Pesquisar este blog

terça-feira, 20 de maio de 2025

Brasil, a nova sede da nação portuguesa?

Brasil, a nova sede da nação portuguesa?

Vivemos tempos de redefinição silenciosa, mas poderosa, no que diz respeito às identidades nacionais e ao alcance da cidadania além-fronteiras. Em nenhum outro caso isso se mostra tão evidente quanto na relação entre Portugal e Brasil — uma relação antiga, visceral e, nos tempos recentes, cada vez mais entrelaçada por vínculos jurídicos e afetivos concretos. Estima-se que cerca de 55 milhões de brasileiros possuam algum tipo de ligação com Portugal, seja por ascendência, cultura ou até pela aquisição formal da nacionalidade portuguesa1.

Este dado não deve ser tratado apenas como curiosidade demográfica: ele tem consequências políticas de longo alcance.

Uma nação além-mar

Portugal é um país com pouco mais de 10 milhões de habitantes. Já o Brasil, com mais de 200 milhões, abriga a maior comunidade luso-descendente do mundo. Há centenas de milhares de brasileiros que já possuem passaporte português, e outros milhões aptos a requerê-lo2. Essa cidadania, por sua vez, não é meramente simbólica: ela confere direitos políticos plenos, incluindo o direito de votar e ser votado nas eleições portuguesas.

Neste cenário, impõe-se uma pergunta: está Portugal preparado institucionalmente para a realidade de que uma parte crescente de seu povo vive, trabalha, pensa e vota a partir de fora do território continental — sobretudo a partir do Brasil?

A sub-representação da diáspora

Atualmente, os portugueses residentes no exterior elegem apenas dois deputados na Assembleia da República: um pelo círculo da Europa e outro pelo “resto do mundo”, que engloba toda a África, América, Ásia e Oceania3. É uma representação flagrantemente insuficiente para dar voz à complexidade e à força numérica da diáspora — e, mais especificamente, à comunidade luso-brasileira.

Imagine uma situação hipotética (mas não tão distante) em que o número de portugueses no Brasil com direito a voto ultrapasse o número de eleitores em algumas regiões metropolitanas de Portugal. Estariam essas pessoas, que vivem uma realidade profundamente conectada à pátria-mãe, adequadamente representadas por apenas metade de um deputado, se considerarmos o Brasil dividido com todos os outros países do “resto do mundo”?

A lógica imperial ao contrário

Durante séculos, Portugal exerceu seu domínio colonial a partir da Europa. No entanto, com o tempo, o eixo cultural e populacional foi se deslocando. A história registra o curioso episódio de 1808, quando a corte portuguesa, fugindo de Napoleão, transferiu-se para o Rio de Janeiro — e, com ela, o próprio centro do Império4. Por mais que o retorno a Lisboa tenha ocorrido anos depois, os efeitos simbólicos dessa mudança persistem.

Hoje, a situação se inverte: não se trata mais de um império administrando colônias, mas de uma cidadania compartilhada cuja maioria potencial encontra-se em um território estrangeiro. O Brasil, que já foi periferia, se torna, sob certo ponto de vista, um centro possível da nação portuguesa ampliada.

Propostas para o futuro

Diante desse novo panorama, impõe-se a necessidade de reformas políticas estruturais em Portugal. Algumas propostas viáveis seriam:

  • Aumentar o número de deputados eleitos pela emigração, com divisões regionais mais justas (por exemplo, um círculo exclusivo para a América do Sul ou mesmo para o Brasil);

  • Criar um Conselho da Diáspora com poderes consultivos reais, participando da formulação de políticas públicas voltadas à comunidade luso-descendente;

  • Estabelecer um canal permanente de diálogo entre o parlamento português e os representantes da diáspora, por meio de embaixadas culturais, universidades e conselhos locais.

Essas reformas, longe de enfraquecer a soberania portuguesa, a fortaleceriam, reconhecendo que o futuro de Portugal não está limitado à sua geografia, mas ao seu povo — onde quer que ele esteja.

Conclusão

Portugal precisa olhar para o Brasil não apenas como um parceiro comercial, destino turístico ou aliado cultural, mas como parte integrante de sua própria existência política contemporânea. E o Brasil, por sua vez, deve compreender que carrega, em muitos de seus filhos, uma identidade lusa adormecida, mas viva — pronta para ser despertada em nome de um projeto comum.

Talvez, enfim, estejamos voltando àquela misteriosa profecia de Vieira: a do Quinto Império, não como dominação militar ou colonial, mas como uma comunhão de nações unidas pelo espírito, pela língua e pela fidelidade a um bem maior do que o interesse imediato. E para isso, precisamos de representação. Porque onde está o povo, ali deve estar o Parlamento.

Referências

  1. Instituto Camões / Observatório da Emigração Portuguesa – Relatórios indicam números estimados de luso-descendentes pelo mundo. Ver também: Comunidade Luso-Brasileira e os Direitos de Cidadania, por João Pedro Teixeira Fernandes (Revista Lusófona de Ciência Política, 2021).

  2. Lei da Nacionalidade Portuguesa (Lei n.º 37/81, atualizada pela Lei Orgânica n.º 2/2020), que permite a atribuição da nacionalidade a netos de portugueses e, em alguns casos, bisnetos.

  3. Assembleia da República Portuguesa – Informações sobre os círculos eleitorais e representação dos portugueses no estrangeiro: www.parlamento.pt.

  4. SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa M. Brasil: Uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. Ver também: COSTA, Fernando Dores. O Império à Sombra do Brasil: A Corte no Rio de Janeiro (1808-1821). Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações das Descobertas Portuguesas, 2008.

Nenhum comentário:

Postar um comentário