O necrológio em terra de náufragos - uma releitura cristã e realista do exercício proposto por Olavo de Carvalho no COF
Introdução
Entre os exercícios formativos propostos por Olavo de Carvalho no Curso Online de Filosofia (COF), o chamado necrológio ocupa lugar de destaque. Trata-se de um método de planejamento existencial no qual o aluno é convidado a imaginar o texto que seria escrito sobre sua vida após a morte, de modo a orientar suas ações presentes rumo à realização de um ideal elevado de si mesmo.
Em contextos sociais relativamente estáveis, esse exercício pode servir como instrumento de ordenação vocacional, disciplinando ambições e clarificando fins. No entanto, quando transplantado para a realidade brasileira — marcada por instabilidade institucional crônica, insegurança jurídica, descontinuidade cultural e imprevisibilidade econômica —, o necrológio precisa ser reinterpretado. Não por rejeição ao método, mas por fidelidade ao princípio que o fundamenta: a busca pela verdade concreta da própria missão.
O Brasil, enquanto nação republicana, não oferece porto seguro. É um país de náufragos. E em terra de náufragos, o problema não é “o que eu quero ser”, mas “o que eu posso ser sem trair a verdade, a fé e a missão recebida”.
1. Do ideal abstrato à missão concreta
O necrológio clássico pressupõe um cenário de continuidade: continuidade de instituições, de valores, de oportunidades e de expectativas sociais. Ele se apoia numa lógica teleológica moderna, segundo a qual o indivíduo escolhe um ideal de vida e molda sua trajetória para alcançá-lo.
No Brasil, porém, a própria noção de trajetória linear é ilusória. A história nacional pós-monárquica é uma sucessão de rupturas, improvisações e colapsos simbólicos. A consequência antropológica disso é clara: o planejamento existencial baseado em estabilidade se transforma em fantasia.
Diante desse quadro, a pergunta central do necrológio deve ser reformulada:
Não “o que eu quero ser?”, mas “o que posso ser dentro das circunstâncias que Deus me concedeu?”
Essa não é uma pergunta de resignação, mas de prudência. Não é renúncia à vocação, mas discernimento da missão possível.
2. O Brasil como naufrágio histórico
O Brasil não vive crises; ele é uma crise permanente institucionalizada. Desde a queda da monarquia, não houve verdadeira consolidação de:
-
continuidade jurídica
-
estabilidade cultural
-
autoridade moral
-
unidade simbólica
A república brasileira não formou cidadãos; produziu sobreviventes. Nesse cenário, planejar a vida como se estivéssemos na Suíça ou nos Estados Unidos é uma forma de autoengano.
O exercício do necrológio, quando feito sem essa consciência histórica, degenera em projeção narcisista: uma biografia idealizada sem correspondência com as condições reais de existência.
A releitura cristã do exercício exige realismo:
A Providência age dentro da história, não fora dela.
3. A missão precede o projeto
A modernidade ensinou o homem a pensar sua vida como projeto pessoal. O cristianismo ensina o homem a viver sua vida como missão.
No paradigma cristão, a pergunta fundamental não é:
“O que me realiza?”
Mas:
“O que Deus espera de mim nas circunstâncias concretas em que fui colocado?”
É aqui que entra o modelo de Ourique, não como evento histórico isolado, mas como arquétipo existencial. Em Ourique, a missão não foi escolhida por conforto, mas assumida por fidelidade. Não se tratava de garantir estabilidade, mas de obedecer à verdade.
Servir a Deus em terras distantes não é romantismo espiritual. É deslocamento existencial: sair do previsível para permanecer fiel.
4. O necrológio cristão: fidelidade, não prestígio
O necrológio moderno celebra:
-
sucesso
-
influência
-
reconhecimento
-
impacto público
O necrológio cristão celebra:
-
fidelidade
-
perseverança
-
retidão
-
serviço
-
sacrifício
Não se trata de negar a importância das obras visíveis, mas de submeter sua avaliação a um critério superior:
A conformidade com a verdade e com a vontade de Deus.
Assim, a pergunta decisiva não é:
“Minha vida foi admirada?”
Mas:
“Minha vida foi fiel?”
5. A pergunta correta em terra instável
Diante da realidade brasileira e da vocação cristã, a formulação adequada do exercício do necrológio torna-se:
Dadas as circunstâncias históricas, culturais e políticas do Brasil, qual é a forma concreta e honesta de servir a Cristo sem trair a verdade, mantendo fidelidade à missão recebida, mesmo em terras instáveis e hostis?
Essa pergunta desloca o centro da vida:
-
do sucesso para a fidelidade
-
do desejo para a missão
-
do projeto para a obediência
-
da carreira para o serviço
Ela não promete conforto, mas sentido. Não garante reconhecimento, mas retidão.
Conclusão
A releitura do necrológio proposta aqui não nega o exercício formulado por Olavo de Carvalho; ela o aprofunda. Em vez de um instrumento de projeção idealista, o necrológio torna-se um exame de consciência histórico, espiritual e moral.
Em terra de náufragos, não se constrói catedrais existenciais sobre areia. Constrói-se fidelidade sobre a rocha da verdade.
A pergunta final não é o que o mundo escreverá sobre nós, mas o que Cristo reconhecerá como obra fiel.
E isso, para o cristão, basta.
Bibliografia Comentada
1. Olavo de Carvalho e o exercício do necrológio
CARVALHO, Olavo de. O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota.
São Paulo: Record.
Embora não seja um manual do COF, esta obra apresenta o núcleo da pedagogia olaviana: formação do caráter intelectual, responsabilidade moral e busca da verdade. O espírito do exercício do necrológio aparece implicitamente na exigência de coerência entre vida, pensamento e missão pessoal.
CARVALHO, Olavo de. Curso Online de Filosofia (aulas gravadas).
No COF, o necrológio é apresentado como instrumento de ordenação existencial. A proposta original parte da ideia de planejamento da vida em função de um ideal elevado. A releitura aqui proposta não nega esse ideal, mas o submete às condições históricas concretas e à missão cristã.
2. Providência, missão e circunstância
ORTEGA Y GASSET, José. Meditações do Quixote.
São Paulo: WMF Martins Fontes.
A famosa fórmula “Eu sou eu e minha circunstância” fornece o fundamento filosófico para a releitura do necrológio. A missão pessoal não se constrói no vácuo, mas dentro de limites históricos e culturais objetivos.
PIEPER, Josef. As Virtudes Fundamentais.
São Paulo: É Realizações.
A prudência, como virtude intelectual e moral, orienta a ação conforme a realidade. A pergunta “o que posso ser dentro das minhas circunstâncias?” é uma aplicação direta dessa virtude.
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica, I-II.
A noção de finalidade última, vontade divina e conformidade moral sustenta a ideia de que a vida humana deve ser orientada não pelo desejo subjetivo, mas pela ordem objetiva do bem.
3. Brasil como instabilidade histórica
FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder.
São Paulo: Globo.
Demonstra a ausência de uma verdadeira ordem institucional contínua no Brasil, reforçando a ideia de que o país não oferece estabilidade para projetos existenciais clássicos.
BUARQUE DE HOLANDA, Sérgio. Raízes do Brasil.
São Paulo: Companhia das Letras.
A análise do “homem cordial” ajuda a compreender a fragilidade simbólica e moral das estruturas brasileiras, que dificulta a construção de trajetórias previsíveis.
NABUCO, Joaquim. Um Estadista do Império.
Oferece contraste entre a ordem monárquica e o caos republicano, reforçando a ideia de ruptura histórica como marca estrutural do Brasil moderno.
4. Missão cristã e fidelidade
BENTO XVI. Spe Salvi.
A esperança cristã não está fundada em progresso histórico, mas na fidelidade a Cristo. O necrológio cristão deve refletir essa lógica.
SANTO INÁCIO DE LOYOLA. Exercícios Espirituais.
A noção de discernimento vocacional, baseada na vontade de Deus e não no desejo pessoal, é paralela à releitura proposta do necrológio.
SÃO JOÃO PAULO II. Redemptoris Missio.
Reafirma a centralidade da missão cristã mesmo em contextos adversos, legitimando a ideia de servir “em terras distantes” como vocação autêntica.
5. História sagrada e o paradigma de Ourique
SERRÃO, Joaquim Veríssimo. História de Portugal.
A batalha de Ourique é apresentada como marco simbólico da missão cristã portuguesa, fornecendo o paradigma histórico utilizado no artigo como arquétipo existencial.
AZEVEDO, Carlos Moreira. Cristandade e Missão.
Analisa a expansão cristã não como projeto político, mas como missão espiritual, reforçando a leitura de Ourique como modelo de fidelidade, não de sucesso.
6. Crítica ao ideal moderno de sucesso
LASCH, Christopher. A Cultura do Narcisismo.
A crítica ao culto da autoimagem ajuda a desmontar o necrológio moderno baseado em prestígio e reconhecimento social.
MACINTYRE, Alasdair. Depois da Virtude.
Demonstra como a perda de uma teleologia objetiva desestrutura a vida moral moderna. O necrológio cristão recupera essa teleologia.
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