A história não é feita apenas pelo que se vê. Frédéric Bastiat ensinou que o verdadeiro custo de qualquer ação está tanto no que é visível quanto no que permanece invisível. Aplicando esse princípio à arquitetura e à civilização, percebemos que o que não se construiu — o que foi impedido de existir — revela mais sobre os governantes e sua mentalidade do que aquilo que eles deixaram erguido.
Ao criar cabines telefônicas inglesas respeitando a gramática arquitetônica de outras civilizações — francesas, polonesas, brasileiras, portuguesas — surge um fenômeno inquietante: a miopia cultural do século XX. Governantes, dominados pela mentalidade revolucionária e pelo senso de conservaro que é conveniente, ainda que dissociado da verdade, fecharam os olhos para a coerência histórica e estética. Preferiram a ruptura arbitrária, ignorando a possibilidade de integrar tradição, beleza e funcionalidade em obras que poderiam ter transformado a paisagem urbana em testemunho vivo de sua própria civilização.
Essas cabines imaginárias, frutos da inteligência artificial e da reflexão histórica, tornam-se artefatos contrafactuais. Elas não existem no espaço físico, mas existem como prova de que a beleza negada também é real. Elas expõem um mundo possível que a miopia do poder impediu de surgir e nos convidam a refletir: ao invés de museus voltados para um futuro que sempre se adia, não deveríamos criar um museu do que foi impedido de nascer? Um espaço dedicado à coerência e ao belo negado, àquilo que a história oficial ignorou e que a civilização perdeu.
A analogia ética é direta e contundente: assim como negar o direito de um bebê de nascer é um aborto de possibilidade, impedir a expressão civilizacional é um aborto histórico e cultural. O que não se construiu deixa marcas invisíveis no presente: empobrece o espírito coletivo, fragiliza o sentido de pertencimento, diminui a capacidade de admirar e de aprender com a própria história.
Bastiat nos lembra que devemos olhar para o que não se vê. As cabines telefônicas que projetamos respeitando a gramática das civilizações funcionam como uma janela para o invisível, revelando o custo da miopia dos governantes. Elas nos forçam a medir o impacto real de nossas escolhas — não apenas no utilitarismo imediato, mas na memória, na estética, na coerência civilizacional.
O desafio que se impõe é claro: não basta construir para o presente, nem sonhar com um futuro hipotético. É necessário preservar, honrar e aprender com o que poderia ter sido belo, garantindo que as gerações vindouras herdem não apenas a funcionalidade do mundo, mas a riqueza invisível das tradições cultivadas, respeitadas e nunca permitidas desaparecer.
Bibliografia comentada
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Bastiat, Frédéric. Ce qu’on voit et ce qu’on ne voit pas (1850).
Este ensaio clássico é a base conceitual do artigo. Bastiat nos ensina a analisar não apenas os efeitos visíveis das ações humanas, mas também os invisíveis. A reflexão sobre as cabines telefônicas e a beleza negada aplica exatamente essa lógica à arquitetura e à história civilizacional. -
Royce, Josiah. A Filosofia da Lealdade (1908).
A obra de Royce inspira a ideia de que a civilização e a cultura têm uma gramática moral e estética própria, e que ignorá-la é comprometer a fidelidade ao próprio legado histórico. Ajuda a fundamentar a crítica à miopia dos governantes e à ruptura arbitrária com a tradição. -
Lowenthal, David. The Past is a Foreign Country (1985).
Este livro aprofunda o estudo sobre memória, patrimônio e história. É útil para compreender a dimensão cultural e ética de preservar o que poderia ter sido, e reforça a proposta do “museu do que não nasceu” como prática civilizacional. -
Clark, Kenneth. Civilisation (1969).
Clark examina a evolução da arte e da arquitetura europeias, oferecendo contexto para entender como escolhas políticas e sociais influenciam a paisagem estética das cidades. Serve de base para pensar na coerência arquitetônica que os governantes negaram. -
Mumford, Lewis. The City in History (1961).
Mumford mostra como a cidade é um reflexo da civilização. Suas análises ajudam a contextualizar a importância de integrar tradição, função e beleza urbana, reforçando o argumento sobre o valor das cabines imaginárias.
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