Introdução
A afirmação de que “o Brasil não é uma empresa”, feita por Eduardo Bolsonaro, ultrapassa o campo retórico e revela uma crítica estrutural ao modelo contemporâneo de governança estatal. Tal modelo, marcado pela tecnocracia e pela centralização decisória, tende a tratar a nação como uma organização administrativa, os cidadãos como recursos gerenciais e os entes federativos como meras unidades executoras.
Nesse contexto, o slogan “mais Brasil, menos Brasília”, associado ao governo Jair Bolsonaro, pode ser interpretado como uma reação política à hipertrofia do poder central e à redução da federação brasileira a uma estrutura formal, porém funcionalmente centralizada. O presente artigo examina a relação entre centralismo, tecnocracia e descaracterização do federalismo, articulando essa crítica com a experiência internacional e com os limites institucionais da Constituição de 1988.
1. O Brasil como “empresa”: a lógica tecnocrática
A tecnocracia se caracteriza pela substituição da deliberação política por critérios técnicos, administrativos e gerenciais. Nesse modelo:
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A legitimidade decorre da especialização, não da representação.
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O Estado é administrado como uma corporação.
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O cidadão é convertido em usuário ou contribuinte.
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A política torna-se gestão de indicadores.
Quando um país passa a ser tratado como empresa, o horizonte da soberania popular é deslocado para a eficiência operacional. A nação deixa de ser uma comunidade política e passa a funcionar como uma máquina administrativa.
Essa lógica é particularmente problemática em sociedades plurais e continentais como o Brasil, nas quais a diversidade regional exige soluções políticas, e não apenas técnicas.
2. Brasília como centro de comando
A capital federal simboliza, mais do que qualquer outra instituição, a concentração decisória do Estado brasileiro. Embora o país seja formalmente uma federação, na prática observa-se:
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Centralização fiscal
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Padronização normativa
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Dependência financeira de estados e municípios
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Verticalização das políticas públicas
Os entes subnacionais raramente exercem autonomia real. Executam diretrizes formuladas no centro, adaptando-se a modelos nacionais que ignoram particularidades regionais.
O território brasileiro, nesse sentido, passa a operar como uma rede de unidades subordinadas — funcionalmente comparáveis a “filiais” administrativas de um centro decisório único.
3. Centralismo e tecnocracia: uma simbiose estrutural
Centralismo e tecnocracia não são fenômenos isolados; são estruturalmente interdependentes.
| Centralismo | Tecnocracia |
|---|---|
| Concentra poder político | Concentra decisão técnica |
| Uniformiza normas | Padroniza soluções |
| Enfraquece a autonomia local | Substitui política por gestão |
| Reduz pluralismo institucional | Reduz deliberação pública |
Ambos promovem a despersonalização do poder. O governo deixa de ser expressão da vontade política e passa a operar como sistema autônomo, autorreferente e burocrático.
O resultado é uma democracia formal, porém administrativamente esvaziada.
4. “Mais Brasil, menos Brasília”: uma crítica à abstração estatal
O slogan “mais Brasil, menos Brasília” pode ser interpretado como:
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Defesa da descentralização
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Valorização das realidades locais
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Rejeição da hiper-burocratização
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Crítica à tecnopolítica
Não se trata apenas de oposição a uma capital geográfica, mas à capital simbólica do poder abstrato. Brasília representa o Estado que legisla de cima, padroniza de longe e governa por formulários.
O “Brasil”, por outro lado, representa o território vivido, histórico, cultural e social — o espaço concreto da política real.
5. Nota crítica: a federação falsa e o paralelismo com a Rússia
A Constituição brasileira de 1988 estabelece formalmente uma federação. Contudo, na prática, o modelo adotado se aproxima do que se pode chamar de federação nominal ou federação falsa, conceito aplicável também ao caso russo.
Na Federação Russa:
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As regiões possuem autonomia formal
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O centro controla orçamento, forças de segurança e política externa
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A legislação nacional prevalece sobre os interesses locais
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Governadores são politicamente dependentes do Kremlin
O resultado é um sistema federativo apenas no nome.
O Brasil pós-1988 apresenta traços semelhantes:
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Estados dependem financeiramente da União
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Municípios são entes administrativos frágeis
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O STF atua como poder central uniformizador
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A legislação federal invade competências locais
A federação existe no texto constitucional, mas é neutralizada pela prática centralizadora. O federalismo torna-se um discurso jurídico, não uma realidade política.
Nesse modelo, a autonomia regional é tolerada apenas enquanto não ameaça o centro decisório.
Conclusão
A combinação entre centralismo e tecnocracia transforma a política em administração e a federação em formalidade. O Brasil passa a funcionar como uma organização gerencial, na qual:
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O povo é objeto de políticas
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Os estados são executores
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O centro decide
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A técnica substitui a deliberação
Nesse contexto, a crítica expressa por “o Brasil não é uma empresa” e “mais Brasil, menos Brasília” não é meramente ideológica, mas estrutural: trata-se de uma defesa da política contra sua redução a gestão.
A verdadeira federação exige autonomia real, pluralismo institucional e descentralização decisória. Sem isso, a federação permanece apenas como um enunciado constitucional — não como uma prática viva.
Bibliografia Comentada
BOBBIO, Norberto. O Futuro da Democracia.
Analisa a transformação da política em administração e os riscos da tecnocracia para a soberania popular.
HAYEK, Friedrich. O Caminho da Servidão.
Crítica ao planejamento centralizado e à concentração de poder técnico no Estado.
SCHMITT, Carl. Teoria da Constituição.
Explora a diferença entre forma jurídica e realidade política, útil para entender federações nominais.
TOCQUEVILLE, Alexis de. A Democracia na América.
Defende o federalismo como instrumento de liberdade política e pluralismo institucional.
SAKWA, Richard. Putin and the Oligarchs.
Analisa a centralização do poder na Rússia e o esvaziamento da autonomia regional.
STEPAN, Alfred. Federalism and Democracy.
Discute os diferentes modelos de federalismo e suas implicações para a democracia.
BONAVIDES, Paulo. Ciência Política.
Aborda o federalismo brasileiro e seus limites estruturais.
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