Por vezes, o zelo pela verdade exige não apenas o silêncio meditativo do monge, mas o brado inflamado do profeta. O combate espiritual, que é exigência de todo batizado, não se resume a gestos de mansidão ou à linguagem polida que muitos confundem com caridade. Há momentos, e não são poucos na história da Igreja, em que a verdade precisa ser defendida com palavras duras, viris, até escandalosas para os ouvidos moralmente adormecidos. É neste espírito que se compreende, com a devida prudência e distinção, aquilo que poderíamos chamar — com uma ponta de ironia providencial — de apostolado dos palavrões.
Essa expressão, inspirada por uma anedota associada a São Josemaría Escrivá, não deve ser entendida como um incentivo ao palavrão vulgar, gratuito ou pecaminoso. Pelo contrário, trata-se de uma provocação que visa despertar nos fiéis a consciência de que o combate à mentira, à hipocrisia e ao escárnio dos valores sagrados pode exigir uma linguagem cortante. Quando os vendilhões do templo se instalam no coração da Igreja ou quando os conservadores de conveniência — que se dizem de direita, mas vivem à esquerda da verdade — se tornam obstáculos à graça, a linguagem deve deixar de ser diplomática para se tornar profética.
O zelo pela verdade nos obriga a nomear os inimigos da Santa Igreja como nossos inimigos pessoais, não por ódio, mas por amor à justiça. A ira santa — aquela que brota do horror ao pecado e da fidelidade ao Bem — é virtude, não vício. Dizer palavrões com propósito moral, dirigidos a quem faz da religião um teatro ou da política uma idolatria, pode ser, paradoxalmente, um ato de caridade: pois quem grita, ainda se importa. E quem ainda se importa, corrige.
É nesse espírito que afirmo: na minha jornada de tomar a Polônia como lar em Cristo, tanto quanto o Brasil, a última coisa que farei é ofender o povo que me acolhe com vulgaridades. O respeito pela nova pátria espiritual exige reverência e amor. Mas se me virem proferindo palavras duras, saibam: não é contra o povo, mas contra aqueles que, revestidos de conservadorismo nominal, destroem as bases da fé e da ordem, protegendo o que é conveniente e dissociado da Verdade.
Esses são os mais perigosos. Não são os inimigos declarados da fé, mas os disfarçados de aliados. São esses que, com ar de piedade e discursos decorados, se colocam à esquerda do Pai naquilo que é mais sagrado, minando a confiança dos simples e relativizando os fundamentos morais do Evangelho. Contra esses, o combate deve ser sem concessões.
É preciso, sim, xingar — se for necessário —, mas com a alma em estado de graça, com o coração voltado ao céu, e com o firme propósito de que cada palavra, por mais ríspida, seja uma centelha de fogo que purifique, não que destrua.
A linguagem do profeta não é a da etiqueta, mas a da espada. E esta espada deve cortar no ponto certo, separando o osso da medula, a hipocrisia da santidade, o fingimento da fidelidade.
Conclusão:
O verdadeiro conservador é aquele que conserva a Verdade - a dor de Cristo, mesmo quando ela incomoda. E o verdadeiro apóstolo é aquele que, por amor à Verdade, enfrenta seus inimigos com coragem, usando até os palavrões, se for o caso, como pedras contra os lobos vestidos de cordeiro.
Afinal, como já dizia Santo Agostinho: "Ama e faze o que quiseres". Mas ama a Verdade acima de tudo. Pois ela é Cristo. E Cristo não tolerou os vendilhões do templo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário