Enunciado:
Quando o Brasil se separou de Portugal, alegou-se que o Brasil não era colônia. No entanto, quem ventilou a ideia de que o Brasil era colônia de Portugal, instigou o Brasil a separar-se de Portugal e acabou por conduzi-lo a ser inicialmente uma colônia de banqueiros para depois ser colônia da China. É aqui que temos o ponto de contato entre a História das Ideias com a História das Mentalidades, onde ideias falsas são convenientemente conservadas fora da verdade de modo a justificar uma situação de poder totalmente antinatural, mais ou menos como vemos na América Espanhola onde libertadores aprisionaram e balcanzaram os países da América Espanhola num esquema de dominação travestido, o qual é chamado de Pátria Grande, que é um grande buraco negro espiritual, um verdadeiro horror metafísico, tal como apontou Leszek Kołakowski.
1. A aparente negação da condição colonial
O Império do Brasil foi inaugurado com um gesto de aparente continuidade: D. Pedro I rompe com Portugal, mas assume o trono em solo brasileiro, preservando as instituições e o pacto oligárquico vigente. Alegou-se que o Brasil nunca fora colônia, mas parte integrante do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Essa afirmação, no entanto, escondia um estratagema político: evitar a radicalização social e o conflito, garantindo a transição da dominação externa para uma dominação interna pactuada entre as elites.
A narrativa da não-colônia serviu para mascarar o fato de que o Brasil havia se tornado, na prática, uma colônia de exploração — sem autonomia administrativa, econômica ou espiritual — e que a independência proclamada era apenas a troca de Nosso Senhor Jesus Cristo e da missão de servir ao verdadeiro Rei dos dos Reis em terras distantes, tal como estabelecida em Ourique, pela servidão ao capital internacional - e essa secessão não resultou em verdadeira independência.
2. A transição para a colônia dos banqueiros
Ao se separar de Portugal, o Brasil contraiu imediatamente uma dívida com a Inglaterra como condição para que esta reconhecesse sua independência. Aqui se inicia a segunda fase da dominação: a submissão ao capital internacional. A dependência econômica e financeira moldou o país, sua legislação, suas obras de infraestrutura e até sua política externa.
A proteção da coroa portuguesa foi trocada pelos títulos de dívida britânicos. A liberdade em Cristo, por Cristo e para Cristo tornou-se colonialismo financeiro, quando se alegou a mentira de que o Brasil era colônia de Portugal. O império, e depois a república, passaram a girar em torno de compromissos com credores internacionais — e não com a população brasileira.
3. O novo colonizador: a China
No século XXI, a relação de dependência mudou de polo, mas não de essência. Hoje, o Brasil é economicamente subordinado à China, não apenas como parceiro comercial, mas como fornecedor estrutural de matérias-primas e território de influência estratégica. O novo colonizador não veste farda nem exige proclamações, mas impõe uma servidão econômica, tecnológica e moral.
Essa dominação, também travestida de parceria e pragmatismo, revela a permanência de uma mentalidade colonial internalizada: a incapacidade de pensar o Brasil a partir de princípios próprios, fundados na verdade, na justiça e na fidelidade à sua vocação civilizacional.
4. O ponto de contato entre as ideias e as mentalidades
É aqui que se evidencia a convergência entre a história das ideias e a história das mentalidades. As ideias que moldaram a secessão brasileira — fundada numa pretensa liberdade, num pretenso progresso, numa pretensa modernidade — foram, em grande parte, importadas, mal compreendidas e instrumentalizadas. Ao serem absorvidas sem o lastro espiritual e cultural adequado, tornaram-se ferramentas de dominação simbólica e política.
A mentira sustentada pela elite intelectual e política — de que o Brasil havia se libertado — criou uma mentalidade coletiva de dependência, submissão e passividade. A liberdade tornou-se uma máscara para ocultar novas formas de servidão.
5. O horror metafísico da Pátria Grande
O mesmo processo ocorre na América Hispânica. Os chamados "libertadores" — Bolívar, San Martín e outros — não libertaram os povos, mas fragmentaram os antigos vice-reinados em repúblicas artificiais, instáveis e suscetíveis à dominação estrangeira. O ideal da "Pátria Grande", longe de ser uma verdadeira comunhão dos povos, é uma construção ideológica com fundo revolucionário, que serve para diluir identidades nacionais, eliminar referências espirituais e instaurar uma nova Babel geopolítica.
Neste cenário, Leszek Kołakowski oferece uma chave de leitura precisa: as utopias modernas — sejam comunistas, liberais ou nacionalistas — frequentemente ocultam um horror metafísico, pois operam a negação radical da verdade, da ordem e da transcendência. A Pátria Grande, nesse sentido, não é uma expressão de fraternidade, mas um buraco negro espiritual: um espaço onde tudo é permitido, menos a verdade.
Bibliografia Comentada
Para entender a profundidade do que foi exposto, recomenda-se o estudo das seguintes obras:
1. Leszek Kołakowski – Main Currents of Marxism / Horror Metaphysical Essays
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Fundamenta a crítica ao materialismo moderno e às ideologias revolucionárias como fontes de desordem espiritual.
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Esclarece como as ideias utópicas, quando desconectadas da verdade, produzem um vácuo metafísico.
2. Gilberto Freyre – Casa-Grande & Senzala
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Oferece base para entender a formação da mentalidade brasileira e os mitos fundadores da nacionalidade.
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Sua análise pode ser usada para compreender como a negação da colônia entra no imaginário social.
3. Olavo de Carvalho – O Jardim das Aflições
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Mostra a permanência das estruturas de dominação no tempo, mesmo sob diferentes nomes.
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Critica a modernidade como destruidora da ordem espiritual e da fidelidade ao verdadeiro Deus.
4. Alceu Amoroso Lima – A Ordem e o Progresso
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Expõe a tensão entre o ideal positivista da república e a vocação espiritual do Brasil.
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Trata da deformação da liberdade quando descolada da ordem moral e transcendente.
5. Josiah Royce – The Philosophy of Loyalty
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Indicado por Olavo de Carvalho, mostra que a verdadeira liberdade só pode existir quando há lealdade a uma ordem superior.
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Fundamenta o papel da fidelidade à verdade na constituição de uma sociedade saudável.
6. Raymond Aron – O Ópio dos Intelectuais
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Ajuda a entender como ideias falsas são mantidas no debate público para justificar estruturas ilegítimas de poder.
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Esclarece o papel das elites intelectuais na fabricação de consensos ilusórios.
7. Manuel García Pelayo – Las Formas Modernas de Gobierno
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Oferece uma visão crítica da fragmentação dos países hispano-americanos após a independência.
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Mostra como o "balcanização" serve para impedir qualquer projeto político soberano.
Conclusão
A verdadeira independência não é um ato jurídico nem um gesto político isolado: é um processo de reconquista da verdade sobre si mesmo. Enquanto o Brasil não reconhecer as mentiras que ensejaram sua separação de Portugal, e enquanto a América Latina não romper com o imaginário revolucionário da Pátria Grande, não haverá liberdade, mas apenas dominação travestida de liberdade.
Trata-se de uma questão espiritual, não apenas geopolítica. A libertação exige lealdade à verdade, à ordem, e, acima de tudo, a Cristo — o único libertador que não impõe servidão.
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