Introdução
A máxima popular “querer é poder” expressa uma pedagogia moral simplificada, segundo a qual a vontade subjetiva seria suficiente para produzir eficácia objetiva. No entanto, tanto a experiência concreta quanto a reflexão filosófica indicam o contrário: a vontade sem meios é apenas intenção, não potência. Este ensaio propõe analisar essa distinção a partir de uma experiência familiar — o contraste entre duas atitudes existenciais — e relacioná-la ao drama histórico brasileiro desde a queda da monarquia.
A oposição entre agir segundo as circunstâncias e agir apenas segundo o próprio querer revela não apenas dois estilos de vida, mas duas concepções de liberdade, de realidade e de responsabilidade histórica.
1. Vontade abstrata e potência real
Olavo de Carvalho insistia que a modernidade confunde:
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Vontade com capacidade
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Desejo com eficácia
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Intenção moral com ação histórica
Para ele, o querer sem meios é uma forma de ilusão psicológica, muitas vezes acompanhada de descarga emocional e retórica moralizante, mas sem fecundidade real. Daí sua metáfora provocativa da “ejaculação precoce”: há impulso, mas não há geração de frutos.
Potência real exige:
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Leitura objetiva da realidade
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Inserção institucional
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Capital cultural
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Disciplina intelectual
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Estratégia de longo prazo
Sem esses elementos, a vontade permanece no plano da autoafirmação subjetiva, não da transformação objetiva.
2. A inteligência da circunstância
José Ortega y Gasset formulou com precisão:
“Eu sou eu e minha circunstância; e se não a salvo, não salvo a mim.”
A ação humana não se dá no vazio, mas dentro de um campo de possibilidades delimitado por fatores históricos, sociais, econômicos e culturais. Reconhecer isso não é resignação, mas prudência (phronesis), a virtude prática que permite transformar limites em oportunidades.
Agarrar as oportunidades que surgem “por força das circunstâncias” não é oportunismo vulgar, mas realismo estratégico. É compreender que:
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A vontade precisa de canais
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A virtude precisa de meios
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A liberdade precisa de estrutura
Essa postura não romantiza o querer; ela o ancora na realidade.
3. A soberania da vontade e o autoengano
A atitude oposta — viver apenas “fazendo o que se quer” — tende a ignorar:
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Estrutura social
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Limitações materiais
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Condições históricas
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Exigências de formação
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Redes de poder
Nesse caso, a pessoa preserva sua imagem interna de liberdade, mas perde:
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Capacidade de ação real
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Inserção histórica
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Continuidade geracional
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Eficácia social
Surge então o autoengano funcional: uma forma de proteção psíquica contra o reconhecimento da própria impotência. Não se trata de mentira consciente, mas de uma narrativa interna que evita o colapso da autoestima.
O sujeito acredita ser livre porque segue seus desejos, quando na verdade está apenas isolado da realidade.
4. O drama brasileiro: querer sem meios
O Brasil republicano nasceu de uma ruptura sem continuidade institucional sólida. A monarquia foi substituída por um projeto ideológico inspirado em modelos estrangeiros, sem:
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Tradição política enraizada
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Elites intelectualmente formadas
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Coesão moral comum
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Base cultural estável
O resultado foi uma cultura política marcada por:
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Idealismo sem estrutura
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Moralismo sem estratégia
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Retórica sem eficácia
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Vontade sem meios
Nesse contexto, a atitude de viver apenas segundo o próprio querer tornou-se socialmente comum. O indivíduo sente-se moralmente íntegro, mas historicamente irrelevante.
A liberdade vira narrativa, não realidade.
5. Autoengano como forma de impotência
O autoengano não é apenas um erro cognitivo. É uma estratégia existencial para evitar:
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A disciplina
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A renúncia
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O planejamento
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A humildade diante da realidade
Reconhecer a falta de meios exige aceitar limites, investir em formação e submeter o querer à estrutura do real. Muitos preferem preservar a imagem de autonomia a construir a autonomia de fato.
Assim, o “faço o que quero” substitui o “posso fazer o que é necessário”.
6. Duas atitudes, dois destinos
O contraste entre duas posturas existenciais pode ser sintetizado assim:
| Inteligência da circunstância | Soberania da vontade |
|---|---|
| Leitura do real | Primazia do desejo |
| Estratégia | Impulso |
| Adaptação criativa | Rigidez subjetiva |
| Construção de meios | Desprezo pelos meios |
| Eficácia histórica | Autoimagem de liberdade |
A primeira gera frutos concretos.
A segunda gera narrativas de resistência.
Conclusão
No Brasil, viver apenas segundo o próprio querer, sem atenção às circunstâncias e sem construção de meios, não é liberdade — é autoengano. A verdadeira liberdade não nasce do impulso, mas da capacidade real de agir.
A vontade só se torna potência quando se submete à realidade.
Sem isso, resta apenas a ilusão de autonomia em um cenário de impotência histórica.
Bibliografia comentada
Ortega y Gasset, José – Meditações do Quixote
Fundamental para compreender a noção de circunstância como elemento constitutivo do eu.
Olavo de Carvalho – O Imbecil Coletivo
Crítica à ilusão moralista e à confusão entre intenção e eficácia na cultura brasileira.
Max Weber – A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo
Mostra como estruturas culturais moldam a capacidade de ação histórica.
Alexis de Tocqueville – A Democracia na América
Analisa como instituições e hábitos sociais sustentam a liberdade real.
Gilberto Freyre – Casa-Grande & Senzala
Oferece contexto histórico para a formação social brasileira e suas limitações estruturais.
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