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sábado, 10 de janeiro de 2026

Vontade, Circunstância e Autoengano: um ensaio sobre liberdade, meios de ação e impotência histórica no Brasil

Introdução

A máxima popular “querer é poder” expressa uma pedagogia moral simplificada, segundo a qual a vontade subjetiva seria suficiente para produzir eficácia objetiva. No entanto, tanto a experiência concreta quanto a reflexão filosófica indicam o contrário: a vontade sem meios é apenas intenção, não potência. Este ensaio propõe analisar essa distinção a partir de uma experiência familiar — o contraste entre duas atitudes existenciais — e relacioná-la ao drama histórico brasileiro desde a queda da monarquia.

A oposição entre agir segundo as circunstâncias e agir apenas segundo o próprio querer revela não apenas dois estilos de vida, mas duas concepções de liberdade, de realidade e de responsabilidade histórica.

1. Vontade abstrata e potência real

Olavo de Carvalho insistia que a modernidade confunde:

  • Vontade com capacidade

  • Desejo com eficácia

  • Intenção moral com ação histórica

Para ele, o querer sem meios é uma forma de ilusão psicológica, muitas vezes acompanhada de descarga emocional e retórica moralizante, mas sem fecundidade real. Daí sua metáfora provocativa da “ejaculação precoce”: há impulso, mas não há geração de frutos.

Potência real exige:

  • Leitura objetiva da realidade

  • Inserção institucional

  • Capital cultural

  • Disciplina intelectual

  • Estratégia de longo prazo

Sem esses elementos, a vontade permanece no plano da autoafirmação subjetiva, não da transformação objetiva.

2. A inteligência da circunstância

José Ortega y Gasset formulou com precisão:

“Eu sou eu e minha circunstância; e se não a salvo, não salvo a mim.”

A ação humana não se dá no vazio, mas dentro de um campo de possibilidades delimitado por fatores históricos, sociais, econômicos e culturais. Reconhecer isso não é resignação, mas prudência (phronesis), a virtude prática que permite transformar limites em oportunidades.

Agarrar as oportunidades que surgem “por força das circunstâncias” não é oportunismo vulgar, mas realismo estratégico. É compreender que:

  • A vontade precisa de canais

  • A virtude precisa de meios

  • A liberdade precisa de estrutura

Essa postura não romantiza o querer; ela o ancora na realidade.

3. A soberania da vontade e o autoengano

A atitude oposta — viver apenas “fazendo o que se quer” — tende a ignorar:

  • Estrutura social

  • Limitações materiais

  • Condições históricas

  • Exigências de formação

  • Redes de poder

Nesse caso, a pessoa preserva sua imagem interna de liberdade, mas perde:

  • Capacidade de ação real

  • Inserção histórica

  • Continuidade geracional

  • Eficácia social

Surge então o autoengano funcional: uma forma de proteção psíquica contra o reconhecimento da própria impotência. Não se trata de mentira consciente, mas de uma narrativa interna que evita o colapso da autoestima.

O sujeito acredita ser livre porque segue seus desejos, quando na verdade está apenas isolado da realidade.

4. O drama brasileiro: querer sem meios

O Brasil republicano nasceu de uma ruptura sem continuidade institucional sólida. A monarquia foi substituída por um projeto ideológico inspirado em modelos estrangeiros, sem:

  • Tradição política enraizada

  • Elites intelectualmente formadas

  • Coesão moral comum

  • Base cultural estável

O resultado foi uma cultura política marcada por:

  • Idealismo sem estrutura

  • Moralismo sem estratégia

  • Retórica sem eficácia

  • Vontade sem meios

Nesse contexto, a atitude de viver apenas segundo o próprio querer tornou-se socialmente comum. O indivíduo sente-se moralmente íntegro, mas historicamente irrelevante.

A liberdade vira narrativa, não realidade.

5. Autoengano como forma de impotência

O autoengano não é apenas um erro cognitivo. É uma estratégia existencial para evitar:

  • A disciplina

  • A renúncia

  • O planejamento

  • A humildade diante da realidade

Reconhecer a falta de meios exige aceitar limites, investir em formação e submeter o querer à estrutura do real. Muitos preferem preservar a imagem de autonomia a construir a autonomia de fato.

Assim, o “faço o que quero” substitui o “posso fazer o que é necessário”.

6. Duas atitudes, dois destinos

O contraste entre duas posturas existenciais pode ser sintetizado assim:

Inteligência da circunstânciaSoberania da vontade
Leitura do realPrimazia do desejo
EstratégiaImpulso
Adaptação criativaRigidez subjetiva
Construção de meiosDesprezo pelos meios
Eficácia históricaAutoimagem de liberdade

A primeira gera frutos concretos.
A segunda gera narrativas de resistência.

Conclusão

No Brasil, viver apenas segundo o próprio querer, sem atenção às circunstâncias e sem construção de meios, não é liberdade — é autoengano. A verdadeira liberdade não nasce do impulso, mas da capacidade real de agir.

A vontade só se torna potência quando se submete à realidade.

Sem isso, resta apenas a ilusão de autonomia em um cenário de impotência histórica.

Bibliografia comentada

Ortega y Gasset, José – Meditações do Quixote
Fundamental para compreender a noção de circunstância como elemento constitutivo do eu.

Olavo de Carvalho – O Imbecil Coletivo
Crítica à ilusão moralista e à confusão entre intenção e eficácia na cultura brasileira.

Max Weber – A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo
Mostra como estruturas culturais moldam a capacidade de ação histórica.

Alexis de Tocqueville – A Democracia na América
Analisa como instituições e hábitos sociais sustentam a liberdade real.

Gilberto Freyre – Casa-Grande & Senzala
Oferece contexto histórico para a formação social brasileira e suas limitações estruturais.

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