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sábado, 10 de janeiro de 2026

Necrológio, Instabilidade e a vida no Brasil enquanto país dos náufragos - notas sobre o planejamento existencial em um Brasil sem chão histórico

Introdução

No Curso Online de Filosofia (COF), Olavo de Carvalho propunha aos alunos um exercício de caráter profundamente existencial: o necrológio. Trata-se de imaginar, ainda em vida, o texto que seria escrito sobre si após a morte — não como fantasia vaidosa, mas como instrumento de ordenação interior. O objetivo é claro: alinhar a própria existência àquilo que se deseja verdadeiramente ser, estruturando a vida segundo uma hierarquia de fins.

Em contextos históricos minimamente estáveis, esse tipo de planejamento existencial encontra terreno fértil. Entretanto, no Brasil pós-1889, a própria noção de estabilidade histórica foi sistematicamente corroída. Desde a queda da monarquia, vivemos sob um regime de instabilidade crônica — política, institucional, cultural e espiritual. Nessa realidade, planejar a vida como se o mundo fosse previsível pode ser mais ilusório do que virtuoso.

O necrológio como instrumento de ordem interior

O exercício do necrológio parte de uma premissa clássica da filosofia moral: o homem precisa ordenar sua vida a partir de um fim último. Sem essa orientação, a existência se fragmenta em impulsos, reações e circunstâncias. Ao escrever o próprio necrológio, o indivíduo é forçado a responder a perguntas essenciais:

  • Quem eu quero ser?

  • O que quero ter realizado?

  • Que tipo de homem desejo ter sido?

Esse método guarda afinidades com a tradição aristotélico-tomista, na qual a vida humana é compreendida como um processo teleológico — isto é, orientado a fins. Também dialoga com a noção cristã de vocação e responsabilidade diante de Deus.

Contudo, o necrológio pressupõe algo fundamental: a possibilidade de continuidade histórica. Planejar uma vida exige, minimamente, a expectativa de que as condições básicas não serão radicalmente destruídas a cada geração.

O Brasil sem estabilidade histórica

Desde a Proclamação da República, o Brasil não conheceu verdadeira estabilidade institucional:

  • Golpes militares

  • Constituições sucessivas

  • Crises econômicas recorrentes

  • Descontinuidade cultural

  • Fragilidade educacional

  • Desagregação moral

Não houve, como em certos países europeus, um processo orgânico de amadurecimento institucional. O Brasil moderno nasce de uma ruptura traumática, não de uma transição natural. A monarquia, com todos os seus limites, fornecia uma estrutura simbólica de continuidade histórica. Sua queda inaugurou um ciclo de improvisação permanente.

Nesse contexto, a vida brasileira não se organiza como um projeto linear, mas como uma sucessão de adaptações a crises. Planejar, aqui, é sempre planejar sob risco.

Ortega y Gasset e o homem náufrago

José Ortega y Gasset oferece uma imagem poderosa para compreender essa condição: o homem moderno como náufrago. Em sua filosofia da circunstância, o ser humano não é um sujeito abstrato, mas um ser lançado em uma realidade concreta, instável e imprevisível.

“Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo, não me salvo a mim.”

O náufrago não planeja como quem constrói uma casa sólida sobre a rocha. Ele planeja como quem se agarra a destroços em meio ao mar revolto. Sua racionalidade é adaptativa, não arquitetônica. Ele precisa estar pronto para o inesperado, para o colapso, para a mudança brusca de rumo.

O Brasil, desde 1889, formou gerações de náufragos históricos.

Planejamento existencial em terra instável

Isso não significa que o exercício do necrológio seja inútil no Brasil — ao contrário. Ele se torna ainda mais necessário, desde que seja reinterpretado à luz da nossa circunstância.

Aqui, o planejamento não pode ser:

  • Rígido

  • Dependente de instituições estáveis

  • Fundado em expectativas políticas

  • Preso a estruturas externas

Ele precisa ser:

  • Interior

  • Moral

  • Espiritual

  • Flexível

  • Enraizado em princípios, não em sistemas

O brasileiro que sobrevive — e se santifica — não é o que constrói castelos, mas o que mantém a integridade em meio ao naufrágio.

Do pânico à lucidez

Para muitos, viver em constante incerteza gera pânico. Para quem nasceu e cresceu no Brasil, isso se torna parte do cotidiano. O caos deixa de ser exceção e passa a ser condição.

A diferença entre o homem comum e o homem formado é a interpretação do caos:

  • O homem comum entra em desespero.

  • O homem formado transforma a instabilidade em disciplina interior.

O náufrago lúcido não nega a tempestade. Ele aprende a navegar nela.

Conclusão

O necrológio continua sendo um exercício válido, mas não como projeto de carreira ou roteiro de sucesso institucional. No Brasil, ele deve ser um instrumento de ordenação moral, não de previsibilidade histórica.

Nossa história não é a história dos arquitetos da estabilidade, mas dos sobreviventes do colapso. Somos, no sentido orteguiano, um povo de náufragos.

E talvez seja justamente aí que reside nossa missão: não construir impérios, mas preservar a verdade, a fé, a dignidade e a lucidez — mesmo quando tudo ao redor afunda.

Bibliografia Comentada

CARVALHO, Olavo de. O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota.
Rio de Janeiro: Record.
Nesta obra, Olavo de Carvalho desenvolve a importância da formação intelectual e moral como fundamento da vida humana. O exercício do necrológio, proposto no COF, insere-se nesse horizonte pedagógico: trata-se de ordenar a existência segundo fins superiores, combatendo a dispersão espiritual e a mediocridade cultural. A ênfase na responsabilidade pessoal diante da verdade fornece o arcabouço para pensar o planejamento existencial em meio ao caos histórico brasileiro.

CARVALHO, Olavo de. O Jardim das Aflições.
São Paulo: É Realizações.
Aqui, Olavo articula a crise da civilização ocidental como uma crise espiritual, marcada pela perda do senso de finalidade transcendente. O necrológio aparece, implicitamente, como um antídoto à vida desordenada, pois obriga o indivíduo a confrontar o sentido último da própria existência. A obra ajuda a compreender por que o planejamento de vida não pode ser meramente técnico ou político, mas essencialmente moral e metafísico.

ORTEGA Y GASSET, José. Meditações do Quixote.
São Paulo: Martins Fontes.
É nesta obra que surge a célebre fórmula: “Eu sou eu e minha circunstância”. Ortega desenvolve a ideia de que o homem não existe fora da realidade histórica concreta que o envolve. O conceito do “náufrago” decorre dessa antropologia circunstancial: o sujeito moderno vive em um mundo instável, exigindo uma racionalidade adaptativa, não idealista. O Brasil republicano, marcado por rupturas institucionais sucessivas, encaixa-se exemplarmente nesse modelo.

ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das Massas.
São Paulo: Martins Fontes.
Ortega analisa a crise da autoridade cultural e a ascensão do homem-massa, incapaz de orientar sua própria vida por princípios superiores. Em sociedades instáveis, como a brasileira, essa figura tende a se agravar. O livro ajuda a compreender por que a ausência de ordem histórica favorece o pânico, a improvisação e a dissolução da responsabilidade pessoal.

FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder.
São Paulo: Globo.
Faoro descreve a formação do Estado brasileiro como patrimonialista, personalista e instável. A República não nasce de um amadurecimento institucional, mas de uma ruptura abrupta com a tradição monárquica. Essa análise histórica sustenta a tese de que o Brasil carece de continuidade estrutural, tornando o planejamento de longo prazo sempre vulnerável a colapsos políticos.

VIANNA, Oliveira. Populações Meridionais do Brasil.
Rio de Janeiro: José Olympio.
Vianna examina o desenvolvimento social brasileiro sob a ótica da formação histórica desorganizada, marcada por improvisação e ausência de coesão institucional. Sua análise ajuda a compreender por que o brasileiro tende a operar mais pela adaptação circunstancial do que por projetos estruturados de longo prazo.

LEÃO XIII. Rerum Novarum.
Encíclica, 1891.
A encíclica fornece a base para a compreensão do trabalho como via de santificação e acumulação moral ao longo do tempo. Em contextos instáveis, a ordem interior substitui a ordem institucional como eixo de vida. O planejamento existencial, nesse sentido, deve ser espiritual antes de ser político ou econômico.

TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica.
Diversas edições.
A concepção teleológica da vida humana, segundo a qual toda ação deve ser orientada a um fim último, sustenta filosoficamente o exercício do necrológio. Mesmo quando as circunstâncias externas são caóticas, a ordem moral permanece possível por meio da virtude e da reta intenção.

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