Existe uma crença popular amplamente difundida segundo a qual toda cicatriz é permanente. A marca visível na pele seria, nesse imaginário, a prova definitiva de um dano irreversível. No entanto, a experiência concreta e o próprio funcionamento biológico do corpo humano contradizem essa ideia simplificadora. As cicatrizes, embora resultantes de uma ruptura tecidual real, não são necessariamente estáticas nem eternas em sua aparência.
Quando eu tinha 14 anos, uma mochila arrebentou em meu braço, provocando uma lesão que deixou uma cicatriz visível por muitos anos. Durante boa parte da juventude e da vida adulta, aquela marca esteve ali, como um vestígio permanente do incidente. Contudo, passados 31 anos, ela praticamente desapareceu. O que antes era um sinal evidente tornou-se algo discreto, quase imperceptível. O corpo, silenciosamente, assimilou o dano.
Do ponto de vista fisiológico, isso é perfeitamente compreensível. O processo de cicatrização não se encerra quando a ferida se fecha. A pele passa por três grandes fases: inflamação, proliferação e remodelação. É nessa última etapa — muitas vezes negligenciada — que ocorre a reorganização das fibras de colágeno, a redução da vascularização e a aproximação gradual da cor da cicatriz ao tom da pele ao redor. Esse processo pode durar anos ou mesmo décadas. A marca não desaparece de imediato; ela se dissolve no tempo.
A cicatriz, portanto, não é um objeto fixo. Ela é um processo. Não representa apenas um dano passado, mas uma história de adaptação biológica contínua. O erro da crença popular está em confundir a existência da lesão com a permanência da sua aparência. O fato de algo ter acontecido é irreversível; a forma como isso se manifesta, não.
Essa constatação permite uma leitura mais ampla, que ultrapassa o campo estritamente médico. A pele, enquanto fronteira entre o corpo e o mundo, registra impactos. Mas ela também os reinterpreta. A cicatriz não é apenas uma marca de violência ou acidente; é, sobretudo, um sinal de reorganização. O corpo não apaga o passado — ele o reconfigura.
Nesse sentido, o tempo não age apenas como erosão, mas como agente de assimilação. O que foi ruptura transforma-se em integração. O que foi visível torna-se discreto. O que foi ferida torna-se memória orgânica. A cicatriz não some porque o evento deixa de existir, mas porque o corpo aprende a incorporá-lo sem alarde.
Essa dinâmica biológica também serve como metáfora para a experiência humana em sentido mais amplo. Nem toda marca precisa permanecer exposta para continuar existindo. Há feridas que, com o tempo, deixam de ser ostensivas, não porque foram negadas, mas porque foram assimiladas. O passado não é apagado; ele é reordenado.
Assim, contrariando o senso comum, a cicatriz não é necessariamente um símbolo de permanência, mas de transformação. Ela não representa apenas o dano, mas a capacidade de o organismo — e, por extensão, o ser humano — reorganizar aquilo que foi ferido. O tempo não cura no sentido simplista da palavra, mas ensina o corpo a conviver com suas próprias rupturas.
Bibliografia comentada
GURTNER, G. C.; WERNER, S.; BARRANDON, Y.; LONGAKER, M. T.
Wound repair and regeneration. Nature, 2008.
Artigo clássico que descreve as fases da cicatrização (inflamação, proliferação e remodelação) e explica como a reorganização do colágeno ao longo do tempo altera a aparência das cicatrizes. Fundamenta cientificamente a ideia de que a cicatriz é um processo, não um estado fixo.
KUMAR, V.; ABBAS, A.; ASTER, J.
Robbins & Cotran – Patologia: Bases Patológicas das Doenças. Elsevier.
Obra de referência em patologia médica. Explica detalhadamente os mecanismos de reparo tecidual, fibrose e remodelação, mostrando que a aparência final da cicatriz depende de fatores como tempo, vascularização e organização das fibras.
JUNQUEIRA, L. C.; CARNEIRO, J.
Histologia Básica. Guanabara Koogan.
Aborda a estrutura da pele e os processos celulares envolvidos na regeneração e na cicatrização, oferecendo base morfológica para entender por que cicatrizes podem se tornar menos visíveis ao longo dos anos.
COTRAN, R. S.; KUMAR, V.; COLLINS, T.
Patologia Estrutural e Funcional.
Explica como o tecido cicatricial sofre remodelação progressiva, com redução da vascularização e reorganização da matriz extracelular, o que contribui para o “apagamento” visual da cicatriz.
MERLEAU-PONTY, M.
Fenomenologia da Percepção.
Embora filosófica, esta obra ajuda a pensar o corpo como lugar de inscrição da experiência. A cicatriz não é apenas um dado biológico, mas também um registro existencial que pode perder visibilidade sem perder significado.
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