podem desempenhar sozinhos: conectar fisicamente seus espaços econômicos continentais.

A verdadeira riqueza não é a estrada

Essa mudança também altera a maneira como devemos pensar o desenvolvimento paraguaio, pois a riqueza não estará necessariamente na cobrança de algum tipo de “pedágio geopolítico” pela passagem. O benefício mais importante será o surgimento de uma economia de corredor, uma vez que estradas atraem caminhões e estes atraem postos de combustível, enqaunto fluxos de mercadorias demandam armazéns e estes atraem centros de distribuição, os quais atraem empresas.e estas, por suas vez, demandam trabalhadores, hotéis, restaurantes, oficinas, serviços financeiros, seguros, telecomunicações e infraestrutura urbana.

E, quando esses serviços se concentram, surge um novo mercado regional. É exatamente por isso que a análise do Chaco não deve limitar-se ao preço da terra,uma vez que a localização, a água, o acesso, à infraestrutura e a capacidade produtiva podem ser mais importantes do que simplesmente comprar hectares baratos. E a infraestrutura, neste caso, deve ser compreendida como política de transformação territorial, e não simplesmente como obra rodoviária.

Da fronteira ao corredor

Há uma mudança conceitual ainda mais profunda, pois a fronteira tradicional é uma linha que separa Estados, enquanto o corredor logístico é uma infraestrutura que conecta Estados.

O Paraguai possui uma quantidade enorme de fronteiras justamente porque está situado entre grandes sistemas territoriais. Durante vários períodos históricos, isso poderia significar isolamento, vulnerabilidade e dificuldade de comunicação.

Mas no No século XXI uma fronteira pode ser também um ponto de conexão. A maior prova disso é que Carmelo Peralta deixa de ser simplesmente uma cidade fronteiriça e passa a ser uma porta de entrada para o Chaco, enquanto Pozo Hondo deixa de ser simplesmente uma passagem internacional e passa a integrar um eixo continental, ao passo que Filadélfia, Loma Plata e Mariscal Estigarribia podem deixar de funcionar apenas como centros econômicos regionais e assumir funções dentro de uma cadeia logística transnacional.

A geografia permanece a mesma. - o que muda é a função econômica determinada pela geografia.

A hidrovia e a rota bioceânica formam uma mesma lógica

Existe ainda uma vantagem que não deve ser negligenciada: o Paraguai não está apostando em apenas um tipo de conexão. Enqunto a Hidrovia Paraguai–Paraná oferece o eixo norte-sul em direção ao Atlântico, a Rota Bioceânica acrescenta um eixo leste-oeste em direção ao Pacífico - o que cria algo muito mais interessante do que simplesmente uma estrada internacional, já que cria uma malha logística cruzada, pois o sistema fluvial permite o transporte de grandes volumes de mercadorias em direção ao Atlântico. A infraestrutura rodoviária acrescenta uma alternativa transversal para alcançar o Pacífico.

O Paraguai passa, assim, a ocupar uma posição semelhante à de um nó logístico continental, uma vez que não é preciso possuir um porto marítimo quando se consegue ocupar uma posição estratégica nas rotas terrestres e fluviais que conduzem aos portos.

O “país sem mar” pode tornar-se país entre mares

É aqui que a expressão “país sem litoral” começa a ser insuficiente para explicar o Paraguai do futuro, pois geograficamente,o Paraguai continuará sendo um Estado mediterrâneo, mas geoeconomicamente poderá tornar-se um Estado entre oceanos.

Essa distinção é fundamental, pois o país não conquistará uma costa, mas vonquistará algo diferente: centralidade. E centralidade, em geopolítica, pode valer tanto quanto litoral, pois a história econômica oferece numerosos exemplos de territórios que prosperaram não porque possuíam os recursos finais de uma cadeia produtiva, mas porque estavam posicionados entre seus grandes centros, uma vez que a riqueza pode surgir da intermediação: transporte, comércio, armazenagem, transformação, financiamento e prestação de serviços.

O Paraguai possui uma oportunidade particularmente rara porque está situado no centro de uma região que contém enormes áreas produtoras de alimentos, energia e produtos industrializados, enquanto os mercados globais permanecem concentrados em torno dos grandes oceanos, pois o país pode transformar sua posição intermediária em uma função econômica.

A vantagem que depende dos vizinhos

Há, portanto, uma ironia histórica: o Paraguai foi prejudicado pela existência de grandes vizinhos porque não possuía litoral próprio, mas agora pode ser beneficiado justamente porque possui grandes vizinhos, pois quanto maior for o comércio entre o Brasil, a Argentina, o Chile, a Bolívia e os mercados asiáticos, maior pode ser a importância das conexões que atravessem o território paraguaio; quanto maior for a produção do Centro-Oeste brasileiro, maior o potencial de novas rotas para o Pacífico; quanto mais importante se tornar a Ásia para o comércio sul-americano, maior será o valor estratégico dos portos chilenos; quanto mais esses fluxos precisarem atravessar o continente, maior será o valor dos territórios capazes de encurtar, organizar e diversificar essas conexões.

Nesse sentido, a dependência geográfica pode, portanto, converter-se em interdependência. E a interdependência é muito diferente da dependência unilateral.

O Paraguai como Estado-pivô

É nesse sentido que a antiga imagem do Paraguai como país isolado precisa ser substituída pela imagem de Estado-pivô, pois sua importância não deriva de possuir o maior território, a maior população ou o maior mercado da América do Sul. Sua situação deriva do fato de estar colocado em uma posição na qual diferentes sistemas econômicos podem se encontrar.

O Paraguai funciona como uma espécie de dobradiça entre:

  • Brasil e Argentina;
  • Atlântico e Pacífico;
  • Bacia do Prata e interior sul-americano;
  • produção agropecuária e mercados internacionais;
  • transporte fluvial e transporte rodoviário;
  • economias nacionais e cadeias logísticas continentais.

A posição geográfica, que durante muito tempo foi interpretada como uma limitação, começa a receber uma infraestrutura capaz de convertê-la em vantagem econômica.

Não é destino, mas oportunidade

Isso não significa que o Paraguai esteja automaticamente condenado ao sucesso, pois uma localização estratégica não produz desenvolvimento por si mesma, uma vez que a condição mediterrânea ainda impõe dependência de boas relações com os países vizinhosm já que o Chaco continuará sendo uma região climaticamente difícil e a disponibilidade de água, a infraestrutura, a segurança, a capacidade institucional e a manutenção dos corredores serão fatores determinantes, pois a geografia oferece uma possibilidade, não uma garantia, mas é justamente essa possibilidade que torna o Paraguai tão interessante.

Conclusão: quando a ausência de litoral deixa de ser uma deficiência

A grande ironia geopolítica do Paraguai é que aquilo que durante muito tempo foi considerado uma deficiência estrutural pode transformar-se em uma vantagem estratégica.

O Paraguai não tem mar, mas possui rios que o levam ao Atlântico; não possui portos oceânicos, mas está situado entre os portos marítimos de seus vizinhos; não possui uma posição costeira entre dois oceanos, mas seu território pode integrar os sistemas logísticos que ligam o Atlântico ao Pacífico. E não precisa substituir Brasil, Argentina ou Chile, uma vez que pode prosperar fazendo com que eles se conectem melhor entre si.

Essa talvez seja a maneira mais interessante de compreender a nova geoeconomia paraguaia, pois o país não precisa deixar de ser mediterrâneo para superar a condição de país sem litoral, uma vez que precisa fazer com que sua posição mediterrânea seja economicamente indispensável, já que a Rota Bioceânica representa justamente essa possibilidade: transformar o Chaco, historicamente percebido como espaço vazio e periférico, em território de passagem, produção, logística e integração continental.

Assim, a pergunta geopolítica deixa de ser:

“Como o Paraguai pode compensar o fato de não possuir litoral?”

A pergunta mais interessante passa a ser:

“Como o Paraguai pode transformar o fato de estar no interior da América do Sul em uma posição estratégica entre os dois oceanos?”

Se o Poaraguai conseguir responder a essa pergunta por meio de infraestrutura, diplomacia, logística e integração econômica, ele poderá realizar uma das mais interessantes inversões geográficas da América do Sul: o país que dependia dos vizinhos para chegar ao mar poderá tornar-se o território de que os próprios vizinhos dependem para aproximar-se uns dos outros.

E, nesse cenário, ser “sem litoral” deixa de significar necessariamente estar na periferia, uma que pode significar estar no centro.

Bibliografia comentada

1. Banco Mundial — estudos sobre transporte e mediterraneidade do Paraguai

Os estudos do Banco Mundial sobre o setor de transportes paraguaio são fundamentais para compreender a relação entre a condição mediterrânea e a infraestrutura. Eles mostram que a ausência de litoral não significa ausência de acesso hidroviário ao mar: os rios Paraguai e Paraná constituem o principal sistema de conexão do país com o Atlântico.

A importância desses trabalhos está justamente em estabelecer a base histórica da tese deste artigo: a vocação do Paraguai como território de passagem não nasceu com a Rota Bioceânica. A nova infraestrutura simplesmente acrescenta uma dimensão transversal, em direção ao Pacífico, a uma vocação logística que já existia.

2. Silva, Renan Silvestro Alencar. Geopolítica da regionalização: o papel estratégico dos corredores bioceânicos do eixo Capricórnio. UNILA, 2023.

Dissertação especialmente relevante para a dimensão geopolítica do argumento. Silva analisa os corredores bioceânicos como redes capazes de modificar a integração territorial sul-americana e a inserção internacional dos países envolvidos.

A obra ajuda a superar a visão segundo a qual uma estrada é apenas uma infraestrutura econômica. Um corredor internacional também reorganiza relações de poder, fluxos comerciais e formas de integração regional.

3. Ribas, Lídia Maria; Santos, Antonio dos; Konno, Fernanda Ramos. “Corredor Bioceânico de Capricórnio e impactos geopolíticos: integração regional e competitividade internacional”. Interações, Campo Grande, v. 27, n. 1, 2026.

Uma das referências acadêmicas mais próximas da tese central deste artigo. O trabalho interpreta o Corredor Bioceânico como infraestrutura estratégica capaz de modificar a inserção regional e internacional dos territórios envolvidos.

Sua importância está em demonstrar que o corredor deve ser compreendido simultaneamente como projeto de transporte, mecanismo de integração regional e instrumento de competitividade internacional.

4. Alegre Brítez, Miguel Ángel; Carosini Ruiz-Díaz, Ana Leticia; Acosta Ferreira, Celia. “Corredor bioceánico de Capricornio para la integración logística y el desarrollo sostenible en el Paraguay”. Revista de la Sociedad Científica del Paraguay, v. 31, 2026.

É particularmente importante para a perspectiva paraguaia. O estudo parte da condição mediterrânea do país e examina como o Corredor Bioceânico pode modificar a logística, o comércio internacional e o desenvolvimento da Região Ocidental.

A referência é especialmente útil para a ideia do Paraguai como nó estratégico do comércio sul-americano.

5. Banco Interamericano de Desenvolvimento — estudos e projetos relativos ao Corredor Bioceânico de Capricórnio

Os documentos do BID permitem verificar a dimensão concreta da transformação descrita no artigo. Enquanto a literatura geopolítica fornece a interpretação, os projetos do BID mostram a infraestrutura efetivamente planejada e financiada.

São particularmente importantes para compreender a relação entre integração física, redução dos custos logísticos, acesso aos mercados e desenvolvimento territorial.

6. Pêgo, Bolívar; Nagamine, Líria; Krüger, Caroline; Moura, Rosa (orgs.). Fronteiras do Brasil: o litoral em sua dimensão fronteiriça. Brasília: IPEA, 2023.

A obra fornece uma perspectiva brasileira para a questão das fronteiras e da infraestrutura de integração sul-americana.

É útil para compreender que o interesse brasileiro pelos corredores em direção ao Pacífico não é simplesmente uma questão comercial. A abertura de novas rotas altera a própria organização territorial do continente e oferece ao Centro-Oeste brasileiro alternativas aos tradicionais corredores de exportação voltados ao Atlântico.

7. Material audiovisual utilizado como fonte primária

O vídeo “O Chaco Paraguaio vai mudar: a Rota Bioceânica abre uma nova fronteira de investimentos”, transcrito e fornecido para elaboração deste artigo, constitui a fonte primária para a discussão específica sobre o Chaco.

O material destaca a transformação do Chaco de região predominantemente agropecuária e pouco povoada em território potencialmente estratégico para logística, comércio, serviços e investimentos. Também chama atenção para a importância da água, do acesso, da infraestrutura e da localização — e não apenas do preço da terra — na avaliação das oportunidades econômicas.

A transcrição sustenta particularmente a interpretação de que a transformação econômica começa antes da conclusão integral da infraestrutura, à medida que a percepção do mercado sobre a região se modifica.

Síntese da tese

A bibliografia permite formular a tese do artigo em termos mais rigorosos: a mediterraneidade do Paraguai continua sendo uma limitação jurídica e geográfica — o país não possui litoral próprio —, mas sua posição central na América do Sul pode transformar essa limitação em vantagem geoeconômica quando redes hidroviárias e corredores terrestres passam a conectá-lo aos sistemas portuários do Atlântico e do Pacífico.

O que está mudando, portanto, não é a geografia física do Paraguai, mas o valor estratégico atribuído a essa geografia.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

O dinheiro físico como infraestrutura de segurança: a lição da Suécia

Durante anos, a Suécia foi apresentada como um dos exemplos mais avançados da sociedade sem dinheiro físico: cartões, aplicativos de pagamento e outras formas de transação eletrônica substituíram rapidamente as notas e moedas no cotidiano. A transformação foi tão profunda que, em determinado momento, estabelecimentos podiam simplesmente informar aos clientes: “não aceitamos dinheiro em espécie”.

Mas a própria Suécia começou a perceber o problema de depender excessivamente de uma única infraestrutura de pagamentos. Em 2026, o Parlamento sueco aprovou medidas para fortalecer novamente a posição do dinheiro físico, obrigando, com determinadas exceções, supermercados e farmácias com caixas atendidos a aceitar pagamentos em espécie.

A mudança não significa que a Suécia esteja abandonando a digitalização. Pelo contrário: o país continua investindo em pagamentos eletrônicos e em mecanismos que permitam realizar determinadas transações mesmo quando as comunicações de dados estiverem interrompidas. O que mudou foi a percepção de que eficiência não é a mesma coisa que resiliência.

A experiência sueca permite, portanto, uma conclusão importante: uma sociedade não precisa escolher entre dinheiro físico e pagamentos digitais. O verdadeiro objetivo de uma política de pagamentos madura deve ser preservar ambos, porque cada meio possui vantagens e vulnerabilidades diferentes.

O problema da dependência digital

Um sistema de pagamentos digitais depende de uma cadeia tecnológica relativamente complexa: eletricidade, redes de comunicação, servidores, sistemas bancários, terminais de pagamento, instituições financeiras e, em muitos casos, empresas privadas que operam infraestruturas de alcance internacional.

Em condições normais, tudo isso funciona extraordinariamente bem. O problema aparece justamente quando as condições deixam de ser normais, pois uma queda prolongada de energia, uma interrupção das telecomunicações, uma falha de servidores, um ataque cibernético ou mesmo uma situação de guerra pode comprometer simultaneamente vários componentes dessa cadeia.

É nesse ponto que o dinheiro físico apresenta uma característica singular: ele não depende, no momento da transação, de uma rede eletrônica funcionando, pois uma nota não precisa de bateria, uma moeda não precisa de conexão à internet e não é necessário que o banco esteja online para que duas pessoas possam trocar uma determinada quantidade de dinheiro físico por uma mercadoria.

Isso transforma o dinheiro em algo mais do que um simples instrumento de pagamento: ele passa a funcionar como uma espécie de infraestrutura de contingência da sociedade. O próprio Sveriges Riksbank, o banco central sueco, recomenda que a população disponha de diferentes meios de pagamento justamente para continuar realizando transações caso um deles deixe de funcionar. Entre suas recomendações está a manutenção de aproximadamente 1.000 coroas suecas em dinheiro físico por adulto, além de cartões e outras alternativas.

O dinheiro como redundância

Há uma regra fundamental de engenharia que também se aplica às finanças: sistemas críticos não devem depender de um único ponto de falha. É exatamente por isso que aviões possuem sistemas redundantes, hospitais possuem geradores de emergência e centros de dados possuem múltiplas fontes de energia e conexão.

Os pagamentos também são uma infraestrutura crítica, pois se uma sociedade utiliza exclusivamente cartões, por exemplo, uma interrupção generalizada da infraestrutura de cartões pode impedir a compra de alimentos mesmo que as pessoas tenham dinheiro em suas contas bancárias e se ela utiliza exclusivamente aplicativos de celular, a perda de eletricidade, de conectividade ou do próprio aparelho pode produzir o mesmo efeito.

O dinheiro físico oferece uma alternativa de natureza diferente. Por isso, a questão não deveria ser “dinheiro ou cartão”, mas “quantos meios independentes de pagamento uma sociedade possui?”

A própria autoridade monetária sueca recomenda que as famílias tenham diferentes formas de pagamento, incluindo cartões, meios de pagamento por celular e dinheiro em espécie. Essa diversificação é uma forma de seguro.

A experiência sueca é especialmente significativa

O caso sueco é particularmente interessante porque não se trata de um país tecnologicamente atrasado tentando preservar uma prática antiga. Trata-se de justamente o contrário: a Suécia está entre as sociedades mais digitalizadas do mundo e o uso do dinheiro físico caiu a níveis extremamente baixos: apenas cerca de 5% dos suecos declararam ter utilizado dinheiro na última compra presencial.

A conclusão sueca, portanto, não é uma rejeição da modernidade, mas uma consequência da própria modernidade. Quanto mais uma sociedade depende de sistemas digitais para funções essenciais, mais importante se torna conservar mecanismos capazes de funcionar quando esses sistemas falham.

A digitalização aumenta a eficiência cotidiana, mas também pode concentrar riscos.

Crises revelam aquilo que a normalidade esconde

Em períodos normais, é fácil considerar o dinheiro físico antiquado, pois se o cartão funciona, por que carregar notas? Se o celular permite pagar instantaneamente, por que utilizar moedas? Se o banco está disponível vinte e quatro horas por dia, por que manter dinheiro em casa? O problema dessas perguntas é que elas partem da premissa de que a infraestrutura continuará funcionando.

Uma crise, entretanto, justamente significa que alguma premissa deixou de ser verdadeira e a documentação do Riksbank trata a resiliência dos pagamentos como uma questão de segurança nacional e considera situações que vão desde perturbações comuns até ameaças mais graves, incluindo ataques cibernéticos e situações de guerra.

A própria experiência que motivou a discussão sueca demonstra o problema: uma sociedade pode descobrir subitamente que seus meios de pagamento eletrônicos são vulneráveis justamente quando mais precisa deles. Nesse contexto, uma nota guardada em casa pode ter uma importância desproporcional ao seu valor nominal, não porque seja melhor do que um cartão em circunstâncias normais, mas porque continua sendo útil justamente quando o cartão pode deixar de funcionar.

O dinheiro físico também é uma questão de inclusão

Existe ainda outra dimensão: uma economia completamente digital pode ser extremamente eficiente para quem possui smartphone, conta bancária, cartão, conexão à internet e familiaridade com aplicativos.

Mas nem todos possuem essas condições, pois idosos, pessoas com determinadas deficiências e indivíduos com menor familiaridade tecnológica podem enfrentar dificuldades quando o dinheiro físico deixa de ser aceito. Por essa razão, o governo sueco também associou a preservação do dinheiro à inclusão. A reforma não procura simplesmente manter uma tecnologia antiga por razões sentimentais: procura assegurar que determinados bens essenciais continuem acessíveis por meio de dinheiro físico.

Essa é uma distinção importante, pois uma sociedade não deve avaliar um sistema de pagamentos apenas pela velocidade ou conveniência para o usuário médio. Deve também perguntar quem fica para trás quando determinada tecnologia se torna obrigatória.

Não se trata de abandonar o dinheiro digital

A experiência sueca tampouco demonstra que devemos retornar a uma economia baseada predominantemente em notas e moedas. Esta seria uma interpretação equivocada, pois o próprio Riksbank trabalha com o fortalecimento dos pagamentos digitais e com soluções que permitam que determinados instrumentos eletrônicos continuem funcionando durante interrupções de conectividade.

A solução mais racional é, portanto, a coexistência, já que cartões são excelentes para determinadas situações enqaunto transferências eletrônicas são extremamente eficientes e aplicativos tornam pequenas transações rápidas e convenientes. Já o dinheiro físico, por sua vez, oferece uma forma de pagamento independente de determinadas infraestruturas digitais, pois cada meio funciona como uma camada adicional de segurança.

Preservar o dinheiro exige preservar sua infraestrutura

Existe, porém, um problema menos evidente: não basta simplesmente possuir notas e moedas. Para que o dinheiro físico seja efetivamente uma alternativa, é necessário que exista uma cadeia de circulação do dinheiro. É preciso haver caixas eletrônicos ou outros meios de saque, instituições capazes de receber depósitos, transporte de numerário, serviços de contagem e armazenamento e estabelecimentos preparados para receber pagamentos.

O Riksbank chama atenção justamente para esse problema. A cadeia do dinheiro físico envolve uma combinação de instituições públicas e empresas privadas, e interrupções em determinados serviços podem comprometer sua disponibilidade. Por isso, a política sueca também procurou assegurar que consumidores possam realizar depósitos em dinheiro e que empresas tenham acesso a serviços adequados para administrar troco e depósitos de suas receitas.

Preservar o dinheiro significa, portanto, preservar todo o ecossistema que permite que ele circule.

Uma lição para outros países

A experiência sueca contém uma lição que ultrapassa suas fronteiras, pois a modernização de uma sociedade não deve ser confundida com a eliminação de todas as tecnologias anteriores,uma vez que algumas tecnologias sobrevivem não porque sejam mais eficientes, mas porque oferecem redundância.

O papel pode ser menos eficiente do que um banco de dados eletrônico, mas uma cópia física pode continuar existindo quando um sistema digital está indisponível. Um gerador pode ser utilizado poucas vezes durante o ano, mas ninguém considera inútil possuir um quando ocorre um apagão. Da mesma maneira, uma pessoa pode utilizar dinheiro físico poucas vezes e ainda assim se beneficiar enormemente de tê-lo disponível quando os meios eletrônicos falham.

É precisamente essa lógica que parece estar orientando a mudança sueca, pois o país não está dizendo que o futuro será feito de dinheiro vivo - ele está dizendo para algo mais prudente: o futuro não pode depender exclusivamente de uma única forma de pagamento. Essa talvez seja a maior lição da experiência sueca. Uma economia verdadeiramente moderna não é aquela que elimina todas as formas antigas de pagamento, mas aquela que consegue continuar funcionando quando alguma de suas infraestruturas deixa de funcionar.

O dinheiro físico, nesse sentido, não representa apenas o passado, pois ele pode ser uma reserva de resiliência para o futuro.

Bibliografia comentada

1. SVERIGES RIKSDAG. Lag (2026:769) om skyldighet för livsmedelsbutiker och apotek att ta emot kontant betalning. 2026.

Legislação sueca que estabelece a obrigação de determinados supermercados e farmácias com caixas atendidos aceitarem dinheiro físico, sujeita às exceções previstas na própria lei. É a fonte jurídica fundamental para compreender a mudança legislativa.

Por que é importante: demonstra que o fortalecimento do dinheiro físico deixou de ser apenas uma recomendação política e passou a constituir uma obrigação legal em setores considerados essenciais.

2. SVERIGES RIKSDAG. The possibility to use cash to be improved (FiU39). 27 maio 2026.

Documento oficial sobre a decisão parlamentar destinada a melhorar as possibilidades de utilização do dinheiro físico. A reforma não se limita à aceitação do numerário: também aborda a possibilidade de depósito de dinheiro e os serviços necessários às empresas para administrar numerário.

Por que é importante: mostra que preservar o dinheiro significa preservar também a infraestrutura necessária para sua circulação.

3. SVERIGES RIKSDAG. Åtgärder för att stärka kontanternas funktionssätt (Betänkande 2025/26). 2026.

Relatório do Comitê de Finanças do Parlamento sueco sobre as medidas destinadas a fortalecer o funcionamento do dinheiro físico.

Por que é importante: apresenta a reforma dentro de uma política mais ampla de segurança, acessibilidade e funcionamento do sistema de pagamentos.

4. SVERIGES REGERING. Åtgärder för att stärka kontanternas funktionssätt (Proposition 2025/26:199). 2026.

Proposição governamental que fundamentou a reforma. É particularmente relevante para compreender as razões apresentadas pelo governo sueco para fortalecer a posição do numerário, inclusive no acesso a bens essenciais.

Por que é importante: permite compreender a preservação do dinheiro físico como questão de infraestrutura social e inclusão, e não simplesmente como preferência de consumidores.

5. SVERIGES RIKSBANK. Payments Report 2026. Estocolmo: Sveriges Riksbank, 2026.

Principal referência institucional para a discussão econômica e técnica. O banco central examina segurança, acessibilidade e resiliência do sistema de pagamentos e a necessidade de preservar diferentes meios de pagamento.

Por que é importante: fornece a fundamentação técnica para o conceito central deste artigo: redundância. Um sistema de pagamentos resiliente não deve depender exclusivamente de uma infraestrutura tecnológica.

6. SVERIGES RIKSBANK. Payments in Sweden – Payments Report 2026. 2026.

Documentação do banco central sobre a evolução dos hábitos de pagamento na Suécia, incluindo a extraordinária redução da utilização de dinheiro físico e os problemas associados a essa transformação.

Por que é importante: permite compreender a peculiaridade da experiência sueca: não se trata de um país atrasado tentando preservar o passado, mas de uma sociedade extremamente digitalizada que percebeu a necessidade de manter uma alternativa física.

7. SVERIGES RIKSDAG. The possibility to use cash to be improved (FiU39) – decision of 27 May 2026. 2026.

Registro oficial da decisão parlamentar e de seus desdobramentos. É útil para acompanhar a evolução da política sueca e a possibilidade de futuras medidas envolvendo outros serviços.

Por que é importante: demonstra que a discussão sobre o dinheiro físico permanece aberta e pode ultrapassar os setores de supermercados e farmácias.

Fonte de partida

TURBOSCRIBE. Por que a Suécia quer voltar ao dinheiro vivo. Transcrição fornecida pelo autor. 2026.

A transcrição do vídeo constitui a fonte jornalística que deu origem à reflexão desenvolvida neste artigo. Ela apresenta a redução do uso de dinheiro na Suécia, a preocupação com vulnerabilidades dos pagamentos digitais, a recomendação de manter uma reserva de dinheiro físico e a dimensão de inclusão relacionada a idosos e pessoas com dificuldades diante dos meios digitais.

Na versão publicada, entretanto, o vídeo deve ser entendido como fonte de partida, e não como principal autoridade documental. A legislação, os documentos parlamentares e as publicações do Sveriges Riksbank oferecem a base primária para as afirmações sobre a política sueca.

A distinção é importante porque permite chegar a uma conclusão mais sólida: a Suécia não está simplesmente “voltando ao dinheiro vivo”. Ela está procurando construir um sistema de pagamentos no qual a digitalização conviva com uma infraestrutura física capaz de funcionar como mecanismo de redundância e contingência.

É justamente essa combinação que transforma a experiência sueca em uma lição de interesse internacional.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

É preciso conhecer para se amar, e amar para permanecer: sobre a importância do conceito de estudiosidade em São Boaventura em face dos perigos do anti-intelectualismo afetivo e do amor fundado na modernidade líqüida

Resumo

O presente ensaio propõe o conceito de anti-intelectualismo afetivo para designar uma disposição cultural pela qual relações interpessoais são consideradas suficientemente profundas quando existe convivência, atração, familiaridade emocional ou compartilhamento de experiências, sem que se julgue igualmente necessário conhecer de maneira sistemática o pensamento, a história intelectual, os princípios morais e a concepção de mundo da pessoa amada. Partindo de uma inspiração boaventuriana, segundo a qual conhecimento e afeto não precisam constituir atividades antagônicas, argumenta-se que o conhecimento intelectual do outro pode ser colocado a serviço da caridade. Essa hipótese é posteriormente relacionada ao diagnóstico de Zygmunt Bauman acerca da fragilidade dos vínculos na modernidade líquida. Sustenta-se que a liquidez afetiva pode ser favorecida não apenas pela dificuldade de assumir compromissos duradouros, mas também pela superficialidade do conhecimento anterior e posterior ao compromisso. No caso brasileiro, a associação entre anti-intelectualismo afetivo e divórcio deve ser considerada hipótese sociológica a ser investigada, não relação causal já demonstrada. Por fim, propõe-se compreender a fidelidade conjugal como forma longitudinal de conhecimento da pessoa: conhecer suficientemente para escolher e continuar conhecendo para permanecer capaz de amar.

Palavras-chave: amor; conhecimento; São Boaventura; Zygmunt Bauman; modernidade líquida; casamento; fidelidade; intimidade; anti-intelectualismo.

1. Introdução: é possível amar profundamente aquilo que não se procura conhecer?

Entre as concepções contemporâneas do amor encontra-se frequentemente a pressuposição de que a autenticidade dos sentimentos dispensa investigação intelectual. Afinal, ama-se porque se sente - nesse sentido a relação seria autêntica enqaunto ela for espontânea e o excesso de reflexão poderia até ser interpretado como ameaça à espontaneidade.

Agora, pretendo propor a hipótese contrária: quanto maior a pretensão de permanência de um vínculo, maior deveria ser a disposição para conhecer profundamente a pessoa com quem esse vínculo será estabelecido, pois uma promessa de fidelidade destinada idealmente a atravessar décadas não pode repousar exclusivamente sobre a situação presente dos envolvidos, pois a aparência física muda, bem como as condições financeiras as de saúde, assim como as preferências, os ambientes sociais e as profissões. Em razão de os corpos envelhecerem, as famílias precisam aprender a atravessar crises, pois o que permanece não é uma coleção imutável de características, mas uma pessoa cuja identidade se desenvolve historicamente.

Por isso, perguntar se alguém conhece verdadeiramente a pessoa amada durante toda a vida é uma questão mais profunda do que perguntar há quanto tempo convivem, pois é possível conviver muito e conhecer pouco, pois é igualmente possível, mediante leitura, correspondência, conversação profunda e estudo atento de uma trajetória intelectual, conhecer aspectos importantes da interioridade de alguém que jamais seriam revelados por anos de simples convivência rotineira.

Essa constatação permite formular a tese central deste ensaio: a fragilidade dos vínculos contemporâneos pode estar relacionada não somente à incapacidade de permanecer, mas também à incapacidade de conhecer profundamente antes de prometer permanência.

2. Uma precisão filosófica: natureza humana e pessoa concreta

Quando afirmo que o amor exige conhecimento da “natureza da pessoa amada”, é necessário fazer uma precisão terminológica, pois em sentido metafísico clássico, nós não possuímos uma natureza diferente para cada indivíduo, uma vez que compartilhamos a natureza humana, mas o que se deseja conhecer numa relação não é, portanto, uma suposta essência metafísica exclusiva de determinado indivíduo, mas a pessoa concreta na maneira singular pela qual esta pessoa realiza historicamente sua humanidade.

Isso compreende:

  • sua inteligência;
  • sua vontade;
  • seu caráter;
  • sua memória;
  • seus hábitos;
  • suas virtudes;
  • suas fraquezas;
  • sua concepção de bem;
  • suas referências religiosas;
  • sua relação com a família;
  • sua interpretação do sofrimento;
  • sua atitude diante do dinheiro;
  • suas concepções sobre trabalho e dever;
  • sua compreensão da sexualidade;
  • seus projetos;
  • seus medos;
  • e aquilo pelo qual considera que vale a pena sacrificar-se.

Consequentemente, conhecer uma pessoa é tarefa incomparavelmente mais complexa do que acumular informações sobre seus gostos, pois saber qual é sua comida favorita é conhecimento verdadeiro, mas superficial, enquanto saber o que ela considera uma vida boa pertence a uma camada muito mais profunda da intimidade.

3. São Boaventura: quando conhecimento e amor deixam de ser rivais

A inspiração de São Boaventura é especialmente importante porque sua arquitetura intelectual oferece instrumentos para escapar de uma oposição simplista entre conhecimento e amor, pois na leitura acadêmica contemporânea de sua obra, a sua sabedoria não se reduz nem à contemplação intelectual abstrata nem à ação prática isoladamente: ela integra conhecimento e afeto e os ordena à transformação da pessoa.

Isso é decisivo, pois o conhecimento não precisa terminar em si mesmo, já que conhecer pode ser uma maneira de aprender a amar e essa formulação permite distinguir duas espécies radicalmente diferentes de curiosidade acerca de outra pessoa.

A primeira procura informação para adquirir poder, uma vez que querer descobrir suas vulnerabilidades porque elas me tornam capaz de manipulá-la. Do mesmo modo, querer conhecer os desejos de alguém é uma forma de controlá-lo, pois é uma forma adquirir vantagem sobre ela e essa curiosidade converte conhecimento em instrumento de domínio.

Mas existe outra possibilidade, pois  querer compreender seus medos para não provocar sofrimento desnecessário, querer compreender suas aspirações para poder ajudá-la, querer compreender sua formação porque determinadas atitudes atuais somente adquirem sentido quando relacionadas à sua história, querer conhecer seus autores porque eles me permitem ingressar no universo de referências através do qual aquela pessoa interpreta o mundo, querer compreender o que ela considera sagrado porque aquilo que considero um detalhe talvez seja para ela questão fundamental, tudo isso faz com que o conhecimento não esteja ordenado à posse, mas ao serviço. É preciso conhecer para se poder amar melhor - essa distinção é fundamental.

4. A biografia intelectual como dimensão da intimidade

Toda pessoa possui uma biografia corporal e social: ela nasceu em determinado lugar, frequentou determinadas escolas, conheceu determinadas pessoas, trabalhou em certas instituições, experimentou acontecimentos familiares específicos.

Mas pessoas intelectualmente ativas possuem também aquilo que poderíamos chamar de biografia intelectual, pois elas leram determinados livros, foram influenciadas por certos professores, abandonaram algumas convicções, encontraram autores que modificaram sua compreensão do mundo, produziram textos, registraram reflexões, discordaram de suas próprias posições anteriores, desenvolveram conceitos, retornaram obsessivamente a determinados problemas.

Um arquivo pessoal pode, portanto, ser também um mapa parcial da interioridade. Livros anotados, blogs, cartas, redes sociais, cadernos, diários e ensaios permitem acompanhar não somente o que alguém pensa, mas eventualmente como alguém chegou a pensar dessa maneira.

A diferença é enorme, pois uma opinião isolada informa uma conclusão, mas uma trajetória intelectual revela o processo e compreender processos normalmente é indispensável para se compreender motivações.

Uma pessoa que encontra milhares de páginas escritas ao longo de vinte anos não possui diante de si apenas um conjunto de textos independentes: ela possui potencialmente uma autobiografia intelectual distribuída, pois certos temas aparecem durante décadas,algumas intuições embrionárias transformam-se em conceitos, autores antes centrais desaparecem e outros passam a ocupar posição decisiva.Nesse processo há correções, amadurecimentos e rupturas e a pessoa deixa vestígios documentais da formação de sua própria consciência.

É evidente que esses documentos jamais esgotam sua identidade, mas ignorá-los deliberadamente significa abrir mão de uma das vias disponíveis para conhecê-la.

5. O anti-intelectualismo afetivo

É neste ponto que proponho a expressão anti-intelectualismo afetivo, uma vez que não pretendo apresentá-la aqui como categoria sociológica já consolidada na literatura, pois se trata de um conceito heurístico proposto para investigação.

Por anti-intelectualismo afetivo entendo: a disposição pela qual se considera desnecessário conhecer intelectualmente a pessoa para estabelecer com ela vínculos afetivos de grande profundidade e duração.

Ele aparece quando se pressupõe que: "se existe química, basta”; “se gostamos das mesmas coisas, basta”; “se nos damos bem, basta”; “se existe atração, basta”; “essas conversas profundas podem vir depois”.

O problema é que o “depois” poderá ocorrer quando compromissos muito difíceis de desfazer já tiverem sido assumidos. Imagine duas pessoas que namoram durante quatro anos. Durante esse tempo, elas viajaram juntas, frequentaram restaurantes, conhecem os amigos uma da outra, passaram férias juntas. Assistiram às mesmas séries e conhecem os hábitos domésticos recíprocos, mas jamais discutiram seriamente: o que é casamento? Queremos filhos? Quantos? Como serão educados? O que significa fidelidade? O que faremos se um de nós adoecer gravemente? Como administraremos o dinheiro? Temos obrigação de sustentar pais idosos? O trabalho está subordinado à família ou a família deve adaptar-se ao trabalho? Existe Deus? Se existe, que consequências isso possui para nossa vida? O que significa perdoar?Existem atos imperdoáveis? Há deveres dos quais não podemos escapar nem quando deixam de nos proporcionar satisfação?

Essas duas pessoas podem possuir enorme familiaridade e reduzidíssima intimidade intelectual e confundir as duas coisas pode ser um dos problemas do relacionamento contemporâneo.

6. A assimetria entre prudência econômica e prudência afetiva

Há nisso um paradoxo peculiar, pois uma pessoa racional pode dedicar semanas à escolha de um automóvel - ela pesquisa motores, o consumo de combustível, o seguro, o valor de revenda, a disponibilidade de peças, a segurança do veículo  Ela analisa o financiamento antes de adquirir um imóvel, ela verifica juros, o prazo para pagamento, o IPVA, a documentação, a manutenção. Ela investiga tudo isso e muitas outras coisas,, mas pode considerar excessivamente racional dedicar igual esforço para compreender a pessoa com quem pretende compartilhar quarenta ou cinquenta anos.

Não se trata, evidentemente, de transformar o namoro numa auditoria, pois a pessoa não é um simples  ativo. E é justamente por ela ser mais do que um ativo que ela merece mais atenção, pois a decisão matrimonial possui consequências existenciais superiores a de muitas decisões patrimoniais fundadas em análises econômicas e contábeis profundas,

Ainda assim, existe uma cultura segundo a qual o amor perderia sua pureza caso fosse acompanhado de discernimento rigoroso Na verdade, talvez seja precisamente o contrárioo discernimento protege o amor das ilusões produzidas pela paixão.

7. Bauman: do vínculo à conexão

É neste ponto que a reflexão encontra Zygmunt Bauman. Em Liquid Love: On the Frailty of Human Bonds, publicado originalmente em 2003, Bauman concentra sua atenção justamente na fragilidade dos vínculos humanos dentro da modernidade líquida. A própria apresentação editorial da obra destaca o indivíduo contemporâneo que deseja relacionamento e, simultaneamente, teme os compromissos capazes de limitar sua liberdade futura.

A própria metáfora do líquido é poderosa porque líquidos não conservam facilmente uma forma própria, pois eles se adaptam, se deslocam, são fugidio e a natureza dessa  modernidade é marcada, em Bauman, por instituições e relações cuja permanência se torna mais difícil. Neste sentido, sua análise mais ampla contrapõe justamente formas modernas “pesadas” e relativamente estáveis a estruturas crescentemente leves e mutáveis.

Quando isso é aplicado ao amor, o problema não é simplesmente que alguns relacionamentos terminam. O problema mais profundo surge quando a própria estrutura mental da relação é formada sob a expectativa de substituição: você pode estar com alguém, mas vai continuar querendo preservar todas as minhas possibilidades alternativas.

Você não quer perder a relação, mas também não quer que a relação restrinja excessivamente minha possibilidade de abandoná-la.

Há um desejo intimidade sem irreversibilidade e um desejo de segurança sem obrigação e um deesejo companhia sem dependência e um desejo compromisso enquanto ele for facilmente revogável.

Eis aí que surge uma tensão estrutural.

8. A liquidez começa antes da ruptura

É aqui que proponho acrescentar algo ao diagnóstico de Bauman Talvez a liquidez de uma relação não comece quando alguém decide terminá-la - ela p ode começar muito antes. Ela pode começar quando ninguém considera necessário conhecer profundamente aquele com quem se deseja ter uma relação permanete

A substituição é particularmente fácil quando as pessoas são conhecidas através de atributos.

Pessoa A:

bonita;

divertida;

boa companhia;

profissão interessante;

gostos semelhantes.

Pessoa B:

mais bonita;

mais divertida;

melhor companhia;

profissão mais interessante;

ainda mais gostos semelhantes.

Se a pessoa for reduzida a um conjunto de atributos, sempre poderá existir no mercado social outra combinação aparentemente superior.

É a lógica da comparação permanente, mas o conhecimento profundo transforma essa percepção, pois a pessoa deixa de ser uma coleção de características.: Ela adquire história e a pessoa torna-se progressivamente insubstituível, não porque seja objetivamente superior a todas as demais pessoas, mas porque existe uma história relacional singular que não pode ser replicada mediante substituição de atributos.

A densidade biográfica combate a fungibilidade.

9. Amor líquido e mercado afetivo

Isso permite formular outra consequência, pois a lógica contemporânea do consumo pode penetrar os relacionamentos sem que os envolvidos percebam.

Num mercado convencional, um produto é substituído quando outro oferece melhor combinação entre custo e benefício; se transportada indevidamente para a vida afetiva, essa racionalidade produz perguntas como: Estou recebendo suficientemente desta relação? Posso encontrar alguém que ofereça mais? Estou deixando passar oportunidades? Existe alguém mais adequado? O problema não está em reconhecer incompatibilidades reais, pois elas existem e determinadas relações não deveriam sequer ter começado.

O problema está na transformação do outro em produto permanentemente submetido à comparação. Nesse universo, a fidelidade torna-se irracional porque significa renunciar voluntariamente às opções futuras.

A lógica do casamento tradicional diz: escolho esta pessoa e, mediante essa escolha, renuncio às demais possibilidades conjugais.

A lógica líquida tende a responder: escolho esta pessoa enquanto essa escolha permanecer competitiva diante das alternativas.

São antropologias diferentes.

10. São João Paulo II: escolha consciente e comunhão de pessoas

A antropologia cristã fornece uma resposta particularmente interessante a essa tensão. Na Carta às Famílias, de 1994, São João Paulo II apresenta o casamento como comunhão de pessoas surgida de uma escolha consciente e livre. Ele associa explicitamente essa escolha à necessidade de considerar a verdade integral da pessoa enquanto ser racional e livre.

Isso possui consequências profundas, pois uma escolha somente pode ser tanto mais consciente quanto maior for o conhecimento relevante de seu objeto.

Isso não significa conhecer exaustivamente o futuro cônjuge — o que é uma tarefa impossível, mas significa recusar voluntariamente a superficialidade, pois a promessa matrimonial não exige onisciência, mas exige discernimento suficiente, uma vez que São João Paulo II também relaciona o consentimento matrimonial ao bem comum dos esposos, incluindo amor, fidelidade, honra e permanência.

Surge daí uma sequência:

conhecimento → discernimento → escolha → compromisso → aprofundamento do conhecimento.

O casamento não interrompe o conhecimento, mas rransforma sua modalidade.

11. O casamento como conhecimento longitudinal

Talvez possamos, então, descrever o casamento de uma maneira pouco habitual: o casamento é também uma instituição de conhecimento longitudinal da pessoa.

Durante décadas, alguém observa outro ser humano transformar-se.

Você o conhece aos vinte anos, depois aos trinta, aos quarenta, aos cinquenta, aos setenta, eventualmente aos noventa. Nenhuma amizade episódica consegue reproduzir exatamente essa continuidade.

O cônjuge testemunha versões sucessivas da mesma pessoa: conhece sonhos abandonados, conhece projetos realizados, testemunha nascimentos e mortes, acompanha doenças, assiste a mudanças profissionais, vê filhos nascerem e crescerem, conhece períodos de fervor e de aridez religiosa, conhece erros e reconciliações.

Nesse sentido, a fidelidade produz conhecimento que somente a própria fidelidade tornou possível, mas existe, portanto, uma circularidade virtuosa: conheço para decidir permanecer; permanecendo, torno-me capaz de conhecer ainda mais; conhecendo mais, adquiro novas razões para amar de maneira mais inteligente.

Esse conhecimento nunca termina.

12. O conhecimento também protege contra casamentos imprudentes

Entretanto, o mesmo princípio possui consequência inversa, pois conhecer profundamente alguém pode mostrar que não se deve casar com aquela pessoa.

Esse ponto é indispensável, pois a defesa do conhecimento não é uma defesa do casamento a qualquer custo, mas defesa do discernimento, pois duas pessoas podem amar-se afetivamente e descobrir incompatibilidades fundamentais.

Uma deseja filhos, mas a outra rejeita definitivamente a maternidade ou a paternidade.

Uma entende fidelidade de maneira estrita, enquanto a outra deseja relacionamento aberto.

Uma entende a religião como fundamento da casa, enquanto a outra considera qualquer prática religiosa intolerável.

Uma pretende sustentar pais idosos, enquanto a outra considera inadmissível destinar recursos familiares a isso.

Não estamos falando de diferenças banais - estamos falando de concepções distintas do próprio objeto do compromisso. Quanto mais cedo aparecem, maior a liberdade dos envolvidos para decidir prudentemente.

Nesse sentido, o conhecimento profundo pode reduzir tanto rompimentos posteriores quanto casamentos que jamais deveriam ter ocorrido.

13. O Brasil: uma hipótese, não uma causalidade demonstrada

Chegamos então à questão brasileira. Há motivos legítimos para investigar se determinados padrões de sociabilidade brasileiros valorizam intensamente proximidade emocional e convivência, mas atribuem importância relativamente menor ao conhecimento sistemático da formação intelectual do outro.

Entretanto, isso deve ser formulado como hipótese, pois mão possuímos, a partir dessa observação filosófica, autorização metodológica para concluir:

“o anti-intelectualismo brasileiro causa divórcios”.

Tal afirmação exigiria evidência empírica específica.

Seriam necessárias pesquisas sobre:

  • hábitos de conversação entre casais;
  • conhecimento recíproco de valores;
  • leitura;
  • religião;
  • expectativas anteriores ao casamento;
  • educação financeira;
  • projetos familiares;
  • causas declaradas de ruptura;
  • duração dos relacionamentos;
  • diferenças regionais;
  • escolaridade;
  • geração;
  • renda;
  • e múltiplas variáveis de controle.

Os dados disponíveis demonstram a presença social relevante do divórcio, não sua causa intelectual. Segundo as Estatísticas do Registro Civil do IBGE, o Brasil registrou 428.301 divórcios em 2024, 2,8% menos que em 2023, depois de três anos consecutivos de aumento.

Esse número deve ser utilizado com cuidado, pois ele não prova Bauman, nem o anti-intelectualismo afetivo, muito menos demonstra uma relação causal entre ambos, mas Serve para mostrar apenas que estamos discutindo um fenômeno social de grande escala cuja interpretação merece investigação interdisciplinar, pois é precisamente assim que uma hipótese intelectual deve transformar-se em programa de pesquisa.

14. Sociabilidade intensa não é necessariamente intimidade profunda

Há ainda uma distinção especialmente relevante ao Brasil: as pessoas em uma sociedade podem ser extremamente sociáveis e, ao mesmo tempo, terem reduzida capacidade de intimidade intelectual.

São coisas diferentes, uma vez que pode haver: muitas festas; muita conversa; forte convivência familiar; mensagens frequentes; presença física constante; presença aparente de muitos amigos e ainda assim pouca discussão sobre princípios fundamentais.

Nesse contexto, pessoas podem saber detalhadamente o que aconteceu umas com as outras sem saber como umas compreendem aquilo que aconteceu.

A diferença é epistemologicamente importante, pois narrar acontecimentos não equivale a expor critérios de interpretação.

Dizer: “perdi meu emprego” é diferente de explicar: “esta perda atingiu profundamente minha identidade porque aprendi desde jovem a identificar dignidade com capacidade de sustentar uma família”.

A segunda afirmação oferece acesso muito maior ao universo interior, pois uma cultura da intimidade intelectual exige não apenas relato - ela exige interpretação compartilhada.

15. Os textos como portas de entrada para a pessoa

É aqui que livros, blogs, cartas, diários e cadernos adquirem importância. Eles não substituem a convivência, mas a complementam, pois uma pessoa pode dizer numa conversa o que pensa hoje, mas seus escritos permitem eventualmente descobrir o caminho percorrido até chegar ali.

Isso cria uma profundidade temporal que a interação imediata dificilmente oferece. Por essa razão, quando alguém possui produção intelectual extensa, estudá-la pode constituir autêntico gesto de amor, não porque o relacionamento deva transformar-se em seminário acadêmico, mas porque, em determinados casos, os textos são parte objetiva da história da pessoa e ignorá-los significa ignorar deliberadamente parte de sua experiência.

16. O limite moral: conhecer não significa invadir

Tudo isso exige uma restrição fundamental, pois o direito de amar alguém não produz um direito ilimitado de investigá-la.

Existem documentos privados, existem segredos legítimos, existem correspondências protegidas, existem pensamentos que a pessoa ainda não decidiu compartilhar, mas o conhecimento amoroso precisa respeitar consentimento e limites. Caso contrário, aquilo que parecia amor transforma-se em vigilância.

A diferença entre estudar e espionar está não somente na intenção, mas também nos meios empregados. Um blog publicado voluntariamente foi disponibilizado ao conhecimento de terceiros, enquanto um diário guardado numa gaveta não foi, pois o princípio da caridade não elimina a intimidade. Pelo contrário: exige respeitá-la, uma vez que conhecer melhor para servir melhor é compatível com o amor e conhecer clandestinamente para adquirir controle não é.

17. Outro limite: ninguém pode ser reduzido ao próprio arquivo

Também seria um erro interpretar escritos antigos como sentença definitiva sobre uma pessoa, pois seres humanos mudam, mas um texto produzido aos vinte anos não necessariamente representa alguém aos cinquenta, uma vez que elas abandonam posições, convertem-se, aprendem, arrependem-se, adquirem experiência. Por isso, o arquivo intelectual precisa ser interpretado historicamente.

A pergunta não é simplesmente:

“O que você escreveu?”

Mas:

“Quando escreveu?”

“Por que escreveu?”

“Continuou pensando assim?”

“O que mudou?”

A intimidade intelectual verdadeira possui uma característica indispensável: permite ao outro narrar novamente a própria história.

O arquivo informa, mas a pessoa interpreta o arquivo, pois nenhum documento possui autoridade superior ao próprio sujeito vivo para declarar aquilo que atualmente pensa.

18. Do arquivo ao diálogo

Consequentemente, a leitura deve conduzir à conversa.

Não do modo:

“Li tudo sobre você; portanto sei quem você é.”

Mas:

“Li o que você escreveu; agora consigo formular perguntas melhores.”

Essa diferença é enorme, pois a primeira postura encerra a pessoa dentro de uma interpretação, enquanto a segunda utiliza o conhecimento documental como instrumento para aprofundar o encontro, pois o objetivo final não é dominar uma biografia, mas estabelecer comunhão.

19. Anti-intelectualismo afetivo e cultura do divórcio

Podemos agora formular de maneira mais rigorosa a hipótese originalmente proposta.

Não devemos afirmar:

anti-intelectualismo → divórcio.

A relação plausível é mais complexa:

superficialidade intelectual → menor discernimento prévio → maior probabilidade de incompatibilidades fundamentais permanecerem ocultas → maior vulnerabilidade diante de crises → possível aumento do risco de ruptura.

Trata-se de uma cadeia hipotética, pois cada ligação precisaria ser testada, uma vez que também é possível pensar numa relação inversa: uma cultura que já não atribui grande valor à permanência pode reduzir os incentivos para investir no conhecimento profundo anterior ao compromisso. Se a relação é entendida como provisória, por que dedicar anos à compreensão daquela pessoa?

Nesse caso:

liquidez → menor investimento cognitivo.

Portanto, talvez exista retroalimentação:

liquidez produz superficialidade, e superficialidade produz mais liquidez.

Essa me parece uma hipótese sociológica muito mais fecunda do que simplesmente culpar o divórcio pela decadência das relações ou atribuir todos os divórcios a uma causa moral única.

20. O contraponto necessário: nem todo divórcio representa liquidez

Também é indispensável evitar outra simplificação: nem todo divórcio é manifestação de modernidade líquida.

Existem:

violência doméstica;

abuso;

abandono;

dependências destrutivas;

infidelidade persistente;

situações de grave risco;

e inúmeras histórias pessoais que não podem ser reduzidas à teoria sociológica.

Neste sentido, s análise estrutural de Bauman não funciona como julgamento individual de cada pessoa divorciada, pois uma teoria da sociedade não substitui a análise concreta de vidas particulares. Esse cuidado é especialmente importante numa perspectiva cristã, precisamente porque pessoas nunca podem ser transformadas em exemplos abstratos destinados apenas a comprovar uma tese.

21. Da liquidez à densidade

Se quisermos encontrar o contrário do amor líquido, não basta responder: “um relacionamento que dura”, pois existem casamentos que permanecem juridicamente durante décadas e cuja vida comum está afetivamente morta, uma vez que permanência física não é necessariamente comunhão.

O verdadeiro contrário da liquidez talvez seja a densidade relacional, densidade de memória.densidade intelectual, densidade afetiva, densidade espiritual, densidade de dever, densidade de experiências compartilhadas, densidade de perdão, densidade de conhecimento recíproco. Quanto maior essa densidade, menos a relação pode ser reduzida àquilo que oferece no presente, pois o passado compartilhado adquire peso e o futuro prometido também.

22. Conhecimento, liberdade e fidelidade

Chegamos então ao paradoxo final, pois para ser autenticamente fiel, é preciso ser livre. Mas a liberdade não significa ausência de vínculos - ela significa capacidade de reconhecer um bem e comprometer-se voluntariamente com ele, ua vez que a escolha deixa de ser livre apenas quando é imposta, não quando produz obrigações, uma que prometer já significa utilizar a liberdade presente para estabelecer deveres futuros.

É exatamente isso que torna uma promessa moralmente significativa, pois se eu puder revogá-la sempre que deixar de desejar aquilo que prometi, não fiz propriamente uma promessa, mas expressei uma preferência, 

A fidelidade começa quando a vontade atual respeita a palavra dada pela vontade passada. E para que essa decisão seja prudente, é preciso conhecer, tanto quanto humanamente possível, a pessoa diante da qual estou assumindo esse compromisso.

23. Conhecer para se levar ao bem

Para uma visão cristã, porém, existe ainda um nível superior, pois não desejo conhecer a pessoa amada simplesmente para maximizar a estabilidade do relacionamento, uma vez que isso seria insuficiente.

Na verdade, eu desejo conhecê-la para colaborar para o seu próprio bem. E o bem último, dentro da perspectiva cristã, não termina nesta vida, pois amar alguém é desejar a sua salvação.

IE sso muda completamente a finalidade da intimidade, pois quero descobrir seus talentos para ajudá-la a desenvolvê-los, quero compreender suas dificuldades com o intuito de ajudá-la a enfrentá-las, quero conhecer sua história espiritual para respeitar aquilo que Deus vem realizando nela, quero reconhecer suas fraquezas não para explorá-las, mas para não aumentar desnecessariamente seu peso.

O conhecimento, nesse sentido, torna-se ministério recíproco.

Conclusão: conhecer para amar e amar para continuar conhecendo

A modernidade líquida colocou diante do indivíduo uma quantidade extraordinária de possibilidades, mas a multiplicação das possibilidades cobra um preço, pois toda escolha real significa renúncia, uma vez que não posso construir todas as famílias possíveis e não posso viver simultaneamente todas as vidas possíveis, assim como não posso casar-me com todas as pessoas que hipoteticamente poderiam combinar comigo, pois a maturidade consiste precisamente em transformar possibilidades abstratas numa existência concreta - o que exige escolha, discernimento e isso pede conhecimento. E o conhecimento, quando ordenado pela caridade, torna-se parte do próprio ato de amar.

Nesse sentido, o anti-intelectualismo afetivo merece investigação porque talvez tenhamos cometido uma estranha inversão cultural: jamais tivemos tantos instrumentos para conhecer pessoas e, ao mesmo tempo, talvez tenhamos desenvolvido relações cada vez mais estruturadas pela velocidade, pela impressão imediata e pela substituição.

Contra essa tendência, uma concepção boaventuriana oferece outro caminho.

Conhecimento e amor não precisam competir, pois o intelecto pode servir à caridade e talvez uma das formas mais profundas de intimidade seja justamente esta: quero conhecer aquilo que existe dentro de você porque aquilo que existe dentro de você importa para mim.

A promessa de fidelidade adquire então uma formulação mais exigente: eu conheço você suficientemente para escolher permanecer — e permanecerei também para continuar conhecendo a pessoa que você ainda se tornará.

O casamento aparece, assim, não como encerramento do conhecimento, mas como sua institucionalização numa escala temporal extraordinária.

Conhecer.

Escolher.

Permanecer.

Continuar conhecendo.

Continuar escolhendo.

Continuar amando.

E, para quem contempla o amor à luz da fé cristã, acrescenta-se o horizonte definitivo: conhecer a pessoa amada cada vez melhor para ajudá-la a alcançar o bem — e desejar que, ao término da história compartilhada nesta vida, ambos possam apresentar-se diante de Deus não como consumidores que esgotaram reciprocamente sua utilidade, mas como pessoas que colaboraram, durante toda uma existência, para a santificação uma da outra.

Bibliografia comentada

BAUMAN, Zygmunt. Liquid Love: On the Frailty of Human Bonds. Cambridge: Polity Press, 2003.

Obra central para a hipótese desenvolvida neste ensaio. Bauman investiga a tensão existente entre o desejo contemporâneo de estabelecer relações e o receio de que vínculos demasiadamente sólidos reduzam a liberdade de escolha futura. A contribuição proposta no presente artigo consiste em acrescentar ao problema da dificuldade de manter vínculos a possível dificuldade cultural de conhecer suficientemente as pessoas antes de constituí-los.

BAUMAN, Zygmunt. Liquid Modernity. Cambridge: Polity Press, 2000.

Fornece o quadro sociológico mais amplo dentro do qual Liquid Love pode ser compreendido. Bauman contrapõe formas sociais relativamente estáveis da modernidade “sólida” às estruturas mais flexíveis e mutáveis da modernidade líquida. É especialmente útil para compreender por que a fragilidade afetiva não pode ser analisada isoladamente de mudanças mais abrangentes no trabalho, identidade, instituições e expectativas individuais.

SÃO BOAVENTURA. Itinerarium Mentis in Deum [Itinerário da mente para Deus].

Texto fundamental para compreender a integração boaventuriana entre conhecimento, contemplação, afeto e orientação da pessoa para Deus. Uma edição acadêmica contemporânea especialmente útil é a tradução anotada de Regis J. Armstrong, publicada pela Catholic University of America Press em 2020, que apresenta o texto latino e uma tradução acompanhada de amplo comentário histórico-teológico.

É importante, entretanto, não cometer anacronismo: São Boaventura não elaborou uma “teoria da intimidade conjugal” nos termos empregados neste artigo. Sua contribuição encontra-se num nível antropológico e teológico anterior: conhecimento e amor podem integrar-se dentro de uma sabedoria ordenada à transformação e ao bem. A literatura filosófica especializada destaca justamente a união entre conhecimento e afeto em sua concepção de sabedoria.

SÃO BOAVENTURA. De reductione artium ad theologiam [Da redução das artes à teologia].

Complementa o Itinerarium ao apresentar uma visão na qual as diferentes formas de conhecimento encontram sua ordenação última numa compreensão teológica da realidade. É importante para a concepção segundo a qual atividade intelectual e vida espiritual não constituem compartimentos estanques.

JOÃO PAULO II. Carta às Famílias — Gratissimam Sane. Vaticano, 2 fev. 1994.

Documento particularmente importante para a antropologia da pessoa utilizada neste ensaio. João Paulo II associa casamento, comunhão de pessoas, escolha consciente e livre, fidelidade e bem comum familiar. Oferece fundamento para interpretar o matrimônio não como simples cristalização de sentimentos, mas como escolha racional e livre de uma pessoa por outra pessoa.

JOÃO PAULO II. Familiaris Consortio. Vaticano, 22 nov. 1981.

A exortação apostólica descreve o matrimônio como aliança de amor conjugal livre e conscientemente escolhida e como comunidade íntima de vida e amor. É especialmente relevante para aprofundar a relação entre liberdade, consentimento, compromisso e permanência.

WOJTYŁA, Karol. Amor e Responsabilidade.

Embora anterior ao pontificado de João Paulo II, esta obra é extremamente importante como ponte entre personalismo e ética afetiva. Wojtyła procura pensar a sexualidade e o amor a partir da dignidade da pessoa e rejeita sua redução a objeto de utilização. Para a tese deste artigo, oferece uma base importante para distinguir conhecimento orientado à caridade de conhecimento destinado à manipulação.

GIDDENS, Anthony. The Transformation of Intimacy: Sexuality, Love and Eroticism in Modern Societies. Stanford: Stanford University Press, 1992.

Constitui excelente contraponto a Bauman. Giddens analisa transformações da intimidade moderna, incluindo aquilo que denomina “relação pura”, cuja continuidade depende crescentemente da satisfação que a própria relação proporciona aos envolvidos. Sua leitura permite colocar a tese do anti-intelectualismo afetivo dentro de uma discussão sociológica mais ampla sobre individualização e transformação do vínculo conjugal.

ILLOUZ, Eva. Cold Intimacies: The Making of Emotional Capitalism. Cambridge: Polity Press, 2007.

Ajuda a compreender a crescente interpenetração entre racionalidades econômicas, cultura terapêutica e vida emocional. É útil especialmente para desenvolver a seção sobre a transformação do relacionamento num espaço de avaliação e comparação permanente.

FROMM, Erich. The Art of Loving. New York: Harper & Brothers, 1956.

Fromm oferece importante contraposição à concepção espontaneísta do amor. Sua tese de que amar exige aprendizagem, disciplina e desenvolvimento de capacidades aproxima-se do argumento aqui apresentado segundo o qual amor profundo não deve ser entendido somente como acontecimento emocional.

IBGE — INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Estatísticas do Registro Civil 2024.

Fonte empírica indispensável para qualquer tentativa de estudar seriamente casamento e divórcio no Brasil. Em 2024 foram registrados 428.301 divórcios judiciais de primeira instância ou extrajudiciais, redução de 2,8% diante de 2023. Esses dados permitem mensurar o fenômeno, mas não autorizam inferir suas causas. Uma pesquisa sobre “anti-intelectualismo afetivo” teria de combinar os dados demográficos do IBGE com levantamento próprio sobre valores, conhecimento recíproco, religião, expectativas matrimoniais e práticas de comunicação entre casais.

Nota metodológica para desenvolvimento futuro

O conceito de anti-intelectualismo afetivo pode ser transformado de hipótese ensaística em objeto de pesquisa empírica.

Um instrumento de pesquisa poderia perguntar separadamente a cada integrante de um casal se conhece:

  1. os cinco acontecimentos considerados mais importantes na formação intelectual do outro;
  2. suas principais referências religiosas e filosóficas;
  3. sua concepção de casamento;
  4. seus objetivos financeiros de longo prazo;
  5. sua posição sobre filhos e educação;
  6. sua compreensão de fidelidade;
  7. seus maiores medos;
  8. seus principais projetos profissionais;
  9. as obrigações que considera possuir perante pais e familiares;
  10. aquilo que considera seu propósito de vida.

As respostas poderiam depois ser comparadas com aquilo que o próprio companheiro declara sobre si.

Seria possível construir, dessa maneira, um índice de conhecimento conjugal recíproco.

A pesquisa poderia então verificar se maior correspondência entre aquilo que uma pessoa pensa sobre o companheiro e aquilo que o companheiro declara sobre si apresenta alguma associação estatística com satisfação conjugal, duração do relacionamento, confiança, resolução de conflitos e intenção de permanência.

Isso permitiria sair da simples afirmação cultural — “as pessoas não procuram conhecer umas às outras” — para uma pergunta cientificamente examinável:

quanto os parceiros realmente conhecem a estrutura moral, intelectual e biográfica um do outro, e que relação esse conhecimento apresenta com a estabilidade de seus vínculos?

Nesse ponto, a intuição filosófica encontraria a sociologia empírica.

E seria justamente essa passagem — de São Boaventura a Bauman, da filosofia da pessoa aos dados sobre intimidade — que poderia transformar a expressão anti-intelectualismo afetivo numa categoria analítica mais robusta.