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sábado, 17 de janeiro de 2026

Venezuela: do projeto bolivariano ao narco-Estado – um alerta ao Brasil

Introdução

A crise venezuelana não pode ser compreendida apenas como um fracasso econômico ou uma consequência de sanções internacionais. O colapso do país resulta de um projeto político deliberado, no qual o Estado foi progressivamente capturado por uma estrutura criminosa que combinou autoritarismo, corrupção, narcotráfico e repressão sistemática. O caso da Venezuela constitui, portanto, um exemplo histórico de como uma ideologia pode ser instrumentalizada para legitimar a destruição institucional de uma nação.

Mais do que um fenômeno local, esse processo serve como alerta estratégico para outros países da América Latina, especialmente o Brasil.

1. A expropriação como método de dominação

Após consolidar seu poder, Hugo Chávez iniciou uma política de expropriações arbitrárias, atingindo comércios, prédios residenciais, teatros e empresas privadas. Sob o discurso de “recuperação histórica” e “justiça social”, o governo passou a confiscar propriedades sem garantias jurídicas.

O efeito foi devastador:

  • Fuga de empresários, artistas e profissionais liberais

  • Destruição do setor produtivo

  • Colapso da economia urbana

  • Erosão da confiança institucional

A expropriação deixou de ser instrumento excepcional e passou a funcionar como mecanismo permanente de controle político.

2. O silêncio dos intelectuais e a blindagem ideológica

Um dos aspectos mais relevantes do processo venezuelano foi o silêncio – ou a conivência – de setores intelectuais, artísticos e políticos identificados com a esquerda latino-americana. Em nome da “soberania nacional” e da retórica anti-imperialista, esses grupos relativizaram:

  • Violações de direitos humanos

  • Perseguições políticas

  • Crise humanitária

  • Repressão institucional

A Venezuela passou a ser tratada como uma “democracia alternativa”, mesmo quando já operava como uma ditadura funcional.

3. O Cartel dos Sóis e a militarização do crime

O elemento mais grave da degradação venezuelana foi a transformação do Estado em plataforma logística do narcotráfico. Surgiu então o chamado Cartel dos Sóis, formado por altos oficiais das Forças Armadas, identificados pelas insígnias de quatro sóis em seus uniformes.

Esse cartel:

  • Transportava drogas em aviões militares

  • Armazenava cocaína em quartéis

  • Protegia rotas internacionais de tráfico

  • Financiava milícias bolivarianas

  • Garantia a fidelidade de generais por meio de corrupção

O narcotráfico deixou de ser um problema externo e passou a ser política de Estado.

4. A captura das instituições

Com o tempo, a estrutura criminosa venezuelana assumiu controle sobre:

  • Judiciário

  • Forças Armadas

  • Órgãos eleitorais

  • Sistema financeiro

  • Empresas estatais

A Venezuela tornou-se um narco-Estado, no qual a legalidade existia apenas formalmente. Figuras do alto escalão político foram associadas a esquemas internacionais de tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e financiamento de organizações armadas.

A soberania nacional foi sequestrada por uma oligarquia bolivariana.

5. Repressão, Tortura e Terror Interno

O regime consolidou seu poder por meio da repressão:

  • Prisões arbitrárias

  • Execuções extrajudiciais

  • Tortura sistemática

  • Centros clandestinos de detenção (como o Helicoide)

  • Milícias armadas controlando bairros

A população passou a viver sob vigilância constante. A dissidência política tornou-se sinônimo de risco físico.

6. A crise humanitária invisibilizada

Apesar de possuir a maior reserva de petróleo do mundo, a Venezuela enfrenta:

  • Desnutrição infantil maciça

  • Colapso energético

  • Escassez de alimentos

  • Migração em massa

  • Violência endêmica

Enquanto isso, parte da imprensa internacional prefere enfatizar disputas geopolíticas e dívidas externas, ignorando os crimes contra a humanidade cometidos internamente.

7. O risco da “Venezuelização” do Brasil

O ponto central do alerta é que os mecanismos utilizados na Venezuela não são exclusivos daquele país:

  • Deslegitimação da imprensa crítica

  • Relativização da democracia

  • Ataques à propriedade privada

  • Expansão do poder estatal

  • Instrumentalização ideológica da pobreza

  • Alianças com regimes autoritários

Quando tais práticas se normalizam, abre-se espaço para a erosão institucional. A experiência venezuelana demonstra que a degradação não acontece de forma abrupta, mas progressiva e discursivamente justificada.

Conclusão

A Venezuela não entrou em colapso por acaso. O país foi conduzido, passo a passo, a um modelo de autoritarismo criminoso, no qual o Estado passou a operar como instrumento de dominação, repressão e financiamento ilícito.

O caso venezuelano não é apenas uma tragédia nacional – é um estudo de caso geopolítico. Ignorar suas lições é permitir que o mesmo processo se repita em outras sociedades.

A democracia não morre de uma vez. Ela é corroída lentamente, sob aplausos ideológicos.

Bibliografia Comentada

COUTINHO, Leonardo. Hugo Chávez: O Espectro.
Obra de referência sobre o chavismo, analisa a formação do regime bolivariano, sua retórica populista e os mecanismos de concentração de poder. O autor demonstra como Chávez utilizou o discurso social para desmantelar instituições democráticas.

CORONEL, Gustavo; SANZ, Juan Carlos. The Collapse of Venezuela.
Estudo técnico sobre o colapso econômico venezuelano, explicando como políticas de estatização, controles de preço e expropriações destruíram a economia produtiva.

HUMAN RIGHTS WATCH. Venezuela’s Humanitarian Emergency.
Relatório detalhado sobre violações de direitos humanos, prisões arbitrárias, tortura e repressão política. Fundamenta a caracterização do regime como autoritário.

TRANSPARENCY INTERNATIONAL. Corruption Perceptions Index – Venezuela.
Documenta a escalada da corrupção sistêmica e a captura das instituições estatais por redes ilícitas.

DEA / Departamento de Justiça dos EUA – Casos sobre o Cartel dos Sóis
Relatórios judiciais que descrevem a participação de militares venezuelanos no narcotráfico internacional, incluindo uso de infraestrutura estatal para transporte de drogas.

ONU – Relatórios sobre a Venezuela (ACNUDH)
Documentos que registram execuções extrajudiciais, tortura, detenções arbitrárias e repressão política.

OLAVO DE CARVALHO – Artigos sobre o Foro de São Paulo
Textos que contextualizam a articulação ideológica latino-americana e a proteção discursiva a regimes autoritários sob a bandeira da esquerda.

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