A confusão entre nação e empresa tem sido um problema recorrente no discurso político e administrativo moderno. A afirmação de que o Brasil “não é uma empresa” não é apenas literal, mas carrega uma profunda nuance histórica e civilizacional: a nação não é um instrumento de lucro ou eficiência imediata; é, antes, o resultado de um empreendimento multigeracional que envolve esforço, fé e sacrifício.
Nação como empreendimento de gerações
Ao longo da história, a formação de nações não se reduziu à mera organização administrativa. Ela foi — e continua sendo — fruto do trabalho, da disciplina e da santificação de indivíduos que, conscientes de uma missão superior, buscaram consolidar valores espirituais e morais em terras distantes. A referência à ordem de Cristo em Ourique, que orientava a propagação da fé cristã, exemplifica como certas sociedades se consolidaram a partir de uma missão transcendental, e não de objetivos econômicos imediatos. Cada geração, ao contribuir para o legado nacional, participou de um empreendimento que ultrapassa o cálculo utilitário: construiu uma memória coletiva, uma história de virtudes e serviço à causa maior do bem comum.
A tecnocracia como ofensa à memória ancestral
Quando se aplica à nação a lógica da empresa — centrada em métricas de eficiência, produtividade e otimização —, comete-se uma espécie de horror metafísico. A tecnocaracia ignora a dimensão histórica e espiritual do empreendimento civilizacional, reduzindo gerações de sacrifícios e conquistas a dados gerenciais. Essa redução não é neutra: ela constitui uma ofensa à memória daqueles que, através de seu trabalho e fé, construíram a fundação da sociedade.
O filósofo político Maquiavel já alertava que os seres humanos tendem a se preocupar mais com pequenas ofensas imediatas do que com ataques graves à ordem social ou moral. Essa tendência revela porque a tecnocracia, apesar de sua gravidade, muitas vezes não recebe a crítica que merece. Ao valorizar apenas o que é mensurável, ignora-se o que é essencial: a continuidade histórica, a preservação da fé, a memória dos que nos antecederam.
A distinção necessária
É, portanto, imperativo distinguir empresa de feito de empresa. Uma empresa visa lucro e sobrevivência no curto prazo; uma nação é um empreendimento civilizacional que busca a preservação de valores, cultura e fé através do tempo. A lógica empresarial aplicada a uma sociedade civilizada não apenas falha em capturar sua essência, mas, mais grave, desrespeita a memória e os esforços daqueles que nos legaram esta civilização.
Reconhecer essa distinção não é negar a importância da boa administração ou da organização eficiente. Ao contrário, significa colocar a eficiência administrativa a serviço de uma missão maior: a manutenção da identidade civilizacional e espiritual, de modo que a história e a fé de gerações continuem a orientar o presente e o futuro.
Conclusão
Reduzir a nação a uma empresa é um erro que ultrapassa a esfera pragmática: é uma ofensa ética e histórica. A crítica à tecnocracia deve ser firme e consciente de seu alcance. A verdadeira nação, como empreendimento de gerações santificadas pelo trabalho e pelo serviço a Cristo, exige respeito à memória, preservação dos valores e compreensão do seu caráter transcendental. Somente assim podemos honrar o legado daqueles que, em vida e fé, construíram o fundamento de nossa sociedade.
Bibliografia Comentada
-
Maquiavel, Nicolau. O Príncipe. 1532.
-
Obra clássica do pensamento político que analisa o comportamento humano no poder e na administração de estados. Aqui, Maquiavel nos alerta sobre a tendência humana de valorizar pequenas ofensas imediatas em detrimento de questões de maior importância moral e social, sustentando o argumento de que o tecnocratismo ignora ofensas graves à memória civilizacional.
-
-
Royce, Josiah. The Philosophy of Loyalty. 1908.
-
Filosofia da lealdade como princípio moral que sustenta a continuidade de projetos de longo prazo, incluindo sociedades e nações. A obra fornece a base conceitual para entender a nação como um empreendimento intergeracional, baseado no dever, na fidelidade e na santificação através do trabalho.
-
-
McLuhan, Marshall. Understanding Media: The Extensions of Man. 1964.
-
Apesar de centrado na comunicação, McLuhan oferece insights sobre como tecnologias e sistemas de organização (como a lógica tecnocrática) moldam nossa percepção do mundo. Relevante para compreender como a visão empresarial da nação transforma sua dimensão histórica e espiritual em mera funcionalidade administrativa.
-
-
Carvalho, Olavo de. O Jardim das Aflições. 1995.
-
Reflexões sobre civilização, moralidade e história, destacando a importância de valores metafísicos e espirituais na construção das sociedades. Fundamenta a crítica à redução da nação à lógica de eficiência, reforçando que a memória histórica e o legado moral têm precedência sobre métricas tecnocráticas.
-
-
Turner, Frederick Jackson. The Frontier in American History. 1920.
-
Analisa a formação da identidade americana como resultado de processos históricos, sociais e culturais multigeracionais. Útil para ilustrar como o conceito de “empreendimento de gerações” se aplica ao desenvolvimento de uma nação, mostrando que sociedades são produtos de esforços acumulados ao longo do tempo.
-
-
Siedentop, Larry. Inventing the Individual: The Origins of Western Liberalism. 2014.
-
Explora a construção histórica da liberdade individual e da responsabilidade civil na Europa Ocidental, contextualizando a ideia de que nações não podem ser reduzidas a empresas, pois são resultado de processos éticos e espirituais que ultrapassam o cálculo econômico.
-
-
Heschel, Abraham Joshua. The Prophets. 1962.
-
A obra reforça a perspectiva de que líderes espirituais e movimentos de fé moldaram sociedades, orientando o presente a partir da memória e valores das gerações passadas. Fundamental para sustentar a ideia de que a nação é um empreendimento moral e espiritual, não meramente econômico.
-
-
Ekelund, Robert B.; Hebert, Robert F. A History of Economic Theory and Method. 1990.
-
Analisa a evolução do pensamento econômico e do racionalismo tecnocrático. Útil para contextualizar criticamente a aplicação da lógica empresarial à gestão de uma nação e para destacar a limitação dessa abordagem frente a empreendimentos civilizacionais.
-
Nenhum comentário:
Postar um comentário