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sábado, 17 de janeiro de 2026

Da Sendas à Amazon: continuidade econômica e memória logística na Baixada Fluminense

Introdução

A Avenida Arthur Sendas, em São João de Meriti, não é apenas um endereço urbano. Ela é um vestígio concreto de um dos maiores impérios comerciais do Brasil no século XX: o Grupo Sendas. Hoje, no mesmo território, opera um dos principais centros logísticos da Amazon no país. Embora a Sendas não exista mais como empresa autônoma, sua presença permanece como herança histórica, econômica e simbólica. Dizer que “veio da Sendas” não é apenas uma licença poética: é uma afirmação de continuidade territorial e de vocação logística.

Este artigo examina como a Baixada Fluminense preserva, sob novas formas, a função econômica que a consagrou no passado, demonstrando que o capital muda de forma, mas raramente muda de lugar.

1. O Império Sendas e a construção de um polo comercial

Fundado por Arthur Sendas, o Grupo Sendas tornou-se, ao longo do século XX, um dos maiores conglomerados varejistas do Brasil, com forte presença no estado do Rio de Janeiro. A empresa não apenas criou uma rede de supermercados: ela estruturou cadeias de abastecimento, centros de distribuição e uma cultura logística que moldaram a economia da Baixada Fluminense.

São João de Meriti, em especial, transformou-se em um ponto estratégico. Sua localização, próxima à capital, às principais rodovias e aos centros consumidores, favoreceu o desenvolvimento de infraestrutura voltada ao transporte, armazenamento e distribuição de mercadorias.

A nomeação da Avenida Arthur Sendas não foi casual: ela simboliza a centralidade desse projeto econômico na região.

2. O fim da marca, não da função

Com o passar dos anos, a Sendas foi absorvida por grandes grupos varejistas, perdendo sua identidade empresarial própria. Do ponto de vista jurídico e comercial, a marca deixou de existir como entidade autônoma.

No entanto, a função econômica que ela exercia permaneceu:

  • Armazenagem em larga escala

  • Distribuição regional

  • Conexão entre centros produtores e consumidores

  • Logística de abastecimento urbano

Essas estruturas físicas, rotas e hábitos econômicos não desapareceram com a marca. Elas foram herdadas, adaptadas e reaproveitadas por novos agentes do mercado.

3. A Amazon e a nova logística global

A chegada da Amazon ao mesmo território não representa uma ruptura, mas uma continuidade em outro patamar.

Onde antes havia logística do varejo físico, agora há logística digital:

  • Antes: supermercados

  • Agora: e-commerce

  • Antes: abastecimento regional

  • Agora: distribuição nacional

  • Antes: consumo local

  • Agora: integração global

O centro logístico da Amazon em São João de Meriti ocupa uma região que já possuía:

  • Vocação comercial

  • Infraestrutura de transporte

  • Mão de obra adaptada ao setor

  • Proximidade com grandes centros urbanos

Ou seja, a Amazon não criou um polo logístico do zero; ela herdou um ecossistema econômico já formado pela era Sendas.

4. Território, memória e identidade

Quando alguém afirma que a encomenda “veio da Sendas”, mesmo que a empresa não exista mais, está reivindicando algo maior do que uma marca: está reivindicando uma linhagem territorial e econômica.

Assim como se diz:

  • “Viemos da ferrovia”

  • “Viemos do porto”

  • “Viemos da indústria”

Dizer que algo “veio da Sendas” significa:

  • Reconhecer uma herança de trabalho

  • Reconhecer uma tradição comercial

  • Reconhecer uma identidade ligada à logística e ao abastecimento

O endereço permanece.
A função permanece.
A memória permanece.

Apenas o nome corporativo mudou.

5. Capital não desaparece, se transforma

Do ponto de vista econômico, o que ocorreu foi uma transmutação do capital:

Era SendasEra Amazon
Varejo físicoVarejo digital
SupermercadosE-commerce
Distribuição regionalDistribuição nacional
Consumo presencialConsumo online

Mas o território continuou sendo o mesmo: São João de Meriti, Baixada Fluminense, eixo logístico do Rio de Janeiro.

A história mostra que o capital tende a se fixar onde já existem:

  • Rotas

  • Infraestrutura

  • Cultura econômica

  • Eficiência logística

Por isso, a presença da Amazon é menos uma inovação territorial e mais uma continuidade funcional.

Conclusão

A Sendas pode ter desaparecido como empresa, mas não como legado. A Avenida Arthur Sendas, o polo logístico de São João de Meriti e a presença da Amazon formam uma linha histórica coerente: a da vocação comercial da Baixada Fluminense.

Dizer que algo “veio da Sendas” não é um erro técnico; é uma afirmação cultural e histórica. Trata-se de reconhecer que o território carrega uma memória econômica que atravessa gerações, marcas e modelos de negócio.

O nome mudou.
A função permaneceu.
A história continua.

Bibliografia Comentada

SENDAS, Arthur. História do Grupo Sendas.
Obra institucional que documenta a formação, expansão e consolidação do Grupo Sendas no Rio de Janeiro. Útil para compreender como o varejo estruturou cadeias logísticas e redes de abastecimento na Baixada Fluminense.

ABREU, Maurício de Almeida. Evolução urbana do Rio de Janeiro.
Análise clássica sobre a formação dos polos urbanos e econômicos da Região Metropolitana. Ajuda a contextualizar São João de Meriti como espaço funcional da logística metropolitana.

HARVEY, David. O enigma do capital.
Harvey explica como o capital não desaparece, mas se reorganiza espacialmente. Fundamenta a ideia de que a Amazon herda estruturas econômicas já consolidadas pela Sendas.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço.
Oferece a base teórica para entender território como combinação de técnica, trabalho e memória. Essencial para a leitura simbólica da Avenida Arthur Sendas.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede.
Mostra como a logística digital e o e-commerce reorganizam o espaço econômico sem eliminar os polos físicos de distribuição.

GPA – Grupo Pão de Açúcar. Relatórios históricos corporativos.
Documentam a incorporação da Sendas e a transformação do varejo tradicional em grandes conglomerados.

AMAZON BRASIL. Relatórios institucionais e comunicados sobre centros de distribuição.
Apresentam a lógica da escolha territorial dos polos logísticos e a integração da Baixada Fluminense à rede nacional de distribuição.

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