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sábado, 17 de maio de 2025

A Classe Falante Ociosa: quando o jornalismo se torna simulação

 Enunciado: “A classe falante já não se ocupa do jornalismo enquanto investigação e apuração dos fatos, mas sim da repetição ociosa de narrativas, transformando-se em um exército de palpiteiros profissionais.”

O diagnóstico de Olavo de Carvalho sobre o jornalismo moderno é brutal e preciso: trata-se, segundo ele, de uma classe falante — uma casta que perdeu o vínculo com a verdade factual e passou a viver do ruído opinativo. Essa classe falante, no entanto, não se limita a falar: ela fala como forma de escapar ao real. Há uma estética da simulação em jogo, não mais o compromisso com a verdade.

Curiosamente, esse fenômeno encontra um paralelo teórico na obra de Thorstein Veblen, economista e sociólogo americano que cunhou o termo classe ociosa em sua obra clássica The Theory of the Leisure Class (1899). Veblen analisou as dinâmicas de prestígio social baseadas no consumo ostensivo e na ociosidade cerimonial.

Inspirado por essa convergência crítica, imaginei um diálogo fictício entre Olavo de Carvalho e Thorstein Veblen — ambos observando o jornalismo contemporâneo à luz de suas respectivas ideias:

[Local: Um velho escritório revestido de livros. Olavo fuma um cachimbo. Veblen, sentado à sua frente, anota algo num caderno com capa de couro.]

Olavo de Carvalho:
Thorstein, você que escreveu sobre a classe ociosa, sabe bem que certas elites vivem da aparência do trabalho, e não do trabalho em si. Pois bem, essa canalhada que se diz “jornalista” virou o mais puro exemplar moderno dessa classe parasitária.

Veblen:
Concordo contigo, Olavo. O que vejo hoje são profissionais que, ao invés de exercerem uma função produtiva – que seria investigar, relatar, educar o público – preferem se ocupar daquilo que chamei de consumo conspícuo de prestígio simbólico. Eles ostentam opinião como se fosse propriedade.

Olavo:
Perfeito! Eles não produzem informação. Produzem presunção. Não investigam, mas papagaiam. E como falam, meu Deus! Falam sem parar. São a classe falante, como costumo dizer. Só que falam como quem expele fumaça: para criar uma névoa, uma cortina.

Veblen:
Exato. O falar, nesse caso, é apenas um gesto ritualístico. Não é comunicação; é demarcação de território. Eles constroem reputações pela afetação da erudição. São intelectuais apenas na forma, jamais na substância.

Olavo:
E o mais irônico é que essa afetação vem embalada como engajamento moral. Vivem dizendo que estão “lutando contra a desinformação”, mas o que fazem é desinformar com uma empáfia patológica. Já não são jornalistas: são palpiteiros profissionais, como esses parasitas que andam de colete em redação gourmet.

Veblen:
Isso coincide com o que observei entre os rentistas sociais: indivíduos que operam apenas dentro de sistemas de prestígio, desconectados de qualquer base material concreta. No seu caso, a crítica está bem direcionada: o jornalismo, ao perder sua função prática, torna-se mais um ornamento da elite simbólica.

Olavo:
Sim. Eles são os bardos do globalismo, repetidores do discurso dominante, gente que substituiu a coragem de pensar pela conveniência do pertencimento. Na prática, são os novos ociosos — sustentados não por terras ou títulos nobiliárquicos, mas pela mentira institucionalizada.

Veblen:
E ainda exibem isso como virtude. Essa classe falante-ociosa converte o capital moral — outrora reservado aos que sacrificavam algo pela verdade — em uma moeda de autopromoção. Uma casta devotada à simulação.

Olavo:
Pois então, Thorstein: o que você chamou de “classe ociosa” agora tem microfone, coluninha no jornal, perfil verificado e um senso de missão global. Só não tem vergonha na cara.

Comentário Crítico

O que emerge desse diálogo imaginário é uma convergência teórica entre dois pensadores que nunca se encontraram no tempo, mas que se completam na crítica: Veblen oferece o arcabouço econômico-sociológico, enquanto Olavo dá o golpe certeiro na cultura concreta do nosso tempo, especialmente no campo da mídia.

A classe jornalística, que deveria operar como um braço do real — buscando os fatos, apurando com coragem, resistindo à pressão do poder —, tornou-se uma espécie de sacerdócio do lugar comum. O jornalista moderno é muitas vezes mais preocupado com o tom da frase do que com sua verdade; com o impacto simbólico do tweet do que com a profundidade da apuração.

O vício de parecer engajado substitui a virtude de ser honesto. É a estética da virtude encenada, do moralismo de vitrine. A fala se tornou um instrumento de distinção, como o cavalo de raça ou o fraque vitoriano das elites do século XIX. Assim como o nobre ocioso passeava com seu cão de caça e seu bastão de ébano para afirmar seu status, o jornalista contemporâneo desfila sua indignação digital para sinalizar pertencimento.

A crítica de Olavo é, portanto, mais do que uma ofensa dirigida: é um diagnóstico cultural. E a leitura de Veblen serve como lupa sociológica para observar esse fenômeno.

Se quisermos resgatar o jornalismo — e, por extensão, o espaço público — da tirania da simulação e da fala vazia, será preciso restaurar a ligação entre linguagem e realidade, entre opinião e responsabilidade, entre fala e verdade. Caso contrário, continuaremos nas mãos dessa casta de palpiteiros profissionais: a classe falante ociosa, herdeira da nobreza improdutiva que Veblen tão bem soube desmontar.

José Octavio Dettmann

Rio de Janeiro, 17 de maio de 2025 (data da postagem original).

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