Pesquisar este blog

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Sobre a vaidade de saber falar nove idiomas e não ser capaz de salvar almas

Sobre a vaidade de saber falar nove idiomas e não ser capaz de salvar almas

“A quem muito foi dado, muito será exigido.” (Lc 12,48)

Vivemos em uma época em que o acúmulo de conhecimentos é, muitas vezes, celebrado por si só. Aprender línguas estrangeiras, dominar estruturas linguísticas complexas e comunicar-se em diversos idiomas tornou-se um símbolo de status, competência e distinção cultural. No entanto, à luz da eternidade, surge uma pergunta essencial: de que adianta falar nove idiomas se esse talento não é entregue a Cristo para a salvação das almas?

Saber idiomas é um dom — e todo dom é também um chamado. Cada talento concedido por Deus carrega em si a exigência de uma missão. Assim como na parábola dos talentos (Mt 25,14-30), o servo que escondeu o dom recebido foi condenado não por fazer o mal, mas por não fazer o bem que podia e devia. Isso nos ensina que a omissão, a estagnação e a esterilidade espiritual são formas de infidelidade.

Um poliglota que não escreve, que não grava vídeos edificantes, que não traduz obras importantes, que não se empenha em formar consciências ou elevar intelectos à luz da verdade, torna-se semelhante a uma árvore que, embora cheia de folhas, não dá fruto. Mais grave ainda é quando esse talento permanece fechado ao serviço de Deus, como se fosse uma conquista meramente pessoal ou acadêmica, e não um instrumento da Providência para evangelizar os povos.

O conhecimento de idiomas deveria estar a serviço da missão. O cristão, especialmente aquele agraciado com talentos raros, não pode esquecer que a finalidade última de toda inteligência é glorificar a Deus e salvar almas. Falar muitas línguas e não evangelizar é como ter acesso a nove pontes e recusar-se a atravessar qualquer uma delas para alcançar o irmão distante. É desperdiçar meios preciosíssimos de caridade.

A vocação sacerdotal, por sua vez, mostra com mais clareza ainda a ordem da vida espiritual: entregar-se totalmente, nos méritos de Cristo, para a salvação das almas. Mesmo o leigo, no seu estado próprio, é chamado a santificar o mundo. O Concílio Vaticano II ensina que os dons do Espírito Santo se destinam a edificar a Igreja e restaurar todas as coisas em Cristo. Como, então, manter o talento em silêncio, fechado em si mesmo, quando o mundo clama por luz, verdade e direção?

É preciso lembrar: não fomos criados para acumular, mas para oferecer. Deus não nos julgará pelo número de línguas que falamos, mas pelo amor com que as usamos para edificar, ensinar, consolar, corrigir, converter. O que fazemos com os dons recebidos dirá, no dia do Juízo, quem realmente fomos.

Mais do que acumular capacidades, que são passageiras, somos chamados a dar frutos para a vida eterna. Em tempos de tantas palavras vazias, que ao menos as nossas — ditas em qualquer língua — conduzam ao Verbo que se fez carne, habitou entre nós e nos deu, em Sua Cruz, a única linguagem que realmente salva.

Nenhum comentário:

Postar um comentário