Introdução
Os sinais de ruptura da ordem internacional construída no pós-Segunda Guerra Mundial tornaram-se visíveis e recorrentes. A Organização das Nações Unidas (ONU), concebida como instrumento de estabilização, mediação de conflitos e coordenação multilateral, encontra-se hoje no centro de um debate que vai além da crítica pontual: discute-se sua obsolescência estrutural. A recente emergência de iniciativas alternativas de governança global, como a proposta de um Conselho de Paz articulado em fóruns econômicos internacionais, indica que não se trata de um evento isolado, mas de um processo mais amplo de reconfiguração do poder mundial.
Este artigo analisa essa transição à luz de uma leitura geopolítica, considerando a erosão da legitimidade da ONU, a formação de novos blocos de poder, o papel das chamadas “potências do meio” e os riscos inerentes a uma substituição desordenada da arquitetura multilateral vigente.
A ONU: origem, função e esgotamento
A ONU nasce da experiência traumática das duas guerras mundiais, especialmente da falência da Liga das Nações. Seu desenho institucional refletia o equilíbrio de forças de 1945: grandes potências com assento permanente no Conselho de Segurança, mecanismos de veto e uma ampla rede de agências especializadas. Durante décadas, esse arranjo ofereceu um mínimo de previsibilidade às relações internacionais.
Contudo, com o passar do tempo, a organização passou por um processo de politização crescente. Agendas ideológicas, burocratização excessiva e a captura de comissões internas por projetos políticos específicos enfraqueceram sua capacidade operacional. Iniciativas como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e a Agenda 2030, embora revestidas de linguagem moralmente atraente, tornaram-se, para muitos Estados e analistas, símbolos do distanciamento entre o discurso normativo da ONU e a realidade concreta de conflitos, crises humanitárias e colapsos estatais.
A imagem de estruturas da ONU coexistindo com regimes armados ou forças insurgentes em zonas de conflito tornou-se emblemática dessa falência prática. Assim, a crítica atual não se limita à ineficiência, mas aponta para a perda de credibilidade e autoridade moral da instituição.
Não existe vácuo de poder: o risco do colapso abrupto
Do ponto de vista geopolítico, o encerramento abrupto da ONU seria um erro estratégico. A história demonstra que o colapso de uma instituição internacional não gera vazio, mas sim disputa imediata por hegemonia. A transição da Liga das Nações para o sistema pós-1945 ocorreu em meio a uma guerra total; repetir esse padrão seria potencialmente catastrófico.
Por essa razão, as atuais tentativas de substituição da ONU tendem a ocorrer de forma indireta e incremental. A criação de conselhos paralelos, fóruns alternativos de mediação e estruturas informais de coordenação indica uma estratégia de erosão gradual, não de demolição frontal. O Conselho de Paz anunciado em ambientes como Davos deve ser entendido nesse contexto: não como solução definitiva, mas como sintoma de uma busca por novos mecanismos de governança fora do arcabouço onusiano.
A fragmentação do sistema internacional em blocos
Paralelamente ao enfraquecimento da ONU, observa-se uma reorganização do mundo em blocos geopolíticos e econômicos concorrentes. Três eixos principais começam a se delinear:
O eixo liderado pelos Estados Unidos, ainda dominante militarmente, mas enfrentando desafios internos e externos à sua capacidade de liderança global.
O eixo sino-oriental, com a China expandindo sua influência econômica, tecnológica e diplomática, especialmente na África e em partes da Ásia.
A Europa em busca de autonomia estratégica, articulando grandes acordos comerciais com Índia, América Latina e o Indo-Pacífico, sinalizando um distanciamento progressivo da dependência exclusiva dos Estados Unidos.
Essa fragmentação não implica necessariamente guerra imediata, mas inaugura um período de competição sistêmica intensa, no qual alianças tornam-se mais fluidas e interesses econômicos frequentemente se sobrepõem a afinidades ideológicas ou morais.
As “potências do meio” e o novo equilíbrio instável
Nesse cenário emergem as chamadas “potências do meio”: Estados que não detêm hegemonia global, mas possuem peso econômico, demográfico ou regional suficiente para influenciar o equilíbrio internacional. Canadá, Brasil, França, Alemanha, Polônia, Índia e outros países enquadram-se nessa categoria.
Essas potências enfrentam um dilema estratégico. Por um lado, têm mais a perder em um mundo fragmentado em fortalezas rivais; por outro, podem se tornar peças-chave na construção de arranjos cooperativos alternativos. O risco, porém, é que o medo da instabilidade leve esses países a aceitar acordos desfavoráveis, trocando autonomia estratégica por promessas de segurança ou acesso econômico imediato.
O rebaixamento dos critérios morais na política internacional
Um traço marcante dessa transição é o rebaixamento explícito dos critérios morais nas decisões geopolíticas. Em contextos de reorganização estrutural, valores tendem a ser instrumentalizados ou simplesmente colocados em segundo plano. Regimes autoritários passam a ser tratados como parceiros legítimos, desde que ofereçam vantagens estratégicas.
Essa dinâmica não é nova na história, mas ganha intensidade em períodos de ruptura. A política internacional deixa de operar segundo narrativas de “bem contra o mal” e passa a se organizar de forma declaradamente pragmática, muitas vezes cínica.
Considerações finais
A atual reconfiguração da ordem global não é fruto de conspirações ocultas, mas de processos visíveis: discursos oficiais, acordos comerciais, rearranjos militares e fóruns econômicos internacionais. Trata-se de um terremoto geopolítico de longa duração, cujos efeitos devem se estender por pelo menos uma década.
A capacidade de indivíduos ou mesmo de Estados médios influenciarem decisivamente esse processo é limitada. O imperativo estratégico, portanto, é compreender a realidade tal como ela se apresenta, abandonar ilusões ideológicas e buscar formas de proteção institucional, social e comunitária em meio à instabilidade.
Mais do que o fim da ONU, o que se desenha é o fim de uma era: a do multilateralismo idealista que marcou a segunda metade do século XX. O que surgirá em seu lugar ainda está em disputa — e essa disputa definirá os contornos do poder global no século XXI.
Bibliografia comentada
ARON, Raymond. Paz e guerra entre as nações.
Obra clássica do realismo francês, fundamental para compreender a lógica das relações internacionais para além de moralismos ou idealismos institucionais. Aron demonstra como sistemas internacionais se estruturam a partir do equilíbrio (ou desequilíbrio) de poder, oferecendo base teórica sólida para entender o esgotamento do multilateralismo idealista representado pela ONU.
MORGENTHAU, Hans J. A política entre as nações.
Texto fundador do realismo político moderno. Morgenthau sustenta que a política internacional é regida pelo interesse definido em termos de poder. Sua leitura ajuda a compreender por que, em momentos de transição sistêmica, critérios morais tendem a ser subordinados à sobrevivência e à influência dos Estados.
MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics.
Uma das formulações mais influentes do realismo ofensivo contemporâneo. Mearsheimer explica por que grandes potências buscam constantemente maximizar poder e reduzir incertezas, o que ilumina a atual fragmentação da ordem global e a emergência de blocos concorrentes.
KISSINGER, Henry. Ordem Mundial.
Análise histórica e estratégica das diferentes concepções de ordem internacional. Kissinger mostra como cada sistema de governança global nasce de contextos específicos e inevitavelmente se esgota, sendo substituído por outro. A obra fornece arcabouço conceitual direto para interpretar a crise da ONU e a busca por novos mecanismos de coordenação global.
BRZEZINSKI, Zbigniew. O Grande Tabuleiro de Xadrez.
Estudo clássico sobre a centralidade da Eurásia na disputa pelo poder global. A obra é particularmente útil para compreender o papel da China, da Europa e das chamadas potências do meio na reorganização estratégica do século XXI.
WALTZ, Kenneth. Theory of International Politics.
Referência do realismo estrutural. Waltz enfatiza que o comportamento dos Estados é moldado menos por intenções morais e mais pela estrutura do sistema internacional. Essa abordagem ajuda a entender por que instituições como a ONU perdem eficácia quando a distribuição de poder global se altera.
HUNTINGTON, Samuel P. O choque das civilizações.
Embora controversa, a obra é relevante para compreender a dimensão civilizacional dos conflitos contemporâneos e o enfraquecimento de narrativas universalistas. Contribui para a análise do colapso do consenso moral que sustentou o multilateralismo do pós-guerra.
FUKUYAMA, Francis. O fim da história e o último homem.
Leitura útil como contraponto crítico. A promessa de uma ordem liberal universal revela-se, à luz dos acontecimentos recentes, excessivamente otimista. A obra ajuda a entender as expectativas frustradas que sustentaram instituições globais hoje em crise.
OBSERVATÓRIO GLOBAL / PH VOX. Trump quer substituir a ONU e lança Conselho de Paz em Davos.
Fonte primária do artigo. A transcrição analisada oferece uma leitura interpretativa do momento geopolítico atual, combinando dados públicos, discursos oficiais e análise de tendências, servindo como ponto de partida para a reflexão sobre a transição da ordem internacional contemporânea.
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