Por mais que os ventos democráticos tenham alçado operários ao poder, o simples acesso à cadeira presidencial não basta para que alguém se revista da estatura simbólica e moral que a função exige. O caso de Luiz Inácio Lula da Silva é emblemático dessa realidade trágica. Seu comportamento diante de presentes diplomáticos de alto valor — materiais e simbólicos — revela não apenas ignorância institucional, mas um tipo de indigência espiritual que agride a própria ideia de República.
Quando um chefe de Estado oferece a outro um presente, não se trata de uma troca pessoal de favores ou agrados, como ocorre entre velhos camaradas em uma roda de bar. Trata-se de um gesto que carrega séculos de tradição diplomática, densidade simbólica e compromisso com o respeito mútuo entre nações. Esses objetos não são “tranqueiras”, como Lula se referiu em um de seus comentários infelizes; são testemunhos materiais de relações de Estado, pertencentes não ao indivíduo que momentaneamente ocupa o cargo, mas à história da Nação.
É fácil imaginá-lo recebendo um vaso de porcelana chinesa da Dinastia Ming — símbolo de uma civilização milenar, de delicadeza artística e de valor histórico inestimável — e, com um encolher de ombros, classificando-o como “tranqueira chinesa”. Nessa imagem, tragicômica, revela-se a falência simbólica de um chefe de Estado que não reconhece a diferença entre o que é legado e o que é bugiganga.
A presidência da República é uma instituição histórica. Ao ocupá-la, o cidadão eleito torna-se guardião de símbolos, condutas e responsabilidades que o transcendem. Ele é, enquanto presidente, uma espécie de altar vivo da soberania nacional — algo que exige contenção, solenidade, consciência institucional e, acima de tudo, uma humildade elevada: a humildade de saber que ali não está para si, mas para o país.
Lula, no entanto, parece encarar o cargo como um prolongamento de sua trajetória pessoal, como se cada gesto diplomático fosse uma homenagem a ele, o “companheiro”, e não ao Brasil. Nesse horizonte de consciência limitado, tudo se reduz ao que pode ser utilizado, apropriado, consumido — como se a presidência fosse uma extensão sindical de sua personalidade carismática. Assim, ele reduz o que é grande ao que é pequeno: o que deveria ser patrimônio público, ele trata como espólio privado.
Como já observava o historiador Marcelo Andrade, Lula é consequência direta de Getúlio Vargas. Ambos representam uma forma de poder assentada no personalismo carismático, na tutela estatal dos pobres e na confusão entre o chefe e o Estado. A diferença é que, enquanto Vargas ainda compreendia os rituais simbólicos do poder — e os cultivava com certo zelo —, Lula parece desprezá-los por completo, tratando a presidência como um espaço de apropriação afetiva e patrimonialista. Se Vargas modelou o Estado como pai dos pobres, Lula o transforma em herança do "companheiro", confundindo populismo com governo e carisma com autoridade.
Tal comportamento não é apenas deselegante. É perigoso. Pois mina as bases simbólicas da autoridade presidencial, transforma a liturgia do cargo em mera pantomima populista e abre espaço para a corrosão das instituições por dentro. O resultado é um país sem memória, sem respeito pelos seus próprios rituais, sem hierarquia entre o Estado e o indivíduo — um Brasil onde tudo é pessoal, onde tudo se reduz ao “eu”.
Eis a tragédia: além de Lula não saber administrar, ele nunca aprendeu a habitar simbolicamente a presidência da República. Sua linguagem, seus gestos e sua mentalidade apontam uma ausência de formação interior que o impede de distinguir entre o que é seu e o que pertence à Nação. Por isso, o que deveria ser honrado como relíquia diplomática é tratado como “tranqueira”; e o que deveria ser preservado como patrimônio do povo é guardado como lembrança privada de um reinado personalista, mais do que particular.
Em tempos de profunda crise institucional, o Brasil precisa de líderes que compreendam a nobreza do cargo que ocupam. Que saibam ser mais do que gestores, mais do que articuladores políticos: que saibam ser símbolos vivos da Pátria. Até que isso aconteça, continuaremos assistindo à triste cena de um país sequestrado por personalidades que não sabem — e talvez nunca tenham sabido — o que é ser Chefe de Estado.
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