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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Curro Jiménez, o MSX , a cultura dos jogos e a demanda reprimida por informação, própria de uma época anterior à internet e à assimetria de informação gerada pela Lei de Informática nos anos 80

Há perguntas que atravessam décadas.

Durante muitos anos, eu sabia apenas que existia um jogo de MSX chamado Curro Jiménez. Embora eu não tivesse jogado esse jogo, eu sabia da existência desse jogo através de revistas especializadas da época. Quanto à informação sobre quem era Curro Jiménez, ninguém que eu conheço no Brasil sabia. Imagino que as pessoas ter jogado aquele jogo, sem saber se aquele personagem era um herói histórico, um personagem de quadrinhos ou apenas uma invenção dos programadores.

Somente muitos anos depois descobri que Curro Jiménez era um personagem extremamente popular na Espanha, protagonista de uma série de televisão ambientada na Andaluzia do século XIX. O jogo que eu conheci era apenas uma manifestação de um fenômeno cultural muito maior.

Essa pequena descoberta pessoal ilustra um problema econômico e cultural que marcou toda uma geração de brasileiros: a existência de uma demanda reprimida por informação, decorrente de barreiras artificiais à circulação de bens e conhecimentos. Na década de 1980, o Brasil adotou uma política de reserva de mercado para a informática. A intenção era legítima: proteger a indústria nacional e permitir que ela se desenvolvesse diante da concorrência de empresas estrangeiras muito maiores e mais capitalizadas.

Entretanto, toda política pública possui custos e benefícios. O custo menos discutido dessa política foi a fragmentação do acesso à informação. Computadores chegavam ao mercado brasileiro. Jogos também chegavam. Mas as revistas estrangeiras que explicavam esses jogos eram difíceis de encontrar. Livros importados custavam caro. Programas de televisão estrangeiros raramente eram exibidos. 

A internet simplesmente não existia. O resultado foi um curioso descompasso: os produtos circulavam mais rapidamente do que o conhecimento necessário para compreendê-los. Milhares de brasileiros jogaram títulos japoneses sem conhecer os animes que lhes deram origem. Outros jogaram títulos espanhóis sem saber nada da cultura espanhola. Muitos utilizaram computadores compatíveis com padrões internacionais sem acesso à documentação original.

Em termos econômicos, isso pode ser entendido como uma forma de assimetria de informação. O consumidor tinha acesso parcial ao mercado. Conseguia comprar o bem material, mas não tinha acesso pleno ao conjunto de conhecimentos, referências culturais e informações que lhe davam significado.

Além disso, o custo de obtenção dessa informação era extremamente elevado. Era preciso encontrar revistas especializadas, comprar livros importados ou conhecer alguém que tivesse acesso privilegiado a essas fontes. O conhecimento não estava ausente; estava isolado por custos de transação elevados.

É verdade que nem toda essa situação pode ser atribuída exclusivamente à política governamental. O Brasil era um país distante dos grandes centros produtores de tecnologia e cultura digital. A infraestrutura de telecomunicações era precária. O custo do transporte internacional era elevado. Havia limitações econômicas e tecnológicas independentes da ação estatal. Mas também é verdade que políticas protecionistas tendem a reduzir a velocidade com que informações, produtos e referências culturais atravessam fronteiras.

Quando um governo cria barreiras à concorrência e à circulação de bens, ele frequentemente cria, ainda que involuntariamente, barreiras à circulação do conhecimento. O caso do MSX é particularmente interessante porque demonstra um paradoxo. Apesar das restrições, formou-se no Brasil uma comunidade muito criativa. Usuários aprenderam a programar, desmontaram equipamentos, traduziram manuais informalmente e compartilharam conhecimento em clubes e revistas especializadas. A escassez estimulou a engenhosidade.

Por outro lado, essa mesma comunidade conviveu durante décadas com lacunas de informação que hoje parecem inimagináveis. Era perfeitamente possível conhecer um jogo e ignorar completamente sua origem. Era possível ouvir falar de um personagem durante anos sem jamais descobrir quem ele era. Era possível utilizar tecnologia de ponta sem acesso à documentação completa. A internet alterou radicalmente esse cenário.

O custo marginal de obter informação aproximou-se de zero. A pergunta guardada durante décadas pode ser respondida em segundos. O livro raro pode ser encontrado em formato digital. A série de televisão esquecida pode ser localizada em arquivos audiovisuais ou em bases de dados especializadas. A demanda reprimida por informação não desapareceu; ela finalmente encontrou oferta. E talvez esse seja um dos maiores legados da era digital. Não apenas nos deu acesso a novos conhecimentos, mas também nos permitiu recuperar perguntas antigas. Perguntas que ficaram suspensas no tempo, aguardando o dia em que a tecnologia e a liberdade de circulação das informações fossem suficientes para respondê-las.

Às vezes, tudo começa com um simples cartucho de MSX. E termina com a descoberta de que, por trás de um jogo aparentemente obscuro, existia um mundo inteiro esperando para ser conhecido.

Bibliografia Comentada

ABREU, Marcelo de Paiva (org.). A Ordem do Progresso: Dois Séculos de Política Econômica no Brasil. Rio de Janeiro: Elsevier.

Obra de referência para compreender a evolução das políticas econômicas brasileiras. Os capítulos dedicados às décadas de 1970 e 1980 ajudam a contextualizar a reserva de mercado da informática dentro de um projeto maior de industrialização e substituição de importações. O livro evita simplificações e permite ao leitor avaliar custos e benefícios das políticas adotadas.

EVANS, Peter. Dependent Development: The Alliance of Multinational, State and Local Capital in Brazil. Princeton: Princeton University Press.

Clássico da sociologia econômica. Embora anterior à consolidação da Lei de Informática, o livro fornece uma estrutura conceitual importante para compreender o papel do Estado brasileiro na promoção do desenvolvimento industrial e suas relações com o capital nacional e estrangeiro.

TIGRE, Paulo Bastos. Gestão da Inovação: A Economia da Tecnologia no Brasil. Rio de Janeiro: Elsevier.

Uma das melhores introduções à economia da tecnologia no contexto brasileiro. O autor discute o desenvolvimento da indústria de informática, as políticas de inovação e os desafios da inserção do Brasil na economia do conhecimento.

CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra.

Obra fundamental para compreender como a internet reduziu drasticamente os custos de obtenção e circulação da informação. Castells mostra que a informação deixou de ser apenas um recurso econômico e tornou-se a infraestrutura central da vida social e econômica contemporânea.

HAYEK, Friedrich A. O Uso do Conhecimento na Sociedade.

Ensaio curto, mas extremamente influente. Hayek argumenta que o conhecimento está disperso entre milhões de indivíduos e que sistemas excessivamente centralizados têm dificuldade em coordenar eficientemente essa informação. Sua leitura oferece uma perspectiva crítica sobre políticas econômicas que restringem a livre circulação de bens e conhecimentos.

COASE, Ronald H. The Firm, the Market and the Law. Chicago: University of Chicago Press.

Coase desenvolve a noção de custos de transação, conceito importante para entender por que o acesso à informação era tão difícil no Brasil pré-internet. O livro ajuda a explicar como barreiras institucionais podem tornar proibitivo o acesso a conhecimentos que, em princípio, existem e poderiam circular livremente.

SHANNON, Claude E.; WEAVER, Warren. The Mathematical Theory of Communication. Urbana: University of Illinois Press.

Embora seja uma obra técnica, seus conceitos influenciaram profundamente a teoria da informação. Serve como pano de fundo para refletir sobre a diferença entre a existência da informação e a capacidade efetiva de transmiti-la a uma sociedade.

BARTON, Matt. Dungeons and Desktops: The History of Computer Role-Playing Games. Boca Raton: CRC Press.

Embora trate especificamente dos RPGs eletrônicos, o livro descreve como jogos e referências culturais circulavam internacionalmente antes da internet, muitas vezes chegando a determinados países desvinculados de seu contexto original.

Loguidice, Bill; Barton, Matt. Vintage Games. Burlington: Focal Press.

Excelente panorama da história dos videogames. O livro mostra como títulos antigos carregavam referências culturais, cinematográficas e literárias que nem sempre eram percebidas por jogadores de outros países.

Revista Micro Sistemas (1981-2002).

Fonte primária indispensável para quem deseja estudar a cultura da informática no Brasil. Suas páginas registram o cotidiano dos usuários brasileiros, a circulação de softwares, as limitações impostas pelo mercado e as estratégias encontradas pelos consumidores para obter informação e conhecimento técnico.

Revista MSX Micro.

Outra fonte primária valiosa. Permite observar como a comunidade brasileira do MSX construía coletivamente o conhecimento, traduzia manuais, compartilhava listagens de programas e tentava reduzir a assimetria de informação existente na época.

Sobre Curro Jiménez

A série espanhola Curro Jiménez e o jogo homônimo para MSX constituem um estudo de caso particularmente interessante. O personagem era amplamente conhecido na Espanha, mas praticamente desconhecido no Brasil. Ainda assim, seu jogo circulou entre os usuários brasileiros do MSX, demonstrando que bens culturais podem atravessar fronteiras mais rapidamente do que as informações necessárias para compreendê-los plenamente.

Esse pequeno episódio ilustra, em escala reduzida, um fenômeno muito maior: a existência de uma demanda reprimida por informação, acumulada ao longo de décadas e liberada apenas quando a internet reduziu drasticamente os custos de acesso ao conhecimento.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Celebrando meu primeiro imienniny ortodoxo (algumas pessoas na Ucrânia disseram que hoje é meu aniversário e eu fui tentar entender o porquê)

1) Ontem, dia 16/06/2026, uma ucraniana me disse que meu aniversário seria amanhã, que é hoje. Hoje, outra ucraniana me desejou parabéns pelo meu aniversário. Eram duas ucranianas diferentes - ambas eu as conheci no Amal Date e elas não devem se conhecer entre si. Ou seja, isso é um dado cultural da Ucrânia - logo, isso não foi combinado entre elas.

2) Perguntei ao chat GPT quais eram os santos do dia da Igreja Ortodoxa que estavam sendo celebrados hoje - e um desses santos era José de Scetis, um dos discípulos de Santo Antão do Deserto. Ou seja, era um imieninny, só que dentro da tradição da Igreja Católica Ortodoxa.

3) Normalmente, eu celebro o dia de São José - que é celebrado no dia 19 de março, dentro  na tradição católica romana. Eu costumo celebrá-lo em razão da minha ligação com os meu amigos na Polônia, pois no Brasil não se tem muito o costume de se celebrar o dia do santo onomástico, mas o dia em que você nasceu, o urodziny. E eu nasci no dia 23 de janeiro.

4) Além disso, eu celebro outras duas datas referentes às minhas profissões: o dia 25 de julho, que é o dia do escritor, e o 11 de agosto, que é o dia do advogado, a profissão da qual sou formado - esse é o dia do famoso decreto imperial que criou as faculdades de Direito no Brasil. 

5.1) Como diria São João Paulo II, eu devo respirar a Igreja com os dois pulmões - nesse sentido, eu vou celebrar o meu imieninny na tradição católica romana - no rito latino e tridnetino, do qual sou originário - e também vou celebrar o imieninny na Igreja Católica Ortodoxa porque eu sou o José que Deus vai prover para a mulher ucraniana que me tiver por marido. 

5.2) Muito embora eu estivesse me preparando para me casar com uma polonesa, eu não direi não para uma ucraniana que gostar de mim do jeito como eu sou, a ponto de ver Cristo em tudo o que faço. A essa mulher, bonita de corpo e de alma, eu não direi não. Não era o que eu havia planejado, mas aconteceu - como Deus sabe o que faz, quem sou eu para dizer não a essas coisas?

José Octavio Dettmann

Rio de Janeiro, 17 de junho de 2026 (data da postagem original).

Quando o algoritmo “acha” que você virou um operador logístico: jogos de simulação e publicidade no YouTube

 A publicidade digital moderna não funciona como uma simples resposta direta ao que você pesquisa. Ela opera como um sistema de inferência probabilística sobre quem você é — ou, mais precisamente, sobre o que o seu comportamento sugere que você poderia querer comprar ou aprender. O caso de jogadores de simuladores logísticos, como TransOcean 2, é um exemplo particularmente interessante desse mecanismo.

1. O que o algoritmo realmente está observando

Plataformas como o YouTube, integradas ao ecossistema do Google Ads, não analisam apenas buscas explícitas. Elas constroem perfis a partir de um conjunto amplo de sinais comportamentais:

  • vídeos assistidos até o final
  • temas recorrentes de canais consumidos
  • termos associados em legendas e descrições
  • padrões de navegação fora do YouTube (quando rastreáveis)
  • similaridade com perfis de usuários “parecidos”

Esse conjunto é transformado em vetores de interesse — representações matemáticas de afinidades temáticas. Não há uma compreensão semântica humana de “jogo” versus “atividade profissional”; há apenas proximidade estatística entre categorias.

Quando alguém joga um simulador como TransOcean 2, o sistema não vê apenas “gameplay”. Ele vê sinais fortemente correlacionados com:

  • logística marítima
  • transporte internacional
  • cadeias globais de suprimento
  • portos e comércio exterior

O resultado é uma transição automática do perfil para o universo de “frete e shipping”.

2. O salto semântico: de jogo para indústria real

O ponto crítico é o que pode ser chamado de colapso de contexto. Para o usuário, o jogo pertence ao domínio da simulação recreativa. Para o sistema de anúncios, o conteúdo é semanticamente próximo de setores industriais reais.

Assim, um hobby de simulação pode gerar um perfil que, do ponto de vista do algoritmo, se aproxima de alguém com interesse em logística profissional.

Isso explica por que começam a surgir anúncios de empresas como a Maersk, uma das maiores operadoras de transporte marítimo do mundo. Para o sistema, não há distinção rígida entre:

  • “pessoa jogando um simulador de navios”
  • “pessoa interessada em cadeia de suprimentos global”
  • “potencial decisor ou estudante de logística”

Tudo isso entra na mesma família estatística de interesse.

3. O objetivo do sistema não é precisão, mas probabilidade de engajamento

Um ponto central, frequentemente mal compreendido, é que o objetivo da publicidade algorítmica não é “acertar quem você é”, mas maximizar a chance de interação.

Isso cria um viés estrutural:

  • É preferível errar “para cima” (mostrar anúncios mais sofisticados ou industriais) do que errar “para baixo” (mostrar algo irrelevante demais e perder cliques)
  • O sistema testa categorias adjacentes para expandir o perfil do usuário
  • Pequenos sinais podem causar grandes deslocamentos de categoria

No seu exemplo, um interesse em simulação de transporte marítimo pode ser suficiente para ativar o cluster de logística global.

4. A distorção entre estágio de vida e inferência algorítmica

Existe uma desalinhamento entre o que o algoritmo assume e o contexto real. O sistema não tem acesso ao conceito de “fase de economia doméstica”, “interesse exploratório” ou “uso recreativo de simuladores”. Ele opera sem hierarquia qualitativa de intenção.

Para ele:

  • Interesse técnico = potencial demanda comercial
  • Curiosidade lúdica = possível intenção de consumo
  • Pesquisa conceitual = possível interesse profissional

Essa equivalência estrutural gera recomendações que podem parecer “exageradas” ou fora de escala econômica, mas são coerentes dentro do modelo estatístico.

5. O efeito de retroalimentação: como o perfil se consolida

Outro aspecto importante é a retroalimentação. Uma vez que uma pessoa começa a receber anúncios de logística:

  • ela pode clicar por curiosidade
  • isso reforça o sinal de interesse
  • o algoritmo aumenta a frequência desse tipo de conteúdo
  • o perfil se consolida ainda mais nesse eixo

Esse processo é conhecido como feedback loop de recomendação. Ele pode ser positivo (refinando interesses reais) ou falso positivo (fixando um interesse acidental).

6. Jogos de simulação como “geradores de perfis híbridos”

Simuladores como TransOcean 2 são particularmente interessantes porque produzem o que podemos chamar de ambiguidade semântica estrutural:

  • são jogos, mas representam sistemas econômicos reais
  • são entretenimento, mas exigem compreensão de logística
  • são ficção operacional, mas com alta fidelidade conceitual

Isso faz com que os sistemas de recomendação tenham dificuldade em classificar corretamente a intenção do usuário. O resultado é uma fusão entre o perfil de jogador e o perfil profissional.

7. Conclusão: o algoritmo não entende você — ele te projeta em categorias

O caso que você descreveu ilustra bem um princípio geral da publicidade algorítmica moderna: ela não interpreta intenções humanas com nuance, mas projeta comportamentos em clusters estatísticos de mercado.

Assim, um simples jogo pode deslocar você para o universo de grandes players globais de logística, como a Maersk, não porque o sistema “entendeu você”, mas porque ele encontrou uma correlação suficientemente forte para justificar o experimento publicitário.

No fim, o que parece inteligência contextual é, na prática, uma engenharia de probabilidades — altamente eficiente para negócios, mas frequentemente desalinhada com o significado real das ações humanas.

Bibliografia comentada

1. ZUBOFF, Shoshana — The Age of Surveillance Capitalism (2019)

Obra fundamental para entender a lógica econômica por trás da publicidade digital contemporânea. Zuboff descreve como plataformas transformam comportamento humano em matéria-prima para previsão e monetização.
Relevância para o tema: fornece o arcabouço teórico para entender por que ações aparentemente triviais (como jogar um simulador) são convertidas em sinais econômicos.

2. RICHARDSON, Matthew; DOMINGOS, Pedro — “Mining Knowledge from Large Data Sets” (various works, 2010s)

Domingos e colaboradores discutem como sistemas de machine learning extraem padrões de grandes volumes de dados sem compreensão semântica.
Relevância: explica tecnicamente a base dos sistemas de recomendação usados por plataformas como YouTube, baseados em correlação e não interpretação.

3. RESNICK, Paul; VARIAN, Hal — “Recommender Systems” (ACM, 1997)

Um dos textos fundacionais sobre sistemas de recomendação. Introduz a lógica de filtragem colaborativa.
Relevância: base histórica para entender como interesses são inferidos a partir de usuários similares.

4. O’NEIL, Cathy — Weapons of Math Destruction (2016)

Analisa como modelos algorítmicos podem gerar distorções sociais quando otimizam métricas sem considerar contexto humano.
Relevância: ajuda a interpretar o “desalinhamento de estágio de vida” observado no caso.

5. MONTGOMERY, Kevin; Chester, Jonathan — “Digital Marketing and Behavioral Targeting” (Journal of Advertising Research, 2009–2015)

Explora o funcionamento de segmentação comportamental em publicidade online.
Relevância: detalha como perfis são construídos a partir de múltiplos sinais digitais agregados.

6. GOODFELLOW, Ian; BENGIO, Yoshua; COURVILLE, Aaron — Deep Learning (2016)

Texto técnico padrão sobre redes neurais profundas.
Relevância: fornece base para entender como embeddings transformam comportamento em vetores de interesse, permitindo a associação entre jogos e setores industriais.

7. TUROW, Joseph — The Daily You (2011)

Discute como a publicidade online personaliza experiências a partir de dados comportamentais.
Relevância: antecipa a lógica de segmentação hiperpersonalizada que leva a inferências como as observadas no YouTube. 

terça-feira, 16 de junho de 2026

A fazenda, o porto e o livro: uma cadeia econômica internacional fundada em privilégios tributários legítimos

Em geral, quando se fala em tributação, imagina-se um sistema destinado apenas a arrecadar recursos para o Estado. Entretanto, a experiência histórica demonstra que a tributação também serve para revelar as prioridades de uma sociedade. Cada país escolhe proteger certos bens e atividades que considera essenciais à sua identidade, à sua segurança ou ao seu desenvolvimento.

Nos Estados Unidos, a terra agrícola recebe, em muitos estados, tratamento tributário favorecido. Na Inglaterra, diversos produtos da cesta básica são tributados à alíquota zero do IVA. No Brasil, por sua vez, a Constituição Federal concede imunidade tributária aos livros, jornais, periódicos e ao papel destinado à sua impressão.

À primeira vista, essas políticas parecem desconexas. Porém, quando examinadas sob a ótica do comércio internacional, elas podem formar uma cadeia econômica coerente e potencialmente poderosa.

Imagine-se a constituição de uma LLC no Wyoming. Esse estado americano é conhecido por sua simplicidade societária, pela ausência de imposto estadual sobre a renda e pela relativa facilidade de administração das empresas ali constituídas.

Essa LLC poderia adquirir uma fazenda na Carolina do Sul.

A escolha da Carolina do Sul não seria aleatória. O estado possui terras agricultáveis, tradição florestal, proximidade do oceano Atlântico e um dos portos mais importantes da costa leste americana: Charleston. A posição geográfica permite acesso relativamente eficiente tanto ao Brasil quanto à Europa.

Nessa fazenda, duas cadeias produtivas poderiam coexistir.

A primeira seria a produção de alimentos destinados à exportação para a Inglaterra. Como muitos produtos alimentícios essenciais são tributados à alíquota zero do IVA britânico, o consumidor final seria beneficiado por uma tributação reduzida ou inexistente.

A segunda cadeia seria a produção de madeira ou fibras vegetais destinadas à fabricação de papel.

Esse papel seria exportado ao Brasil, onde encontraria uma proteção constitucional singular. A Constituição brasileira, ao vedar a incidência de impostos sobre livros e sobre o papel destinado à sua impressão, estabeleceu um dos regimes mais favoráveis à circulação do conhecimento em todo o mundo.

Tem-se, assim, uma sequência lógica:

LLC no Wyoming.

Fazenda na Carolina do Sul.

Produção agrícola e florestal.

Exportação pelo porto de Charleston.

Alimentos destinados à Inglaterra.

Papel destinado ao Brasil.

Livros protegidos pela imunidade tributária.

Essa estrutura possui um aspecto filosófico interessante.

Cada país protege aquilo que considera fundamental.

Os Estados Unidos protegem a terra produtiva, pois reconhecem a importância estratégica da agricultura e da segurança alimentar.

A Inglaterra protege os alimentos essenciais, pois entende que a tributação não deve dificultar o acesso da população ao básico.

O Brasil protege o livro porque reconhece que a cultura, a educação e a liberdade de expressão possuem um valor que transcende a mera arrecadação.

Uma cadeia econômica construída sobre esses fundamentos não se apoia em privilégios obscuros ou em artifícios ilegítimos. Ela se apoia em escolhas políticas e constitucionais expressas, aprovadas democraticamente e incorporadas às instituições de cada país.

Isso não significa que o empreendimento seja simples.

A produção de papel exige investimentos elevados, consumo intensivo de energia, tratamento ambiental adequado e uma logística sofisticada. Além disso, a atividade empresarial continua sujeita a diversos tributos e obrigações regulatórias, tanto nos Estados Unidos quanto nos países importadores.

Mas a ideia central permanece válida.

A economia internacional não é apenas um jogo de preços.

Ela também é um jogo de instituições.

Os países constroem incentivos para proteger aquilo que consideram valioso. O empreendedor atento observa esses incentivos, compreende sua lógica e procura integrá-los numa cadeia produtiva capaz de gerar riqueza sem contrariar a lei.

Nesse sentido, a fazenda americana, o porto atlântico e o livro brasileiro deixam de ser elementos isolados.

Passam a ser partes de uma mesma arquitetura econômica, na qual agricultura, indústria e cultura se conectam por meio do comércio internacional e do reconhecimento de que certos bens merecem proteção especial.

Talvez seja esse o aspecto mais fascinante dessa ideia: ela mostra que a tributação não serve apenas para limitar a atividade econômica. Em determinadas circunstâncias, ela pode indicar os caminhos pelos quais essa atividade floresce.

Bibliografia Comentada

1. TURNER, Frederick Jackson. The Frontier in American History. New York: Henry Holt and Company, 1920.

Trata-se de uma das obras clássicas da historiografia americana. Turner sustenta que a expansão das fronteiras agrícolas e territoriais moldou as instituições, a mentalidade e a economia dos Estados Unidos.

Para quem deseja compreender a importância econômica e simbólica da terra agrícola americana, este livro é praticamente obrigatório. A ideia de que a prosperidade nasce da combinação entre propriedade privada, iniciativa individual e expansão produtiva ajuda a explicar por que diversos estados americanos protegem fiscalmente a atividade rural.

2. ROYCE, Josiah. The Philosophy of Loyalty. Nashville: Vanderbilt University Press, 1995.

Embora não seja um livro de economia, a obra oferece uma reflexão profunda sobre os compromissos morais que sustentam as instituições humanas.

Royce sustenta que a verdadeira lealdade consiste em dedicar-se a causas que transcendem o interesse individual. Essa perspectiva pode ser aplicada à economia internacional: uma cadeia produtiva duradoura não depende apenas do lucro, mas também da confiança, da reputação e do respeito às instituições.

3. SMITH, Adam. An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations. 1776.

Nenhum estudo sobre comércio internacional pode ignorar Adam Smith.

O autor demonstra que a riqueza das nações não decorre do acúmulo de ouro, mas da capacidade de produzir, especializar-se e trocar bens de forma eficiente.

A ideia de uma fazenda americana produzindo alimentos para a Inglaterra e papel para o Brasil é um exemplo clássico de divisão internacional do trabalho e de vantagens comparativas.

4. RICARDO, David. On the Principles of Political Economy and Taxation. 1817.

Ricardo é o grande teórico das vantagens comparativas.

Seu argumento central é que mesmo países com produtividades diferentes podem beneficiar-se do comércio internacional se se especializarem naquilo que fazem relativamente melhor.

A hipótese de integrar agricultura americana, mercado consumidor britânico e indústria editorial brasileira encontra nessa obra seu fundamento econômico clássico.

5. BALEEIRO, Aliomar. Limitações Constitucionais ao Poder de Tributar. Rio de Janeiro: Forense.

Obra indispensável para compreender a imunidade tributária dos livros no Brasil.

Baleeiro examina os fundamentos históricos e jurídicos das limitações ao poder de tributar, explicando por que certos bens recebem proteção constitucional.

O livro mostra que a imunidade do livro não é um privilégio arbitrário, mas uma garantia institucional destinada a favorecer a circulação do conhecimento.

6. CARRAZZA, Roque Antonio. Curso de Direito Constitucional Tributário. São Paulo: Malheiros.

Uma das obras mais influentes do direito tributário brasileiro.

Carrazza aprofunda a interpretação da imunidade prevista no art. 150, VI, d, da Constituição, examinando seus limites e suas implicações práticas.

É leitura recomendada para quem deseja compreender como a proteção constitucional ao livro pode influenciar estratégias empresariais ligadas ao setor editorial.

7. CHANDLER JR., Alfred D. Scale and Scope: The Dynamics of Industrial Capitalism. Cambridge: Harvard University Press, 1990.

Chandler estuda a formação das grandes empresas industriais americanas e demonstra que a vantagem competitiva frequentemente decorre da integração vertical.

A ideia de controlar várias etapas da cadeia — fazenda, matéria-prima, indústria e exportação — encontra nesta obra uma fundamentação histórica e econômica bastante sólida.

8. NORTH, Douglass C. Institutions, Institutional Change and Economic Performance. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.

Talvez seja a obra que mais se aproxima do espírito deste artigo.

Douglass North argumenta que as instituições — leis, costumes, incentivos e direitos de propriedade — moldam os custos de transação e influenciam decisivamente o crescimento econômico.

A proteção da terra agrícola nos Estados Unidos, a tributação reduzida dos alimentos na Inglaterra e a imunidade tributária dos livros no Brasil são exemplos de instituições que alteram incentivos econômicos e podem ser articuladas em estratégias empresariais internacionais.

9. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

Especial atenção ao art. 150, VI, d:

"Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios instituir impostos sobre livros, jornais, periódicos e o papel destinado à sua impressão."

Esse dispositivo é o fundamento jurídico da imunidade tributária dos livros no Brasil e um dos pilares sobre os quais se apoia a parte final da cadeia econômica descrita neste trabalho.

Considerações finais

Esta bibliografia revela que a ideia de integrar uma LLC no Wyoming, uma fazenda na Carolina do Sul, o mercado consumidor inglês e a imunidade tributária do livro no Brasil não deve ser analisada apenas sob a ótica do planejamento tributário.

Ela pode ser estudada como um problema de história econômica, teoria das instituições, comércio internacional e filosofia política.

A terra, o alimento e o livro são bens distintos. Contudo, as sociedades que os protegem acabam criando oportunidades para que empreendedores, juristas e estudiosos imaginem novas formas de conectá-los por meio do trabalho, da indústria e do comércio.

Quais outros bens na economia mundial recebem um privilégio tão notável quanto o do livro no Brasil?

Em toda sociedade existem bens que recebem um tratamento especial. Não porque sejam necessariamente os mais lucrativos, nem porque movimentem a maior quantidade de dinheiro, mas porque a comunidade política os considera essenciais à sua sobrevivência ou à sua identidade.

No Brasil, nenhum produto possui um status jurídico tão singular quanto o livro.

A Constituição Federal estabelece a imunidade tributária dos livros, jornais, periódicos e do papel destinado à sua impressão. Trata-se de uma proteção extraordinária. O Estado pode criar impostos sobre renda, patrimônio e consumo, mas não pode tributar a circulação do conhecimento por meio desses instrumentos.

Essa escolha não foi feita por acaso. Ela decorre do reconhecimento de que a educação, a cultura e a liberdade de expressão são bens superiores, cuja difusão não deve ser dificultada pela tributação.

Mas o Brasil não é o único país a conferir um tratamento privilegiado a certos produtos. Em diferentes partes do mundo, outras sociedades fizeram escolhas semelhantes, elevando determinados bens a uma espécie de categoria sagrada da economia.

Na Europa, por exemplo, o ouro de investimento é amplamente isento do Imposto sobre o Valor Agregado (IVA). O ouro não é tratado como uma mercadoria comum, mas como reserva monetária e instrumento de proteção patrimonial. O investidor que compra ouro físico de investimento não está apenas adquirindo um metal precioso; está preservando riqueza através do tempo.

Nos Estados Unidos, a terra agrícola ocupa um lugar igualmente especial. Embora não exista uma imunidade absoluta e uniforme em nível federal, diversos estados concedem avaliações fiscais favorecidas para propriedades rurais utilizadas efetivamente na produção agrícola. Além disso, a legislação sucessória e tributária federal contém mecanismos que permitem a continuidade das fazendas familiares com carga tributária reduzida.

Essa proteção não se explica apenas pela importância econômica da agricultura. Ela se funda numa visão histórica segundo a qual o agricultor independente constitui um dos pilares da república americana. Desde os tempos de Thomas Jefferson, a terra agrícola é vista não apenas como um ativo, mas como a base material da liberdade, da autonomia econômica e da ocupação produtiva do território.

Essa concepção influenciou profundamente o imaginário político americano. O ideal do pequeno proprietário rural, capaz de sustentar a si mesmo e à sua família, tornou-se um símbolo nacional. Por isso, em muitos casos, a legislação procura evitar que as propriedades agrícolas sejam excessivamente oneradas por impostos, especialmente quando transmitidas entre gerações.

No Reino Unido, diversos alimentos básicos possuem alíquota zero de IVA. O pão, o leite, os vegetais e outros itens essenciais são considerados tão importantes para a vida cotidiana que o Estado prefere abrir mão de parte da arrecadação para tornar seu acesso mais amplo.

Em vários países, os medicamentos essenciais recebem benefícios semelhantes. A saúde é vista como um bem tão relevante que a tributação sobre certos remédios é reduzida ao mínimo ou eliminada.

Há ainda outro caso interessante: as exportações. Em praticamente todo o mundo, exportar bens significa não pagar impostos sobre consumo. O objetivo é permitir que os produtos nacionais concorram em igualdade de condições nos mercados internacionais.

Esses exemplos revelam um fato importante: a tributação nunca é apenas uma questão financeira. Ela expressa valores.

Quando um país decide não tributar determinado bem, está afirmando, implicitamente, que esse bem merece proteção especial. Está dizendo que sua circulação produz efeitos positivos tão relevantes que o interesse público recomenda um tratamento diferenciado.

No caso brasileiro, a escolha recaiu sobre o livro.

E isso produz consequências econômicas que muitas vezes passam despercebidas.

O livro não é apenas um objeto cultural. Ele pode se tornar o núcleo de uma cadeia produtiva complexa e altamente sofisticada. Em torno dele surgem livrarias, editoras, gráficas, tradutores, distribuidores, importadores, exportadores, empresas de logística, serviços de digitalização, fac-símiles, plataformas de comércio eletrônico e inúmeros outros empreendimentos.

A imunidade tributária reduz o custo de circulação do produto principal e cria um ambiente relativamente favorável para o desenvolvimento dessas atividades.

Nesse sentido, o livro se aproxima do ouro europeu e da terra agrícola americana. O ouro preserva capital financeiro; a terra agrícola preserva a capacidade produtiva e a independência econômica; o livro preserva e multiplica capital intelectual.

Uma sociedade que protege o ouro busca preservar riqueza acumulada.

Uma sociedade que protege a terra busca preservar sua capacidade de produzir.

Uma sociedade que protege o livro aposta na capacidade das ideias de gerar riqueza futura.

Talvez seja por isso que a imunidade tributária dos livros seja uma das disposições mais nobres da Constituição brasileira. Ela reconhece que existem bens cujo valor ultrapassa o cálculo imediato da arrecadação.

O Estado pode arrecadar sobre inúmeras atividades. Mas quando se trata do conhecimento registrado em livros, a Constituição impõe um limite: antes da arrecadação vem a liberdade; antes do imposto vem a cultura; antes do ganho fiscal vem a possibilidade de que uma ideia, uma vez impressa, transforme a vida de alguém.

E talvez seja essa a mais valiosa de todas as riquezas.

Bibliografia Comentada

1. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988

A Constituição brasileira é o ponto de partida para compreender a imunidade tributária dos livros. O art. 150, VI, "d", impede a instituição de impostos sobre livros, jornais, periódicos e o papel destinado à sua impressão. Trata-se de uma proteção que não se funda apenas em razões econômicas, mas na defesa da liberdade de expressão, da cultura e do acesso ao conhecimento. Qualquer estudo sério sobre o tema deve começar pela leitura direta do texto constitucional.

2. BALEEIRO, Aliomar. Limitações Constitucionais ao Poder de Tributar

Obra clássica do direito tributário brasileiro. Aliomar Baleeiro examina em profundidade as imunidades tributárias e demonstra que elas constituem limitações materiais ao poder do Estado. O livro é especialmente útil para compreender por que a imunidade dos livros não é uma mera isenção fiscal, mas uma garantia constitucional destinada a proteger valores superiores.

3. TORRES, Ricardo Lobo. Curso de Direito Financeiro e Tributário.

Ricardo Lobo Torres explora a relação entre tributação, liberdade e direitos fundamentais. Sua obra ajuda a entender como as escolhas tributárias refletem concepções morais e políticas. A imunidade dos livros aparece, assim, como um instrumento de promoção da cidadania e da dignidade humana.

4. JEFFERSON, Thomas. Notes on the State of Virginia.

Neste livro, Thomas Jefferson apresenta sua visão da sociedade americana e defende o agricultor independente como o fundamento da liberdade republicana. Para Jefferson, uma nação composta por proprietários rurais livres é menos suscetível à corrupção e à tirania. Essa obra ajuda a compreender por que a terra agrícola passou a ocupar uma posição privilegiada no imaginário político dos Estados Unidos.

5. TURNER, Frederick Jackson. The Frontier in American History.

Uma das obras mais influentes da historiografia americana. Turner sustenta que a expansão da fronteira moldou as instituições e o caráter dos Estados Unidos. A terra disponível e a possibilidade de adquirir propriedades agrícolas criaram uma cultura política baseada na autonomia e no empreendedorismo. Embora sua tese tenha sido posteriormente criticada e revisada, continua sendo leitura obrigatória para compreender a importância simbólica da terra na formação americana.

6. SMITH, Adam. A Riqueza das Nações.

Apesar de ser frequentemente lembrado apenas como economista liberal, Adam Smith dedica atenção especial à tributação e às exceções justificáveis ao princípio da neutralidade fiscal. A obra ajuda a compreender que a tributação não é apenas uma técnica arrecadatória, mas uma escolha política sobre quais atividades devem ser incentivadas ou protegidas.

7. ROYCE, Josiah. A Filosofia da Lealdade.

Embora não trate diretamente de tributação, Josiah Royce oferece uma reflexão profunda sobre a ideia de lealdade a causas que transcendem o interesse individual. Sua filosofia permite interpretar a proteção constitucional aos livros como uma manifestação da lealdade de uma comunidade política ao conhecimento e à cultura, assim como a proteção da terra agrícola expressa a lealdade a uma determinada concepção de sociedade.

8. GOLDSWORTHY, Adrian. Pax Romana.

Goldsworthy mostra como o Império Romano utilizou incentivos jurídicos e econômicos para estimular a ocupação do território e garantir a estabilidade social. Embora o contexto histórico seja distinto, a obra ajuda a perceber que a proteção estatal a determinados bens estratégicos é uma constante da história das civilizações.

9. HAYEK, Friedrich A. O Caminho da Servidão.

Hayek alerta para os riscos da concentração excessiva de poder no Estado e enfatiza a importância das instituições que preservam a autonomia dos indivíduos. Sua reflexão é útil para compreender por que certas sociedades escolhem proteger juridicamente bens considerados essenciais à liberdade, como o livro, a terra ou a moeda.

10. POLANYI, Karl. A Grande Transformação.

Karl Polanyi demonstra que os mercados não existem isoladamente, mas estão inseridos em estruturas sociais e políticas. Sua obra oferece um contraponto importante às visões puramente econômicas, mostrando que toda política tributária reflete escolhas culturais e valores coletivos.

Do potencial dos dias sem IVA em compras na Espanha

Os chamados "Dias sem IVA" constituem uma das campanhas promocionais mais interessantes do comércio espanhol. Embora o nome sugira a eliminação do Imposto sobre o Valor Agregado, o que ocorre na prática é que a loja concede ao consumidor um desconto equivalente ao valor do imposto, continuando a recolhê-lo normalmente perante as autoridades fiscais.

Para o comprador atento, especialmente aquele que planeja suas aquisições com antecedência, essas campanhas representam uma oportunidade de aumentar significativamente seu poder de compra.

Como funciona o Dia sem IVA

Na Espanha, o IVA possui diferentes alíquotas, dependendo do produto. A alíquota geral é de 21%, aplicada à maior parte dos bens de consumo, incluindo eletrônicos, computadores e eletrodomésticos.

Quando uma loja anuncia um Dia sem IVA, ela não reduz o preço em 21%, mas em aproximadamente 17,36% sobre o preço final. Isso ocorre porque o IVA já está embutido no valor exposto ao consumidor.

Ainda assim, trata-se de uma redução considerável, sobretudo em produtos de maior valor agregado.

O potencial econômico da estratégia

O consumidor ocasional costuma comprar quando sente necessidade. O consumidor estratégico, por sua vez, concentra suas aquisições em períodos promocionais.

Suponha a compra de um notebook no valor de 1.200 euros. Um desconto equivalente ao IVA pode representar uma economia superior a 200 euros. Em compras maiores ou repetidas ao longo do tempo, essa diferença pode equivaler ao custo de uma viagem, de um novo equipamento ou mesmo de uma biblioteca inteira.

A economia não decorre apenas do desconto isolado, mas do planejamento.

Quem conhece o calendário comercial espanhol passa a pensar em termos de oportunidade:

  • O produto é realmente necessário agora?
  • Vale a pena aguardar alguns meses?
  • Haverá uma promoção semelhante em outra loja?
  • A economia obtida pode ser reinvestida em novos estudos ou projetos?

Esse modo de pensar transforma o consumo em gestão de recursos.

A situação dos livros

No caso dos livros impressos, a vantagem costuma ser menor.

A Espanha adota uma alíquota reduzida de IVA para livros, razão pela qual o Dia sem IVA não produz o mesmo impacto observado em eletrônicos ou eletrodomésticos.

Ainda assim, o comprador de livros pode se beneficiar da conjugação de vários fatores:

  1. Promoções de Dia sem IVA;
  2. Liquidações sazonais;
  3. Descontos para membros de programas de fidelidade;
  4. Compras destinadas à exportação;
  5. Promoções de frete internacional.

Muitas vezes, a soma dessas vantagens gera uma economia superior à obtida por uma única promoção.

Da situação do comprador internacional neste dia

Para quem reside fora da União Europeia, como um brasileiro, o potencial estratégico torna-se ainda maior.

Além do desconto do Dia sem IVA, pode existir a possibilidade de restituição do imposto em determinadas circunstâncias ou de compra destinada à exportação, dependendo da política da loja e da legislação aplicável.

Isso significa que o comprador internacional não deve analisar apenas o preço do produto, mas o custo total:

  • preço do produto;
  • desconto promocional;
  • incidência ou não do IVA;
  • custo do frete;
  • tributação no país de destino;
  • taxa de câmbio.

Uma economia aparentemente pequena em cada etapa pode resultar numa diferença expressiva no valor final.

O valor do planejamento

Talvez a maior vantagem do Dia sem IVA não seja o desconto em si, mas a disciplina que ele ensina.

O consumidor aprende a pesquisar, comparar preços, estudar a sazonalidade das promoções e definir prioridades. O dinheiro deixa de ser gasto por impulso e passa a ser direcionado segundo objetivos previamente estabelecidos.

Nesse sentido, o Dia sem IVA deixa de ser apenas um evento comercial espanhol. Ele se transforma numa oportunidade de educação econômica, na qual a paciência, a informação e o planejamento convertem-se em patrimônio.

E, ao longo dos anos, a acumulação dessas pequenas vantagens pode produzir resultados muito maiores do que se imagina à primeira vista.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O mercado imobiliário como instrumento estratégico no Capitalism Lab

Ao longo dos anos, os simuladores econômicos tentaram responder a uma pergunta simples: como enriquecer administrando uma empresa? O Capitalism Lab procura responder a essa questão aperfeiçoando ideias já presentes nos títulos anteriores da série, sobretudo no clássico Capitalism Plus.

Segundo a resenha que meu irmão me enviou, o Capitalism Lab recupera muitos dos elementos que tornaram o Capitalismo Plus memorável. As lojas especializadas, o grau de dificuldade mais elevado e o equilíbrio econômico foram elogiados. Entretanto, uma inovação em particular chamou-lhe a atenção: a introdução de edifícios residenciais e comerciais, conceito herdado do Capitalism 2, mas que, no Lab, parece ter atingido sua maturidade.

A princípio, pode parecer apenas uma adição cosmética. Contudo, após algumas horas de jogo, percebe-se que o mercado imobiliário não é um elemento secundário. Ele se transforma em uma ferramenta de expansão econômica.

Imagine que um jogador construa um shopping center. Esse shopping atrairá consumidores, empregos e serviços. Em consequência, as áreas próximas tornam-se mais desejáveis para moradia. O aumento da procura faz subir o valor dos terrenos e dos imóveis vizinhos.

Quanto mais pessoas vivem na região, maior se torna o fluxo de consumidores para o shopping. Quanto maior o movimento, mais lucrativas ficam as lojas instaladas ali. Quanto mais lucrativas elas se tornam, mais atrativa fica a região para novos moradores e novos investimentos.

Forma-se, assim, um círculo virtuoso:

  1. Construção de um grande empreendimento comercial.
  2. Aumento do fluxo de consumidores.
  3. Crescimento da demanda por moradia.
  4. Valorização dos terrenos e imóveis.
  5. Expansão do mercado consumidor.
  6. Crescimento ainda maior do empreendimento original.

O imóvel deixa de ser um ativo passivo. Ele passa a ser um mecanismo capaz de moldar a cidade em favor do investidor.

Essa lógica aproxima o Capitalism Lab de fenômenos estudados pela economia urbana. Grandes cidades do mundo cresceram justamente porque determinados empreendimentos foram capazes de atrair pessoas e empresas para uma mesma região.

Um shopping center moderno não existe isoladamente. Ao seu redor surgem condomínios residenciais, escritórios, restaurantes, hotéis, escolas e serviços diversos. A concentração dessas atividades gera economias de aglomeração: morar perto reduz custos de deslocamento, aumenta o acesso a oportunidades e torna a região ainda mais atrativa.

Esse fenômeno pode ser observado em inúmeras cidades reais. Um grande empreendimento imobiliário não apenas responde à demanda existente; ele cria uma nova demanda ao reorganizar a dinâmica urbana ao seu redor.

Nesse aspecto, o Capitalism Lab toca num ponto profundo do capitalismo moderno: riqueza não consiste apenas em produzir bens ou prestar serviços. Muitas vezes, consiste em alterar a geografia econômica de uma região.

O empresário mais bem-sucedido não é necessariamente aquele que possui a melhor fábrica ou a loja mais eficiente. Pode ser aquele que consegue criar um ecossistema inteiro em torno dos seus ativos, fazendo com que comércio, habitação e serviços se reforcem mutuamente.

Naturalmente, o jogo ainda simplifica muitos aspectos da realidade. Não existem conflitos geopolíticos, políticas de zoneamento, inflação imobiliária, sistemas complexos de transporte ou crises financeiras capazes de derrubar o preço dos imóveis.

Caso esses elementos fossem introduzidos, o Capitalism Lab se aproximaria de um simulador geoeconômico, no qual o empresário precisaria lidar não apenas com concorrentes, mas também com Estados, crises internacionais e transformações urbanas de grande escala.

Mesmo sem essa complexidade adicional, a introdução dos imóveis já altera profundamente a experiência do jogador. O mercado imobiliário deixa de ser um apêndice do comércio e se torna uma extensão natural da estratégia empresarial.

Talvez essa seja a maior inovação silenciosa do Capitalism Lab: ensinar que o capitalismo não se limita a comprar barato e vender caro. Em seu estágio mais avançado, ele consiste em criar centros de prosperidade, reorganizando o espaço urbano de tal forma que o sucesso de um empreendimento aumente o valor de tudo aquilo que existe ao seu redor.