Pesquisar este blog

domingo, 18 de janeiro de 2026

O Brasil não é uma empresa: por que o presidente não pode ser tratado como um CEO

Introdução

Nos últimos anos, tornou-se comum no debate político brasileiro a comparação entre o presidente da República e o diretor-executivo de uma empresa (CEO). Essa analogia sugere que o país deveria ser administrado com os mesmos critérios do setor privado: eficiência, redução de custos, metas objetivas e maximização de resultados.

Entretanto, essa visão ignora a natureza própria do Estado, da política e da sociedade brasileira. Governar uma nação não é o mesmo que administrar uma corporação. O Brasil não é uma empresa, e o presidente não exerce as mesmas funções, poderes ou responsabilidades de um CEO.

Essa crítica ganha relevância no contexto brasileiro recente, marcado por disputas institucionais, polarização política, expansão do poder burocrático e tensões entre soberania nacional e organismos internacionais.

1. Estado não é empresa: diferenças estruturais

Uma empresa privada existe para gerar lucro. Ela opera com metas claras, hierarquia definida e controle direto sobre seus funcionários. O CEO escolhe sua equipe, estabelece estratégias e responde principalmente aos acionistas.

O Estado, por outro lado:

  • Governa uma população diversa, com interesses conflitantes

  • Está submetido à Constituição, ao Congresso, ao Judiciário e à opinião pública

  • Lida com valores, identidade nacional, cultura, história e soberania

  • Não pode “demitir” cidadãos nem escolher quem será governado

No Brasil, o presidente enfrenta um sistema complexo de freios e contrapesos, além de uma sociedade plural, marcada por desigualdade social, regionalismo, tensões ideológicas e forte presença do aparato estatal.

Portanto, decisões políticas não produzem efeitos previsíveis como decisões empresariais. Uma mesma política pública gera reações diferentes conforme a realidade social, cultural e econômica da população.

2. A ilusão da gestão “técnica” e o poder dos burocratas

A ideia de um governo “técnico, neutro e não ideológico” é frequentemente usada para justificar a transferência de poder para especialistas, agências reguladoras e organismos internacionais.

No Brasil, esse fenômeno se manifesta por meio de:

  • Agências reguladoras com grande autonomia

  • Decisões judiciais de forte impacto político

  • Influência de organismos multilaterais

  • Tecnocratas que não passam por eleições

Embora o discurso seja o da eficiência, na prática essas estruturas impõem visões de mundo específicas, sem consulta direta à população. Isso enfraquece a soberania democrática e reduz o poder de escolha do eleitor.

No contexto brasileiro, esse modelo é associado a uma elite política e burocrática que governa “de cima para baixo”, tratando a população como objeto de gestão, não como sujeito político.

3. A pandemia como exemplo de gestão autoritária

Durante a pandemia de COVID-19, o Brasil viveu um período de forte centralização de decisões, com:

  • Restrições de circulação

  • Fechamento de comércios

  • Definição arbitrária de “serviços essenciais”

  • Imposição de regras sanitárias sem debate amplo

Muitos governadores e autoridades trataram a crise como um problema puramente técnico, ignorando os impactos sociais, econômicos e psicológicos das medidas.

Para os críticos desse modelo, a pandemia revelou como a lógica empresarial aplicada ao Estado pode resultar em autoritarismo: gestores decidindo como as pessoas devem viver, trabalhar e circular, sem legitimidade política clara.

4. O bolsonarismo como reação política

O movimento bolsonarista surge, em parte, como reação a essa mentalidade tecnocrática. Não se trata de rejeitar eficiência ou organização, mas de recusar a ideia de que a nação deve ser permanentemente tutelada por uma elite “iluminada”.

Durante o governo Bolsonaro:

  • Houve aproximação com o setor privado

  • Tentou-se aplicar lógica de gestão empresarial

  • Alguns técnicos enfrentaram frustração com o sistema público

  • Ficaram evidentes os limites da comparação CEO–presidente

A experiência mostrou que o Estado brasileiro não funciona com a mesma lógica de uma empresa: há entraves legais, burocráticos, políticos e institucionais que impedem decisões rápidas e centralizadas. 

5. O governo Lula e a política externa

Eduardo Bolsonaro também critica a orientação internacional do governo Lula, especialmente:

  • Aproximação com regimes autoritários

  • Relações ambíguas com países em conflito

  • Apoio a organismos multilaterais com poder decisório

  • Enfraquecimento do pragmatismo diplomático

Essa postura prejudica a imagem do Brasil e gera consequências práticas, como a suspensão ou restrição de vistos por parte dos Estados Unidos.

Enquanto países como a Argentina buscam reconstruir sua credibilidade internacional, o Brasil estaria sendo associado a Estados politicamente instáveis ou hostis ao Ocidente.

6. Judicialização da política e censura

Outro ponto central é a acusação de perseguição a opositores políticos por meio de:

  • Investigações judiciais seletivas

  • Censura a críticas ao governo

  • Limitações à liberdade de expressão

  • Uso do aparato estatal contra adversários

Casos envolvendo parlamentares da oposição, especialmente ligados ao bolsonarismo, são apresentados como sinais de uma democracia fragilizada, na qual a crítica política passa a ser tratada como crime.

Eduardo Bolsonaro compara esse processo, em escala menor, a regimes autoritários como Venezuela e Irã, alertando para o risco de erosão gradual das liberdades.

7. A perda de liberdade “por fatias”

A liberdade não é perdida de uma só vez, mas de forma progressiva:

  1. Restrições temporárias

  2. Normalização do controle

  3. Criminalização da crítica

  4. Consolidação do autoritarismo

Esse padrão teria ocorrido na Venezuela ao longo de décadas e poderia repetir-se no Brasil caso não haja reação política e social.

Conclusão

Tratar o Brasil como uma empresa e o presidente como um CEO é uma simplificação perigosa. O Estado não existe para gerar lucro, mas para garantir soberania, ordem, liberdade e identidade nacional.

A experiência brasileira recente mostra que:

  • A tecnocracia pode afastar o povo das decisões

  • A burocracia pode concentrar poder sem legitimidade

  • A gestão “eficiente” pode se tornar autoritária

  • A política exige debate, valores e representação

Governar um país exige mais do que planilhas e metas. Exige compreensão histórica, sensibilidade social e respeito à soberania popular.

Bibliografia Comentada

1. Weber, Max. Economia e Sociedade

Comentário:
Weber distingue claramente a lógica da administração pública da lógica empresarial. O Estado moderno opera por meio da burocracia racional-legal, baseada em normas, hierarquias e legalidade — não em eficiência mercadológica. A obra ajuda a compreender por que o governo não pode funcionar como uma empresa sem comprometer a legitimidade política.

2. Hayek, Friedrich. O Caminho da Servidão

Comentário:
Hayek analisa como a centralização do poder estatal, mesmo com intenções “técnicas” ou “eficientes”, tende a levar ao autoritarismo. O livro é útil para entender as críticas à tecnocracia e ao planejamento excessivo, especialmente em contextos de crise, como a pandemia.

3. Schmitt, Carl. O Conceito do Político

Comentário:
Schmitt enfatiza que a política não pode ser reduzida à administração técnica. Governar envolve decisões existenciais sobre soberania, identidade e conflito. Essa obra fundamenta a crítica à ideia de um governo “neutro” ou “não ideológico”.

4. Tocqueville, Alexis de. A Democracia na América

Comentário:
Tocqueville alerta para o risco de um “despotismo suave”, no qual o Estado controla a sociedade por meio de regulamentações e tutela burocrática, sem recorrer à violência direta. O conceito ajuda a compreender a erosão gradual das liberdades.

5. Arendt, Hannah. Origens do Totalitarismo

Comentário:
Arendt analisa como regimes autoritários se consolidam por meio da normalização de abusos, propaganda e controle institucional. Embora o Brasil não seja um regime totalitário, a obra oferece instrumentos conceituais para identificar processos de deterioração democrática.

6. Fukuyama, Francis. As Origens da Ordem Política

Comentário:
Fukuyama mostra que Estados fortes precisam equilibrar burocracia, legalidade e representação política. Quando a burocracia cresce sem controle democrático, surgem crises de legitimidade — um ponto central no debate brasileiro atual.

7. Mises, Ludwig von. Burocracia

Comentário:
Mises diferencia a eficiência empresarial da administração estatal. Para ele, o Estado não pode ser avaliado por critérios de lucro, pois sua função é garantir ordem jurídica e estabilidade social. A obra sustenta a tese de que “presidente não é CEO”.

8. Olavo de Carvalho. O Jardim das Aflições

Comentário:
O autor brasileiro analisa a crise da autoridade política no Ocidente e a substituição da política por tecnocracias e elites intelectuais. É relevante para compreender a crítica conservadora ao globalismo e à perda de soberania cultural.

9. Huntington, Samuel. A Ordem Política nas Sociedades em Mudança

Comentário:
Huntington argumenta que a instabilidade surge quando instituições não acompanham as transformações sociais. No Brasil, a expansão do poder judicial e burocrático sem equilíbrio político contribui para conflitos institucionais.

10. Pereira, Anthony W. Ditadura e Repressão

Comentário:
Embora trate do período militar brasileiro, a obra ajuda a compreender como o Estado pode usar o aparato legal para controlar opositores, oferecendo parâmetros históricos para comparar com práticas contemporâneas de judicialização da política.

11. Levitsky & Ziblatt. Como as Democracias Morrem

Comentário:
Os autores mostram que democracias modernas colapsam gradualmente, por meio de erosão institucional, censura e perseguição política — não por golpes clássicos. O livro dialoga diretamente com o argumento da “perda de liberdade por fatias”.

12. Bobbio, Norberto. O Futuro da Democracia

Comentário:
Bobbio analisa os limites da democracia representativa e os riscos do governo de especialistas. A obra ajuda a contextualizar a crítica ao afastamento entre elites técnicas e a população.

Nenhum comentário:

Postar um comentário