Vivemos numa era em que a linguagem foi cuidadosamente moldada para parecer inofensiva, inclusiva e comercialmente aceitável. Termos como “family friendly” — que deveriam resguardar valores sólidos e inegociáveis — passaram a designar um tipo de entretenimento que evita o conflito, mas também evita a verdade. Em nome de um falso bem-estar, esvazia-se o conteúdo de toda substância moral. O resultado é claro: um ambiente que parece acolher todas as famílias, menos as que de fato defendem a família natural, fundada em Cristo.
“Family friendly” não é sinônimo de “pró-família”. Essa confusão semântica esconde um abismo. O conteúdo “amigável à família” do YouTube e outras plataformas geralmente se resume a não conter palavrões, cenas de violência explícita ou erotismo — mas, ao mesmo tempo, tolera, normaliza e até promove ideologias contrárias à ordem natural e à fé cristã. Assim, elimina-se o escândalo visível, mas mantém-se a mentira estruturante. Substitui-se o pecado escandaloso pela anestesia moral.
A falsa unidade que ignora a verdade
Como católico, não posso ignorar que Cristo é sinal de contradição. Ele mesmo afirma:
“Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas espada.” (Mt 10,34)
Essa espada é a da verdade, que separa o justo do injusto, o que ama a luz daquele que prefere as trevas. Não há como viver uma fé verdadeira querendo evitar o conflito que a verdade naturalmente gera com o mundo. A falsa paz promovida pelos conteúdos “neutros” é apenas um manto de conveniência sobre a omissão da cruz.
Sobre casamento e comunidade: sem idem velle, idem nolle, não há unidade
Na lógica católica, não se constitui família verdadeira sem uma comunhão profunda de valores. O que une marido e mulher, além do amor sensível, é a vontade unificada em Cristo: idem velle, idem nolle — querer e não querer as mesmas coisas. Onde não há unidade na fé, na moral e na direção espiritual, o matrimônio se torna uma casa dividida. E toda casa dividida... não subsiste (cf. Mt 12,25).
Aceitar viver com alguém que rejeita ou relativiza aquilo que é central para a própria salvação seria como pedir a um soldado que divida sua trincheira com o inimigo. E mais: seria condenar os filhos a uma formação esquizofrênica, onde o pai fala de Cristo e a mãe o contradiz, ou vice-versa. A confusão se torna herança, e a herança, maldição.
O risco do salto de galho em galho
Se o fiel renuncia à verdade para buscar apenas consolo emocional, termina como um animal pulando de galho em galho — de igreja em igreja, de doutrina em doutrina — até encontrar algum pastor-asno que lhe afague o ego e justifique suas fraquezas. Esse é o risco de quem substitui a cruz pela conveniência, o sacrifício pela emoção, a doutrina pela carência afetiva.
Não é o conforto que salva, é a cruz. Não é a aceitação social, mas a fidelidade à verdade. Cristo não se fez homem para nos entreter, mas para nos redimir. A verdadeira família cristã é fundada não no sentimentalismo, mas no sangue derramado da cruz, no amor que é sacrifício e obediência.
Conclusão: A verdadeira defesa da família começa na verdade
É preciso recuperar o verdadeiro sentido de “pró-família”. Não basta defender a instituição da família em abstrato: é preciso defender a família cristã em Cristo, por Cristo e para Cristo. Uma família que viva segundo os mandamentos, os sacramentos e a doutrina imutável da Igreja. Qualquer outra coisa é fachada.
E quanto ao conteúdo “family friendly”? Que fique claro: um conteúdo que silencia sobre a verdade, que evita falar de Deus, que foge da cruz e que substitui a doutrina pela neutralidade... pode ser “amigável à família” moderna, mas é inimigo da família católica.
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