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sábado, 17 de janeiro de 2026

Sucessão Empresarial e Geopolítica da Conectividade: da infraestrutura da Sendas à rede global da Amazon

Introdução

A sucessão empresarial não deve ser compreendida apenas como um fenômeno jurídico de transferência de ativos ou encerramento de pessoas jurídicas. Em termos econômicos e geopolíticos, ela representa a continuidade funcional de infraestruturas, rotas, territórios e cadeias logísticas que permanecem operantes mesmo após a extinção formal de uma empresa. O caso da substituição da infraestrutura da Sendas pela Amazon ilustra, de maneira exemplar, como a herança empresarial pode ser reinterpretada dentro do paradigma contemporâneo da geopolítica da conectividade.

Nesse novo regime, o poder econômico e estratégico não se baseia apenas na posse de territórios ou recursos naturais, mas no controle de fluxos — de mercadorias, dados, serviços e acessos. A sucessão da Sendas pela Amazon revela uma transição civilizacional: da economia industrial-nacional para a economia logística-informacional de alcance global.

1. Sucessão empresarial como continuidade funcional

No plano jurídico, a empresa pode deixar de existir com a dissolução da pessoa jurídica. No plano econômico, porém, suas funções raramente desaparecem. Cadeias de suprimento, centros de distribuição, rotas logísticas, contratos implícitos e relações territoriais tendem a ser absorvidos por novos agentes.

A Sendas, enquanto grupo varejista tradicional, estruturou ao longo de décadas:

  • Infraestrutura logística regional

  • Centros de armazenagem

  • Capilaridade urbana

  • Integração com fornecedores

  • Presença territorial estratégica no Sudeste brasileiro

Com sua perda de protagonismo, essas funções não se extinguiram. Foram reaproveitadas por empresas inseridas em um novo paradigma operacional. A Amazon, ao ocupar antigas áreas logísticas e aproveitar a malha já consolidada, não herdou juridicamente a Sendas, mas herdou sua funcionalidade econômica e territorial.

Trata-se de uma sucessão de infraestrutura, não apenas de ativos.

2. Da logística industrial à logística informacional

A Sendas operava segundo a lógica clássica do varejo industrial:

Produção → Armazenagem → Loja física → Consumo local

Já a Amazon opera sob um modelo distinto:

Plataforma digital → Dados → Logística integrada → Distribuição sob demanda

Nesse modelo, o território deixa de ser apenas um espaço de venda e passa a ser um nó logístico dentro de uma rede global. O consumidor não é mais apenas um comprador local, mas um terminal conectado a um sistema planetário de circulação de mercadorias e informações.

A infraestrutura herdada da Sendas, originalmente voltada ao abastecimento regional, passa a servir a uma rede transnacional de conectividade. O mesmo galpão que antes sustentava um varejo físico agora integra uma arquitetura logística global.

3. Geopolítica da conectividade

A geopolítica clássica concentrava-se em:

  • Fronteiras territoriais

  • Rotas marítimas

  • Força militar

  • Controle de recursos naturais

A geopolítica da conectividade, por sua vez, concentra-se em:

  • Infraestrutura logística

  • Plataformas digitais

  • Centros de dados

  • Cadeias globais de suprimento

  • Controle de fluxos informacionais

Empresas como a Amazon tornam-se atores geopolíticos não estatais, capazes de:

  • Redefinir fluxos comerciais

  • Reorganizar economias regionais

  • Condicionar padrões de consumo

  • Influenciar políticas públicas

  • Controlar canais de acesso a bens

Ao ocupar a antiga infraestrutura da Sendas, a Amazon não apenas amplia sua presença no Brasil, mas integra o território nacional à sua rede logística global, reforçando sua posição como potência conectiva.

4. O território como herança estratégica

A infraestrutura da Sendas não era composta apenas por galpões e caminhões. Ela representava:

  • Localização privilegiada

  • Acesso a eixos rodoviários

  • Proximidade de grandes centros consumidores

  • Integração com cadeias regionais

Ao se instalar nesses espaços, a Amazon:

  • Reduz custos de entrada

  • Acelera sua expansão

  • Consolida presença territorial

  • Otimiza sua malha logística

  • Reconfigura o uso econômico do território

Isso caracteriza uma forma contemporânea de poder: o controle da conectividade. Quem controla os fluxos controla o mercado, a circulação e, indiretamente, o comportamento social.

5. Sucessão empresarial como transição civilizacional

A sucessão da Sendas pela Amazon simboliza uma mudança de paradigma:

Economia IndustrialEconomia de Plataformas
Varejo físicoPlataforma digital
Mercado nacionalRede global
Logística regionalLogística planetária
Infraestrutura localInfraestrutura conectiva
Capital produtivoCapital informacional

Não se trata apenas de uma troca de empresas, mas de uma transformação estrutural na forma como o poder econômico é exercido.

A infraestrutura permanece, mas sua função muda. O território permanece, mas seu significado estratégico se amplia. A logística deixa de ser apenas operacional e passa a ser geopolítica.

6. Implicações para o Brasil

A integração da infraestrutura nacional à rede da Amazon:

  • Internacionaliza o mercado interno

  • Subordina fluxos locais a decisões globais

  • Aumenta a dependência logística

  • Redefine padrões de consumo

  • Insere o país na economia da conectividade

Esse processo não é neutro. Ele reorganiza o espaço econômico brasileiro dentro de uma hierarquia global de fluxos, na qual plataformas digitais exercem funções antes reservadas aos Estados.

Conclusão

A sucessão empresarial observada no caso Sendas–Amazon não é apenas um fenômeno econômico ou jurídico, mas um evento geopolítico. A infraestrutura herdada deixa de servir a uma economia industrial nacional e passa a integrar uma rede global de conectividade.

Nesse novo regime, o poder não se mede apenas pela posse de territórios, mas pelo controle dos fluxos que atravessam esses territórios. A sucessão empresarial torna-se, assim, um instrumento de reorganização geopolítica da circulação, da produção e do consumo.

A antiga Sendas estruturou o território. A Amazon o conecta ao mundo.

Bibliografia Comentada

CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede.
Obra fundamental para compreender a transição do capitalismo industrial para o capitalismo informacional. Castells demonstra como as redes de informação, logística e comunicação se tornam a principal infraestrutura do poder contemporâneo. A análise sustenta a ideia de que empresas como a Amazon atuam como nós estratégicos de uma geopolítica da conectividade.

COHEN, Saul Bernard. Geopolitics: The Geography of International Relations.
Cohen amplia o conceito clássico de geopolítica ao incorporar infraestrutura, fluxos econômicos e conectividade como elementos centrais do poder. A obra fornece base teórica para entender como redes logísticas substituem, em parte, o controle territorial tradicional.

HARVEY, David. The Condition of Postmodernity.
Harvey analisa a compressão espaço-tempo promovida pela logística global, pelas tecnologias de transporte e pela financeirização. Sua abordagem ajuda a explicar como infraestruturas herdadas por empresas globais passam a integrar cadeias transnacionais de circulação.

GRAHAM, Stephen; MARVIN, Simon. Splintering Urbanism.
Os autores mostram como a infraestrutura urbana é reconfigurada por redes globais, criando territórios conectados a sistemas transnacionais. O caso Sendas–Amazon ilustra esse fenômeno de reorientação funcional do espaço urbano-logístico.

PARAG KHANNA. Connectography.
Khanna defende que o mundo contemporâneo é estruturado mais por redes de conectividade do que por fronteiras políticas. A obra fundamenta a noção de que empresas logísticas globais exercem poder geopolítico ao controlar fluxos.

BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo.
Braudel demonstra como as infraestruturas econômicas moldam a longa duração histórica. Seu enfoque ajuda a interpretar a sucessão empresarial como continuidade estrutural de funções econômicas, ainda que os agentes mudem.

PORTER, Michael. Competitive Advantage.
Porter fornece o arcabouço para compreender como ativos logísticos, localização e cadeias de valor constituem vantagens estratégicas. A absorção da infraestrutura da Sendas pela Amazon pode ser lida como uma estratégia de redução de custos e ganho territorial.

ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism.
Embora focada no uso de dados, Zuboff mostra como plataformas digitais integram logística, informação e comportamento. Isso reforça a ideia de que a infraestrutura física agora serve a um sistema informacional de controle de fluxos.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço.
Santos oferece uma leitura crítica do espaço como construção técnica, informacional e econômica. Sua obra permite compreender o território não apenas como solo físico, mas como infraestrutura funcional sujeita à reconfiguração por agentes globais.

RIBEIRO, Luiz César de Queiroz. Metropolização, fragmentação e desigualdade.
Analisa como grandes corporações reconfiguram o espaço urbano e regional no Brasil. Ajuda a contextualizar os impactos territoriais da entrada de plataformas globais no mercado nacional.

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