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sábado, 10 de janeiro de 2026

O necrológio em terra de náufragos - uma releitura cristã e realista do exercício proposto por Olavo de Carvalho no COF

O necrológio em terra de náufragos - uma releitura cristã e realista do exercício proposto por Olavo de Carvalho no COF 

Introdução

Entre os exercícios formativos propostos por Olavo de Carvalho no Curso Online de Filosofia (COF), o chamado necrológio ocupa lugar de destaque. Trata-se de um método de planejamento existencial no qual o aluno é convidado a imaginar o texto que seria escrito sobre sua vida após a morte, de modo a orientar suas ações presentes rumo à realização de um ideal elevado de si mesmo.

Em contextos sociais relativamente estáveis, esse exercício pode servir como instrumento de ordenação vocacional, disciplinando ambições e clarificando fins. No entanto, quando transplantado para a realidade brasileira — marcada por instabilidade institucional crônica, insegurança jurídica, descontinuidade cultural e imprevisibilidade econômica —, o necrológio precisa ser reinterpretado. Não por rejeição ao método, mas por fidelidade ao princípio que o fundamenta: a busca pela verdade concreta da própria missão.

O Brasil, enquanto nação republicana, não oferece porto seguro. É um país de náufragos. E em terra de náufragos, o problema não é “o que eu quero ser”, mas “o que eu posso ser sem trair a verdade, a fé e a missão recebida”.

1. Do ideal abstrato à missão concreta

O necrológio clássico pressupõe um cenário de continuidade: continuidade de instituições, de valores, de oportunidades e de expectativas sociais. Ele se apoia numa lógica teleológica moderna, segundo a qual o indivíduo escolhe um ideal de vida e molda sua trajetória para alcançá-lo.

No Brasil, porém, a própria noção de trajetória linear é ilusória. A história nacional pós-monárquica é uma sucessão de rupturas, improvisações e colapsos simbólicos. A consequência antropológica disso é clara: o planejamento existencial baseado em estabilidade se transforma em fantasia.

Diante desse quadro, a pergunta central do necrológio deve ser reformulada:

Não “o que eu quero ser?”, mas “o que posso ser dentro das circunstâncias que Deus me concedeu?”

Essa não é uma pergunta de resignação, mas de prudência. Não é renúncia à vocação, mas discernimento da missão possível.

2. O Brasil como naufrágio histórico

O Brasil não vive crises; ele é uma crise permanente institucionalizada. Desde a queda da monarquia, não houve verdadeira consolidação de:

  • continuidade jurídica

  • estabilidade cultural

  • autoridade moral

  • unidade simbólica

A república brasileira não formou cidadãos; produziu sobreviventes. Nesse cenário, planejar a vida como se estivéssemos na Suíça ou nos Estados Unidos é uma forma de autoengano.

O exercício do necrológio, quando feito sem essa consciência histórica, degenera em projeção narcisista: uma biografia idealizada sem correspondência com as condições reais de existência.

A releitura cristã do exercício exige realismo:

A Providência age dentro da história, não fora dela.

3. A missão precede o projeto

A modernidade ensinou o homem a pensar sua vida como projeto pessoal. O cristianismo ensina o homem a viver sua vida como missão.

No paradigma cristão, a pergunta fundamental não é:

“O que me realiza?”

Mas:

“O que Deus espera de mim nas circunstâncias concretas em que fui colocado?”

É aqui que entra o modelo de Ourique, não como evento histórico isolado, mas como arquétipo existencial. Em Ourique, a missão não foi escolhida por conforto, mas assumida por fidelidade. Não se tratava de garantir estabilidade, mas de obedecer à verdade.

Servir a Deus em terras distantes não é romantismo espiritual. É deslocamento existencial: sair do previsível para permanecer fiel.

4. O necrológio cristão: fidelidade, não prestígio

O necrológio moderno celebra:

  • sucesso

  • influência

  • reconhecimento

  • impacto público

O necrológio cristão celebra:

  • fidelidade

  • perseverança

  • retidão

  • serviço

  • sacrifício

Não se trata de negar a importância das obras visíveis, mas de submeter sua avaliação a um critério superior:

A conformidade com a verdade e com a vontade de Deus.

Assim, a pergunta decisiva não é:

“Minha vida foi admirada?”

Mas:

“Minha vida foi fiel?”

5. A pergunta correta em terra instável

Diante da realidade brasileira e da vocação cristã, a formulação adequada do exercício do necrológio torna-se:

Dadas as circunstâncias históricas, culturais e políticas do Brasil, qual é a forma concreta e honesta de servir a Cristo sem trair a verdade, mantendo fidelidade à missão recebida, mesmo em terras instáveis e hostis?

Essa pergunta desloca o centro da vida:

  • do sucesso para a fidelidade

  • do desejo para a missão

  • do projeto para a obediência

  • da carreira para o serviço

Ela não promete conforto, mas sentido. Não garante reconhecimento, mas retidão.

Conclusão

A releitura do necrológio proposta aqui não nega o exercício formulado por Olavo de Carvalho; ela o aprofunda. Em vez de um instrumento de projeção idealista, o necrológio torna-se um exame de consciência histórico, espiritual e moral.

Em terra de náufragos, não se constrói catedrais existenciais sobre areia. Constrói-se fidelidade sobre a rocha da verdade.

A pergunta final não é o que o mundo escreverá sobre nós, mas o que Cristo reconhecerá como obra fiel.

E isso, para o cristão, basta.

Bibliografia Comentada

1. Olavo de Carvalho e o exercício do necrológio

CARVALHO, Olavo de. O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota.
São Paulo: Record.

Embora não seja um manual do COF, esta obra apresenta o núcleo da pedagogia olaviana: formação do caráter intelectual, responsabilidade moral e busca da verdade. O espírito do exercício do necrológio aparece implicitamente na exigência de coerência entre vida, pensamento e missão pessoal.

CARVALHO, Olavo de. Curso Online de Filosofia (aulas gravadas).

No COF, o necrológio é apresentado como instrumento de ordenação existencial. A proposta original parte da ideia de planejamento da vida em função de um ideal elevado. A releitura aqui proposta não nega esse ideal, mas o submete às condições históricas concretas e à missão cristã.

2. Providência, missão e circunstância

ORTEGA Y GASSET, José. Meditações do Quixote.
São Paulo: WMF Martins Fontes.

A famosa fórmula “Eu sou eu e minha circunstância” fornece o fundamento filosófico para a releitura do necrológio. A missão pessoal não se constrói no vácuo, mas dentro de limites históricos e culturais objetivos.

PIEPER, Josef. As Virtudes Fundamentais.
São Paulo: É Realizações.

A prudência, como virtude intelectual e moral, orienta a ação conforme a realidade. A pergunta “o que posso ser dentro das minhas circunstâncias?” é uma aplicação direta dessa virtude.

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica, I-II.

A noção de finalidade última, vontade divina e conformidade moral sustenta a ideia de que a vida humana deve ser orientada não pelo desejo subjetivo, mas pela ordem objetiva do bem.

3. Brasil como instabilidade histórica

FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder.
São Paulo: Globo.

Demonstra a ausência de uma verdadeira ordem institucional contínua no Brasil, reforçando a ideia de que o país não oferece estabilidade para projetos existenciais clássicos.

BUARQUE DE HOLANDA, Sérgio. Raízes do Brasil.
São Paulo: Companhia das Letras.

A análise do “homem cordial” ajuda a compreender a fragilidade simbólica e moral das estruturas brasileiras, que dificulta a construção de trajetórias previsíveis.

NABUCO, Joaquim. Um Estadista do Império.

Oferece contraste entre a ordem monárquica e o caos republicano, reforçando a ideia de ruptura histórica como marca estrutural do Brasil moderno.

4. Missão cristã e fidelidade

BENTO XVI. Spe Salvi.

A esperança cristã não está fundada em progresso histórico, mas na fidelidade a Cristo. O necrológio cristão deve refletir essa lógica.

SANTO INÁCIO DE LOYOLA. Exercícios Espirituais.

A noção de discernimento vocacional, baseada na vontade de Deus e não no desejo pessoal, é paralela à releitura proposta do necrológio.

SÃO JOÃO PAULO II. Redemptoris Missio.

Reafirma a centralidade da missão cristã mesmo em contextos adversos, legitimando a ideia de servir “em terras distantes” como vocação autêntica.

5. História sagrada e o paradigma de Ourique

SERRÃO, Joaquim Veríssimo. História de Portugal.

A batalha de Ourique é apresentada como marco simbólico da missão cristã portuguesa, fornecendo o paradigma histórico utilizado no artigo como arquétipo existencial.

AZEVEDO, Carlos Moreira. Cristandade e Missão.

Analisa a expansão cristã não como projeto político, mas como missão espiritual, reforçando a leitura de Ourique como modelo de fidelidade, não de sucesso.

6. Crítica ao ideal moderno de sucesso

LASCH, Christopher. A Cultura do Narcisismo.

A crítica ao culto da autoimagem ajuda a desmontar o necrológio moderno baseado em prestígio e reconhecimento social.

MACINTYRE, Alasdair. Depois da Virtude.

Demonstra como a perda de uma teleologia objetiva desestrutura a vida moral moderna. O necrológio cristão recupera essa teleologia.

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