Introdução
Nos últimos anos, tornou-se comum no debate político brasileiro a comparação entre o presidente da República e o diretor-executivo de uma empresa (CEO). Essa analogia sugere que o país deveria ser administrado com os mesmos critérios do setor privado: eficiência, redução de custos, metas objetivas e maximização de resultados.
Entretanto, essa visão ignora a natureza própria do Estado, da política e da sociedade brasileira. Governar uma nação não é o mesmo que administrar uma corporação. O Brasil não é uma empresa, e o presidente não exerce as mesmas funções, poderes ou responsabilidades de um CEO.
Essa crítica ganha relevância no contexto brasileiro recente, marcado por disputas institucionais, polarização política, expansão do poder burocrático e tensões entre soberania nacional e organismos internacionais.
1. Estado não é empresa: diferenças estruturais
Uma empresa privada existe para gerar lucro. Ela opera com metas claras, hierarquia definida e controle direto sobre seus funcionários. O CEO escolhe sua equipe, estabelece estratégias e responde principalmente aos acionistas.
O Estado, por outro lado:
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Governa uma população diversa, com interesses conflitantes
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Está submetido à Constituição, ao Congresso, ao Judiciário e à opinião pública
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Lida com valores, identidade nacional, cultura, história e soberania
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Não pode “demitir” cidadãos nem escolher quem será governado
No Brasil, o presidente enfrenta um sistema complexo de freios e contrapesos, além de uma sociedade plural, marcada por desigualdade social, regionalismo, tensões ideológicas e forte presença do aparato estatal.
Portanto, decisões políticas não produzem efeitos previsíveis como decisões empresariais. Uma mesma política pública gera reações diferentes conforme a realidade social, cultural e econômica da população.
2. A ilusão da gestão “técnica” e o poder dos burocratas
A ideia de um governo “técnico, neutro e não ideológico” é frequentemente usada para justificar a transferência de poder para especialistas, agências reguladoras e organismos internacionais.
No Brasil, esse fenômeno se manifesta por meio de:
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Agências reguladoras com grande autonomia
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Decisões judiciais de forte impacto político
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Influência de organismos multilaterais
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Tecnocratas que não passam por eleições
Embora o discurso seja o da eficiência, na prática essas estruturas impõem visões de mundo específicas, sem consulta direta à população. Isso enfraquece a soberania democrática e reduz o poder de escolha do eleitor.
No contexto brasileiro, esse modelo é associado a uma elite política e burocrática que governa “de cima para baixo”, tratando a população como objeto de gestão, não como sujeito político.
3. A pandemia como exemplo de gestão autoritária
Durante a pandemia de COVID-19, o Brasil viveu um período de forte centralização de decisões, com:
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Restrições de circulação
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Fechamento de comércios
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Definição arbitrária de “serviços essenciais”
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Imposição de regras sanitárias sem debate amplo
Muitos governadores e autoridades trataram a crise como um problema puramente técnico, ignorando os impactos sociais, econômicos e psicológicos das medidas.
Para os críticos desse modelo, a pandemia revelou como a lógica empresarial aplicada ao Estado pode resultar em autoritarismo: gestores decidindo como as pessoas devem viver, trabalhar e circular, sem legitimidade política clara.
4. O bolsonarismo como reação política
O movimento bolsonarista surge, em parte, como reação a essa mentalidade tecnocrática. Não se trata de rejeitar eficiência ou organização, mas de recusar a ideia de que a nação deve ser permanentemente tutelada por uma elite “iluminada”.
Durante o governo Bolsonaro:
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Houve aproximação com o setor privado
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Tentou-se aplicar lógica de gestão empresarial
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Alguns técnicos enfrentaram frustração com o sistema público
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Ficaram evidentes os limites da comparação CEO–presidente
A experiência mostrou que o Estado brasileiro não funciona com a mesma lógica de uma empresa: há entraves legais, burocráticos, políticos e institucionais que impedem decisões rápidas e centralizadas.
5. O governo Lula e a política externa
Eduardo Bolsonaro também critica a orientação internacional do governo Lula, especialmente:
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Aproximação com regimes autoritários
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Relações ambíguas com países em conflito
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Apoio a organismos multilaterais com poder decisório
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Enfraquecimento do pragmatismo diplomático
Essa postura prejudica a imagem do Brasil e gera consequências práticas, como a suspensão ou restrição de vistos por parte dos Estados Unidos.
Enquanto países como a Argentina buscam reconstruir sua credibilidade internacional, o Brasil estaria sendo associado a Estados politicamente instáveis ou hostis ao Ocidente.
6. Judicialização da política e censura
Outro ponto central é a acusação de perseguição a opositores políticos por meio de:
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Investigações judiciais seletivas
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Censura a críticas ao governo
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Limitações à liberdade de expressão
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Uso do aparato estatal contra adversários
Casos envolvendo parlamentares da oposição, especialmente ligados ao bolsonarismo, são apresentados como sinais de uma democracia fragilizada, na qual a crítica política passa a ser tratada como crime.
Eduardo Bolsonaro compara esse processo, em escala menor, a regimes autoritários como Venezuela e Irã, alertando para o risco de erosão gradual das liberdades.
7. A perda de liberdade “por fatias”
A liberdade não é perdida de uma só vez, mas de forma progressiva:
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Restrições temporárias
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Normalização do controle
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Criminalização da crítica
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Consolidação do autoritarismo
Esse padrão teria ocorrido na Venezuela ao longo de décadas e poderia repetir-se no Brasil caso não haja reação política e social.
Conclusão
Tratar o Brasil como uma empresa e o presidente como um CEO é uma simplificação perigosa. O Estado não existe para gerar lucro, mas para garantir soberania, ordem, liberdade e identidade nacional.
A experiência brasileira recente mostra que:
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A tecnocracia pode afastar o povo das decisões
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A burocracia pode concentrar poder sem legitimidade
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A gestão “eficiente” pode se tornar autoritária
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A política exige debate, valores e representação
Governar um país exige mais do que planilhas e metas. Exige compreensão histórica, sensibilidade social e respeito à soberania popular.
Bibliografia Comentada
1. Weber, Max. Economia e Sociedade
Comentário:
Weber distingue claramente a lógica da administração pública da lógica empresarial. O Estado moderno opera por meio da burocracia racional-legal, baseada em normas, hierarquias e legalidade — não em eficiência mercadológica. A obra ajuda a compreender por que o governo não pode funcionar como uma empresa sem comprometer a legitimidade política.
2. Hayek, Friedrich. O Caminho da Servidão
Comentário:
Hayek analisa como a centralização do poder estatal, mesmo com intenções “técnicas” ou “eficientes”, tende a levar ao autoritarismo. O livro é útil para entender as críticas à tecnocracia e ao planejamento excessivo, especialmente em contextos de crise, como a pandemia.
3. Schmitt, Carl. O Conceito do Político
Comentário:
Schmitt enfatiza que a política não pode ser reduzida à administração técnica. Governar envolve decisões existenciais sobre soberania, identidade e conflito. Essa obra fundamenta a crítica à ideia de um governo “neutro” ou “não ideológico”.
4. Tocqueville, Alexis de. A Democracia na América
Comentário:
Tocqueville alerta para o risco de um “despotismo suave”, no qual o Estado controla a sociedade por meio de regulamentações e tutela burocrática, sem recorrer à violência direta. O conceito ajuda a compreender a erosão gradual das liberdades.
5. Arendt, Hannah. Origens do Totalitarismo
Comentário:
Arendt analisa como regimes autoritários se consolidam por meio da normalização de abusos, propaganda e controle institucional. Embora o Brasil não seja um regime totalitário, a obra oferece instrumentos conceituais para identificar processos de deterioração democrática.
6. Fukuyama, Francis. As Origens da Ordem Política
Comentário:
Fukuyama mostra que Estados fortes precisam equilibrar burocracia, legalidade e representação política. Quando a burocracia cresce sem controle democrático, surgem crises de legitimidade — um ponto central no debate brasileiro atual.
7. Mises, Ludwig von. Burocracia
Comentário:
Mises diferencia a eficiência empresarial da administração estatal. Para ele, o Estado não pode ser avaliado por critérios de lucro, pois sua função é garantir ordem jurídica e estabilidade social. A obra sustenta a tese de que “presidente não é CEO”.
8. Olavo de Carvalho. O Jardim das Aflições
Comentário:
O autor brasileiro analisa a crise da autoridade política no Ocidente e a substituição da política por tecnocracias e elites intelectuais. É relevante para compreender a crítica conservadora ao globalismo e à perda de soberania cultural.
9. Huntington, Samuel. A Ordem Política nas Sociedades em Mudança
Comentário:
Huntington argumenta que a instabilidade surge quando instituições não acompanham as transformações sociais. No Brasil, a expansão do poder judicial e burocrático sem equilíbrio político contribui para conflitos institucionais.
10. Pereira, Anthony W. Ditadura e Repressão
Comentário:
Embora trate do período militar brasileiro, a obra ajuda a compreender como o Estado pode usar o aparato legal para controlar opositores, oferecendo parâmetros históricos para comparar com práticas contemporâneas de judicialização da política.
11. Levitsky & Ziblatt. Como as Democracias Morrem
Comentário:
Os autores mostram que democracias modernas colapsam gradualmente, por meio de erosão institucional, censura e perseguição política — não por golpes clássicos. O livro dialoga diretamente com o argumento da “perda de liberdade por fatias”.
12. Bobbio, Norberto. O Futuro da Democracia
Comentário:
Bobbio analisa os limites da democracia representativa e os riscos do governo de especialistas. A obra ajuda a contextualizar a crítica ao afastamento entre elites técnicas e a população.
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