Introdução
A Avenida Arthur Sendas, em São João de Meriti, não é apenas um endereço urbano. Ela é um vestígio concreto de um dos maiores impérios comerciais do Brasil no século XX: o Grupo Sendas. Hoje, no mesmo território, opera um dos principais centros logísticos da Amazon no país. Embora a Sendas não exista mais como empresa autônoma, sua presença permanece como herança histórica, econômica e simbólica. Dizer que “veio da Sendas” não é apenas uma licença poética: é uma afirmação de continuidade territorial e de vocação logística.
Este artigo examina como a Baixada Fluminense preserva, sob novas formas, a função econômica que a consagrou no passado, demonstrando que o capital muda de forma, mas raramente muda de lugar.
1. O Império Sendas e a construção de um polo comercial
Fundado por Arthur Sendas, o Grupo Sendas tornou-se, ao longo do século XX, um dos maiores conglomerados varejistas do Brasil, com forte presença no estado do Rio de Janeiro. A empresa não apenas criou uma rede de supermercados: ela estruturou cadeias de abastecimento, centros de distribuição e uma cultura logística que moldaram a economia da Baixada Fluminense.
São João de Meriti, em especial, transformou-se em um ponto estratégico. Sua localização, próxima à capital, às principais rodovias e aos centros consumidores, favoreceu o desenvolvimento de infraestrutura voltada ao transporte, armazenamento e distribuição de mercadorias.
A nomeação da Avenida Arthur Sendas não foi casual: ela simboliza a centralidade desse projeto econômico na região.
2. O fim da marca, não da função
Com o passar dos anos, a Sendas foi absorvida por grandes grupos varejistas, perdendo sua identidade empresarial própria. Do ponto de vista jurídico e comercial, a marca deixou de existir como entidade autônoma.
No entanto, a função econômica que ela exercia permaneceu:
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Armazenagem em larga escala
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Distribuição regional
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Conexão entre centros produtores e consumidores
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Logística de abastecimento urbano
Essas estruturas físicas, rotas e hábitos econômicos não desapareceram com a marca. Elas foram herdadas, adaptadas e reaproveitadas por novos agentes do mercado.
3. A Amazon e a nova logística global
A chegada da Amazon ao mesmo território não representa uma ruptura, mas uma continuidade em outro patamar.
Onde antes havia logística do varejo físico, agora há logística digital:
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Antes: supermercados
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Agora: e-commerce
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Antes: abastecimento regional
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Agora: distribuição nacional
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Antes: consumo local
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Agora: integração global
O centro logístico da Amazon em São João de Meriti ocupa uma região que já possuía:
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Vocação comercial
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Infraestrutura de transporte
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Mão de obra adaptada ao setor
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Proximidade com grandes centros urbanos
Ou seja, a Amazon não criou um polo logístico do zero; ela herdou um ecossistema econômico já formado pela era Sendas.
4. Território, memória e identidade
Quando alguém afirma que a encomenda “veio da Sendas”, mesmo que a empresa não exista mais, está reivindicando algo maior do que uma marca: está reivindicando uma linhagem territorial e econômica.
Assim como se diz:
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“Viemos da ferrovia”
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“Viemos do porto”
-
“Viemos da indústria”
Dizer que algo “veio da Sendas” significa:
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Reconhecer uma herança de trabalho
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Reconhecer uma tradição comercial
-
Reconhecer uma identidade ligada à logística e ao abastecimento
O endereço permanece.
A função permanece.
A memória permanece.
Apenas o nome corporativo mudou.
5. Capital não desaparece, se transforma
Do ponto de vista econômico, o que ocorreu foi uma transmutação do capital:
| Era Sendas | Era Amazon |
|---|---|
| Varejo físico | Varejo digital |
| Supermercados | E-commerce |
| Distribuição regional | Distribuição nacional |
| Consumo presencial | Consumo online |
Mas o território continuou sendo o mesmo: São João de Meriti, Baixada Fluminense, eixo logístico do Rio de Janeiro.
A história mostra que o capital tende a se fixar onde já existem:
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Rotas
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Infraestrutura
-
Cultura econômica
-
Eficiência logística
Por isso, a presença da Amazon é menos uma inovação territorial e mais uma continuidade funcional.
Conclusão
A Sendas pode ter desaparecido como empresa, mas não como legado. A Avenida Arthur Sendas, o polo logístico de São João de Meriti e a presença da Amazon formam uma linha histórica coerente: a da vocação comercial da Baixada Fluminense.
Dizer que algo “veio da Sendas” não é um erro técnico; é uma afirmação cultural e histórica. Trata-se de reconhecer que o território carrega uma memória econômica que atravessa gerações, marcas e modelos de negócio.
O nome mudou.
A função permaneceu.
A história continua.
Bibliografia Comentada
SENDAS, Arthur. História do Grupo Sendas.
Obra institucional que documenta a formação, expansão e consolidação do Grupo Sendas no Rio de Janeiro. Útil para compreender como o varejo estruturou cadeias logísticas e redes de abastecimento na Baixada Fluminense.
ABREU, Maurício de Almeida. Evolução urbana do Rio de Janeiro.
Análise clássica sobre a formação dos polos urbanos e econômicos da Região Metropolitana. Ajuda a contextualizar São João de Meriti como espaço funcional da logística metropolitana.
HARVEY, David. O enigma do capital.
Harvey explica como o capital não desaparece, mas se reorganiza espacialmente. Fundamenta a ideia de que a Amazon herda estruturas econômicas já consolidadas pela Sendas.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço.
Oferece a base teórica para entender território como combinação de técnica, trabalho e memória. Essencial para a leitura simbólica da Avenida Arthur Sendas.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede.
Mostra como a logística digital e o e-commerce reorganizam o espaço econômico sem eliminar os polos físicos de distribuição.
GPA – Grupo Pão de Açúcar. Relatórios históricos corporativos.
Documentam a incorporação da Sendas e a transformação do varejo tradicional em grandes conglomerados.
AMAZON BRASIL. Relatórios institucionais e comunicados sobre centros de distribuição.
Apresentam a lógica da escolha territorial dos polos logísticos e a integração da Baixada Fluminense à rede nacional de distribuição.
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