De Nilo Peçanha a Lula: a travessia de uma nação entre a virtude e o buraco negro da alma
A história do Brasil é marcada por paradoxos. Entre eles, talvez um dos mais expressivos seja a travessia simbólica que vai de Nilo Peçanha, o primeiro presidente negro da República, até Luiz Inácio Lula da Silva, o “operário” que chegou ao topo do Estado. À primeira vista, ambos representam o triunfo do povo sobre as elites. No entanto, uma análise mais profunda revela que suas presidências, embora comparáveis no símbolo da ascensão popular, estão em extremos opostos quanto à integridade moral, ao respeito institucional e ao destino espiritual da nação.
A Exceção Republicana: Nilo Peçanha
Filho de uma lavadeira negra e de um pequeno comerciante português, Nilo Peçanha assumiu a presidência em 1909, após a morte de Afonso Pena. Sua figura rompeu com o perfil padrão dos presidentes da Primeira República: oligarcas, brancos, fazendeiros. Peçanha era negro — fato que muitos tentaram encobrir ou relativizar na época — e sua carreira política foi pautada pelo esforço técnico, pelo mérito e pela lealdade à ordem republicana.
Mesmo governando em um sistema ainda profundamente marcado pelo racismo e pelo patrimonialismo, Nilo Peçanha defendeu a instrução técnica e o progresso real das classes trabalhadoras. Foi o idealizador das escolas de aprendizes-artífices, embriões da atual rede federal de institutos tecnológicos. Mais do que um símbolo, ele foi uma consequência indireta e digna da Lei Áurea: uma promessa de que, apesar das barreiras, a liberdade poderia dar frutos no campo da virtude e da civilização.
O Bárbaro da Nova República: Luiz Inácio Lula da Silva
Quase um século depois, o Brasil assistiu à ascensão de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-operário do ABC paulista, sindicalista carismático, fundador do Partido dos Trabalhadores. Se Nilo Peçanha é a imagem da exceção virtuosa, Lula é a imagem da exceção transformada em regra por um processo de corrosão institucional iniciado por Getúlio Vargas.
De Vargas, Lula herda o Estado hipertrofiado, o populismo trabalhista e a manipulação simbólica do “povo”. Mas vai além: ao invés de criar instituições sólidas, Lula as aparelha. Ao invés de buscar a verdade, manipula a linguagem. Em vez de formar cidadãos, alimenta massas dependentes. Seu governo é a obra-prima do marketing sobre a moral, da narrativa sobre o real, da mentira vestida de justiça social.
Mário Ferreira dos Santos e o Buraco Negro da Alma
O filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos, em suas reflexões sobre a crise da civilização, alertou para a existência de “buracos negros da alma” — regiões do espírito humano onde a ordem do ser é tragada por forças que negam a verdade, o bem e a beleza. Esses buracos são criados pela desordem intelectual, pelo relativismo moral e pela renúncia à responsabilidade.
Se aplicarmos essa chave filosófica à política brasileira, Lula não é apenas um ator político — ele é o arquétipo de um país que perdeu o rumo, que substituiu a virtude pela esperteza, que trocou a busca da justiça pela vingança simbólica das classes. Lula é o buraco negro da alma política brasileira: uma força centrífuga que atrai tudo — ideias, afetos, instituições — para o vórtice do personalismo irresponsável e da retórica vazia.
O contraste como diagnóstico de um destino
Entre Nilo Peçanha e Lula não há apenas um século de distância, mas dois projetos de nação. O primeiro representava a possibilidade de uma república regenerada por homens de mérito, mesmo vindos de origens desprezadas. O segundo representa a vitória do ressentimento transformado em máquina de poder, onde a ascensão social não se faz pela educação e pelo trabalho, mas pela manipulação da narrativa e pelo culto ao líder.
Peçanha ascendia dentro da ordem, respeitando suas regras e tentando elevá-las. Lula invadiu a ordem como um bárbaro moderno — não para reconstruí-la, mas para submetê-la a um projeto de poder pessoal e ideológico. Um chegou ao topo por ser digno; o outro, por ser útil à lógica da desintegração institucional que Mário Ferreira dos Santos tanto temia.
Conclusão: Virtude ou Vórtice?
Nilo Peçanha apontava para a luz da república virtuosa; Lula para o abismo da república cínica. O primeiro simboliza o Brasil que poderíamos ter sido: exigente, racional, civilizado. O segundo simboliza o Brasil que de fato nos tornamos: sentimental, manipulável, bárbaro.
A escolha entre um e outro — entre o que representam — continua sendo oferecida a cada geração. E essa escolha não é apenas política. É, antes de tudo, uma escolha de alma.
Bibliografia Recomendada
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VIANA FILHO, Luiz. Nilo Peçanha, uma biografia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975.
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FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: EdUSP, 2006.
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