Introdução
A experiência histórica das manufaturas de luxo francesas no Antigo Regime constitui um exemplo privilegiado de complexidade econômica fundada em circunstâncias de vida, e não em determinismos abstratos. Trata-se de uma ordem produtiva que não pode ser explicada adequadamente nem pelo determinismo geográfico, nem pelo determinismo econômico moderno. Sua inteligibilidade exige uma compreensão mais profunda da articulação entre economia, direito, moral cristã e forma de vida.
Este artigo sustenta que tais manufaturas expressavam uma vocação econômica inseparável de uma vocação civilizatória, pela qual a França era tomada como um lar em Cristo, por Cristo e para Cristo. Essa ordem se opõe frontalmente à racionalidade maquiaveliana e, por extensão, à concepção moderna de Estado que subordina a sociedade à técnica do poder.
1. Complexidade circunstancial e economia enraizada
As manufaturas de luxo do Antigo Regime — tecidos finos, tapeçarias, ourivesaria, porcelanas, mobiliário, instrumentos científicos e artísticos — não emergem como resposta a estímulos de mercado no sentido moderno, tampouco como consequência automática de vantagens naturais. Elas se formam a partir de uma complexidade circunstancial acumulada ao longo do tempo.
Essa complexidade inclui:
a transmissão artesanal do saber por meio de corporações e guildas;
a integração entre trabalho, liturgia e calendário religioso;
a patrocínio régio orientado pela ideia de bem comum;
uma concepção jurídica do ofício como estado de vida;
e uma noção cristã de perfeição vinculada ao bem feito, ao belo e ao durável.
A economia, nesse contexto, não é uma esfera autônoma, mas uma dimensão da vida social ordenada segundo fins objetivos. Produzir bem não significava maximizar lucros, mas corresponder fielmente a uma vocação.
2. Vocação econômica como vocação civilizatória
A noção de vocação é central para compreender essa ordem. O artesão, o mestre de ofício, o aprendiz e mesmo o comerciante não se percebiam como agentes intercambiáveis em um sistema abstrato, mas como pessoas inseridas numa tradição viva.
A produção de luxo, longe de ser mero consumo conspícuo, possuía um sentido civilizatório: expressava a ordem do mundo criado, a hierarquia dos bens e a possibilidade humana de participar, pelo trabalho, da obra de Deus. Nesse sentido, a França podia ser vivida como um lar, não no sentido nacionalista moderno, mas como um espaço histórico onde a vida cristã informava as instituições, os costumes e a economia.
A liberdade aí existente não era emancipação negativa, mas liberdade para cumprir a própria vocação, isto é, para realizar-se conforme a ordem do bem. Essa liberdade é incompatível tanto com o individualismo moderno quanto com a submissão a uma elite política separada da sociedade.
3. Direito, costume e limitação do poder
O funcionamento dessa economia pressupunha uma ordem jurídica não estatocêntrica. O direito não emanava exclusivamente do poder político central, mas se apoiava em costumes, privilégios locais, cartas régias e tradições corporativas. O poder era limitado por uma ordem moral que lhe era superior.
Essa estrutura impedia a formação de uma elite político-econômica autônoma, capaz de instrumentalizar o poder contra a sociedade. A autoridade existia para proteger formas de vida concretas, não para reorganizá-las segundo projetos abstratos.
Quando essa ordem começa a ser corroída — seja pelo absolutismo tardio, seja pela racionalização administrativa moderna — rompe-se o elo entre vocação, liberdade e economia. O resultado é a transformação do trabalho em função e da sociedade em objeto de governo.
4. Maquiavel e a incompreensão da ordem pré-moderna
É nesse ponto que se torna inteligível a crítica ao maquiavelismo. Quando Maquiavel afirma, em O Príncipe, que os franceses não entendem de Estado, ele projeta sobre a realidade francesa uma categoria que lhe é estranha.
Maquiavel entende o Estado como técnica de conservação e expansão do poder. A França do Antigo Regime, porém, não se organizava primariamente em torno de uma razão de Estado, mas de uma razão moral e cristã da vida comum. O poder não era o princípio organizador da sociedade, mas um elemento subordinado a uma ordem superior.
Assim, a crítica maquiaveliana revela menos uma deficiência francesa e mais a incapacidade moderna de compreender economias e ordens jurídicas fundadas na vocação, no costume e na primazia do bem comum sobre o poder.
Conclusão
As manufaturas de luxo francesas do Antigo Regime ilustram uma forma de complexidade econômica que escapa às categorias da economia política moderna. Elas só se tornam plenamente inteligíveis quando compreendidas como expressão de uma forma de vida cristã, na qual economia, direito e moral se articulam organicamente.
Essa experiência histórica lança luz sobre os limites do pensamento maquiaveliano e do Estado moderno, mostrando que a verdadeira liberdade não consiste na submissão à técnica do poder, mas na possibilidade de viver e trabalhar segundo a própria vocação, em uma ordem social que reconhece a primazia da verdade e do bem.
Trata-se, portanto, não de um retorno nostálgico ao passado, mas de um critério rigoroso para julgar as deformações contemporâneas da economia e da política.
Bibliografia comentada
1. AQUINO, Santo Tomás de. Suma Teológica.
Obra fundamental para compreender a noção de ordem, bem comum, vocação e hierarquia dos fins. A economia e o trabalho aparecem implicitamente subordinados à lei natural e à finalidade última do homem. Fornece o arcabouço metafísico e moral que torna inteligível a economia pré-moderna.
2. LEÃO XIII. Rerum Novarum.
Encíclica decisiva para entender a doutrina social da Igreja. Afirma a dignidade do trabalho, a legitimidade da propriedade privada e a função social do capital, concebido como trabalho acumulado ao longo do tempo. Serve como ponte entre a ordem pré-moderna e a crítica católica à economia moderna.
3. TOCQUEVILLE, Alexis de. O Antigo Regime e a Revolução.
Análise magistral da sociedade francesa anterior à Revolução e do processo de centralização estatal. Tocqueville mostra como a destruição das corporações, dos costumes e das liberdades locais abriu caminho para o Estado moderno, confirmando a fragilidade das economias enraizadas diante da abstração política.
4. LE PLAY, Frédéric. Les Ouvriers Européens.
Estudo empírico das formas de vida, trabalho e família na Europa do século XIX. Le Play evidencia a importância das circunstâncias locais, das tradições e da moral cristã na organização econômica, em contraste com os modelos abstratos da economia política.
5. RÖPKE, Wilhelm. A Crise Social do Nosso Tempo.
Crítica contundente ao economicismo e ao estatismo modernos. Röpke resgata a noção de economia humana, moralmente situada, e aproxima-se da ideia de vocação econômica enraizada em comunidades reais.
6. SCHUMACHER, E. F. Small Is Beautiful.
Embora moderno, o autor reconhece os limites da racionalidade econômica abstrata e defende economias proporcionais à escala humana. Sua crítica ajuda a iluminar, por contraste, a superioridade qualitativa das economias artesanais e vocacionais.
7. MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe.
Leitura indispensável como contraponto teórico. A obra explicita a ruptura moderna entre moral, sociedade e poder, permitindo compreender por que Maquiavel é incapaz de apreender a lógica econômica e jurídica das ordens cristãs pré-modernas.
8. POLANYI, Karl. A Grande Transformação.
Análise histórica da autonomização da economia em relação à sociedade. Embora não católico, Polanyi oferece instrumentos conceituais úteis para entender a passagem de economias enraizadas para sistemas governados pelo mercado e pelo Estado.
9. OLAVO DE CARVALHO. O Jardim das Aflições.
Reflexão filosófica sobre a gênese da modernidade política e a separação entre poder e verdade. Auxilia na compreensão do pano de fundo metafísico da crítica ao maquiavelismo.
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