No Brasil, costuma-se confundir estabilidade com carreirismo. Trata-se de um erro conceitual que produz consequências práticas graves, tanto na vida individual quanto na organização social. Estabilidade não é sinônimo de cargo fixo, salário garantido ou benefícios estatais. Estabilidade é, antes de tudo, uma condição institucional: um ambiente político, jurídico e econômico previsível, justo e funcional.
Onde há verdadeira estabilidade, há governo limitado pela lei, segurança jurídica, paz social, proteção da propriedade e previsibilidade econômica. Nesse contexto, o trabalho deixa de ser um instrumento de sobrevivência e passa a ser um meio de realização pessoal, familiar e espiritual. O indivíduo pode empreender, formar patrimônio, educar os filhos e ordenar sua vida segundo valores superiores e caros — inclusive a santificação através do estudo e do trabalho. A carreira, nesse cenário, é apenas um meio, não o fim.
Já o carreirismo nasce em ambientes instáveis. Ele não é uma vocação, mas uma estratégia defensiva. Surge quando o Estado é imprevisível, a economia é volátil, a justiça é insegura e a carga tributária é predatória. Nessas condições, a “carreira” deixa de ser um projeto de vida e passa a ser um escudo contra o caos.
O foco do carreirista não está na excelência, na missão ou na construção de algo duradouro. Está na manutenção de renda, status e privilégios dentro de um sistema frágil. Não se trata de realização, mas de sobrevivência. A carreira deixa de ser instrumento e se torna finalidade.
O problema é que esse modelo é sustentado por uma ilusão de estabilidade. Os benefícios, garantias e “seguranças” que alimentam o carreirismo não decorrem da produtividade real da sociedade, mas da arrecadação estatal. São financiados por impostos elevados, expansão fiscal e redistribuição compulsória. Trata-se de uma estabilidade artificial, não orgânica.
Enquanto a arrecadação cresce, o sistema se sustenta. Mas há um limite econômico claro: a Curva de Laffer. Quando a carga tributária ultrapassa o ponto ótimo, a base produtiva encolhe, a evasão aumenta, o investimento diminui e a arrecadação deixa de crescer. A tentativa de compensar a queda com mais impostos apenas acelera o colapso.
Nesse momento, o Estado perde a capacidade de manter os benefícios que sustentavam o carreirismo. A “estabilidade” desaparece porque nunca foi estabilidade de fato — foi dependência fiscal. O que parecia segurança revela-se fragilidade estrutural.
A distinção entre estabilidade real e carreirismo defensivo pode ser resumida assim:
A estabilidade real nasce da ordem institucional, da produtividade e da previsibilidade. O trabalho é vocação, a carreira é meio, a prosperidade é orgânica e o indivíduo é autônomo.
O carreirismo defensivo nasce da instabilidade, da incerteza e da dependência estatal. O trabalho é escudo, a carreira é fim, a renda é artificial e o indivíduo é dependente.
Em suma, onde há verdadeira estabilidade, a carreira serve à vida. Onde há instabilidade, a carreira substitui a vida.
Confundir uma coisa com a outra é perpetuar um modelo de sobrevivência travestido de prosperidade — um modelo que, mais cedo ou mais tarde, entra em colapso junto com o sistema que o sustenta.
Bibliografia Comentada
1. North, Douglass C.
Institutions, Institutional Change and Economic Performance
Cambridge University Press, 1990.
North demonstra que prosperidade duradoura depende da qualidade das instituições — segurança jurídica, previsibilidade e limites ao poder estatal. Sua obra fundamenta a ideia de que estabilidade é estrutural, não individual.
2. Hayek, Friedrich A.
O Caminho da Servidão
Instituto Ludwig von Mises Brasil.
Hayek explica como a expansão do Estado, mesmo com boas intenções, gera instabilidade econômica e social. A lógica do carreirismo defensivo encontra aqui sua base: quanto maior a incerteza institucional, mais as pessoas buscam proteção em estruturas estatais.
3. Laffer, Arthur B.
The Laffer Curve: Past, Present, and Future
Laffer demonstra empiricamente que a tributação excessiva reduz a arrecadação ao desestimular a produção. O colapso da “estabilidade” fiscal é consequência direta desse limite econômico.
4. Tocqueville, Alexis de
A Democracia na América
Martins Fontes.
Tocqueville analisa como sociedades livres prosperam quando há equilíbrio entre liberdade, responsabilidade e instituições sólidas. Sua obra sustenta a distinção entre autonomia produtiva e dependência estatal.
5. Rerum Novarum – Papa Leão XIII
Encíclica fundamental sobre trabalho, propriedade e dignidade humana. Afirma que o trabalho é meio de santificação e realização moral, não apenas sobrevivência econômica.
6. Weber, Max
A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo
Companhia das Letras.
Weber explica como o trabalho passou de vocação a instrumento de acumulação. Seu diagnóstico ajuda a compreender a transformação da carreira em fim em si mesma.
7. Olavo de Carvalho
O Jardim das Aflições
Discute a perda de fundamentos metafísicos e morais na política moderna. Relevante para entender como a instabilidade cultural alimenta a instabilidade institucional.
8. Buchanan, James
The Limits of Liberty
Analisa os limites do Estado fiscal e a tendência à expansão predatória. Fundamenta a crítica à dependência de benefícios sustentados por arrecadação crescente.
9. Chesterton, G. K.
O Que Há de Errado com o Mundo
Defende a centralidade da família, da propriedade e da autonomia. Sua crítica ao tecnocratismo complementa a crítica ao carreirismo como substituto da vida real.
10. Santo Tomás de Aquino
Suma Teológica – Tratado das Virtudes
Fundamento filosófico da ideia de trabalho como ordenação moral da vida humana.
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