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domingo, 25 de janeiro de 2026

O indianismo romântico e a gênese do totalitarismo brasileiro

Introdução

O indianismo romântico brasileiro, cujo exemplo mais acabado é I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias, costuma ser apresentado como um momento inaugural da consciência nacional. Contudo, uma análise mais rigorosa revela que esse movimento literário não apenas falhou em fornecer uma base orgânica para a nacionalidade, como contribuiu decisivamente para a formação de um imaginário político favorável ao centralismo e, posteriormente, ao totalitarismo estatal brasileiro.

A tese deste artigo é que o indianismo romântico brasileiro está muito mais vinculado ao mito rousseauniano do “bom selvagem” do que ao romantismo cristão europeu, e que essa escolha simbólica teve consequências profundas e duradouras para a cultura política nacional.

1. Romantismo europeu e tradição: o que o Brasil não herdou

O romantismo europeu do século XIX — especialmente em autores como Chateaubriand, Novalis, Walter Scott e mesmo Manzoni — nasce como reação à abstração iluminista e à devastação institucional causada pela Revolução Francesa. Seu núcleo não é o sentimentalismo, mas a recuperação da tradição histórica concreta, marcada por:

  • cristianismo como eixo civilizacional;

  • hierarquias orgânicas;

  • pluralidade de corpos intermediários;

  • honra fundada na submissão a uma ordem transcendente.

O cavaleiro medieval, símbolo recorrente, não é idealizado por bravura instintiva, mas por lealdade, juramento e sacrifício orientado por Deus. Trata-se de um herói histórico, inserido numa cadeia de transmissão cultural e institucional.

2. O mito do bom selvagem como matriz do indianismo

O indianismo brasileiro rompe com esse paradigma ao adotar, ainda que implicitamente, o mito do “bom selvagem” formulado por Jean-Jacques Rousseau. Nesse mito:

  • o homem é naturalmente bom;

  • a virtude precede a lei;

  • a civilização e suas instituições são corruptoras;

  • a moral nasce do sentimento, não da tradição.

O indígena de I-Juca-Pirama é virtuoso não porque participa de uma ordem objetiva, mas porque encarna uma pureza pré-histórica. Sua honra é afetiva, não jurídica; sua moral é instintiva, não sacramental; sua dignidade é natural, não recebida.

Assim, embora Gonçalves Dias empregue uma linguagem heroica que lembra a cavalaria, o fundamento filosófico do herói é rousseauniano, não cristão.

3. O paradoxo do nacionalismo indianista

Aqui emerge o paradoxo central: o indianismo tenta fundar a identidade nacional brasileira sobre um personagem que, por definição, não pode fundar uma nação histórica.

O “bom selvagem”:

  • não cria instituições duráveis;

  • não transmite tradição escrita;

  • não reconhece uma lei superior e permanente;

  • não produz corpos intermediários.

Ele é moralmente exemplar, mas politicamente infértil. Serve à crítica da civilização, não à construção de uma ordem social complexa.

Ao eleger esse mito como símbolo nacional, a literatura brasileira inaugura uma nacionalidade sem passado institucional, sem continuidade orgânica e sem hierarquia legítima.

4. Do vazio simbólico ao Estado total

Esse vazio simbólico não permanece vazio por muito tempo. Onde não há tradição viva, surge a abstração; onde não há comunidade orgânica, surge o Estado.

A sequência brasileira pode ser resumida assim:

  1. O indianismo destrói simbolicamente a tradição luso-católica, associando-a à corrupção.

  2. O “bom selvagem” purifica moralmente o imaginário nacional, mas não oferece instituições.

  3. O Estado passa a ser o único agente capaz de “representar” a nação.

  4. A identidade nacional é redefinida como projeto estatal, não como herança histórica.

Dessa forma, o Estado brasileiro assume progressivamente funções que, em sociedades tradicionais, pertencem à família, à Igreja, às corporações, às municipalidades e às associações civis.

5. O totalitarismo brasileiro: sem partido único, mas com Estado absoluto

O totalitarismo brasileiro não se manifesta, em regra, por partidos únicos ou milícias ideológicas explícitas, mas por algo mais profundo e duradouro: a mentalidade estatizante total.

Essa mentalidade se expressa na ideia de que:

  • tudo o que é legítimo deve passar pelo Estado;

  • tudo o que é moral deve ser regulamentado;

  • tudo o que é nacional deve ser homologado.

Essa lógica é compatível com o mito do bom selvagem: uma sociedade “naturalmente boa” precisa apenas de um poder central que a organize e a proteja de si mesma. O Estado torna-se o tutor moral da nação.

Conclusão

O indianismo romântico brasileiro, longe de ser apenas uma curiosidade literária, desempenhou papel estrutural na formação do imaginário político nacional. Ao substituir a tradição cristã e institucional por um mito rousseauniano de pureza natural, ele:

  • deslegitimou a herança histórica concreta;

  • inviabilizou o pluralismo orgânico;

  • preparou o terreno simbólico para o Estado absoluto.

Assim, o totalitarismo brasileiro não é um acidente do século XX, mas o desdobramento lógico de uma escolha cultural feita no século XIX: fundar a nação não sobre a história real, mas sobre um mito estético incompatível com a liberdade concreta. 

Bibliografia comentada

1. Rousseau e o mito do “bom selvagem”

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens.
Obra central para compreender a matriz filosófica do indianismo. Rousseau formula o mito do homem naturalmente bom, anterior à sociedade e às instituições. Esse “estado de natureza” não é histórico, mas normativo e simbólico. O indígena idealizado do romantismo brasileiro herda diretamente essa construção, que dissolve tradição, hierarquia e transcendência em favor de uma moral sentimental.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do Contrato Social.
Complementa o Discurso ao mostrar como, uma vez destruídas as instituições tradicionais, apenas uma vontade geral abstrata pode fundar a ordem política. Essa lógica ajuda a entender por que o mito do bom selvagem, ao negar mediações históricas, prepara o terreno para um Estado que se arroga representante exclusivo da nação.

2. Indianismo e romantismo brasileiro

DIAS, Gonçalves. I-Juca-Pirama.
Texto-chave do indianismo. A análise literária revela que a honra do herói indígena não é cristã nem institucional, mas natural e afetiva. A obra é fundamental não como épico fundador, mas como documento simbólico de uma nacionalidade construída a partir da negação da tradição histórica luso-católica.

CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira.
Embora parta de pressupostos sociológicos discutíveis, a obra é útil para entender o esforço consciente de “fundar” uma literatura nacional. Candido mostra, ainda que involuntariamente, como a literatura brasileira nasce mais como projeto do que como expressão orgânica de uma tradição viva.

3. Romantismo europeu e tradição cristã

CHATEAUBRIAND, François-René de. O Gênio do Cristianismo.
Obra essencial para contrastar o romantismo europeu com o indianismo brasileiro. Chateaubriand mostra como o cristianismo é fonte de arte, instituições, moral e coesão social. Aqui, o passado não é negado, mas assumido como fundamento vivo — exatamente o que falta ao romantismo nacional brasileiro.

SCOTT, Walter. Ivanhoe.
Exemplo literário de romantismo histórico autêntico. O herói está inserido em conflitos reais, instituições concretas e uma ordem jurídica e religiosa definida. Serve como contraponto direto ao herói indianista, que é moralmente exemplar, mas politicamente vazio.

4. Crítica contrarrevolucionária ao iluminismo

BURKE, Edmund. Reflexões sobre a Revolução na França.
Texto fundamental para compreender o perigo político da abstração. Burke antecipa o problema central do indianismo: a destruição simbólica da tradição em nome de ideais morais leva inevitavelmente ao poder central absoluto, apresentado como restaurador da ordem.

DE MAISTRE, Joseph. Considerações sobre a França.
Aprofunda a crítica ao racionalismo revolucionário e mostra como a negação da ordem religiosa e histórica desemboca na violência política ou no despotismo administrativo. Sua leitura ajuda a entender o percurso brasileiro: sem tradição legítima, resta o Estado como força organizadora.

5. Estado, centralismo e totalitarismo

JOUVENEL, Bertrand de. O Poder.
Análise clássica da expansão contínua do poder estatal ao longo da modernidade. Jouvenel demonstra como o enfraquecimento dos corpos intermediários — família, Igreja, associações — fortalece um Estado que passa a se apresentar como protetor do povo. Essencial para compreender o totalitarismo difuso brasileiro.

ARON, Raymond. Democracia e Totalitarismo.
Embora trate principalmente do século XX europeu, Aron fornece categorias úteis para identificar formas não clássicas de totalitarismo, baseadas mais em mentalidades e estruturas do que em regimes declaradamente ditatoriais.

6. Brasil: formação política e mentalidade estatizante

FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder.
Obra indispensável para entender o patrimonialismo e o centralismo brasileiros. Ainda que Faoro tenha limitações interpretativas, sua descrição do Estado como instância dominante ajuda a articular o elo entre imaginário cultural e prática institucional.

OLIVEIRA VIANNA, Francisco José de. Instituições Políticas Brasileiras.
Vianna percebe, com clareza incomum, a fragilidade dos corpos intermediários no Brasil e a consequente hipertrofia do Estado. Sua obra é valiosa para compreender como o centralismo se torna quase inevitável num país sem tradição comunitária sólida.

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