Pesquisar este blog

sábado, 17 de janeiro de 2026

Pax Americana: Pax Romana ou Pax Christi? - nacionidade funcional, soberania integrada e o limite da paz sem Cristo

Introdução

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos exerceram um papel central na organização da ordem internacional. Essa hegemonia, sustentada por poder militar, integração econômica, controle logístico e alianças estratégicas, passou a ser conhecida como Pax Americana. À semelhança da antiga Pax Romana, trata-se de uma paz fundada na capacidade de organizar o mundo por meio da força, da administração e da eficiência sistêmica.

Contudo, permanece a questão fundamental: essa paz é apenas uma atualização moderna da Pax Romana ou pode ser compreendida como uma expressão histórica da Pax Christi — a paz de Cristo, que é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6)?

Este artigo sustenta que, sem um fundamento cristão explícito, a Pax Americana tende a reproduzir os limites estruturais da Pax Romana: estabilidade sem redenção, ordem sem verdade e poder sem transcendência.

1. Pax Romana: ordem imperial sem redenção

A Pax Romana representou o auge da capacidade organizacional do Império Romano. Ela se baseava em:

  • Superioridade militar,

  • Infraestrutura logística,

  • Administração territorial,

  • Uniformização jurídica,

  • Integração econômica.

Essa paz garantiu séculos de relativa estabilidade, circulação de mercadorias e previsibilidade institucional. No entanto, era uma paz essencialmente externa e administrativa. Roma organizava o mundo, mas não o redimia. A submissão ao império não implicava conversão à verdade.

A paz romana era fruto da coerção e da eficiência, não da transformação interior do homem.

2. Pax Americana: a versão moderna da paz funcional

A Pax Americana reproduz, em escala global, a lógica da Pax Romana. Seu funcionamento repousa sobre:

  • Cadeias logísticas internacionais,

  • Supremacia militar,

  • Sistema financeiro globalizado,

  • Alianças estratégicas,

  • Governança tecnocrática.

Essa ordem é capaz de:

  • Conter conflitos diretos,

  • Garantir estabilidade econômica,

  • Proteger rotas comerciais,

  • Manter o equilíbrio de poder.

Trata-se, porém, de uma paz funcional, não espiritual. Ela organiza o mundo, mas não responde às questões últimas da existência humana. Assim como Roma, os Estados Unidos promovem ordem, mas não necessariamente verdade.

A Pax Americana é eficiente — mas ontologicamente neutra.

3. Nacionidade funcional: soberania sem transcendência

A nacionidade contemporânea, quando fundada exclusivamente em:

  • Logística,

  • Economia,

  • Segurança,

  • Interesses estratégicos,

produz Estados tecnicamente eficientes, mas espiritualmente vazios. Essa forma de soberania é capaz de garantir estabilidade, mas não sentido.

Ela gera uma paz semelhante à romana: previsível, controlada, administrada — porém incapaz de ordenar a história à verdade. Sem Cristo como fundamento, a nação torna-se um instrumento de gestão, não de missão.

4. Pax Christi: verdade antes da ordem

A paz anunciada por Cristo não nasce do poder, mas da verdade. Não é imposta por exércitos, mas comunicada por conversão.

A Pax Christi é:

  • Reconciliação com Deus,

  • Restauração da ordem interior,

  • Submissão da história à verdade,

  • Orientação da política a um fim transcendente.

Enquanto a Pax Americana busca estabilidade, a Pax Christi busca salvação. Enquanto uma administra o mundo, a outra transforma o homem.

Sem Cristo, toda paz é provisória. Sem a verdade, toda ordem é frágil.

5. Soberania integrada: engenharia de poder ou projeto civilizacional?

A ideia de soberania integrada — coordenação entre Estados soberanos — pode assumir dois sentidos distintos:

  1. Funcional
    Cooperação militar, econômica e logística para maximizar eficiência.

  2. Civilizacional
    União fundada em fé, tradição, valores e missão histórica.

No primeiro caso, obtém-se uma Pax Americana tecnocrática. No segundo, abre-se a possibilidade de uma Pax Christi histórica.

Sem Cristo como princípio ordenador, a soberania integrada permanece no nível da engenharia de poder, não da construção civilizacional.

6. Ourique e a Fronteira: dois mitos, uma missão

O Mito de Ourique, em Portugal, expressa:

  • Missão providencial,

  • Realeza subordinada a Deus,

  • Expansão como serviço à fé.

O Mito da Fronteira, nos Estados Unidos, expressa:

  • Expansão civilizacional,

  • Espírito de missão,

  • Construção de ordem em territórios novos.

Quando integrados em Cristo, esses mitos deixam de ser ideologias políticas e tornam-se uma teologia da civilização. Quando separados de Cristo, reduzem-se a ideologias.  a projetos de poder.

7. A cadeia do ser civilizacional

A verdadeira paz exige hierarquia de fins:

  1. Deus

  2. Verdade

  3. Homem

  4. Nação

  5. Civilização

  6. História

Quando essa ordem é respeitada, a política serve à verdade.
Quando é invertida, a política passa a servir ao poder.

A Pax Americana, sem Cristo, tende a inverter essa cadeia. A Pax Christi, por definição, a restaura.

Conclusão

A Pax Americana pode garantir estabilidade.
A nacionidade funcional pode assegurar ordem.
A soberania integrada pode evitar guerras.

Mas somente Cristo pode dar sentido à história.

Sem Ele, há paz — mas não há verdade.
Há ordem — mas não há redenção.
Há império — mas não há civilização cristã.

A escolha não é entre guerra e paz,
mas entre Pax Romana e Pax Christi,
entre poder e verdade,
entre administração do mundo e salvação do homem.

Bibliografia Comentada

1. Pax Romana e ordem imperial

Gibbon, Edward. The History of the Decline and Fall of the Roman Empire.
Clássico da historiografia ocidental, Gibbon descreve com precisão a estrutura administrativa, militar e cultural do Império Romano. A obra é fundamental para compreender como a Pax Romana se sustentava por meio da disciplina institucional, da logística e da coerção. Sua leitura evidencia que a paz romana era essencialmente funcional, não redentiva.

Mommsen, Theodor. History of Rome.
Mommsen analisa a formação jurídica e política de Roma, mostrando como o império construiu uma ordem estável baseada em direito, administração e poder militar. É útil para compreender o caráter técnico da paz romana e seus limites espirituais.

2. Pax Americana e hegemonia contemporânea

Ikenberry, G. John. After Victory: Institutions, Strategic Restraint, and the Rebuilding of Order after Major Wars.
O autor examina como os EUA estruturaram a ordem internacional após 1945 por meio de instituições, alianças e integração econômica. A obra é central para entender a Pax Americana como um sistema de governança funcional, voltado à estabilidade e ao controle estratégico.

Nye, Joseph. Soft Power: The Means to Success in World Politics.
Nye explica como a hegemonia americana não depende apenas de força militar, mas também de influência cultural e institucional. Isso ajuda a compreender a Pax Americana como uma forma sofisticada de poder, ainda que espiritualmente neutra.

Ferguson, Niall. Colossus: The Rise and Fall of the American Empire.
Ferguson analisa os EUA como um império informal, sustentado por poder econômico, militar e cultural. A obra reforça a analogia entre Pax Romana e Pax Americana, mostrando seus limites morais e civilizacionais.

3. Paz cristã e ordem espiritual

Santo Agostinho de Hipona. A Cidade de Deus.
Obra fundamental para distinguir a paz terrena da paz verdadeira. Agostinho mostra que toda ordem política sem Deus é necessariamente incompleta. A Pax Christi é apresentada como superior à paz dos impérios, pois se funda na verdade eterna, não na força.

Santo Tomás de Aquino. Suma Teológica.
Santo Tomás fornece a base filosófica para compreender a hierarquia de fins: Deus, verdade, homem, sociedade. Sua visão sustenta a ideia de que a política deve estar subordinada à ordem moral e espiritual.

Ratzinger, Joseph (Bento XVI). Europa: suas bases espirituais ontem, hoje e amanhã.
Ratzinger argumenta que a civilização ocidental perde sua coesão quando abandona suas raízes cristãs. A obra é essencial para compreender por que uma Pax Americana sem Cristo tende a se tornar apenas um sistema técnico de poder.

4. Nacionidade, soberania e civilização

Royce, Josiah. The Philosophy of Loyalty.
Royce discute a lealdade como fundamento da identidade coletiva. A obra ajuda a compreender a nacionidade não apenas como função política, mas como compromisso moral e espiritual.

Scruton, Roger. How to Be a Conservative.
Scruton defende a importância da tradição, da continuidade histórica e da identidade nacional. Sua análise reforça a ideia de que uma nacionidade puramente funcional é insuficiente para sustentar uma civilização.

Spengler, Oswald. The Decline of the West.
Spengler interpreta a história como ciclos civilizacionais. Sua crítica ao materialismo moderno ajuda a explicar por que impérios baseados apenas em técnica e poder tendem ao esgotamento espiritual.

5. Ourique, Fronteira e missão histórica

Saraiva, António José. História de Portugal.
A obra contextualiza o Mito de Ourique como fundamento espiritual da monarquia portuguesa e da missão cristã no mundo. Essencial para compreender a dimensão teológica da expansão portuguesa.

Turner, Frederick Jackson. The Frontier in American History.
Turner formula o Mito da Fronteira como elemento formador da identidade americana. A obra mostra como a expansão territorial moldou a visão de missão, ordem e civilização nos EUA.

Carvalho, Olavo de. O Jardim das Aflições.
Analisa a crise espiritual do Ocidente e a perda do sentido metafísico da história. Serve como crítica ao uso secularizado de mitos fundacionais sem referência à verdade cristã.

6. Síntese civilizacional

Dawson, Christopher. Religion and the Rise of Western Culture.
Dawson demonstra que a civilização ocidental é inseparável do cristianismo. A obra sustenta a tese de que nenhuma ordem política se mantém sem fundamento espiritual.

Weigel, George. The Cube and the Cathedral.
Weigel critica a secularização da Europa e a perda de sua alma cristã. Sua análise reforça a distinção entre paz administrativa e paz espiritual.

Nenhum comentário:

Postar um comentário