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terça-feira, 3 de junho de 2025

Do Nickelodeon ao Cashback: Uma Arqueologia Filosófica da Informação na Sociedade de Plataforma

Resumo

Este artigo propõe uma arqueologia da informação, partindo da análise dos nickelodeons — espaços populares de entretenimento na Segunda Revolução Industrial — até os regimes contemporâneos de cashback nas plataformas digitais. A partir das contribuições da Filosofia da Técnica, da Economia da Atenção e da Sociologia dos Dados, busca-se compreender como os dispositivos técnicos evoluíram de meios de entretenimento massivo para sistemas de captura de atenção, dados e comportamento. O artigo também explora como o sujeito contemporâneo pode reconfigurar sua posição no jogo das plataformas, passando de consumidor passivo a cartógrafo cognitivo.

1. Introdução

Os nickelodeons, no início do século XX, representaram não apenas uma revolução no acesso popular ao entretenimento, mas também uma nova forma de modular a experiência urbana e industrial. A partir de um pagamento simbólico — cinco centavos — o sujeito acessava não só imagens em movimento, mas também um modelo de sociabilidade, cultura e pedagogia do consumo.

Na contemporaneidade, dispositivos como o cashback operam um mecanismo análogo: mediante um microincentivo — vinte centavos, um "double dime" — o consumidor cede dados, comportamento e atenção. Este artigo propõe analisar a continuidade estrutural e filosófica entre esses dois regimes, demonstrando como ambos organizam o fluxo de informação, desejo e valor.

2. Filosofia da Técnica: O Artefato Como Governo Invisível

Toda técnica, segundo Gilbert Simondon (2017), não é uma simples ferramenta, mas um modo de existência. Ela contém em si um processo de individuação técnica que reorganiza tanto a matéria quanto a própria percepção do mundo.

“A existência do objeto técnico não pode ser separada da história dos seres que o inventam, que o utilizam e que se transformam ao interagir com ele” (SIMONDON, 2017, p. 17, tradução nossa).

Assim como os nickelodeons, que condensavam uma pedagogia da modernidade industrial, os aplicativos de cashback condensam uma pedagogia da modernidade algorítmica. Não são apenas plataformas de consumo, mas dispositivos de governo invisível, que organizam o comportamento através de regimes de recompensa, gamificação e captura de dados.

Bernard Stiegler (1998) aprofunda este ponto ao afirmar que a técnica é uma exteriorização da memória e da experiência, o que implica que toda inovação técnica transforma a própria estrutura da subjetividade:

“Toda técnica é uma protensão, uma antecipação da experiência, que se grava na matéria e, por isso, transforma a própria condição da experiência humana” (STIEGLER, 1998, p. 30, tradução nossa).

Logo, ao inserir uma nota fiscal no Méliuz, o sujeito não realiza um ato neutro, mas participa de um ciclo técnico que o forma e informa, simultaneamente.

3. Economia da Atenção: O Double Dime como Moeda Cognitiva

Herbert Simon (1971) já alertava que, em uma sociedade saturada de informação, “a riqueza de informação cria pobreza de atenção” (SIMON, 1971, p. 40, tradução nossa). Assim, surge uma nova economia onde a atenção — e não mais apenas o dinheiro — torna-se o recurso escasso.

Os nickelodeons foram precursores dessa economia. O níquel não pagava apenas pelo filme, mas comprava um pedaço de tempo, de atenção e de pertencimento à modernidade industrial.

Na era digital, esse mesmo princípio se intensifica. O cashback é, na verdade, uma engenharia econômica de microincentivos para captura de atenção e dados.

Davenport e Beck (2001) explicitam:

“Na nova economia da atenção, as empresas bem-sucedidas não são aquelas que produzem mais bens, mas as que sabem captar, manter e monetizar a atenção de seus públicos” (DAVENPORT; BECK, 2001, p. 12, tradução nossa).

O double dime — os R$ 0,20 oferecidos por uma nota fiscal — é um token cognitivo que ativa uma série de circuitos algorítmicos que transcendem o simples valor monetário. Ele participa de uma cadeia de produção de valor baseada em dados, comportamentos e previsibilidade. 

4 Conclusão: Cartografia Cognitiva Como Forma de Liberdade

O percurso do níquel ao double dime revela uma continuidade profunda na história das tecnologias de informação e controle. Os nickelodeons ensinavam o operário industrial a ser moderno. Os aplicativos de cashback ensinam o cidadão de dados a ser previsível.

Mas também oferecem, paradoxalmente, os instrumentos para que este sujeito se emancipe — desde que compreenda o jogo. Como bem sugere Bernard Stiegler, “o que está em jogo é a luta pela retificação da atenção como bem comum” (STIEGLER, 2010, p. 5, tradução nossa).

Assim, cadastrar uma nota fiscal não é apenas um ato econômico. É, se for consciente, um ato político, epistemológico e até espiritual: uma forma de tomar posse dos próprios regimes de informação que governam a vida cotidiana.

Referências

COULDRY, Nick; MEJIAS, Ulises A. The Costs of Connection: How Data Is Colonizing Human Life and Appropriating It for Capitalism. Stanford: Stanford University Press, 2019.

DAVENPORT, Thomas; BECK, John C. The Attention Economy: Understanding the New Currency of Business. Boston: Harvard Business School Press, 2001.

SIMONDON, Gilbert. On the Mode of Existence of Technical Objects. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2017.

SIMON, Herbert A. Designing Organizations for an Information-Rich World. In: GREENBERGER, Martin (ed.). Computers, Communication, and the Public Interest. Baltimore: Johns Hopkins Press, 1971. p. 37-72.

STIEGLER, Bernard. Technics and Time, 1: The Fault of Epimetheus. Stanford: Stanford University Press, 1998.

STIEGLER, Bernard. Taking Care of Youth and the Generations. Stanford: Stanford University Press, 2010.

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