A queda da União Soviética, formalizada em 1991, não pode ser explicada por uma única causa isolada. Trata-se de um processo cumulativo, no qual fatores estruturais internos se combinaram com choques externos de natureza econômica e geopolítica. Entre esses choques, a crise do petróleo iniciada em 1973 e aprofundada ao longo das décadas seguintes desempenhou um papel central. Contudo, como demonstra a análise de Sarah Paine, o impacto dessa crise foi amplificado pela própria lógica imperial do regime soviético e por sua estratégia de expansão no chamado Terceiro Mundo, especialmente na África.
A expansão soviética e o custo do império
Nos anos 1960 e 1970, a descolonização africana abriu uma ampla janela de oportunidades para a União Soviética. Diversos países recém-independentes, insatisfeitos com seus antigos colonizadores europeus, tornaram-se receptivos a projetos políticos alinhados ao socialismo. Moscou passou então a investir pesadamente em regimes aliados como Angola, Etiópia e Iêmen do Sul, oferecendo apoio militar, econômico e logístico.
Essa política fazia parte de um projeto imperial de competição sistêmica com o Ocidente. O objetivo não era apenas expandir a influência ideológica, mas também deslocar as potências europeias do controle político e econômico dessas regiões. No curto prazo, a estratégia parecia bem-sucedida: a União Soviética ampliava sua presença global e consolidava uma rede de aliados.
O problema era o custo estrutural desse império. Manter governos dependentes em regiões economicamente frágeis exigia subsídios constantes. Ao contrário das potências coloniais clássicas, a URSS não extraía excedentes econômicos significativos dessas áreas. Ao contrário, ela financiava seus aliados, drenando recursos de uma economia já marcada por baixa produtividade, rigidez burocrática e ineficiência sistêmica.
A crise das commodities e o colapso fiscal
A partir do final dos anos 1970, uma recessão global prolongada derrubou os preços das commodities. Para países como Angola, Etiópia e Nicarágua, cuja pauta de exportações dependia fortemente desses produtos, a queda foi devastadora. Em muitos casos, as receitas externas foram reduzidas pela metade.
Esses países tornaram-se ainda mais dependentes do apoio soviético. Ao mesmo tempo, a própria União Soviética enfrentava uma crise fiscal. O petróleo — que representava até 55% do orçamento estatal — sofreu uma forte desvalorização no mercado internacional. A principal fonte de divisas do regime entrou em colapso.
O resultado foi uma combinação explosiva: mais aliados dependentes, menos recursos disponíveis. A URSS passou a sustentar uma “bancada” de parceiros improdutivos justamente no momento em que sua base econômica se enfraquecia.
A sobrecarga imperial e as fraturas internas
O problema não se limitava ao plano externo. Internamente, o império soviético era composto por múltiplas nacionalidades, muitas das quais mantinham identidades culturais e aspirações políticas próprias. Com a chegada de Mikhail Gorbachev ao poder, a abertura política parcial (glasnost) e as reformas econômicas (perestroika) acabaram catalisando demandas reprimidas há décadas.
Movimentos estudantis e rebeliões étnicas emergiram em regiões tão distantes quanto o Cazaquistão e a Iacútia. Em 1990, estimava-se a existência de dezenas de focos de instabilidade simultâneos em diferentes partes do território soviético. O império enfrentava, ao mesmo tempo, pressões externas e revoltas internas.
Do ponto de vista estratégico, isso violava um princípio clássico da administração imperial: evitar guerras em múltiplas frentes. A União Soviética, porém, encontrava-se cercada por crises simultâneas — no exterior, no centro e nas periferias nacionais.
A crise do petróleo como catalisador, não como causa única
A crise do petróleo de 1973 e suas repercussões posteriores não “mataram” o Império Soviético sozinhas. Elas funcionaram como um catalisador. O regime já carregava fragilidades estruturais profundas: economia centralizada ineficiente, incapacidade de inovação tecnológica, sobrecarga militar, burocracia rígida e uma arquitetura política incapaz de absorver pressões sociais sem colapsar.
A política de expansão no Terceiro Mundo, especialmente na África, agravou essas fragilidades ao impor custos imperiais sem retorno econômico proporcional. Quando a base fiscal ruiu, o edifício inteiro perdeu sustentação.
Assim, a derrocada de 1991 deve ser compreendida como o resultado da interação entre:
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Choques econômicos externos (queda do petróleo e das commodities),
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Sobreextensão imperial (custos geopolíticos elevados),
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Fragilidades estruturais internas (ineficiência sistêmica),
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Fragmentação política e étnica (crise de legitimidade do centro).
Conclusão
A União Soviética não caiu apenas por causa do petróleo, nem apenas por causa da África, nem apenas por causa de suas falhas internas. Caiu porque seu modelo de poder era estruturalmente incapaz de sustentar um império global em um ambiente econômico adverso e sob pressão social crescente.
A crise do petróleo revelou aquilo que já existia: um regime cujo custo de manutenção superava sua capacidade de adaptação. Quando o fluxo de recursos secou, o império entrou em colapso — não por um único golpe, mas por exaustão sistêmica.
Bibliografia Comentada
PAINE, Sarah. The Wars for Asia, 1911–1949. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.
Embora a obra trate principalmente da Ásia, Sarah Paine é uma referência sólida em história estratégica e militar. Em suas palestras e análises sobre a Guerra Fria, como a transcrição utilizada neste artigo, Paine enfatiza o custo estrutural do expansionismo soviético e a sobrecarga imperial causada pela sustentação de regimes aliados no Terceiro Mundo. Sua abordagem conecta economia, geopolítica e estratégia, oferecendo uma leitura realista do colapso soviético.
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914–1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
Hobsbawm interpreta o colapso da URSS como resultado de contradições internas do socialismo real, agravadas por transformações econômicas globais. O autor destaca a rigidez institucional, a estagnação produtiva e a incapacidade de adaptação tecnológica como fatores decisivos. Sua análise ajuda a enquadrar a crise do petróleo como catalisador, e não como causa isolada.
KENNAN, George. The Decline of Bismarck’s European Order. Princeton: Princeton University Press, 1979.
Kennan oferece uma reflexão clássica sobre os limites da gestão imperial em sistemas continentais. Seu argumento sobre o risco de “guerras em múltiplas frentes” é aplicável ao caso soviético, especialmente quando o império passou a enfrentar simultaneamente pressões externas e revoltas internas nas repúblicas soviéticas.
GADDIS, John Lewis. The Cold War: A New History. New York: Penguin, 2005.
Gaddis analisa a Guerra Fria como uma disputa sistêmica entre modelos de organização política e econômica. Ele enfatiza que o colapso soviético resultou da incapacidade estrutural do regime de competir economicamente com o Ocidente. A dependência do petróleo e o peso dos compromissos externos aparecem como fatores de desgaste cumulativo.
NIXON, Richard. Seize the Moment. New York: Simon & Schuster, 1992.
Nixon, como ator direto da Guerra Fria, oferece uma leitura estratégica do declínio soviético. Ele identifica a estagnação econômica, a sobrecarga militar e a crise fiscal como fatores centrais. Sua perspectiva reforça a ideia de que a URSS perdeu a capacidade de sustentar sua projeção global.
SAKWA, Richard. The Rise and Fall of the Soviet Union, 1917–1991. London: Routledge, 1999.
Sakwa apresenta uma análise estrutural do regime soviético, destacando suas fragilidades institucionais, a crise de legitimidade política e o colapso do pacto social entre Estado e população. A obra é útil para compreender por que as reformas de Gorbachev aceleraram, em vez de conter, a fragmentação interna.
YERGIN, Daniel. The Prize: The Epic Quest for Oil, Money & Power. New York: Simon & Schuster, 1991.
Yergin demonstra como o petróleo moldou a geopolítica do século XX. Sua análise da volatilidade dos preços e da dependência fiscal de Estados exportadores ajuda a entender por que a queda do petróleo foi tão devastadora para a economia soviética.
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