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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Do homem-hora - da passagem do cronológico para o kairológico

Introdução

A modernidade ensinou o homem a medir o tempo em unidades produtivas: horas, dias úteis, contratos, rendimentos. O valor da vida passou a ser quantificado pelo que se produz, pelo que se acumula, pelo que se converte em capital. Contudo, há uma transição possível — e necessária — entre o tempo que se explora e o tempo que se vive.

Este ensaio propõe a distinção entre dois regimes temporais: o homem-hora econômico-contábil e o homem-hora kairológico-existencial, tomando como eixo a experiência concreta de organização da vida segundo ciclos financeiros, aniversários e consolidações patrimoniais.

I. O regime do homem-hora econômico-contábil

No regime do homem-hora, o tempo é um recurso. Ele existe para ser convertido em valor mensurável. A vida é organizada segundo:

  • Contratos de prazo determinado

  • Rendimentos financeiros

  • Datas de fechamento

  • Fluxos de entrada e saída

O homem, nesse estágio, não vive o tempo: administra-o.

O CDB, com seus ciclos trienais e remuneração apenas em dias úteis, impõe uma disciplina objetiva. O calendário civil perde relevância frente ao calendário financeiro. Segundas-feiras sem rendimento tornam-se dias neutros; terças a sextas concentram o valor produtivo; o sábado funciona como fechamento simbólico do ciclo.

Aqui, o tempo só “vale” quando gera acréscimo patrimonial. O homem é remunerado pelo que produz, não pelo que é.

Esse é o regime do:

  • Esforço

  • Acúmulo

  • Planejamento

  • Responsabilidade

Trata-se de uma etapa formativa, necessária para a aquisição de domínio sobre a própria vida material.

II. O aniversário como rito contábil-existencial

A decisão de transferir os rendimentos do CDB para a poupança sempre no dia do aniversário introduz um elemento novo: o rito.

O aniversário deixa de ser apenas uma data biográfica e passa a ser:

  • Um fechamento de balanço existencial

  • Um marco de consolidação patrimonial

  • Um registro simbólico do tempo vivido

Cada ano não é apenas vivido — é contabilizado.

A poupança, nesse contexto, representa a reserva do que foi conquistado, separado do esforço cotidiano. O fruto do trabalho é preservado como testemunho de uma etapa concluída.

O homem, aqui, não apenas trabalha: ele fecha ciclos.

Esse gesto confere sentido ao tempo. O calendário deixa de ser arbitrário e passa a ser ordenado por significado.

III. A transição para o regime kairólogico

Após sucessivos ciclos de trabalho, disciplina e consolidação, ocorre a mudança de regime.

O tempo deixa de ser medido pelo que produz e passa a ser valorizado pelo simples fato de existir.

No regime kairólogico:

  • Cada 24 horas são um ativo

  • A vida não precisa justificar-se por produtividade

  • O valor não está no resultado, mas na presença

O homem já aprendeu a organizar o mundo externo.
Agora, aprende a habitar o tempo.

Não se trata de abandono da responsabilidade, mas de sua elevação:
o homem que soube santificar o tempo pelo trabalho
aprende a santificá-lo pela existência.

O tempo deixa de ser instrumento.
Passa a ser dádiva.

IV. Chronos e Kairós: duas economias do tempo

Podemos sintetizar os dois regimes assim:

RegimeTipo de tempoCritério de valor
Homem-horaChronosProdução
Homem-horaKairósExistência

No chronos, o tempo é linear, mensurável, explorável.
No kairós, o tempo é qualitativo, significativo, recebido.

O primeiro forma o caráter.
O segundo forma a sabedoria.

Conclusão

A vida humana não deve permanecer eternamente subordinada à lógica do rendimento. O tempo produtivo é necessário, mas não é suficiente. Ele educa, disciplina, estrutura. Contudo, só o tempo existencial plenifica.

A passagem do homem-hora ao homem-kairós não é uma fuga da realidade, mas a sua consumação:
quem aprendeu a dominar o tempo, aprende depois a contemplá-lo.

Viver, então, deixa de ser um meio.
Passa a ser o próprio fim.

Bibliografia Comentada

1. AGOSTINHO, Santo. Confissões (Livro XI).

Agostinho distingue o tempo exterior (medido) do tempo interior (vivido). Sua análise do presente como experiência da alma antecipa a noção de kairós: o tempo significativo, não redutível a números. Fundamenta a passagem do tempo produtivo ao tempo contemplativo.

2. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco.

Ao tratar da finalidade da vida humana, Aristóteles mostra que a atividade produtiva é meio, não fim. O bem supremo não é o trabalho, mas a realização da natureza racional. Isso sustenta a ideia de que o regime econômico é formativo, não definitivo.

3. PIEPER, Josef. O Ócio e a Vida Intelectual.

Pieper demonstra que a civilização só floresce quando o homem é capaz de viver o tempo sem reduzi-lo à utilidade. Sua defesa do ócio como dimensão espiritual corresponde ao regime kairólogico descrito no ensaio.

4. ROYCE, Josiah. A Filosofia da Lealdade.

Royce explica como a vida ganha sentido quando orientada por compromissos duradouros. O uso do aniversário como rito contábil-existencial expressa essa lealdade a um projeto de vida que transcende a mera eficiência econômica.

5. LEÃO XIII. Rerum Novarum.

A encíclica afirma que o trabalho dignifica o homem, mas não o esgota. O capital é fruto do esforço acumulado, não seu fim último. O texto fundamenta a distinção entre a fase de acumulação e a fase de contemplação.

6. ELIAS, Norbert. Sobre o Tempo.

Elias mostra que o tempo social é uma construção histórica. A substituição do calendário civil pelo calendário financeiro, e depois pelo calendário existencial, ilustra como diferentes regimes de tempo organizam a vida humana.

7. HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo.

Embora em chave existencialista, Heidegger contribui ao mostrar que o tempo autêntico não é o tempo do relógio, mas o tempo da presença. Isso dialoga com a noção de que “viver” se torna um ativo em si.

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