1. Introdução
O material gráfico de campanha eleitoral cumpre, em diferentes países, a função básica de apresentar o candidato ao eleitor. Contudo, a forma, o uso e o significado simbólico desse material variam conforme o sistema eleitoral, a cultura política e a história de cada sociedade. No Brasil, destaca-se o chamado “santinho”, enquanto na Polônia predominam a ulotka wyborcza (panfleto eleitoral) e o plakat wyborczy (cartaz eleitoral). Embora funcionalmente semelhantes, esses instrumentos expressam concepções distintas da relação entre eleitor, voto e memória política.
2. O “santinho” no contexto brasileiro
O “santinho” é um pequeno impresso que contém, de forma sintética:
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Foto do candidato
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Nome
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Cargo disputado
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Partido
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Número a ser digitado na urna eletrônica
Sua função principal não é apenas informativa, mas operacional. Como o voto no Brasil é realizado por meio da digitação de um número, o santinho atua como um auxílio mnemônico, permitindo ao eleitor lembrar-se com precisão do código do candidato no momento da votação.
O termo “santinho” deriva da analogia com os tradicionais cartões religiosos católicos, que trazem imagens de santos acompanhadas de identificação. Essa associação revela um traço cultural brasileiro: a incorporação de referências religiosas populares ao vocabulário político cotidiano, ainda que de forma informal e simbólica.
Além disso, o santinho é frequentemente usado como uma espécie de “cola eleitoral”, sendo levado pelo eleitor até a seção de votação. Assim, ele se insere diretamente no ato do voto, tornando-se parte do ritual eleitoral brasileiro.
3. O material gráfico eleitoral na Polônia
Na Polônia, o material equivalente é denominado de forma estritamente descritiva:
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Ulotka wyborcza – panfleto eleitoral
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Plakat wyborczy – cartaz eleitoral
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Materiały wyborcze – materiais de campanha, em sentido amplo
Esses materiais contêm foto, nome, filiação partidária e propostas do candidato. Contudo, diferentemente do Brasil, o eleitor polonês não vota por número, mas sim marcando o nome do candidato ou da lista partidária. Por isso, não existe a mesma necessidade de um suporte visual voltado à memorização numérica.
O material gráfico polonês tem função predominantemente informativa e persuasiva, e não operacional. Ele atua no período de campanha, mas não acompanha o eleitor até a cabine de votação como instrumento de consulta direta.
Outro aspecto relevante é a ausência de analogias religiosas no vocabulário político cotidiano. Apesar de a Polônia ser um país de maioria católica, sua cultura institucional tende a separar linguagem religiosa e linguagem eleitoral, especialmente após a experiência histórica do comunismo e da transição democrática
4. Diferenças funcionais
| Aspecto | Brasil (Santinho) | Polônia (Ulotka/Plakat) |
|---|---|---|
| Sistema de voto | Numérico (urna eletrônica) | Nominal (marca no nome/lista) |
| Função principal | Lembrar o número do candidato | Informar e persuadir |
| Uso no dia da votação | Frequente | Raro |
| Linguagem simbólica | Popular, com referência religiosa | Técnica e neutra |
| Papel cultural | Parte do ritual eleitoral | Material de campanha convencional |
O santinho integra o momento decisório do voto; o material polonês integra sobretudo o processo formativo da opinião do eleitor.
5. Dimensão cultural e simbólica
No Brasil, o santinho revela:
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A centralidade da imagem
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A necessidade de memorização numérica
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A informalidade do vocabulário político
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A presença simbólica da religiosidade popular
Na Polônia, o material gráfico revela:
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Ênfase na identificação nominal
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Linguagem institucional
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Separação entre política e simbologia religiosa
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Foco programático mais explícito
Essas diferenças refletem não apenas escolhas técnicas, mas visões distintas sobre como o cidadão se relaciona com o processo político.
6. Conclusão
Embora o “santinho” brasileiro e a ulotka wyborcza polonesa cumpram a mesma função geral — divulgar candidatos —, eles pertencem a universos culturais distintos. O santinho é um instrumento prático, quase ritual, integrado ao ato de votar. O material polonês, por sua vez, permanece no campo da informação e da persuasão pré-eleitoral.
Assim, o santinho não é apenas um panfleto: é uma expressão cultural do modo brasileiro de vivenciar a política, marcado pela oralidade, pela imagem, pela memória numérica e por referências simbólicas herdadas da religiosidade popular.
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