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quarta-feira, 4 de junho de 2025

A miséria intelectual da direita brasileira: uma análise a partir de Olavo de Carvalho

 No dia 15 de outubro de 2019, Olavo de Carvalho, em uma de suas intervenções mais contundentes, resumiu em poucas palavras um problema crônico que atravessa décadas na história política brasileira: a completa incapacidade da direita de se constituir como uma força intelectualmente estruturada. Sua crítica, longe de ser apenas uma observação isolada, revela um diagnóstico de fundo sobre os impasses que tornam a direita refém da própria ignorância, da dispersão e do amadorismo.

Ao reconhecer, paradoxalmente, que o marxismo — apesar de suas deficiências e falsificações — possui uma estrutura de teoria científica, Olavo deixa claro que o sucesso das esquerdas não se deve apenas à militância, mas sobretudo à disciplina teórica que organiza sua práxis. Esta constatação abre um abismo revelador sobre a miséria intelectual da direita brasileira, cuja atuação pública ainda se resume a opiniões desconexas, paixões desordenadas e guerras internas por espaço e visibilidade.

O método como diferencial estrutural

O primeiro ponto central do diagnóstico de Olavo é a diferença fundamental entre uma atuação baseada em método e uma atuação guiada por impulsos e reações emocionais.

O marxismo, enquanto falsa ciência, ainda assim se estrutura como um sistema teórico coerente, capaz de formar quadros, organizar diagnósticos e orientar ações políticas de longo prazo. Seus militantes, treinados nesse arcabouço, sabem distinguir questões estratégicas de trivialidades. Sabem focar seus esforços onde realmente importa para o avanço do movimento revolucionário.

A direita brasileira, por outro lado, não possui nada que se assemelhe a isso. Ela não dispõe de uma teoria própria, de uma tradição filosófica consolidada, nem de métodos que lhe permitam compreender a realidade e agir sobre ela. Seus discursos são fragmentários, suas ações são reativas, e seus líderes, na maior parte das vezes, são formados no ambiente da comunicação de massa — não no rigor da formação intelectual.

A guerra psicológica e a desorientação sistemática

Essa ausência de método torna a direita especialmente vulnerável a operações de guerra psicológica. O próprio Olavo alerta que muitos dos temas que dominam os debates na direita são "questiúnculas sem importância nenhuma, frequentemente injetadas nos seus ouvidos por adversários interessados em desorientá-los."

Este é um mecanismo sofisticado e bem documentado nas estratégias de guerra cultural: criar falsas prioridades, fomentar divisões internas, fazer com que grupos se ataquem mutuamente, enquanto os verdadeiros centros de poder seguem incólumes e avançando.

A direita, desprovida de critérios sólidos para hierarquizar seus problemas e prioridades, acaba refém de uma espiral de distrações — sempre correndo atrás do assunto da moda, do escândalo do dia, ou da disputa interna sobre quem é ou não "legítimo", "oficial", "representativo".

O escândalo da inversão de prioridades

No ápice de sua crítica, Olavo expõe o que talvez seja o ponto mais escandaloso dessa miséria: mesmo diante de uma situação que ele define como "permanente golpe de estado" e sob as "intensas investidas imperialistas da ditadura chinesa genocida", setores da direita brasileira estavam mais preocupados em regulamentar quem podia ou não ser chamado de “blogueiro de crachá”.

É a expressão mais clara de uma direita que não compreende o que está em jogo. Enquanto o inimigo avança com disciplina, método e paciência estratégica, a direita perde tempo com disputas internas, picuinhas e vaidades pessoais — comportando-se, nas palavras do próprio Olavo, como “um cãozinho rodopiando como doido no encalço de uma salsicha amarrada no seu rabo.”

Da crítica ao caminho da superação

Se esse é o diagnóstico, qual é o caminho possível para superá-lo?

Olavo de Carvalho sempre deixou claro, ao longo de sua obra, que não existe solução política sem formação intelectual. A luta política, quando não está amparada por um esforço contínuo de formação teórica, degenera inevitavelmente em espetáculo, fofoca, jornalismo militante ou idolatria de líderes.

O primeiro passo, portanto, é o reconhecimento da própria ignorância. Isso exige humildade, disciplina e compromisso com o estudo sério — filosofia, história, teologia, lógica, retórica, psicologia de massas, economia e estratégias de guerra cultural. Sem esse arcabouço, qualquer tentativa de ação política não passará de ativismo histérico, cego e contraproducente.

Conclusão

A crítica de Olavo de Carvalho à direita brasileira permanece não apenas atual, mas absolutamente necessária. Enquanto a direita não compreender que a guerra que vive é antes de tudo uma guerra de inteligência, continuará presa no ciclo de mediocridade que ele tão bem descreveu — rodopiando atrás de suas próprias criações, enquanto o verdadeiro inimigo avança impunemente.

Não há solução fora da formação. Não há vitória fora da inteligência. E não há liberdade fora da verdade.

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