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quarta-feira, 11 de junho de 2025

O verdadeiro perigo não é a inteligência artificial, mas a regressão da inteligência natural

Há quem se preocupe com o avanço veloz da inteligência artificial. O tema, de fato, merece atenção — não pela máquina em si, mas pelo modo como o homem lida com ela. No entanto, o que deveria causar espanto maior é a regressão da inteligência natural, essa que é dom de Deus e deve ser cultivada com responsabilidade. O problema fundamental do nosso tempo não é tecnológico, mas espiritual: muitos estão preferindo aprender apenas o que lhes é conveniente e confortável, mesmo que dissociado da verdade, a viver a vida fundada na conformidade com o Todo que vem de Deus.

A inteligência natural não é apenas a faculdade de pensar, calcular ou resolver problemas práticos. É a capacidade de ordenar o pensamento à verdade, o julgamento ao bem, a vontade à justiça e a vida inteira à comunhão com o Criador. Quando essa inteligência entra em decadência — por negligência, orgulho ou corrupção moral — nenhuma ferramenta externa pode resgatá-la. Pelo contrário, tudo o que ela toca, inclusive as máquinas mais poderosas, acaba corrompido por seu uso desordenado.

Santo Tomás de Aquino já ensinava que a inteligência é feita para a verdade, e a verdade é “a conformidade da mente com a realidade” (adaequatio rei et intellectus)¹. Portanto, o verdadeiro desenvolvimento da inteligência exige humildade, esforço e retidão moral. Quando, ao contrário, ela se orienta pelo que é apenas útil, confortável ou ideológico, ela se torna escrava de seus próprios vícios.

A inteligência artificial, por mais avançada que seja, continua sendo uma ferramenta. Ela depende da orientação dada pelo homem, e mais do que isso: da intenção moral com que o homem a utiliza. Jacques Ellul advertia que a técnica moderna desenvolve-se autonomamente, com lógica própria, mas é o homem quem define seu uso². Se a inteligência humana estiver em conformidade com a verdade, a IA pode servir a propósitos nobres — pode facilitar o estudo, ampliar o acesso à sabedoria, proteger vidas, fomentar a justiça. Mas, se a inteligência natural estiver corrompida, a IA se torna apenas um espelho do desvio, uma engrenagem sofisticada a serviço da mentira, do controle, da fragmentação do espírito humano.

C.S. Lewis, em sua obra A Abolição do Homem, observa que o homem moderno, ao rejeitar os princípios objetivos do bem e da verdade, deixa de formar seres humanos verdadeiros e começa a fabricar “homens sem peito” — ou seja, intelectos separados do coração e da moral³. Essa cisão entre saber e ser é o traço mais grave de nossa época.

Ora, a inteligência foi dada ao homem como instrumento de conformação ao Logos, ao Verbo eterno, por meio do qual todas as coisas foram feitas⁴. Fora desse princípio, todo conhecimento se fragmenta, se torna utilitário ou até destrutivo. Olavo de Carvalho, em O Jardim das Aflições, aponta que a civilização ocidental, ao romper com a ideia do Logos, perdeu o elo entre razão, tradição e transcendência⁵. E onde não há transcendência, sobra apenas a técnica — cega, repetitiva, desumana.

Por isso, o verdadeiro problema não é a IA, mas a renúncia da alma humana à sua vocação superior. Muitos hoje aprendem o que lhes é conveniente, não o que é verdadeiro. Não desejam conformar-se ao Todo, mas moldar o mundo aos próprios caprichos. Essa atitude destrói o princípio da educação clássica, que visava formar o homem em conformidade com a verdade, o bem e o belo.

A crise não é, portanto, uma crise de máquinas, mas uma crise de lealdade à realidade. Josiah Royce, filósofo americano recomendado por Olavo de Carvalho, dizia que a lealdade a uma causa superior forma a identidade do indivíduo e sustenta a vida social autêntica⁶. Quando o homem deixa de ser leal à verdade que o transcende, tudo desmorona.

Portanto, não nos deixemos enganar por uma falsa oposição entre homem e máquina. O drama do nosso tempo não é o avanço da inteligência artificial, mas a perda do princípio ordenador da inteligência natural: o amor à verdade. O verdadeiro progresso não está em tornar as máquinas mais inteligentes, mas em tornar os homens mais santos. Pois o coração convertido é o que dá sentido ao pensamento, à técnica e à própria história.

Enquanto o mundo aposta no brilho fugaz das inovações, cabe aos que amam a Deus manter acesa a chama da sabedoria. Cabe-nos estudar, trabalhar e ensinar com os olhos fixos naquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6). Porque toda inteligência — natural ou artificial — só tem valor se estiver submissa a esse Logos, fundamento de toda liberdade e princípio de toda salvação.

Notas

  1. Tomás de Aquino. Suma Teológica, I, q.16, a.1.

  2. Jacques Ellul. O Sistema Tecnológico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

  3. C.S. Lewis. A Abolição do Homem. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

  4. Jo 1,1-3.

  5. Olavo de Carvalho. O Jardim das Aflições. Rio de Janeiro: Record, 1995.

  6. Josiah Royce. The Philosophy of Loyalty. New York: Macmillan, 1908.

Referências Bibliográficas

  • AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Trad. Alexandre Corrêa. São Paulo: Loyola, 2001.

  • CARVALHO, Olavo de. O Jardim das Aflições. Rio de Janeiro: Record, 1995.

  • ELLUL, Jacques. O Sistema Tecnológico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

  • LEWIS, C.S. A Abolição do Homem. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

  • ROYCE, Josiah. The Philosophy of Loyalty. New York: Macmillan, 1908.

  • RATZINGER, Joseph (Bento XVI). Introdução ao Cristianismo. São Paulo: Loyola, 2005.

  • GILSON, Étienne. O Espírito da Filosofia Medieval. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

  • AGOSTINHO, Santo. A Doutrina Cristã. São Paulo: Paulus, 2001.

  • ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das Massas. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

  • POSTMAN, Neil. Tecnopólio: A Rendição da Cultura à Tecnologia. São Paulo: Nobel, 1994.

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