Por anos, Daniel Vorcaro foi apresentado ao público como um símbolo de sucesso no mercado financeiro brasileiro. Jovem, discreto no início e depois ostensivo, o empresário mineiro ganhou notoriedade ao adquirir um banco em dificuldades e, em poucos anos, transformá-lo em uma instituição que anunciava bilhões em patrimônio líquido e oferecia retornos muito acima da média do mercado. Em novembro de 2025, porém, essa narrativa ruiu: o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, e Vorcaro foi preso preventivamente sob acusações de fraudes financeiras de grandes proporções.
A construção de uma imagem de prosperidade
Natural de Belo Horizonte, Daniel Vorcaro é oriundo de uma família tradicional do setor imobiliário. Seu pai, Henrique Vorcaro, fundou e dirige a Multipar, empresa envolvida em grandes empreendimentos na capital mineira. Formado em economia, Daniel iniciou sua trajetória empresarial administrando e vendendo empresas do setor educacional, até encontrar, em 2016, a oportunidade que mudaria sua vida: tornar-se sócio do então Banco Máxima.
O Banco Máxima, fundado em 1970, atuava no mercado financeiro tradicional, mas entrou em crise após o Banco Central identificar, entre 2014 e 2016, práticas de gestão fraudulenta, prestação de informações falsas e manipulação de balanços durante a administração anterior. Vorcaro ingressou na instituição no mesmo ano da descoberta das irregularidades, mas, segundo as investigações iniciais, não foi acusado de participação nos esquemas anteriores.
Da reestruturação ao crescimento acelerado
Em 2018, com a inabilitação do Banco Máxima, Vorcaro adquiriu o controle da instituição por um valor muito inferior ao de um banco saudável, rebatizando-a como Banco Master. Com capital aportado por sua holding, a Viking Participações, iniciou um processo de reestruturação e expansão agressiva.
O diferencial do Banco Master passou a ser a oferta de CDBs com rendimentos entre 120% e 150% do CDI, quando a média do mercado girava em torno de 100%. A estratégia atraiu milhares de investidores, pessoas físicas e jurídicas, que viam nos títulos uma alternativa segura e altamente rentável.
As acusações de fraude e o modelo insustentável
De acordo com o Ministério Público Federal, o Banco Central e a Polícia Federal, o modelo de negócios do Banco Master era estruturalmente insustentável. As autoridades afirmam que a instituição não possuía rentabilidade real nem caixa suficiente para honrar os juros prometidos aos investidores.
Para manter a captação, o banco teria produzido balanços falsos, ocultando prejuízos e inflando ativos. Parte do dinheiro de novos investidores seria utilizada para pagar rendimentos antigos, enquanto outra parte teria sido desviada para interesses privados ligados à família Vorcaro — uma dinâmica frequentemente comparada, por especialistas, a esquemas financeiros de pirâmide.
Um dos pontos mais sensíveis apontados nas investigações é a venda de carteiras de investimento consideradas fictícias ao Banco de Brasília (BRB), operação que teria resultado na transferência de cerca de R$ 12 bilhões em recursos públicos para o Banco Master.
Fraudes contra aposentados e outras suspeitas
Outro eixo das investigações envolve o mercado de empréstimos consignados do INSS. O Banco Master, após obter autorização para atuar nesse segmento, teria celebrado aproximadamente 250 mil contratos fraudulentos, sem assinaturas válidas, biometria ou comprovação adequada de consentimento. Segundo a Polícia Federal, valores eram descontados diretamente dos benefícios de aposentados e pensionistas sem que estes tivessem contratado os empréstimos.
Além disso, o banco passou a ser investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, possível ligação com organizações criminosas e omissão deliberada de riscos em relatórios enviados ao Banco Central, com o objetivo de ocultar a real situação de insolvência.
A proximidade com o poder
Paralelamente ao crescimento do banco, Daniel Vorcaro ampliou sua presença em eventos políticos e jurídicos de alto nível. O Banco Master patrocinou fóruns e encontros nacionais e internacionais — em cidades como Paris, Roma, Londres, Nova Iorque e Cambridge — que reuniram ministros do Supremo Tribunal Federal, parlamentares, membros do Executivo e empresários influentes.
Também são relatados jantares privados de luxo na mansão de Vorcaro, no Lago Sul, em Brasília, com a presença de autoridades de destaque da República. Essa rede de relações passou a ser questionada quando o banco entrou em colapso, levantando suspeitas sobre eventual trânsito privilegiado junto a instituições responsáveis por sua fiscalização e julgamento.
Contratos milionários e controvérsias jurídicas
Em janeiro de 2024, o Banco Master firmou um contrato com o escritório de advocacia comandado por Viviane Barsi de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes. O acordo previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões por três anos, totalizando até R$ 129 milhões, para prestação de consultoria jurídica ampla, inclusive junto a órgãos como Banco Central, Receita Federal e Congresso Nacional.
O contrato, encontrado no celular de Vorcaro durante a Operação Compliance Zero, gerou forte controvérsia por possível conflito de interesses, uma vez que o STF viria a julgar questões relacionadas ao banco. Apesar disso, o Procurador-Geral da República entendeu, à época, não haver ilicitude aparente e arquivou pedido de investigação.
Prisão, liquidação e disputas institucionais
Em novembro de 2025, ao tentar deixar o país em um jato particular, Daniel Vorcaro foi impedido pela Polícia Federal e teve a prisão preventiva decretada. No dia seguinte, o Banco Central anunciou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de suas subsidiárias, citando os crimes investigados.
Após 11 dias detido, Vorcaro obteve autorização para cumprir prisão preventiva em regime domiciliar, decisão que provocou forte reação nas redes sociais. O caso também chegou ao Tribunal de Contas da União, que abriu processo para avaliar a atuação do Banco Central, gerando debates públicos sobre autonomia institucional e supervisão financeira.
Opinião pública e tentativa de contra-narrativa
Após a liquidação, surgiram denúncias de que Vorcaro teria contratado agências de marketing para mobilizar influenciadores digitais em defesa do Banco Master e contra o Banco Central. Alguns desses influenciadores afirmaram ter recusado contratos milionários ao tomar conhecimento do objetivo da campanha.
Um caso em aberto
O escândalo do Banco Master ainda está em curso. Investigações seguem em andamento, decisões judiciais continuam sendo tomadas e novos elementos surgem com frequência. O caso expõe fragilidades na supervisão do sistema financeiro, a complexa relação entre poder econômico e instituições públicas e o papel da opinião pública em crises de grande impacto nacional.
Enquanto a Justiça não conclui o julgamento definitivo, a história de Daniel Vorcaro e do Banco Master permanece como um dos episódios mais emblemáticos do entrelaçamento entre finanças, política e poder no Brasil contemporâneo.
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