Introdução
A sucessão empresarial não deve ser compreendida apenas como um fenômeno jurídico de transferência de ativos ou encerramento de pessoas jurídicas. Em termos econômicos e geopolíticos, ela representa a continuidade funcional de infraestruturas, rotas, territórios e cadeias logísticas que permanecem operantes mesmo após a extinção formal de uma empresa. O caso da substituição da infraestrutura da Sendas pela Amazon ilustra, de maneira exemplar, como a herança empresarial pode ser reinterpretada dentro do paradigma contemporâneo da geopolítica da conectividade.
Nesse novo regime, o poder econômico e estratégico não se baseia apenas na posse de territórios ou recursos naturais, mas no controle de fluxos — de mercadorias, dados, serviços e acessos. A sucessão da Sendas pela Amazon revela uma transição civilizacional: da economia industrial-nacional para a economia logística-informacional de alcance global.
1. Sucessão empresarial como continuidade funcional
No plano jurídico, a empresa pode deixar de existir com a dissolução da pessoa jurídica. No plano econômico, porém, suas funções raramente desaparecem. Cadeias de suprimento, centros de distribuição, rotas logísticas, contratos implícitos e relações territoriais tendem a ser absorvidos por novos agentes.
A Sendas, enquanto grupo varejista tradicional, estruturou ao longo de décadas:
-
Infraestrutura logística regional
-
Centros de armazenagem
-
Capilaridade urbana
-
Integração com fornecedores
-
Presença territorial estratégica no Sudeste brasileiro
Com sua perda de protagonismo, essas funções não se extinguiram. Foram reaproveitadas por empresas inseridas em um novo paradigma operacional. A Amazon, ao ocupar antigas áreas logísticas e aproveitar a malha já consolidada, não herdou juridicamente a Sendas, mas herdou sua funcionalidade econômica e territorial.
Trata-se de uma sucessão de infraestrutura, não apenas de ativos.
2. Da logística industrial à logística informacional
A Sendas operava segundo a lógica clássica do varejo industrial:
Produção → Armazenagem → Loja física → Consumo local
Já a Amazon opera sob um modelo distinto:
Plataforma digital → Dados → Logística integrada → Distribuição sob demanda
Nesse modelo, o território deixa de ser apenas um espaço de venda e passa a ser um nó logístico dentro de uma rede global. O consumidor não é mais apenas um comprador local, mas um terminal conectado a um sistema planetário de circulação de mercadorias e informações.
A infraestrutura herdada da Sendas, originalmente voltada ao abastecimento regional, passa a servir a uma rede transnacional de conectividade. O mesmo galpão que antes sustentava um varejo físico agora integra uma arquitetura logística global.
3. Geopolítica da conectividade
A geopolítica clássica concentrava-se em:
-
Fronteiras territoriais
-
Rotas marítimas
-
Força militar
-
Controle de recursos naturais
A geopolítica da conectividade, por sua vez, concentra-se em:
-
Infraestrutura logística
-
Plataformas digitais
-
Centros de dados
-
Cadeias globais de suprimento
-
Controle de fluxos informacionais
Empresas como a Amazon tornam-se atores geopolíticos não estatais, capazes de:
-
Redefinir fluxos comerciais
-
Reorganizar economias regionais
-
Condicionar padrões de consumo
-
Influenciar políticas públicas
-
Controlar canais de acesso a bens
Ao ocupar a antiga infraestrutura da Sendas, a Amazon não apenas amplia sua presença no Brasil, mas integra o território nacional à sua rede logística global, reforçando sua posição como potência conectiva.
4. O território como herança estratégica
A infraestrutura da Sendas não era composta apenas por galpões e caminhões. Ela representava:
-
Localização privilegiada
-
Acesso a eixos rodoviários
-
Proximidade de grandes centros consumidores
-
Integração com cadeias regionais
Ao se instalar nesses espaços, a Amazon:
-
Reduz custos de entrada
-
Acelera sua expansão
-
Consolida presença territorial
-
Otimiza sua malha logística
-
Reconfigura o uso econômico do território
Isso caracteriza uma forma contemporânea de poder: o controle da conectividade. Quem controla os fluxos controla o mercado, a circulação e, indiretamente, o comportamento social.
5. Sucessão empresarial como transição civilizacional
A sucessão da Sendas pela Amazon simboliza uma mudança de paradigma:
| Economia Industrial | Economia de Plataformas |
|---|---|
| Varejo físico | Plataforma digital |
| Mercado nacional | Rede global |
| Logística regional | Logística planetária |
| Infraestrutura local | Infraestrutura conectiva |
| Capital produtivo | Capital informacional |
Não se trata apenas de uma troca de empresas, mas de uma transformação estrutural na forma como o poder econômico é exercido.
A infraestrutura permanece, mas sua função muda. O território permanece, mas seu significado estratégico se amplia. A logística deixa de ser apenas operacional e passa a ser geopolítica.
6. Implicações para o Brasil
A integração da infraestrutura nacional à rede da Amazon:
-
Internacionaliza o mercado interno
-
Subordina fluxos locais a decisões globais
-
Aumenta a dependência logística
-
Redefine padrões de consumo
-
Insere o país na economia da conectividade
Esse processo não é neutro. Ele reorganiza o espaço econômico brasileiro dentro de uma hierarquia global de fluxos, na qual plataformas digitais exercem funções antes reservadas aos Estados.
Conclusão
A sucessão empresarial observada no caso Sendas–Amazon não é apenas um fenômeno econômico ou jurídico, mas um evento geopolítico. A infraestrutura herdada deixa de servir a uma economia industrial nacional e passa a integrar uma rede global de conectividade.
Nesse novo regime, o poder não se mede apenas pela posse de territórios, mas pelo controle dos fluxos que atravessam esses territórios. A sucessão empresarial torna-se, assim, um instrumento de reorganização geopolítica da circulação, da produção e do consumo.
A antiga Sendas estruturou o território. A Amazon o conecta ao mundo.
Bibliografia Comentada
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede.
Obra fundamental para compreender a transição do capitalismo industrial para o capitalismo informacional. Castells demonstra como as redes de informação, logística e comunicação se tornam a principal infraestrutura do poder contemporâneo. A análise sustenta a ideia de que empresas como a Amazon atuam como nós estratégicos de uma geopolítica da conectividade.
COHEN, Saul Bernard. Geopolitics: The Geography of International Relations.
Cohen amplia o conceito clássico de geopolítica ao incorporar infraestrutura, fluxos econômicos e conectividade como elementos centrais do poder. A obra fornece base teórica para entender como redes logísticas substituem, em parte, o controle territorial tradicional.
HARVEY, David. The Condition of Postmodernity.
Harvey analisa a compressão espaço-tempo promovida pela logística global, pelas tecnologias de transporte e pela financeirização. Sua abordagem ajuda a explicar como infraestruturas herdadas por empresas globais passam a integrar cadeias transnacionais de circulação.
GRAHAM, Stephen; MARVIN, Simon. Splintering Urbanism.
Os autores mostram como a infraestrutura urbana é reconfigurada por redes globais, criando territórios conectados a sistemas transnacionais. O caso Sendas–Amazon ilustra esse fenômeno de reorientação funcional do espaço urbano-logístico.
PARAG KHANNA. Connectography.
Khanna defende que o mundo contemporâneo é estruturado mais por redes de conectividade do que por fronteiras políticas. A obra fundamenta a noção de que empresas logísticas globais exercem poder geopolítico ao controlar fluxos.
BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo.
Braudel demonstra como as infraestruturas econômicas moldam a longa duração histórica. Seu enfoque ajuda a interpretar a sucessão empresarial como continuidade estrutural de funções econômicas, ainda que os agentes mudem.
PORTER, Michael. Competitive Advantage.
Porter fornece o arcabouço para compreender como ativos logísticos, localização e cadeias de valor constituem vantagens estratégicas. A absorção da infraestrutura da Sendas pela Amazon pode ser lida como uma estratégia de redução de custos e ganho territorial.
ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism.
Embora focada no uso de dados, Zuboff mostra como plataformas digitais integram logística, informação e comportamento. Isso reforça a ideia de que a infraestrutura física agora serve a um sistema informacional de controle de fluxos.
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço.
Santos oferece uma leitura crítica do espaço como construção técnica, informacional e econômica. Sua obra permite compreender o território não apenas como solo físico, mas como infraestrutura funcional sujeita à reconfiguração por agentes globais.
RIBEIRO, Luiz César de Queiroz. Metropolização, fragmentação e desigualdade.
Analisa como grandes corporações reconfiguram o espaço urbano e regional no Brasil. Ajuda a contextualizar os impactos territoriais da entrada de plataformas globais no mercado nacional.
Nenhum comentário:
Postar um comentário