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terça-feira, 20 de maio de 2025

O império da quantidade transfigurado pela missão: do Milagre de Ourique à vocação espiritual da diáspora portuguesa

O império da quantidade transfigurado pela missão: do Milagre de Ourique à vocação espiritual da diáspora portuguesa

A multiplicação dos portugueses pelo mundo, especialmente no Brasil, não deve ser considerada apenas sob o ponto de vista da demografia ou da sociologia. Quando a quantidade se converte em presença viva, espiritual, operante — ela se torna um império da quantidade qualificado pela presença total, nos termos metafísicos de Louis Lavelle. Essa transfiguração da história pela missão é o que permite compreender, em chave escatológica e filosófica, o papel da maior colônia portuguesa no mundo: o Brasil.

I. A Herança Espiritual de Ourique

No campo de Ourique, em 1139, Dom Afonso Henriques ouviu de Cristo as palavras que selariam a missão fundacional do povo português: “Por Mim reinarás.” Não se tratava de uma simples legitimação política, mas de um chamado espiritual à realeza enquanto serviço ao Reino de Deus. Portugal não nascia para dominar povos, mas para santificar o tempo e o espaço, levando Cristo aos confins da terra.

Esse juramento fundacional estabelece uma vinculação sacramental entre a missão do rei e a missão de seu povo, fazendo de Portugal, como escreveu Vieira, "o novo Israel", o povo eleito para preparar a instauração do Quinto Império — aquele do Espírito Santo, onde o saber e a fé se uniriam na plenitude dos tempos.

II. A Filosofia da Presença Total

Para Louis Lavelle, a presença total é a condição mais elevada do ser: é o ser que se oferece inteiramente, que participa do Todo, que serve ao bem e à verdade como expressões de sua própria substância. Ora, não seria exatamente isso o que fez o povo português, espalhando-se pelo mundo, mas nunca perdendo o senso de missão de servir a Cristo em terras distantes?

O Brasil, como maior expressão quantitativa da diáspora portuguesa, é o lugar onde essa presença espiritual reencontra sua vocação histórica. A quantidade (milhões de cidadãos com ligação a Portugal) torna-se portadora de sentido e responsabilidade, quando animada por esse espírito fundacional que a história não apagou, apenas adormeceu.

III. A Missão Atual: Reencarnar Portugal

Estamos, portanto, diante de uma encruzilhada: ou o Brasil se limita a ser um reduto estatístico da cultura portuguesa, ou ele assume sua missão espiritual como extensão do Reino prometido em Ourique. Isso implica reencarnar Portugal não como ideia geopolítica, mas como princípio vivente de santificação da história.

Se a democracia portuguesa quiser estar à altura de seu próprio milagre fundacional, deverá reconhecer essa missão na própria estrutura de sua representatividade política — ampliando o número de representantes oriundos do Brasil, não apenas por justiça histórica ou pragmatismo eleitoral, mas porque é no Brasil que pulsa, hoje, a alma viva de Portugal.

O império da quantidade se redime quando deixa de ser dispersão e se torna presença. Quando a multidão de brasileiros com alma portuguesa se reconhece como parte de uma missão histórica — a de servir a Cristo — então se cumpre, uma vez mais, a palavra do Senhor ao Rei Fundador: “Por Mim reinarás.”

Bibliografia recomendada:

  • Lavelle, Louis. La Présence Totale. Paris: Aubier, 1934.

  • Vieira, Pe. Antônio. História do Futuro e Sermões. Lisboa: Sá da Costa.

  • Guénon, René. O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos. São Paulo: Pensamento.

  • Carvalho, Olavo de. O Jardim das Aflições. Rio de Janeiro: Record, 1995.

  • Barbosa, João Ameal. História de Portugal. Lisboa: Livraria Civilização.

  • Cunha, D. José Sebastião da Silva. Ourique – O Milagre e a Missão de Portugal. Lisboa: União Gráfica, 1955.

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