No Brasil, quando se diz que algo foi “batizado”, quase nunca se está falando de um sacramento. O povo, com sua sabedoria desconfiada, reinventou a palavra: gasolina batizada é gasolina misturada com solventes; água batizada é água contaminada; documento batizado é identidade falsa. Em todos os casos, o que era para ser puro e autêntico tornou-se corrompido, disfarçado, adulterado. Essa reviravolta semântica, carregada de ironia e crítica social, serve como lente para enxergar certas realidades eclesiais do nosso tempo. E entre essas realidades, nenhuma parece mais simbólica do que a figura do papa Francisco.
Quando Jorge Mario Bergoglio escolheu o nome de Francisco ao assumir o pontificado, evocou o santo de Assis: o pobrezinho que, ao ouvir o chamado de Cristo — “Vai e reconstrói a minha Igreja!” — dedicou-se a uma vida de penitência, pobreza e obediência. São Francisco restaurou a Igreja com o exemplo vivo de santidade, com humildade radical e com amor ardente a Nosso Senhor. O nome, portanto, não foi escolhido em vão: era um gesto carregado de promessa e de simbolismo.
No entanto, ao longo dos anos de seu pontificado, o que se viu foi um processo inverso. Em vez de restaurar a Igreja, o Francisco de Roma parece tê-la desfigurado: relativizando doutrinas, acolhendo ambiguidades morais, promovendo figuras heréticas e minando, em nome da “misericórdia”, a disciplina eclesial. O que era para ser um nome profético tornou-se, aos olhos de muitos fiéis perplexos, um disfarce. Um “Francisco batizado” — no sentido brasileiro da expressão.
Assim como a gasolina batizada engana o motor e compromete o veículo, esse Francisco batizado engana os simples e compromete a barca de Pedro. Ele tem o nome, mas não a substância. Carrega o rótulo, mas o conteúdo foi diluído, talvez até envenenado. Usa a imagem do santo, mas opera de forma contrária ao seu legado. Nesse sentido, a cultura popular brasileira, com sua ironia afiada, nos dá um vocabulário preciso para compreender o fenômeno: a falsidade ideológica disfarçada de santidade.
Não se trata aqui de um julgamento precipitado ou de uma acusação leviana. É uma constatação feita a partir dos frutos. A Igreja, sob este papado, tem experimentado divisões profundas, escândalos reiterados e um eclipse doutrinal que parece não ter fim. Ao invocar São Francisco, esperava-se a restauração; ao contrário, presencia-se a ruína. Ao adotar o nome de um santo que foi sinal de contrarrevolução espiritual, Bergoglio se revestiu de um símbolo que não honra. É como um documento santo, mas batizado.
Talvez o senso popular brasileiro, tão inclinado à prudência nas entrelinhas, diga mais do que a linguagem eclesiástica formal ousa admitir. E é justamente por isso que a expressão “Francisco batizado” se revela tão contundente: ela traduz, com uma só frase, toda a perplexidade de uma Igreja que reconhece no nome o oposto da missão.
Assim como a gasolina batizada precisa ser denunciada por quem entende de mecânica, a fé batizada precisa ser desmascarada por quem entende de doutrina. E mais: restaurada por quem ama a Igreja com verdadeiro zelo católico — como fez o verdadeiro São Francisco, cuja memória clama por justiça.
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