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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Da economia das restrições e do governo de si mesmo nos méritos de Cristo - economia doméstica, contabilidade prática e a convergência entre Alfred Marshall e Ortega y Gasset

Introdução

A reflexão econômica, quando fiel à realidade humana, não nasce em modelos abstratos nem em sistemas fechados, mas na vida ordinária. Antes de ser disciplina acadêmica, a economia é uma prática cotidiana: administrar recursos escassos, ordenar prioridades, decidir sob limites. Este artigo sustenta que a prática da contabilidade doméstica orientada por situações de restrição constitui uma forma elementar, porém sofisticada, de racionalidade econômica e existencial. Tal prática revela uma convergência profunda entre o pensamento econômico de Alfred Marshall e a filosofia das circunstâncias de José Ortega y Gasset.

Longe de ser uma analogia superficial entre casa e empresa, trata-se de um princípio mais radical: a unidade entre ação humana, responsabilidade e circunstância.

1. A restrição como ponto de partida da racionalidade

Toda ação humana relevante ocorre sob restrições. Tempo, renda, energia, compromissos morais e expectativas futuras constituem o horizonte concreto no qual o indivíduo decide. A economia começa precisamente aí.

Alfred Marshall compreendia a economia como o estudo do comportamento humano em suas ocupações ordinárias. Para ele, a escassez não era um defeito do sistema social, mas um dado estrutural da vida. A racionalidade econômica emerge quando o indivíduo reconhece limites e age de modo prudente dentro deles.

Do mesmo modo, Ortega y Gasset formula sua célebre máxima: “Eu sou eu e minha circunstância.” A circunstância não é um acidente externo, mas parte constitutiva do sujeito. Não existe liberdade fora da situação concreta; existe apenas ilusão.

A economia das restrições, portanto, é simultaneamente econômica e existencial.

2. Economia doméstica como núcleo originário da economia

Marshall jamais tratou a economia doméstica como um campo menor. Ao contrário, via nela o núcleo originário da racionalidade econômica. É no lar que surgem:

  • a hierarquização de necessidades;

  • a antecipação do futuro por meio da poupança;

  • a alocação intertemporal de recursos;

  • a avaliação prática de custos e benefícios.

Tratar a casa de modo semelhante a uma empresa não significa reduzir a vida ao mercado, mas reconhecer que a empresa é uma formalização ampliada de práticas já existentes na economia doméstica. A diferença é de escala, não de princípio.

A contabilidade doméstica, quando bem conduzida, não é um exercício contábil vazio, mas um instrumento de autoconsciência prática. Ela torna visíveis as restrições e obriga o agente a responder por elas.

3. Contabilidade como governo de si

Nesse contexto, a contabilidade deixa de ser mera técnica e passa a funcionar como uma forma de governo de si. Ela articula três dimensões fundamentais:

  • Memória: registra o passado de forma ordenada;

  • Juízo: permite avaliar decisões presentes;

  • Prudência: projeta o futuro sem ilusões.

Essa prática está em plena consonância com Marshall, para quem a boa economia depende mais de bom senso e observação da realidade do que de sofisticação matemática excessiva.

Simultaneamente, ela expressa o núcleo da filosofia de Ortega: viver autenticamente é assumir a circunstância, não fugir dela. O indivíduo que organiza sua vida econômica a partir das restrições concretas recusa soluções ideológicas, promessas utópicas e abstrações coletivistas.

4. A convergência entre Marshall e Ortega

Embora provenientes de tradições distintas — economia política e filosofia — Marshall e Ortega convergem em pontos decisivos:

  1. A primazia da realidade vivida sobre sistemas teóricos fechados;

  2. A centralidade da decisão humana concreta;

  3. A recusa de modelos totalizantes desligados da experiência ordinária.

Ambos compreendem que a racionalidade nasce do confronto honesto com os limites. A economia, nesse sentido, não é engenharia social, mas disciplina da prudência.

5. Implicações práticas e culturais

A adoção consciente de uma economia doméstica orientada por restrições tem implicações que vão além do indivíduo:

  • Forma hábitos de responsabilidade;

  • Desenvolve autonomia real, não retórica;

  • Cria uma cultura de limites, condição necessária da liberdade.

Em sociedades marcadas por promessas inflacionadas de direitos sem deveres e consumo sem custo, essa postura representa uma resistência silenciosa, porém eficaz, à desordem econômica e moral.

Conclusão

A prática da contabilidade doméstica sob restrições não é um detalhe técnico, mas uma forma de racionalidade integral. Ela une economia e filosofia, Marshall e Ortega, gestão e existência.

Ao assumir suas circunstâncias e governar seus recursos com prudência, o indivíduo não apenas faz boa economia: ele vive de modo mais verdadeiro. A casa, nesse sentido, torna-se o primeiro espaço de responsabilidade econômica — e o primeiro campo onde a liberdade deixa de ser abstração para tornar-se forma concreta de vida.

Bibliografia comentada

MARSHALL, Alfred. Principles of Economics. Obra fundacional da economia moderna. Marshall concebe a economia como o estudo da vida ordinária, enfatizando a observação do comportamento humano sob restrições. Sua defesa da clareza conceitual, do uso moderado da matemática e da centralidade da economia doméstica faz dele a principal referência para uma economia da prudência, não do abstracionismo.

DEATON, Angus; MUELLBAUER, John. Economics and Consumer Behavior. Herdeiro direto da tradição marshalliana, este livro desloca o foco da teoria do consumidor para escolhas reais, dados empíricos e restrições efetivas. É fundamental para compreender como a economia do consumo pode ser tratada sem recorrer a modelos excessivamente idealizados.

ORTEGA Y GASSET, José. Meditaciones del Quijote. Texto onde surge a célebre fórmula “eu sou eu e minha circunstância”. Ortega estabelece o fundamento filosófico da ação situada, indispensável para compreender a economia como prática existencial e não como engenharia social.

ORTEGA Y GASSET, José. La rebelión de las masas. Embora não seja um livro de economia, oferece uma crítica decisiva às ilusões coletivistas e à irresponsabilidade moral das sociedades de massa, fornecendo o pano de fundo cultural para a defesa de uma economia baseada em limites e responsabilidade individual.

HICKS, John. Value and Capital. Representa um diálogo tenso entre formalização e intuição econômica. Embora mais matemático que Marshall, conserva elementos importantes da análise intertemporal e da escolha sob restrição, úteis para aprofundar o aspecto técnico do tema.

SCHUMPETER, Joseph. History of Economic Analysis. Essencial para situar Marshall historicamente e compreender a economia como tradição intelectual viva. Schumpeter ajuda a distinguir entre economia como ciência da realidade e economia como construção ideológica.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Referência clássica para o conceito de prudência (phronesis). Embora anterior à economia moderna, fornece a base ética indispensável para compreender a contabilidade e a gestão como formas de governo de si.

LEÃO XIII. Rerum Novarum. Documento central da Doutrina Social da Igreja. Oferece uma compreensão moral do trabalho, da propriedade e da responsabilidade econômica, compatível com a visão de economia doméstica como núcleo da ordem social.

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