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sábado, 17 de maio de 2025

De Nilo Peçanha a Lula: a travessia de uma nação entre a virtude e o buraco negro da alma

De Nilo Peçanha a Lula: a travessia de uma nação entre a virtude e o buraco negro da alma

A história do Brasil é marcada por paradoxos. Entre eles, talvez um dos mais expressivos seja a travessia simbólica que vai de Nilo Peçanha, o primeiro presidente negro da República, até Luiz Inácio Lula da Silva, o “operário” que chegou ao topo do Estado. À primeira vista, ambos representam o triunfo do povo sobre as elites. No entanto, uma análise mais profunda revela que suas presidências, embora comparáveis no símbolo da ascensão popular, estão em extremos opostos quanto à integridade moral, ao respeito institucional e ao destino espiritual da nação.

A Exceção Republicana: Nilo Peçanha

Filho de uma lavadeira negra e de um pequeno comerciante português, Nilo Peçanha assumiu a presidência em 1909, após a morte de Afonso Pena. Sua figura rompeu com o perfil padrão dos presidentes da Primeira República: oligarcas, brancos, fazendeiros. Peçanha era negro — fato que muitos tentaram encobrir ou relativizar na época — e sua carreira política foi pautada pelo esforço técnico, pelo mérito e pela lealdade à ordem republicana.

Mesmo governando em um sistema ainda profundamente marcado pelo racismo e pelo patrimonialismo, Nilo Peçanha defendeu a instrução técnica e o progresso real das classes trabalhadoras. Foi o idealizador das escolas de aprendizes-artífices, embriões da atual rede federal de institutos tecnológicos. Mais do que um símbolo, ele foi uma consequência indireta e digna da Lei Áurea: uma promessa de que, apesar das barreiras, a liberdade poderia dar frutos no campo da virtude e da civilização.

O Bárbaro da Nova República: Luiz Inácio Lula da Silva

Quase um século depois, o Brasil assistiu à ascensão de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-operário do ABC paulista, sindicalista carismático, fundador do Partido dos Trabalhadores. Se Nilo Peçanha é a imagem da exceção virtuosa, Lula é a imagem da exceção transformada em regra por um processo de corrosão institucional iniciado por Getúlio Vargas.

De Vargas, Lula herda o Estado hipertrofiado, o populismo trabalhista e a manipulação simbólica do “povo”. Mas vai além: ao invés de criar instituições sólidas, Lula as aparelha. Ao invés de buscar a verdade, manipula a linguagem. Em vez de formar cidadãos, alimenta massas dependentes. Seu governo é a obra-prima do marketing sobre a moral, da narrativa sobre o real, da mentira vestida de justiça social.

Mário Ferreira dos Santos e o Buraco Negro da Alma

O filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos, em suas reflexões sobre a crise da civilização, alertou para a existência de “buracos negros da alma” — regiões do espírito humano onde a ordem do ser é tragada por forças que negam a verdade, o bem e a beleza. Esses buracos são criados pela desordem intelectual, pelo relativismo moral e pela renúncia à responsabilidade.

Se aplicarmos essa chave filosófica à política brasileira, Lula não é apenas um ator político — ele é o arquétipo de um país que perdeu o rumo, que substituiu a virtude pela esperteza, que trocou a busca da justiça pela vingança simbólica das classes. Lula é o buraco negro da alma política brasileira: uma força centrífuga que atrai tudo — ideias, afetos, instituições — para o vórtice do personalismo irresponsável e da retórica vazia.

O contraste como diagnóstico de um destino

Entre Nilo Peçanha e Lula não há apenas um século de distância, mas dois projetos de nação. O primeiro representava a possibilidade de uma república regenerada por homens de mérito, mesmo vindos de origens desprezadas. O segundo representa a vitória do ressentimento transformado em máquina de poder, onde a ascensão social não se faz pela educação e pelo trabalho, mas pela manipulação da narrativa e pelo culto ao líder.

Peçanha ascendia dentro da ordem, respeitando suas regras e tentando elevá-las. Lula invadiu a ordem como um bárbaro moderno — não para reconstruí-la, mas para submetê-la a um projeto de poder pessoal e ideológico. Um chegou ao topo por ser digno; o outro, por ser útil à lógica da desintegração institucional que Mário Ferreira dos Santos tanto temia.

Conclusão: Virtude ou Vórtice?

Nilo Peçanha apontava para a luz da república virtuosa; Lula para o abismo da república cínica. O primeiro simboliza o Brasil que poderíamos ter sido: exigente, racional, civilizado. O segundo simboliza o Brasil que de fato nos tornamos: sentimental, manipulável, bárbaro.

A escolha entre um e outro — entre o que representam — continua sendo oferecida a cada geração. E essa escolha não é apenas política. É, antes de tudo, uma escolha de alma.

Bibliografia Recomendada

  1. VIANA FILHO, Luiz. Nilo Peçanha, uma biografia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975.

  2. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: EdUSP, 2006.

  3. SINGER, André. Os sentidos do lulismo: Reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

  4. VILLA, Marco Antonio. Mensalão: O julgamento do maior caso de corrupção da história política brasileira. São Paulo: LeYa, 2012.

  5. SANTOS, Mário Ferreira dos. Filosofia Concreta. São Paulo: Matese, 1955.

  6. SANTOS, Mário Ferreira dos.. Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais. São Paulo: Logos, 1960–1971.

  7. ROUANET, Sérgio Paulo. Mal-estar na modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

  8. PRADO JR., Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1942.

  9. CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

  10. FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de A. Neves (orgs.). O Brasil Republicano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, várias edições.

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