Introdução
A intervenção e a consequente liquidação dos Bancos Master e Will, determinadas pelo Banco Central, foram apresentadas oficialmente como medidas técnicas, necessárias para preservar a estabilidade do sistema financeiro. Contudo, para além do aspecto regulatório imediato, esses eventos reacenderam um debate mais profundo e incômodo: o da fragilidade estrutural da República brasileira e da crise crônica de legitimidade que a acompanha desde a Proclamação da República, em 1889. Quando bancos entram em colapso, não é apenas capital que se perde; o que se deteriora de forma silenciosa, porém decisiva, é a confiança, fundamento tanto do sistema bancário quanto da ordem política republicana.
A credibilidade como fundamento do sistema bancário
O sistema bancário moderno não se sustenta sobre reservas integrais, mas sobre confiança. Os depósitos não permanecem parados; circulam, são emprestados, alavancados e reinvestidos. Esse arranjo só é possível porque existe a expectativa social de que o banco honrará seus compromissos quando o depositante exigir liquidez. Quando essa expectativa é rompida — sobretudo de maneira abrupta, por meio de liquidações extrajudiciais — instala-se o medo da corrida bancária, fenômeno capaz de derrubar inclusive instituições saudáveis.
A liquidação do Banco Master e do Willbank produziu exatamente esse efeito simbólico. Não se tratava de pequenas casas financeiras irrelevantes, mas de instituições com milhões de clientes, forte captação via CDBs e ampla presença digital. O recado implícito foi devastador: nem mesmo bancos aparentemente sólidos estão imunes ao colapso súbito. Assim, a confiança no sistema como um todo é corroída, e com ela a credibilidade das autoridades responsáveis por regulá-lo.
Da crise bancária à crise de legitimidade política
A República, enquanto forma de governo, depende de um pacto de confiança semelhante. Seus cidadãos precisam acreditar que as instituições funcionam de maneira previsível, racional e justa. No Brasil, porém, esse pacto sempre foi frágil. A República nasceu de um golpe militar, não de um consenso nacional, e jamais logrou construir uma legitimidade simbólica comparável à da Monarquia, que se enraizava em uma tradição histórica, religiosa e cultural reconhecida pela população.
Nesse sentido, crises bancárias recorrentes funcionam como sintomas e aceleradores da deslegitimação republicana. Quando o cidadão comum vê seu banco quebrar, seu dinheiro congelado e sua subsistência ameaçada, a confiança no Estado — que regula, supervisiona e promete proteção — é diretamente abalada. O discurso tecnocrático do Banco Central não é suficiente para restaurar essa confiança, pois o dano não é apenas financeiro, mas moral e institucional.
O papel do Estado e a percepção de injustiça
Outro elemento corrosivo é a percepção de assimetria na distribuição dos custos da crise. Enquanto depositantes aguardam meses pelo ressarcimento do Fundo Garantidor de Créditos, gestores, controladores e agentes políticos raramente sofrem consequências proporcionais. A República, que se apresenta como regime da igualdade perante a lei, revela-se, mais uma vez, seletiva na aplicação de responsabilidades.
Essa assimetria reforça a narrativa, já amplamente difundida, de que a República brasileira opera como um sistema de proteção das elites financeiras e burocráticas, em detrimento do cidadão comum. Cada nova crise bancária, portanto, não é um evento isolado, mas mais um capítulo de uma longa história de desalinhamento entre poder político e bem comum.
A herança da ruptura monárquica
Desde a queda da Monarquia, o Brasil vive sob um regime cuja legitimidade nunca foi plenamente consolidada. A Monarquia brasileira, apesar de suas limitações, possuía uma lógica de continuidade histórica, um senso de responsabilidade moral do governante e uma mediação simbólica que transcendia ciclos eleitorais e interesses partidários. A República, ao contrário, estruturou-se sobre rupturas sucessivas, instabilidade constitucional e um formalismo legal frequentemente dissociado da realidade social.
Nesse contexto, a fragilização do sistema bancário assume um significado político mais profundo. Se o dinheiro — elemento central da vida econômica moderna — não está seguro, então o próprio Estado que o regula revela sua incapacidade de garantir a ordem. A crise bancária torna-se, assim, um estopim simbólico para a percepção de que a República falhou em sua promessa fundamental de estabilidade.
Considerações finais
A intervenção e liquidação dos Bancos Master e Will não devem ser analisadas apenas como episódios técnicos de supervisão financeira. Elas expõem uma fissura mais profunda: a coincidência entre a crise de credibilidade do sistema bancário e a crise de legitimidade da República brasileira. Quando a confiança se rompe simultaneamente no banco e no Estado, o resultado é um terreno fértil para o questionamento radical do regime.
Não é por acaso que, em momentos como este, ressurgem debates sobre a falência da República e a necessidade de repensar suas bases históricas, institucionais e morais. Enquanto a confiança continuar sendo tratada apenas como variável técnica, e não como fundamento civilizacional, crises financeiras seguirão funcionando como catalisadores da desagregação política. Em última instância, a queda de bancos pode não derrubar imediatamente a República, mas contribui decisivamente para expor aquilo que, para muitos, já ruiu há muito tempo: a sua legitimidade.
Bibliografia comentada
BAGEHOT, Walter. Lombard Street: A Description of the Money Market.
Clássico da teoria bancária moderna, Bagehot explica por que a confiança é o verdadeiro lastro do sistema financeiro e como crises bancárias são, em essência, crises de credibilidade. A obra é fundamental para compreender por que a liquidação abrupta de bancos produz efeitos sistêmicos que transcendem o aspecto contábil.
MINSKY, Hyman P. Stabilizing an Unstable Economy.
Minsky desenvolve a tese de que o próprio funcionamento normal do sistema financeiro gera instabilidade crescente. Sua análise ajuda a interpretar a proliferação de CDBs com retornos agressivos como sintomas de uma fase especulativa avançada, típica de períodos que antecedem colapsos financeiros.
KEYNES, John Maynard. A Treatise on Money.
Keynes oferece uma reflexão profunda sobre moeda, crédito e confiança, mostrando que a estabilidade financeira depende menos de equilíbrios matemáticos e mais de expectativas coletivas. O colapso da confiança bancária, nesse sentido, afeta diretamente a legitimidade das instituições políticas que regulam o sistema.
FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder.
Obra central para entender a formação do Estado brasileiro, Faoro demonstra como a República herdou e aprofundou estruturas patrimonialistas, produzindo uma separação crônica entre Estado e sociedade. Essa análise ilumina a percepção recorrente de injustiça e seletividade nas crises bancárias.
CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas.
O autor analisa a fragilidade simbólica da República brasileira e sua dificuldade em construir legitimidade junto ao povo após 1889. A obra é essencial para compreender por que choques institucionais — como crises financeiras — atingem de forma tão profunda a confiança no regime republicano.
OLIVEIRA, Ricardo. O Banco Central e a Crise de Confiança.
Estudo voltado ao papel das autoridades monetárias em contextos de crise. A obra ajuda a avaliar os limites do discurso tecnocrático do Banco Central quando a crise ultrapassa o campo econômico e passa a afetar a legitimidade política do Estado.
BURKE, Edmund. Reflections on the Revolution in France.
Embora trate de outro contexto histórico, Burke oferece uma crítica clássica às rupturas institucionais que desprezam a tradição e a continuidade histórica. Sua reflexão é útil para pensar a queda da Monarquia brasileira e os déficits de legitimidade que a República nunca conseguiu sanar plenamente.
LEÃO XIII. Rerum Novarum.
A encíclica fornece um fundamento moral e social para a compreensão do capital como fruto do trabalho acumulado e da ordem social estável. Serve como contraponto à financeirização irresponsável e à lógica especulativa que frequentemente precede crises bancárias.
NORTH, Douglass C. Institutions, Institutional Change and Economic Performance.
North demonstra como instituições frágeis geram custos econômicos e instabilidade recorrente. Sua teoria institucional oferece base sólida para relacionar crises bancárias à falência de arranjos políticos incapazes de sustentar confiança de longo prazo.
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