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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Da Primeira Guerra Mundial como Guerra Civil Européia e da Guerra do Paraguai como Guerra Civil do Cone Sul: da integração européia e sul-americana como resposta à autodestruição

Introdução

A história das grandes integrações regionais não pode ser compreendida apenas como fruto de interesses econômicos ou pragmatismo diplomático. Em muitos casos, tais projetos nascem como resposta a experiências traumáticas de autodestruição coletiva. A Primeira Guerra Mundial, hoje frequentemente interpretada como uma “guerra civil europeia”, revelou a falência do sistema de equilíbrio de poder do continente e ensejou, ao longo do século XX, os movimentos que culminaram na União Europeia. De modo análogo, a Guerra do Paraguai pode ser interpretada como uma “guerra civil do Cone Sul”, expressão de tensões internas do espaço político sul-americano pós-independência, cuja superação tardia encontrou no Mercosul um instrumento de estabilização regional.

A Primeira Guerra Mundial como guerra civil europeia

A historiografia contemporânea vem se afastando da visão da Primeira Guerra Mundial como um simples conflito entre Estados nacionais isolados. Autores como Arno Mayer, Ernst Nolte e outros pensadores do século XX apontaram para seu caráter estruturalmente interno à civilização europeia. As potências beligerantes compartilhavam matrizes culturais, religiosas, jurídicas e políticas comuns. O conflito, portanto, não opôs civilizações distintas, mas expressou uma implosão da própria ordem europeia.

A guerra revelou a incapacidade das elites políticas de administrar rivalidades nacionais dentro de um sistema de interdependência econômica crescente. O colapso dos impérios, a radicalização ideológica e a violência de massas transformaram o continente em um campo de experimentação destrutiva. A sequência histórica entre 1914 e 1945 passou a ser interpretada como uma longa guerra civil europeia, na qual o continente lutou contra si mesmo.

Dessa experiência traumática emergiram projetos de superação da lógica do conflito. O Movimento Pan-Europeu, nos anos 1920, já defendia a unificação continental como forma de evitar novas guerras. Após 1945, com a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA) e, posteriormente, da Comunidade Econômica Europeia, consolidou-se a ideia de que a integração econômica e institucional era o único caminho viável para garantir a paz duradoura entre antigos inimigos históricos.

A Guerra do Paraguai como guerra civil do Cone Sul

A Guerra do Paraguai (1864–1870), embora menos frequentemente interpretada sob esse prisma, pode ser compreendida como uma guerra civil regional do Cone Sul. Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai pertenciam à mesma matriz ibero-americana, partilhavam herança colonial, instituições jurídicas similares e uma mesma tradição cultural católica. O conflito, portanto, não foi uma guerra entre civilizações distintas, mas uma disputa interna pelo equilíbrio de poder no espaço platino.

O Paraguai foi praticamente destruído demograficamente, economicamente e institucionalmente. O impacto da guerra reverberou em toda a região, reforçando rivalidades, instabilidade política e dependência externa. Assim como na Europa, tratou-se de uma guerra fundacional marcada por desorganização sistêmica, redefinição de fronteiras e consolidação forçada de Estados nacionais.

Entretanto, diferentemente da Europa, a América do Sul não produziu imediatamente um projeto institucional de integração capaz de transformar o trauma em arquitetura política. O século XX sul-americano foi marcado por conflitos diplomáticos, golpes de Estado, disputas territoriais e modelos econômicos divergentes, especialmente entre Brasil e Argentina.

O Mercosul como resposta tardia

A criação do Mercosul, em 1991, pode ser interpretada como uma resposta tardia às tensões estruturais herdadas das guerras fundacionais do Cone Sul. Embora não seja uma consequência direta da Guerra do Paraguai, o bloco surge como instrumento de estabilização entre países historicamente rivais.

Brasil e Argentina, protagonistas regionais, haviam mantido ao longo do século XX uma relação marcada por desconfiança estratégica, inclusive no campo nuclear. A integração econômica foi concebida como mecanismo de interdependência estrutural, reduzindo incentivos ao conflito e promovendo coordenação política mínima.

Tal como na União Europeia, a lógica subjacente ao Mercosul é a substituição da rivalidade pelo vínculo institucional. No entanto, a integração sul-americana permanece menos coesa, mais vulnerável a ciclos políticos internos e com menor densidade institucional.

Integração como resposta à autodestruição

Tanto a União Europeia quanto o Mercosul podem ser compreendidos como respostas civilizacionais a experiências de autodestruição interna. Em ambos os casos, guerras entre povos culturalmente próximos revelaram os limites da soberania absoluta, da diplomacia tradicional e da competição desregulada entre Estados.

A diferença fundamental reside na profundidade do aprendizado histórico. A Europa, devastada por duas guerras mundiais, desenvolveu uma consciência política mais clara sobre os custos da fragmentação. A América do Sul, por sua vez, enfrentou suas guerras fundacionais em um contexto de Estados ainda em formação, sem a mesma capacidade institucional de converter trauma em projeto.

Conclusão

Interpretar a Primeira Guerra Mundial como uma guerra civil europeia e a Guerra do Paraguai como uma guerra civil do Cone Sul permite compreender a integração regional não apenas como estratégia econômica, mas como resposta histórica à implosão de ordens políticas comuns. A União Europeia e o Mercosul representam, em diferentes graus de maturidade, tentativas de transformar conflitos fundacionais em estruturas de cooperação duradoura.

Em última instância, a integração regional não nasce do idealismo abstrato, mas da memória concreta da destruição. Quando uma civilização luta contra si mesma, o preço pago é tão elevado que a busca por formas superiores de convivência torna-se não apenas desejável, mas necessária.

Bibliografia Comentada

1. Mayer, Arno J.

The Persistence of the Old Regime: Europe to the Great War.
Nova York: Pantheon Books, 1981.

Mayer sustenta que a Europa de 1914 ainda era dominada por elites aristocráticas e estruturas pré-modernas. A guerra não foi apenas geopolítica, mas resultado de tensões internas profundas. Sua obra contribui para a interpretação da Primeira Guerra como um colapso civilizacional interno.

2. Nolte, Ernst

Der europäische Bürgerkrieg 1917–1945.
Berlim: Propyläen, 1987.

Nolte popularizou a expressão “guerra civil europeia” ao analisar o período entre a Revolução Russa e o fim da Segunda Guerra Mundial como um conflito ideológico interno à Europa. Embora controverso, seu enquadramento reforça a ideia de autodestruição continental.

3. Judt, Tony

Postwar: A History of Europe Since 1945.
Londres: Penguin, 2005.

Judt analisa a reconstrução europeia e a integração como resposta ao trauma das guerras. Mostra como a memória da destruição moldou o projeto europeu, fortalecendo a tese da integração como mecanismo de prevenção de novos conflitos internos.

4. Coudenhove-Kalergi, Richard

Pan-Europa.
Viena: Paneuropa Verlag, 1923.

Obra fundacional do movimento pan-europeu. Defende explicitamente a unificação do continente como solução para as guerras internas da Europa. É um testemunho direto da percepção da Primeira Guerra como uma tragédia civilizacional.

5. Doratioto, Francisco

Maldita Guerra: Nova História da Guerra do Paraguai.
São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Uma das análises mais equilibradas do conflito. Doratioto mostra a complexidade política, diplomática e regional da guerra, afastando leituras simplistas e permitindo interpretá-la como um conflito interno ao sistema sul-americano.

6. Bethell, Leslie (org.)

The Cambridge History of Latin America, Vol. III.
Cambridge: Cambridge University Press, 1985.

Fornece o enquadramento histórico da formação dos Estados nacionais sul-americanos e das disputas regionais, contextualizando a Guerra do Paraguai dentro das tensões pós-coloniais.

7. Spektor, Matias

18 Dias: Quando Lula e FHC se Uniram para Conquistar o Apoio de Bush.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.

Embora trate de outro período, ilustra a evolução da relação Brasil–Argentina e a busca por estabilidade regional, que fundamenta o Mercosul.

8. Mercosul – Tratado de Assunção (1991)

Documento fundacional do bloco. Expressa formalmente a intenção de criar interdependência econômica e coordenação política como mecanismos de estabilidade.

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