Introdução
A Escola Austríaca de Economia consolidou uma compreensão da ação humana fundada na noção de subjetividade. O valor, as escolhas e os fins não são dados objetivamente na realidade, mas emergem das avaliações individuais dos agentes situados em circunstâncias concretas. Essa concepção encontra ressonância na antropologia de José Ortega y Gasset, para quem o homem não é um sujeito abstrato, mas um ser histórico: “eu sou eu e minhas circunstâncias”.
Contudo, quando essa estrutura existencial é interpretada à luz da noção modernista de que o homem é a medida de todas as coisas, surge um problema de ordem filosófica e teológica. A escolha passa a ser o critério último, e a verdade se dissolve em perspectiva. O presente artigo argumenta que tal limitação pode ser superada por uma reinterpretação cristocêntrica da ação humana, na qual Cristo — o Caminho, a Verdade e a Vida — se torna a medida objetiva da existência, consagrando as circunstâncias e fundamentando autenticamente a liberdade.
1. O “subjetivo” na Escola Austríaca
Na tradição austríaca, especialmente em Ludwig von Mises e Friedrich Hayek, a subjetividade refere-se ao fato de que:
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O valor econômico não é intrínseco aos bens;
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Ele depende da avaliação do agente;
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Essas avaliações são situadas no tempo, no espaço e na história pessoal.
A ação humana é entendida como resposta a fins percebidos subjetivamente, em um contexto de escassez e incerteza. Não há, nesse modelo, um critério objetivo externo que determine o valor último das escolhas. O que existe é coordenação de planos individuais dentro de uma ordem espontânea.
Trata-se, portanto, de uma teoria da ação humana situada, mas não normativamente orientada por uma verdade transcendente.
2. Ortega y Gasset e o homem em suas circunstâncias
Ortega y Gasset fornece a base antropológica mais precisa para essa concepção:
“Eu sou eu e minhas circunstâncias.”
O homem não escolhe no vácuo. Ele:
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Nasce em um mundo já estruturado;
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Enfrenta dilemas reais;
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Deve escolher entre caminhos mutuamente excludentes;
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E, uma vez feita a escolha, entra em um processo de execução irreversível até a conclusão do ato.
A existência humana é, assim, dramática: cada decisão configura um destino provisório. O sujeito não controla plenamente as condições, mas é responsável pela direção que dá à própria vida.
Nesse ponto, Ortega e os austríacos convergem: a ação é sempre situada, histórica e irrepetível.
3. O erro modernista: o homem como medida de todas as coisas
O problema surge quando essa estrutura existencial é interpretada sob o paradigma moderno do antropocentrismo radical.
Desde Protágoras — “o homem é a medida de todas as coisas” — até o humanismo secular contemporâneo, consolidou-se a ideia de que:
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A escolha é soberana;
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O critério último é o indivíduo;
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A verdade se reduz à perspectiva.
Mesmo quando a Escola Austríaca reconhece limites cognitivos, tradição, ordem espontânea e coordenação social, o fundamento normativo permanece humano. A escolha não é julgada à luz de um Bem objetivo, mas apenas descrita como expressão da preferência individual.
Nesse contexto:
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As circunstâncias são fatos, não vocações;
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A ação é eficiente, mas não necessariamente verdadeira;
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A liberdade é autonomia, não conformidade ao Bem.
4. Cristo como medida objetiva da existência
A superação dessa limitação ocorre quando Cristo é reconhecido como a medida de todas as coisas:
“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.” (Jo 14,6)
Aqui, a estrutura existencial do homem não é negada, mas elevada:
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O homem continua situado em circunstâncias;
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Continua enfrentando dilemas;
-
Continua obrigado a escolher.
Contudo, o critério da escolha deixa de ser a preferência subjetiva e passa a ser a Verdade.
As circunstâncias, então, deixam de ser meros condicionamentos históricos e tornam-se campos de consagração. Cada situação concreta é um chamado à conformidade com o Todo que vem de Deus.
O caminho não é apenas escolhido —ele é discernido. E a liberdade não é fazer o que se quer, mas agir em conformidade com aquilo que é verdadeiro.
5. A verdade como fundamento da liberdade
Na tradição cristã, especialmente em Santo Tomás de Aquino, a liberdade não é oposição à verdade, mas sua consequência:
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O erro escraviza;
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A verdade liberta;
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A vontade só é plenamente livre quando ordenada ao Bem.
Quando Cristo é a medida:
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A escolha deixa de ser soberana;
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A verdade se torna normativa;
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A ação humana adquire sentido teleológico.
Assim, a mesma estrutura descrita por Ortega e pelos austríacos — dilema, escolha, execução — permanece, mas agora integrada a uma ordem superior, onde o fim último não é a utilidade, mas a conformidade com a Verdade.
Conclusão
A noção austríaca de subjetividade descreve corretamente o homem enquanto agente situado em circunstâncias concretas, confrontado por dilemas e obrigado a escolher caminhos irreversíveis. Ortega y Gasset fornece a melhor formulação antropológica dessa condição existencial.
O problema não está na descrição, mas no fundamento: quando o homem é tratado como medida de todas as coisas, a escolha se absolutiza e a verdade se relativiza. As circunstâncias tornam-se apenas fatos, e a liberdade reduz-se à autonomia.
Quando, porém, Cristo é reconhecido como o Caminho, a Verdade e a Vida, as circunstâncias são consagradas, o caminho se torna objetivo e a liberdade encontra seu verdadeiro fundamento na Verdade. A ação humana deixa de ser apenas execução eficiente e passa a ser resposta vocacional à ordem do Ser.
Bibliografia Comentada
MISES, Ludwig von. Ação Humana.
Obra central da Escola Austríaca. Apresenta a ação humana como expressão de preferências subjetivas em um contexto de escassez. Descreve com precisão a estrutura da escolha, mas permanece normativamente antropocêntrica.
HAYEK, Friedrich. O Uso do Conhecimento na Sociedade.
Explora os limites do conhecimento humano e a coordenação espontânea. Reconhece a importância das circunstâncias, mas sem referência a um critério transcendente de verdade.
ORTEGA Y GASSET, José. Meditações do Quixote.
Formula a célebre tese “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Fornece a base antropológica para compreender o homem como ser histórico, situado e responsável por suas escolhas.
TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica.
Fundamenta a liberdade na ordenação ao Bem e à Verdade. Oferece a estrutura metafísica que supera o subjetivismo moderno.
JOÃO PAULO II. Veritatis Splendor.
Reafirma a existência de uma verdade moral objetiva contra o relativismo contemporâneo. Aplica a tradição tomista ao mundo moderno.
BÍBLIA SAGRADA, João 14,6.
Fundamento cristológico da tese: Cristo como Caminho, Verdade e Vida, medida objetiva da existência humana.
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