No idioma polonês, Wybory significa "eleições". Para um falante de português, a palavra evoca foneticamente víbora, a serpente que, por sua natureza silenciosa e traiçoeira, inspira temor e alerta. Essa semelhança sonora pode parecer casual, mas é justamente nas frestas da linguagem que se escondem revelações filosóficas. E talvez seja essa a função do filósofo em tempos eleitorais: escutar o sibilar da serpente por trás do coro da multidão.
A vontade geral como oráculo e abismo
Jean-Jacques Rousseau, teórico do contrato social, falava da vontade geral como uma expressão suprema do povo unido. Não é a soma das vontades individuais, mas uma vontade una, transcendental, que expressaria o bem comum. Tal formulação, no entanto, carrega um perigo oculto: quando a vontade geral se torna um absoluto, ela exige submissão, mesmo contra a razão ou a consciência do indivíduo.
Diante dessa entidade abstrata — a vontade geral — o pensador que ousa interpretá-la incorre num risco grave: ser devorado por aquilo que revelou. É como se o povo, ao ser compreendido em sua essência, se voltasse contra o seu próprio intérprete, rejeitando qualquer um que lhe exponha a alma. A serpente eleitoral, como víbora coletiva, prefere manter sua aparência de legitimidade do que suportar o espelho da verdade.
Democracia ou idolatria da maioria?
O fenômeno das eleições modernas, especialmente nas democracias ocidentais, tende a sacralizar o resultado das urnas como se fosse a epifania de uma divindade: o povo falou. Mas que povo é esse? Em que língua ele fala? Quem o compreende de fato? E o mais importante: será que falar em nome do povo não é muitas vezes apenas um ato de ventriloquismo político?
Alexis de Tocqueville já alertava para os perigos da tirania da maioria, quando a força numérica substitui a justiça, e a autoridade do número silencia a razão. O problema não está apenas na massa que vota, mas sobretudo nos engenheiros da vontade pública, que a manipulam, seduzem e interpretam conforme seus próprios interesses.
O sacrifício do pensador
Na tradição bíblica, o profeta é aquele que fala em nome da verdade, mesmo contra a multidão. É por isso que muitos foram apedrejados. O pensador que, com honestidade, tenta decifrar a lógica da opinião pública, corre o mesmo risco: ser visto como inimigo, traidor, elitista ou subversivo. Ele é a vítima necessária para preservar o mito da soberania popular. A víbora precisa de um bode expiatório — alguém a quem culpar por sua própria desordem interna.
Quando a serpente é exposta, ela ataca. Aquele que ousa dizer a verdade sobre a natureza da vontade geral será acusado de blasfêmia democrática. O mesmo povo que busca ser compreendido não tolera ser desnudado em suas contradições. Assim, o intérprete das eleições — Wybory — se vê enredado por uma armadilha simbólica: quanto mais entende o povo, mais se distancia dele.
Conclusão: entre a serpente e o altar
Wybory, portanto, é mais do que um evento cívico. É um ritual onde o povo oferece a si mesmo como soberano, mas exige que todos se prostrem diante de sua imagem. Quem tenta decifrar esse oráculo deve estar preparado: não há espaço para o verdadeiro filósofo entre os sacerdotes do populismo. A verdade não é bem-vinda quando o altar é erguido em nome do número.
A víbora, quando ameaçada, devora. Mas o verdadeiro pensador não teme ser devorado. Ele sabe que sua missão não é agradar, mas iluminar. E se a luz incomoda, é porque há algo demais escondido na sombra da vontade geral.
Bibliografia
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ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do Contrato Social. Tradução de Lourdes Santos Machado. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
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TOCQUEVILLE, Alexis de. A Democracia na América. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
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ORWELL, George. A Revolução dos Bichos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
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WEIL, Simone. A condição operária e outros estudos sobre a opressão. Tradução de Lourdes Santos Machado. São Paulo: Paz e Terra, 1979.
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BÍBLIA SAGRADA. Livro dos Profetas. (Especialmente Jeremias e Isaías, sobre o papel do profeta diante do povo.)
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PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2006.
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HANNAH ARENDT. Verdade e Política, in: Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 1972.
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