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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Subjetividade, Circunstância e Verdade: uma crítica cristocêntrica à antropologia da Escola Austríaca de Economia

Introdução

A Escola Austríaca de Economia consolidou uma compreensão da ação humana fundada na noção de subjetividade. O valor, as escolhas e os fins não são dados objetivamente na realidade, mas emergem das avaliações individuais dos agentes situados em circunstâncias concretas. Essa concepção encontra ressonância na antropologia de José Ortega y Gasset, para quem o homem não é um sujeito abstrato, mas um ser histórico: “eu sou eu e minhas circunstâncias”.

Contudo, quando essa estrutura existencial é interpretada à luz da noção modernista de que o homem é a medida de todas as coisas, surge um problema de ordem filosófica e teológica. A escolha passa a ser o critério último, e a verdade se dissolve em perspectiva. O presente artigo argumenta que tal limitação pode ser superada por uma reinterpretação cristocêntrica da ação humana, na qual Cristo — o Caminho, a Verdade e a Vida — se torna a medida objetiva da existência, consagrando as circunstâncias e fundamentando autenticamente a liberdade.

1. O “subjetivo” na Escola Austríaca

Na tradição austríaca, especialmente em Ludwig von Mises e Friedrich Hayek, a subjetividade refere-se ao fato de que:

  • O valor econômico não é intrínseco aos bens;

  • Ele depende da avaliação do agente;

  • Essas avaliações são situadas no tempo, no espaço e na história pessoal.

A ação humana é entendida como resposta a fins percebidos subjetivamente, em um contexto de escassez e incerteza. Não há, nesse modelo, um critério objetivo externo que determine o valor último das escolhas. O que existe é coordenação de planos individuais dentro de uma ordem espontânea.

Trata-se, portanto, de uma teoria da ação humana situada, mas não normativamente orientada por uma verdade transcendente.

2. Ortega y Gasset e o homem em suas circunstâncias

Ortega y Gasset fornece a base antropológica mais precisa para essa concepção:

“Eu sou eu e minhas circunstâncias.”

O homem não escolhe no vácuo. Ele:

  • Nasce em um mundo já estruturado;

  • Enfrenta dilemas reais;

  • Deve escolher entre caminhos mutuamente excludentes;

  • E, uma vez feita a escolha, entra em um processo de execução irreversível até a conclusão do ato.

A existência humana é, assim, dramática: cada decisão configura um destino provisório. O sujeito não controla plenamente as condições, mas é responsável pela direção que dá à própria vida.

Nesse ponto, Ortega e os austríacos convergem: a ação é sempre situada, histórica e irrepetível.

3. O erro modernista: o homem como medida de todas as coisas

O problema surge quando essa estrutura existencial é interpretada sob o paradigma moderno do antropocentrismo radical.

Desde Protágoras — “o homem é a medida de todas as coisas” — até o humanismo secular contemporâneo, consolidou-se a ideia de que:

  • A escolha é soberana;

  • O critério último é o indivíduo;

  • A verdade se reduz à perspectiva.

Mesmo quando a Escola Austríaca reconhece limites cognitivos, tradição, ordem espontânea e coordenação social, o fundamento normativo permanece humano. A escolha não é julgada à luz de um Bem objetivo, mas apenas descrita como expressão da preferência individual.

Nesse contexto:

  • As circunstâncias são fatos, não vocações;

  • A ação é eficiente, mas não necessariamente verdadeira;

  • A liberdade é autonomia, não conformidade ao Bem.

4. Cristo como medida objetiva da existência

A superação dessa limitação ocorre quando Cristo é reconhecido como a medida de todas as coisas:

“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.” (Jo 14,6)

Aqui, a estrutura existencial do homem não é negada, mas elevada:

  • O homem continua situado em circunstâncias;

  • Continua enfrentando dilemas;

  • Continua obrigado a escolher.

Contudo, o critério da escolha deixa de ser a preferência subjetiva e passa a ser a Verdade.

As circunstâncias, então, deixam de ser meros condicionamentos históricos e tornam-se campos de consagração. Cada situação concreta é um chamado à conformidade com o Todo que vem de Deus.

O caminho não é apenas escolhido —ele é discernido. E a liberdade não é fazer o que se quer, mas agir em conformidade com aquilo que é verdadeiro.

5. A verdade como fundamento da liberdade

Na tradição cristã, especialmente em Santo Tomás de Aquino, a liberdade não é oposição à verdade, mas sua consequência:

  • O erro escraviza;

  • A verdade liberta;

  • A vontade só é plenamente livre quando ordenada ao Bem.

Quando Cristo é a medida:

  • A escolha deixa de ser soberana;

  • A verdade se torna normativa;

  • A ação humana adquire sentido teleológico.

Assim, a mesma estrutura descrita por Ortega e pelos austríacos — dilema, escolha, execução — permanece, mas agora integrada a uma ordem superior, onde o fim último não é a utilidade, mas a conformidade com a Verdade.

Conclusão

A noção austríaca de subjetividade descreve corretamente o homem enquanto agente situado em circunstâncias concretas, confrontado por dilemas e obrigado a escolher caminhos irreversíveis. Ortega y Gasset fornece a melhor formulação antropológica dessa condição existencial.

O problema não está na descrição, mas no fundamento: quando o homem é tratado como medida de todas as coisas, a escolha se absolutiza e a verdade se relativiza. As circunstâncias tornam-se apenas fatos, e a liberdade reduz-se à autonomia.

Quando, porém, Cristo é reconhecido como o Caminho, a Verdade e a Vida, as circunstâncias são consagradas, o caminho se torna objetivo e a liberdade encontra seu verdadeiro fundamento na Verdade. A ação humana deixa de ser apenas execução eficiente e passa a ser resposta vocacional à ordem do Ser.

Bibliografia Comentada

MISES, Ludwig von. Ação Humana.
Obra central da Escola Austríaca. Apresenta a ação humana como expressão de preferências subjetivas em um contexto de escassez. Descreve com precisão a estrutura da escolha, mas permanece normativamente antropocêntrica.

HAYEK, Friedrich. O Uso do Conhecimento na Sociedade.
Explora os limites do conhecimento humano e a coordenação espontânea. Reconhece a importância das circunstâncias, mas sem referência a um critério transcendente de verdade.

ORTEGA Y GASSET, José. Meditações do Quixote.
Formula a célebre tese “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Fornece a base antropológica para compreender o homem como ser histórico, situado e responsável por suas escolhas.

TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica.
Fundamenta a liberdade na ordenação ao Bem e à Verdade. Oferece a estrutura metafísica que supera o subjetivismo moderno.

JOÃO PAULO II. Veritatis Splendor.
Reafirma a existência de uma verdade moral objetiva contra o relativismo contemporâneo. Aplica a tradição tomista ao mundo moderno.

BÍBLIA SAGRADA, João 14,6.
Fundamento cristológico da tese: Cristo como Caminho, Verdade e Vida, medida objetiva da existência humana.

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