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sábado, 10 de janeiro de 2026

Abuso da Linguagem, Modernismo e Heresia Econômica - a redução de Cristo à categoria de revolucionário bolchevique na Escola Austríaca

Introdução

Quando Ludwig von Mises, em Theory and History (1957), qualifica Cristo como “bolchevique”, não realiza apenas uma provocação retórica. Ele comete um deslocamento conceitual profundo, que envolve abuso da linguagem, instrumentalização ideológica da teologia e subordinação da verdade revelada aos critérios da economia política moderna. Tal operação não é neutra: ela expressa um traço típico do modernismo, condenado pela Igreja, segundo o qual o homem — e não Cristo — passa a ser a medida de todas as coisas.

Neste sentido, aplica-se com precisão a máxima atribuída a Piper: “abuso da linguagem é abuso de poder”. Quando a linguagem deixa de servir à verdade e passa a servir à conveniência ideológica, ela se converte em instrumento de dominação simbólica. É exatamente isso que ocorre quando Cristo é enquadrado em categorias político-econômicas anacrônicas.

1. A Linguagem como Instrumento de Poder

A linguagem não é apenas um meio de comunicação; ela estrutura a percepção da realidade. Quando Mises chama Cristo de “bolchevique”, ele não descreve, mas reinterpreta. O termo, carregado de significados políticos, históricos e ideológicos próprios do século XX, é projetado sobre uma figura teológica do século I, cuja missão é essencialmente espiritual, redentora e escatológica.

Esse procedimento:

  • Dissocia Cristo de seu horizonte teológico;

  • Reinsere o Evangelho no campo da luta ideológica moderna;

  • Submete a Revelação à lógica do conflito econômico.

Trata-se de um caso típico do que Michel Miaille chamou de “falsa transparência”: a linguagem aparenta neutralidade descritiva, mas opera como instrumento normativo e ideológico. O abuso semântico se converte, assim, em abuso de poder intelectual.

2. O erro modernista: o homem como medida de todas as coisas

Ao reinterpretar Cristo a partir dos critérios do liberalismo econômico, Mises incorre no núcleo do erro modernista: fazer da razão humana, funcional e instrumental, o critério último da verdade.

Na perspectiva modernista:

  • A Revelação é reinterpretada pela cultura;

  • A teologia é subordinada à história;

  • A verdade é reduzida à utilidade.

Contra isso, a tradição católica afirma:

Christus est mensura rerum – Cristo é a medida de todas as coisas.

São Pio X, na encíclica Pascendi Dominici Gregis, identificou no modernismo a tendência de submeter o depósito da fé às categorias mutáveis da ciência, da política e da cultura. O que Mises faz, no plano econômico, é exatamente isso: julga Cristo a partir da teoria do mercado, e não o mercado à luz de Cristo.

3. Cristo não é um projeto político

A identificação de Cristo com o bolchevismo revela uma confusão fundamental entre:

  • Ordem moral

  • Ordem política

  • Ordem econômica

  • Ordem espiritual

Cristo não propõe:

  • Engenharia social

  • Expropriação forçada

  • Luta de classes

  • Igualitarismo material

Ele propõe:

  • Conversão interior

  • Sacrifício pessoal

  • Caridade voluntária

  • Ordem moral objetiva

  • Santificação pelo trabalho

Seu Reino “não é deste mundo” (Jo 18,36). Ele não organiza uma economia política, mas forma consciências orientadas para a verdade. A crítica evangélica à riqueza não é coletivista; é moral e espiritual. Confundir caridade com coerção é uma inversão teológica grave.

4. A Doutrina Social da Igreja contra o liberalismo absoluto

A Igreja Católica rejeita tanto o coletivismo socialista quanto o liberalismo econômico absoluto. Desde Rerum Novarum (1891), afirma-se que:

  • A propriedade privada é legítima;

  • O trabalho tem dignidade própria;

  • A economia deve servir ao homem;

  • O homem deve servir a Deus.

Encíclicas posteriores, como Quadragesimo Anno e Centesimus Annus, reforçam que o mercado, sem uma ordem moral objetiva, se converte em força desumanizadora.

A Escola Austríaca, ao absolutizar:

  • A subjetividade do valor

  • O cálculo econômico

  • A ordem espontânea

  • A neutralidade moral do mercado

Rompe com a antropologia cristã, que é teleológica, sacramental e cristocêntrica. Nesse sentido, o que se pode chamar de “heresia econômica” não é uma heresia dogmática formal, mas um desvio doutrinal prático: uma economia que opera como se Cristo não fosse a medida da ordem social.

5. A negação implícita de Cristo

Chamar Cristo de “bolchevique” não é apenas um erro histórico ou retórico. É uma negação implícita de:

  • Sua transcendência

  • Sua missão redentora

  • Sua autoridade espiritual

  • Sua centralidade na ordem social

É a tentativa de reduzir o Logos encarnado a uma categoria ideológica. Trata-se, portanto, de uma forma moderna de iconoclastia intelectual: não se destrói a imagem, mas o significado.

Conclusão

A leitura misesiana de Cristo exemplifica como o abuso da linguagem se transforma em abuso de poder. Ao enquadrar o Evangelho em categorias ideológicas modernas, Mises pratica uma redução modernista da verdade revelada, subordina a teologia à economia e rompe, na prática, com a doutrina social da Igreja.

Cristo não pode ser medido pelo mercado. O mercado é que deve ser julgado à luz de Cristo.

Bibliografia Comentada

Mises, Ludwig von – Theory and History
Obra em que Mises critica o cristianismo primitivo e utiliza a expressão “bolchevique” para caracterizar Cristo. Revela a leitura ideológica e economicista da religião.

São Pio X – Pascendi Dominici Gregis
Encíclica fundamental contra o modernismo. Define o erro de submeter a fé às categorias culturais e científicas mutáveis.

Leão XIII – Rerum Novarum
Base da doutrina social da Igreja. Afirma a dignidade do trabalho, a legitimidade da propriedade privada e a primazia da ordem moral.

Pio XI – Quadragesimo Anno
Crítica ao liberalismo econômico sem freios e ao socialismo coletivista. Desenvolve o princípio da subsidiariedade.

João Paulo II – Centesimus Annus
Atualiza a doutrina social no contexto contemporâneo, reafirmando a centralidade da pessoa humana e da moral objetiva.

Joseph Ratzinger (Bento XVI) – Introdução ao Cristianismo
Expõe a natureza não política do Reino de Cristo e a centralidade da verdade revelada.

Michel Miaille – Introdução Crítica ao Direito
Desenvolve o conceito de “falsa transparência” ideológica na linguagem técnica e jurídica.

Olavo de Carvalho – O Jardim das Aflições
Análise da modernidade como crise espiritual e intelectual, com ênfase na perda da hierarquia da verdade.

Josef Pieper – A Defesa da Filosofia
Reflexão sobre a linguagem, a verdade e o papel da filosofia na preservação do real contra a instrumentalização ideológica.

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