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sábado, 17 de janeiro de 2026

Pax Americana: Pax Romana ou Pax Christi? - nacionidade funcional, soberania integrada e o limite da paz sem Cristo

Introdução

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos exerceram um papel central na organização da ordem internacional. Essa hegemonia, sustentada por poder militar, integração econômica, controle logístico e alianças estratégicas, passou a ser conhecida como Pax Americana. À semelhança da antiga Pax Romana, trata-se de uma paz fundada na capacidade de organizar o mundo por meio da força, da administração e da eficiência sistêmica.

Contudo, permanece a questão fundamental: essa paz é apenas uma atualização moderna da Pax Romana ou pode ser compreendida como uma expressão histórica da Pax Christi — a paz de Cristo, que é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6)?

Este artigo sustenta que, sem um fundamento cristão explícito, a Pax Americana tende a reproduzir os limites estruturais da Pax Romana: estabilidade sem redenção, ordem sem verdade e poder sem transcendência.

1. Pax Romana: ordem imperial sem redenção

A Pax Romana representou o auge da capacidade organizacional do Império Romano. Ela se baseava em:

  • Superioridade militar,

  • Infraestrutura logística,

  • Administração territorial,

  • Uniformização jurídica,

  • Integração econômica.

Essa paz garantiu séculos de relativa estabilidade, circulação de mercadorias e previsibilidade institucional. No entanto, era uma paz essencialmente externa e administrativa. Roma organizava o mundo, mas não o redimia. A submissão ao império não implicava conversão à verdade.

A paz romana era fruto da coerção e da eficiência, não da transformação interior do homem.

2. Pax Americana: a versão moderna da paz funcional

A Pax Americana reproduz, em escala global, a lógica da Pax Romana. Seu funcionamento repousa sobre:

  • Cadeias logísticas internacionais,

  • Supremacia militar,

  • Sistema financeiro globalizado,

  • Alianças estratégicas,

  • Governança tecnocrática.

Essa ordem é capaz de:

  • Conter conflitos diretos,

  • Garantir estabilidade econômica,

  • Proteger rotas comerciais,

  • Manter o equilíbrio de poder.

Trata-se, porém, de uma paz funcional, não espiritual. Ela organiza o mundo, mas não responde às questões últimas da existência humana. Assim como Roma, os Estados Unidos promovem ordem, mas não necessariamente verdade.

A Pax Americana é eficiente — mas ontologicamente neutra.

3. Nacionidade funcional: soberania sem transcendência

A nacionidade contemporânea, quando fundada exclusivamente em:

  • Logística,

  • Economia,

  • Segurança,

  • Interesses estratégicos,

produz Estados tecnicamente eficientes, mas espiritualmente vazios. Essa forma de soberania é capaz de garantir estabilidade, mas não sentido.

Ela gera uma paz semelhante à romana: previsível, controlada, administrada — porém incapaz de ordenar a história à verdade. Sem Cristo como fundamento, a nação torna-se um instrumento de gestão, não de missão.

4. Pax Christi: verdade antes da ordem

A paz anunciada por Cristo não nasce do poder, mas da verdade. Não é imposta por exércitos, mas comunicada por conversão.

A Pax Christi é:

  • Reconciliação com Deus,

  • Restauração da ordem interior,

  • Submissão da história à verdade,

  • Orientação da política a um fim transcendente.

Enquanto a Pax Americana busca estabilidade, a Pax Christi busca salvação. Enquanto uma administra o mundo, a outra transforma o homem.

Sem Cristo, toda paz é provisória. Sem a verdade, toda ordem é frágil.

5. Soberania integrada: engenharia de poder ou projeto civilizacional?

A ideia de soberania integrada — coordenação entre Estados soberanos — pode assumir dois sentidos distintos:

  1. Funcional
    Cooperação militar, econômica e logística para maximizar eficiência.

  2. Civilizacional
    União fundada em fé, tradição, valores e missão histórica.

No primeiro caso, obtém-se uma Pax Americana tecnocrática. No segundo, abre-se a possibilidade de uma Pax Christi histórica.

Sem Cristo como princípio ordenador, a soberania integrada permanece no nível da engenharia de poder, não da construção civilizacional.

6. Ourique e a Fronteira: dois mitos, uma missão

O Mito de Ourique, em Portugal, expressa:

  • Missão providencial,

  • Realeza subordinada a Deus,

  • Expansão como serviço à fé.

O Mito da Fronteira, nos Estados Unidos, expressa:

  • Expansão civilizacional,

  • Espírito de missão,

  • Construção de ordem em territórios novos.

Quando integrados em Cristo, esses mitos deixam de ser ideologias políticas e tornam-se uma teologia da civilização. Quando separados de Cristo, reduzem-se a ideologias.  a projetos de poder.

7. A cadeia do ser civilizacional

A verdadeira paz exige hierarquia de fins:

  1. Deus

  2. Verdade

  3. Homem

  4. Nação

  5. Civilização

  6. História

Quando essa ordem é respeitada, a política serve à verdade.
Quando é invertida, a política passa a servir ao poder.

A Pax Americana, sem Cristo, tende a inverter essa cadeia. A Pax Christi, por definição, a restaura.

Conclusão

A Pax Americana pode garantir estabilidade.
A nacionidade funcional pode assegurar ordem.
A soberania integrada pode evitar guerras.

Mas somente Cristo pode dar sentido à história.

Sem Ele, há paz — mas não há verdade.
Há ordem — mas não há redenção.
Há império — mas não há civilização cristã.

A escolha não é entre guerra e paz,
mas entre Pax Romana e Pax Christi,
entre poder e verdade,
entre administração do mundo e salvação do homem.

Bibliografia Comentada

1. Pax Romana e ordem imperial

Gibbon, Edward. The History of the Decline and Fall of the Roman Empire.
Clássico da historiografia ocidental, Gibbon descreve com precisão a estrutura administrativa, militar e cultural do Império Romano. A obra é fundamental para compreender como a Pax Romana se sustentava por meio da disciplina institucional, da logística e da coerção. Sua leitura evidencia que a paz romana era essencialmente funcional, não redentiva.

Mommsen, Theodor. History of Rome.
Mommsen analisa a formação jurídica e política de Roma, mostrando como o império construiu uma ordem estável baseada em direito, administração e poder militar. É útil para compreender o caráter técnico da paz romana e seus limites espirituais.

2. Pax Americana e hegemonia contemporânea

Ikenberry, G. John. After Victory: Institutions, Strategic Restraint, and the Rebuilding of Order after Major Wars.
O autor examina como os EUA estruturaram a ordem internacional após 1945 por meio de instituições, alianças e integração econômica. A obra é central para entender a Pax Americana como um sistema de governança funcional, voltado à estabilidade e ao controle estratégico.

Nye, Joseph. Soft Power: The Means to Success in World Politics.
Nye explica como a hegemonia americana não depende apenas de força militar, mas também de influência cultural e institucional. Isso ajuda a compreender a Pax Americana como uma forma sofisticada de poder, ainda que espiritualmente neutra.

Ferguson, Niall. Colossus: The Rise and Fall of the American Empire.
Ferguson analisa os EUA como um império informal, sustentado por poder econômico, militar e cultural. A obra reforça a analogia entre Pax Romana e Pax Americana, mostrando seus limites morais e civilizacionais.

3. Paz cristã e ordem espiritual

Santo Agostinho de Hipona. A Cidade de Deus.
Obra fundamental para distinguir a paz terrena da paz verdadeira. Agostinho mostra que toda ordem política sem Deus é necessariamente incompleta. A Pax Christi é apresentada como superior à paz dos impérios, pois se funda na verdade eterna, não na força.

Santo Tomás de Aquino. Suma Teológica.
Santo Tomás fornece a base filosófica para compreender a hierarquia de fins: Deus, verdade, homem, sociedade. Sua visão sustenta a ideia de que a política deve estar subordinada à ordem moral e espiritual.

Ratzinger, Joseph (Bento XVI). Europa: suas bases espirituais ontem, hoje e amanhã.
Ratzinger argumenta que a civilização ocidental perde sua coesão quando abandona suas raízes cristãs. A obra é essencial para compreender por que uma Pax Americana sem Cristo tende a se tornar apenas um sistema técnico de poder.

4. Nacionidade, soberania e civilização

Royce, Josiah. The Philosophy of Loyalty.
Royce discute a lealdade como fundamento da identidade coletiva. A obra ajuda a compreender a nacionidade não apenas como função política, mas como compromisso moral e espiritual.

Scruton, Roger. How to Be a Conservative.
Scruton defende a importância da tradição, da continuidade histórica e da identidade nacional. Sua análise reforça a ideia de que uma nacionidade puramente funcional é insuficiente para sustentar uma civilização.

Spengler, Oswald. The Decline of the West.
Spengler interpreta a história como ciclos civilizacionais. Sua crítica ao materialismo moderno ajuda a explicar por que impérios baseados apenas em técnica e poder tendem ao esgotamento espiritual.

5. Ourique, Fronteira e missão histórica

Saraiva, António José. História de Portugal.
A obra contextualiza o Mito de Ourique como fundamento espiritual da monarquia portuguesa e da missão cristã no mundo. Essencial para compreender a dimensão teológica da expansão portuguesa.

Turner, Frederick Jackson. The Frontier in American History.
Turner formula o Mito da Fronteira como elemento formador da identidade americana. A obra mostra como a expansão territorial moldou a visão de missão, ordem e civilização nos EUA.

Carvalho, Olavo de. O Jardim das Aflições.
Analisa a crise espiritual do Ocidente e a perda do sentido metafísico da história. Serve como crítica ao uso secularizado de mitos fundacionais sem referência à verdade cristã.

6. Síntese civilizacional

Dawson, Christopher. Religion and the Rise of Western Culture.
Dawson demonstra que a civilização ocidental é inseparável do cristianismo. A obra sustenta a tese de que nenhuma ordem política se mantém sem fundamento espiritual.

Weigel, George. The Cube and the Cathedral.
Weigel critica a secularização da Europa e a perda de sua alma cristã. Sua análise reforça a distinção entre paz administrativa e paz espiritual.

Símbolos, Cruzadas Modernas e a Groenlândia como fronteira espiritual da Cristandade Ocidental

Introdução

A afirmação de que “símbolos não migram”, atribuída a Loryel Rocha, oferece um princípio hermenêutico fundamental para a análise de mitos civilizacionais. Símbolos não são objetos transportáveis; são estruturas de sentido enraizadas em tradições históricas, teológicas e culturais específicas. Nesse quadro, a tentativa de integrar o Mito da Fronteira norte-americano ao Mito de Ourique, fundamento sacral da identidade portuguesa, é inviável enquanto operação simbólica direta. Contudo, essa integração torna-se possível quando ambos os horizontes são reunidos sob uma mesma cultura espiritual orientada para Cristo, por Cristo e para Cristo.

É nesse contexto que a leitura simbólica de Top Gun como uma cruzada moderna ganha densidade teológica e civilizacional. E é também nesse horizonte que a Groenlândia, enquanto base aérea natural, assume uma função histórica que ultrapassa a geopolítica e se inscreve na lógica da missão cristã em terras distantes.

1. Símbolos não migram: fundamento teórico

Um símbolo não é apenas um signo visual ou narrativo. Ele é uma condensação de:

  • memória histórica,

  • teologia política,

  • identidade coletiva,

  • e missão civilizacional.

Quando deslocado de seu ecossistema cultural, o símbolo perde sua densidade ontológica e passa a operar como estética, simulacro ou instrumento ideológico. A cruz fora da Cristandade, por exemplo, torna-se ornamento; o cavaleiro medieval fora da ordem cristã vira personagem folclórico.

Portanto, o Mito da Fronteira americana — fundado na expansão territorial, no destino manifesto e na ética protestante — não pode, em si mesmo, ser integrado ao Mito de Ourique, que nasce de uma experiência sacral de fundação régia sob a soberania de Cristo-Rei.

A integração simbólica só é possível quando há continuidade espiritual.

2. A condição da integração: Cristo como eixo civilizacional

A única via legítima de unificação simbólica entre Brasil, Portugal e Estados Unidos não é política nem econômica, mas teológica.

Quando se assume que:

Brasil e EUA podem ser tomados como um mesmo lar em Cristo, por Cristo e para Cristo,

o território deixa de ser o princípio organizador da civilização. O eixo passa a ser a missão cristã. Nesse quadro:

  • fronteiras são funcionais,

  • culturas são instrumentos,

  • e a história é pedagógica.

O que unifica os mitos não é a forma, mas a finalidade.

3. Top Gun como cruzada moderna

À luz dessa chave interpretativa, Top Gun não é apenas um filme militarista ou patriótico. Ele pode ser lido como uma representação simbólica da função histórica da cavalaria cristã em forma moderna.

ElementoFunção simbólica
AviãoCavalo de guerra
PilotoCavaleiro
CéuCampo de batalha espiritual
MissãoDefesa da ordem civilizacional

O piloto não luta por glória pessoal, mas pela manutenção de uma ordem superior. O combate não é apenas físico, mas civilizacional. A tecnologia não substitui o espírito; ela o serve.

Assim como o cavaleiro medieval defendia os limites da Cristandade, o piloto moderno defende o espaço aéreo da civilização ocidental, entendida aqui não como império, mas como herdeira de uma ordem moral cristã.

Não se trata de romantizar a guerra, mas de reconhecer a continuidade funcional da missão.

4. A Groenlândia como fronteira espiritual

A Groenlândia, geograficamente, é uma massa territorial estratégica no Atlântico Norte. Historicamente, tornou-se um ponto-chave para a defesa aérea do Ocidente. Simbolicamente, ela pode ser interpretada como uma nova “terra distante” da missão cristã.

No imaginário da Cristandade:

  • terras distantes sempre foram campos de prova da fidelidade,

  • o serviço militar foi, muitas vezes, forma de serviço religioso,

  • e a defesa da ordem foi entendida como vocação.

A Groenlândia, enquanto base aérea natural, não é apenas um ativo militar. Ela representa:

  • a vigília nas extremidades da civilização,

  • a custódia do espaço comum,

  • e a permanência da missão cristã em contextos tecnológicos.

Assim como as fortalezas medievais guardavam as fronteiras da Cristandade, as bases aéreas contemporâneas guardam os corredores da ordem civilizacional.

Servir ali é, simbolicamente, servir em terras distantes.

5. Cristo, território e missão

A verdadeira integração simbólica não ocorre entre mitos nacionais, mas entre missões espirituais.

Quando Cristo é o eixo:

  • Portugal, Brasil, EUA e Groenlândia deixam de ser territórios isolados,

  • tornam-se expressões funcionais de uma mesma civilização,

  • orientada para a verdade, a ordem e a transcendência.

O cavaleiro medieval, o missionário, o navegador e o piloto moderno compartilham a mesma estrutura simbólica: o serviço àquilo que transcende o indivíduo.

Conclusão

Símbolos não migram.
Mas missões podem ser continuadas.

O Mito da Fronteira não se integra ao Mito de Ourique por semelhança histórica, mas por convergência espiritual. Top Gun pode ser lido como expressão moderna da cavalaria cristã. E a Groenlândia, como base aérea natural, insere-se na tradição do serviço em terras distantes, agora sob novas formas técnicas.

O cavalo tornou-se avião.
A armadura tornou-se tecnologia.
Mas a missão permanece.

Bibliografia Comentada

1. ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano.

Comentário:
Eliade demonstra que o símbolo só possui sentido pleno dentro de uma estrutura sagrada específica. Quando deslocado de seu contexto ritual e civilizacional, ele se esvazia. Esta obra fundamenta o princípio de que símbolos não migram, pois dependem de uma hierofania concreta e de uma tradição viva.

2. CASSIRER, Ernst. Ensaio sobre o Homem.

Comentário:
Cassirer apresenta o homem como um “animal simbólico”. Os símbolos não são objetos móveis, mas estruturas culturais. O livro sustenta a ideia de que símbolos só funcionam dentro de um sistema civilizacional coerente, reforçando a tese da impossibilidade de transplante simbólico direto entre mitos nacionais.

3. SCHMITT, Carl. Teologia Política.

Comentário:
Schmitt mostra como conceitos políticos modernos derivam de categorias teológicas. Isso permite compreender como a guerra, a soberania e a defesa territorial carregam uma dimensão simbólica e quase sacral. A obra sustenta a leitura de Top Gun como herdeiro funcional da cavalaria cristã.

4. ROYCE, Josiah. A Filosofia da Lealdade.

Comentário:
Royce define a lealdade a uma causa superior como fundamento da vida moral. Essa noção permite interpretar o serviço militar, quando orientado por uma ordem transcendente, como forma de fidelidade civilizacional — elemento essencial para a leitura da missão cristã em “terras distantes”.

5. TURNER, Frederick Jackson. The Frontier in American History.

Comentário:
Turner formula o Mito da Fronteira como matriz da identidade americana. A obra é central para demonstrar que esse mito nasce de uma experiência histórica específica, incompatível, em sua origem, com o Mito de Ourique — salvo por uma unificação espiritual em Cristo.

6. SERRÃO, Joaquim Veríssimo. História de Portugal.

Comentário:
Fornece a base histórica e simbólica do Mito de Ourique, mostrando sua natureza sacral e fundacional. Essencial para demonstrar que a origem da identidade portuguesa é teológica, não meramente política.

7. BENTO XVI (Joseph Ratzinger). Introdução ao Cristianismo.

Comentário:
Ratzinger oferece uma visão da fé cristã como eixo civilizacional e não apenas experiência privada. A obra fundamenta a ideia de que Cristo pode unificar culturas distintas em uma mesma missão histórica.

8. DE MATTEI, Roberto. O Concílio Vaticano II: Uma História Nunca Escrita.

Comentário:
Ajuda a compreender a crise da Cristandade como estrutura simbólica e a perda de continuidade cultural no Ocidente. Sustenta a tese de que os símbolos enfraquecem quando a tradição é rompida.

9. OLAVO DE CARVALHO. O Jardim das Aflições.

Comentário:
A obra discute a dissolução da ordem simbólica cristã no mundo moderno e a transformação da política em simulacro. Serve como pano de fundo filosófico para a análise da permanência funcional da missão cristã sob novas formas técnicas.

10. HUNTINGTON, Samuel. O Choque de Civilizações.

Comentário:
Huntington fornece a categoria de civilização como unidade histórica e simbólica. Embora secular, sua análise permite compreender o Ocidente como herdeiro de uma matriz cristã que ainda molda suas estruturas estratégicas.

11. GIRARD, René. A Violência e o Sagrado.

Comentário:
Girard demonstra que a violência sempre teve uma dimensão ritual e simbólica. Sua teoria ajuda a interpretar a guerra moderna não apenas como conflito técnico, mas como herdeira de estruturas simbólicas arcaicas.

12. DUGUIN, Alain de Benoist. Além dos Direitos Humanos.

Comentário:
Contribui para a crítica da universalização abstrata de valores, reforçando a ideia de que símbolos e identidades não são exportáveis sem enraizamento cultural.

13. JÜNGER, Ernst. Tempestades de Aço.

Comentário:
Relato existencial da guerra como prova espiritual. Embora não teológico, o livro revela como o combate pode assumir função formativa e simbólica — paralela à ética da cavalaria.

14. PIEPER, Josef. Tradição: Conceito e Reclamação.

Comentário:
Pieper mostra que tradição é transmissão viva de sentido, não mera herança formal. Essencial para sustentar a tese de que símbolos não sobrevivem sem continuidade espiritual.

15. SLOTERDIJK, Peter. No Mesmo Barco.

Comentário:
Analisa a ideia de humanidade como comunidade de destino. Pode ser usado para sustentar, em chave filosófica, a noção de missão transnacional orientada por um princípio superior.

Wenezuela: od projektu boliwariańskiego do państwa narkotykowego – ostrzeżenie dla Brazylii

Wprowadzenie

Kryzys wenezuelski nie może być rozumiany jedynie jako porażka gospodarcza lub konsekwencja sankcji międzynarodowych. Upadek kraju jest rezultatem świadomego projektu politycznego, w ramach którego państwo zostało stopniowo przejęte przez strukturę przestępczą łączącą autorytaryzm, korupcję, handel narkotykami i systematyczne represje. Przypadek Wenezueli stanowi zatem historyczny przykład tego, jak ideologia może zostać wykorzystana do legitymizacji instytucjonalnej destrukcji narodu.

Proces ten, wykraczający poza kontekst lokalny, stanowi strategiczne ostrzeżenie dla innych krajów Ameryki Łacińskiej, w szczególności dla Brazylii.

1. Wywłaszczenie jako metoda dominacji

Po umocnieniu władzy Hugo Chávez rozpoczął politykę arbitralnych wywłaszczeń, obejmującą sklepy, budynki mieszkalne, teatry oraz przedsiębiorstwa prywatne. Pod hasłami „historycznego odzysku” i „sprawiedliwości społecznej” rząd konfiskował mienie bez gwarancji prawnych.

Skutki były druzgocące:

  • Ucieczka przedsiębiorców, artystów i wolnych zawodów

  • Zniszczenie sektora produkcyjnego

  • Załamanie gospodarki miejskiej

  • Erozja zaufania instytucjonalnego

Wywłaszczenie przestało być środkiem wyjątkowym i stało się stałym mechanizmem kontroli politycznej.

2. Milczenie intelektualistów i ideologiczna ochrona

Jednym z kluczowych elementów procesu wenezuelskiego było milczenie – lub współudział – środowisk intelektualnych, artystycznych i politycznych związanych z latynoamerykańską lewicą. W imię „suwerenności narodowej” i retoryki antyimperialistycznej relatywizowano:

  • Naruszenia praw człowieka

  • Prześladowania polityczne

  • Kryzys humanitarny

  • Represje instytucjonalne

Wenezuela była przedstawiana jako „alternatywna demokracja”, nawet gdy faktycznie funkcjonowała już jako dyktatura.

3. Kartel Słońc i militaryzacja przestępczości

Najpoważniejszym elementem degradacji Wenezueli było przekształcenie państwa w platformę logistyczną dla handlu narkotykami. Powstał tzw. Kartel Słońc, złożony z wysokich rangą oficerów sił zbrojnych, rozpoznawalnych po insygniach czterech słońc na mundurach.

Kartel ten:

  • Transportował narkotyki samolotami wojskowymi

  • Magazynował kokainę w koszarach

  • Chronił międzynarodowe szlaki przemytu

  • Finansował milicje boliwariańskie

  • Zapewniał lojalność generałów poprzez korupcję

Handel narkotykami przestał być problemem zewnętrznym i stał się polityką państwową.

4. Przejęcie instytucji

Z czasem struktura przestępcza przejęła kontrolę nad:

  • Sądownictwem

  • Siłami zbrojnymi

  • Organami wyborczymi

  • Systemem finansowym

  • Przedsiębiorstwami państwowymi

Wenezuela stała się państwem narkotykowym, w którym legalność istniała jedynie formalnie. Wysocy rangą politycy byli powiązani z międzynarodowym handlem narkotykami, praniem pieniędzy i finansowaniem organizacji zbrojnych.

Suwerenność narodowa została przejęta przez boliwariańską oligarchię.

5. Represje, tortury i terror wewnętrzny

Reżim umocnił swoją władzę poprzez:

  • Aresztowania arbitralne

  • Egzekucje pozasądowe

  • Systematyczne tortury

  • Tajne ośrodki detencji (np. Helicoide)

  • Uzbrojone milicje kontrolujące dzielnice

Społeczeństwo zaczęło żyć pod stałą obserwacją. Sprzeciw polityczny stał się równoznaczny z zagrożeniem fizycznym.

6. Zatajany kryzys humanitarny

Pomimo posiadania największych rezerw ropy naftowej na świecie, Wenezuela doświadcza:

  • Masowego niedożywienia dzieci

  • Załamania systemu energetycznego

  • Braków żywności

  • Masowej emigracji

  • Przemocy endemicznej

Część prasy międzynarodowej skupia się jednak na sporach geopolitycznych i zadłużeniu, ignorując wewnętrzne zbrodnie przeciwko ludzkości.

7. Ryzyko „wenezuelizacji” Brazylii

Kluczowe ostrzeżenie polega na tym, że mechanizmy zastosowane w Wenezueli nie są wyjątkowe:

  • Dyskredytowanie krytycznych mediów

  • Relatywizacja demokracji

  • Ataki na własność prywatną

  • Rozszerzanie władzy państwa

  • Ideologiczne wykorzystywanie ubóstwa

  • Sojusze z reżimami autorytarnymi

Gdy takie praktyki się normalizują, następuje erozja instytucjonalna. Doświadczenie wenezuelskie pokazuje, że degradacja nie następuje nagle, lecz stopniowo i jest uzasadniana dyskursywnie.

Zakończenie

Wenezuela nie upadła przypadkowo. Kraj został krok po kroku doprowadzony do modelu autorytarnego państwa przestępczego, w którym aparat państwowy służy dominacji, represjom i finansowaniu nielegalnej działalności.

Przypadek wenezuelski nie jest jedynie tragedią narodową – to studium geopolityczne. Ignorowanie jego lekcji oznacza dopuszczenie do powtórzenia tego samego procesu w innych społeczeństwach.

Demokracja nie umiera jednorazowo. Jest stopniowo niszczona – często przy ideologicznym aplauzie.

Bibliografia komentowana

COUTINHO, Leonardo. Hugo Chávez: O Espectro.
Dzieło referencyjne na temat chavizmu, analizujące formowanie reżimu boliwariańskiego, jego populistyczną retorykę i mechanizmy koncentracji władzy. Autor pokazuje, jak Chávez wykorzystywał dyskurs społeczny do demontażu instytucji demokratycznych.

CORONEL, Gustavo; SANZ, Juan Carlos. The Collapse of Venezuela.
Studium techniczne dotyczące załamania gospodarczego Wenezueli, wyjaśniające, jak polityka nacjonalizacji, kontroli cen i wywłaszczeń zniszczyła gospodarkę produkcyjną.

HUMAN RIGHTS WATCH. Venezuela’s Humanitarian Emergency.
Szczegółowy raport na temat naruszeń praw człowieka, arbitralnych aresztowań, tortur i represji politycznych. Uzasadnia klasyfikację reżimu jako autorytarnego.

TRANSPARENCY INTERNATIONAL. Corruption Perceptions Index – Venezuela.
Dokumentuje eskalację systemowej korupcji i przejęcie instytucji państwowych przez sieci przestępcze.

DEA / Departament Sprawiedliwości USA – sprawy dotyczące Kartelu Słońc
Raporty sądowe opisujące udział wenezuelskich wojskowych w międzynarodowym handlu narkotykami, w tym wykorzystywanie infrastruktury państwowej do transportu narkotyków.

ONZ – Raporty o Wenezueli (OHCHR)
Dokumenty rejestrujące egzekucje pozasądowe, tortury, arbitralne zatrzymania i represje polityczne.

OLAVO DE CARVALHO – Artykuły o Foro de São Paulo
Teksty kontekstualizujące ideologiczną koordynację w Ameryce Łacińskiej oraz dyskursywną ochronę reżimów autorytarnych pod sztandarem lewicy.

Venezuela: do projeto bolivariano ao narco-Estado – um alerta ao Brasil

Introdução

A crise venezuelana não pode ser compreendida apenas como um fracasso econômico ou uma consequência de sanções internacionais. O colapso do país resulta de um projeto político deliberado, no qual o Estado foi progressivamente capturado por uma estrutura criminosa que combinou autoritarismo, corrupção, narcotráfico e repressão sistemática. O caso da Venezuela constitui, portanto, um exemplo histórico de como uma ideologia pode ser instrumentalizada para legitimar a destruição institucional de uma nação.

Mais do que um fenômeno local, esse processo serve como alerta estratégico para outros países da América Latina, especialmente o Brasil.

1. A expropriação como método de dominação

Após consolidar seu poder, Hugo Chávez iniciou uma política de expropriações arbitrárias, atingindo comércios, prédios residenciais, teatros e empresas privadas. Sob o discurso de “recuperação histórica” e “justiça social”, o governo passou a confiscar propriedades sem garantias jurídicas.

O efeito foi devastador:

  • Fuga de empresários, artistas e profissionais liberais

  • Destruição do setor produtivo

  • Colapso da economia urbana

  • Erosão da confiança institucional

A expropriação deixou de ser instrumento excepcional e passou a funcionar como mecanismo permanente de controle político.

2. O silêncio dos intelectuais e a blindagem ideológica

Um dos aspectos mais relevantes do processo venezuelano foi o silêncio – ou a conivência – de setores intelectuais, artísticos e políticos identificados com a esquerda latino-americana. Em nome da “soberania nacional” e da retórica anti-imperialista, esses grupos relativizaram:

  • Violações de direitos humanos

  • Perseguições políticas

  • Crise humanitária

  • Repressão institucional

A Venezuela passou a ser tratada como uma “democracia alternativa”, mesmo quando já operava como uma ditadura funcional.

3. O Cartel dos Sóis e a militarização do crime

O elemento mais grave da degradação venezuelana foi a transformação do Estado em plataforma logística do narcotráfico. Surgiu então o chamado Cartel dos Sóis, formado por altos oficiais das Forças Armadas, identificados pelas insígnias de quatro sóis em seus uniformes.

Esse cartel:

  • Transportava drogas em aviões militares

  • Armazenava cocaína em quartéis

  • Protegia rotas internacionais de tráfico

  • Financiava milícias bolivarianas

  • Garantia a fidelidade de generais por meio de corrupção

O narcotráfico deixou de ser um problema externo e passou a ser política de Estado.

4. A captura das instituições

Com o tempo, a estrutura criminosa venezuelana assumiu controle sobre:

  • Judiciário

  • Forças Armadas

  • Órgãos eleitorais

  • Sistema financeiro

  • Empresas estatais

A Venezuela tornou-se um narco-Estado, no qual a legalidade existia apenas formalmente. Figuras do alto escalão político foram associadas a esquemas internacionais de tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e financiamento de organizações armadas.

A soberania nacional foi sequestrada por uma oligarquia bolivariana.

5. Repressão, Tortura e Terror Interno

O regime consolidou seu poder por meio da repressão:

  • Prisões arbitrárias

  • Execuções extrajudiciais

  • Tortura sistemática

  • Centros clandestinos de detenção (como o Helicoide)

  • Milícias armadas controlando bairros

A população passou a viver sob vigilância constante. A dissidência política tornou-se sinônimo de risco físico.

6. A crise humanitária invisibilizada

Apesar de possuir a maior reserva de petróleo do mundo, a Venezuela enfrenta:

  • Desnutrição infantil maciça

  • Colapso energético

  • Escassez de alimentos

  • Migração em massa

  • Violência endêmica

Enquanto isso, parte da imprensa internacional prefere enfatizar disputas geopolíticas e dívidas externas, ignorando os crimes contra a humanidade cometidos internamente.

7. O risco da “Venezuelização” do Brasil

O ponto central do alerta é que os mecanismos utilizados na Venezuela não são exclusivos daquele país:

  • Deslegitimação da imprensa crítica

  • Relativização da democracia

  • Ataques à propriedade privada

  • Expansão do poder estatal

  • Instrumentalização ideológica da pobreza

  • Alianças com regimes autoritários

Quando tais práticas se normalizam, abre-se espaço para a erosão institucional. A experiência venezuelana demonstra que a degradação não acontece de forma abrupta, mas progressiva e discursivamente justificada.

Conclusão

A Venezuela não entrou em colapso por acaso. O país foi conduzido, passo a passo, a um modelo de autoritarismo criminoso, no qual o Estado passou a operar como instrumento de dominação, repressão e financiamento ilícito.

O caso venezuelano não é apenas uma tragédia nacional – é um estudo de caso geopolítico. Ignorar suas lições é permitir que o mesmo processo se repita em outras sociedades.

A democracia não morre de uma vez. Ela é corroída lentamente, sob aplausos ideológicos.

Bibliografia Comentada

COUTINHO, Leonardo. Hugo Chávez: O Espectro.
Obra de referência sobre o chavismo, analisa a formação do regime bolivariano, sua retórica populista e os mecanismos de concentração de poder. O autor demonstra como Chávez utilizou o discurso social para desmantelar instituições democráticas.

CORONEL, Gustavo; SANZ, Juan Carlos. The Collapse of Venezuela.
Estudo técnico sobre o colapso econômico venezuelano, explicando como políticas de estatização, controles de preço e expropriações destruíram a economia produtiva.

HUMAN RIGHTS WATCH. Venezuela’s Humanitarian Emergency.
Relatório detalhado sobre violações de direitos humanos, prisões arbitrárias, tortura e repressão política. Fundamenta a caracterização do regime como autoritário.

TRANSPARENCY INTERNATIONAL. Corruption Perceptions Index – Venezuela.
Documenta a escalada da corrupção sistêmica e a captura das instituições estatais por redes ilícitas.

DEA / Departamento de Justiça dos EUA – Casos sobre o Cartel dos Sóis
Relatórios judiciais que descrevem a participação de militares venezuelanos no narcotráfico internacional, incluindo uso de infraestrutura estatal para transporte de drogas.

ONU – Relatórios sobre a Venezuela (ACNUDH)
Documentos que registram execuções extrajudiciais, tortura, detenções arbitrárias e repressão política.

OLAVO DE CARVALHO – Artigos sobre o Foro de São Paulo
Textos que contextualizam a articulação ideológica latino-americana e a proteção discursiva a regimes autoritários sob a bandeira da esquerda.

Top Gun e o espírito da fronteira: heroísmo, Guerra Fria e a continuidade do mito americano

Introdução

O filme Top Gun (1986), dirigido por Tony Scott, costuma ser lembrado como um ícone da cultura pop dos anos 1980: caças supersônicos, rivalidades masculinas, trilha sonora marcante e um protagonista carismático. No entanto, reduzir a obra a mero entretenimento é ignorar seu papel como artefato cultural inserido em um contexto político, histórico e simbólico muito específico.

Dentro do imaginário americano da Guerra Fria, Top Gun deve ser interpretado como uma atualização do espírito da fronteira — aquele mesmo que, no século XIX, moldou a identidade nacional por meio da expansão territorial, da aventura, da disciplina e do heroísmo. Quando a fronteira física se esgota, a cultura americana não abandona esse mito; ela o desloca para novas arenas: o ar, o mar e a geopolítica global.

1. O mito da fronteira e a formação do caráter americano

O historiador Frederick Jackson Turner formulou, no final do século XIX, a tese de que a fronteira foi o principal elemento formador da identidade americana. A experiência de avançar sobre territórios hostis teria produzido um tipo humano específico:

  • Autônomo

  • Disciplinado

  • Técnico

  • Vocacionado para o risco

  • Convicto de sua missão civilizacional

A fronteira não era apenas geográfica; era moral e espiritual. O americano se via como alguém chamado a levar sua ordem, seus valores e sua visão de mundo para além de seus limites originais.

Quando o território continental se completa, o mito não desaparece. Ele é reconfigurado.

2. A Guerra Fria como nova fronteira

No século XX, a expansão territorial cede lugar à expansão ideológica. A Guerra Fria transforma o mundo inteiro em campo de disputa simbólica, política e militar.

A fronteira agora é:

  • O espaço aéreo

  • Os oceanos

  • As zonas de influência

  • A contenção do comunismo

Nesse contexto, o soldado, o piloto e o agente militar assumem o papel simbólico do antigo pioneiro. Eles operam em “terras distantes”, não mais para colonizar fisicamente, mas para defender valores considerados universais: liberdade, ordem, excelência técnica e supremacia estratégica.

Top Gun nasce exatamente nesse horizonte.

3. O piloto como herói de fronteira moderno

O protagonista Maverick não é apenas um aviador habilidoso. Ele encarna um arquétipo:

  • Jovem

  • Talentoso

  • Indisciplinado, mas moldável

  • Provado pelo risco

  • Forjado pela hierarquia

O treinamento em Top Gun funciona como um rito de passagem. Assim como o pioneiro precisava sobreviver ao deserto, ao frio e ao isolamento, o piloto precisa enfrentar:

  • A pressão psicológica

  • A disciplina militar

  • A morte de companheiros

  • O domínio técnico absoluto

A excelência aérea substitui a conquista territorial. O céu torna-se a nova fronteira.

4. Contenção do comunismo como missão civilizacional

Durante a Guerra Fria, a política externa americana era apresentada não apenas como estratégia, mas como missão moral. A contenção do comunismo não era vendida como disputa de poder, mas como defesa da liberdade.

Em Top Gun, o inimigo é propositalmente difuso:

  • Sem identidade clara

  • Sem ideologia explicitada

  • Sem rosto político definido

Isso é significativo. O foco não está no adversário, mas na missão, no heroísmo e na formação do caráter. O filme trabalha com pressupostos culturais já internalizados pelo público:
os Estados Unidos lutam pelo “mundo livre”.

5. Disciplina, hierarquia e formação moral

O heroísmo em Top Gun não é anárquico. Ele é:

  • Disciplinado

  • Hierárquico

  • Técnico

  • Submetido à ordem

O protagonista precisa aprender que talento sem disciplina é insuficiente. A verdadeira virtude surge quando o indivíduo subordina seu impulso à missão coletiva.

Esse é um ponto central da cultura militar americana e também da ética do mito da fronteira:
a liberdade só se sustenta com responsabilidade.

6. O cinema como instrumento cultural

O cinema americano da Guerra Fria funcionou como uma ferramenta de formação simbólica. Não se trata de propaganda direta, mas de pedagogia cultural:

  • Construção de heróis

  • Normalização da presença militar global

  • Valorização da excelência técnica

  • Legitimação simbólica do poder aéreo

Top Gun reforça a ideia de que servir em terras distantes não é alienação, mas continuidade de uma vocação histórica.

7. O chamado à aventura

A aventura, no filme, não é fuga da realidade. Ela é um mecanismo de mobilização moral. O risco, a velocidade e o desafio funcionam como meios de:

  • Forjar caráter

  • Canalizar impulsos juvenis

  • Integrar o indivíduo à ordem nacional

A aventura é disciplinada, institucional e orientada por missão — não rebelde.

Conclusão

Top Gun não é apenas um filme sobre aviões. Ele é um mito moderno de formação do herói americano, herdeiro direto do espírito da fronteira.

Ao deslocar a aventura para o espaço aéreo e a missão para o cenário global da Guerra Fria, o filme preserva os pilares centrais da identidade americana:

  • Heroísmo

  • Disciplina

  • Excelência técnica

  • Missão civilizacional

  • Serviço em terras distantes

Dentro de seu contexto histórico, Top Gun funciona como um chamado simbólico ao heroísmo, à aventura e à continuidade de uma tradição que moldou gerações de americanos — agora não mais nas planícies do Oeste, mas nos céus do mundo.

Bibliografia Comentada

TURNER, Frederick Jackson. The Frontier in American History. New York: Henry Holt, 1920.

Obra fundamental para compreender o mito da fronteira como elemento formador da identidade americana. Turner sustenta que a experiência de expansão territorial moldou o caráter nacional, enfatizando valores como autonomia, disciplina, pragmatismo e vocação para o risco. Sua tese fornece o arcabouço teórico para interpretar Top Gun como uma transposição simbólica da fronteira do século XIX para o cenário geopolítico da Guerra Fria.

SLOTKIN, Richard. Gunfighter Nation: The Myth of the Frontier in Twentieth-Century America. Norman: University of Oklahoma Press, 1998.

Slotkin analisa como o mito da fronteira foi reciclado ao longo do século XX, especialmente por meio do cinema, da literatura e da cultura popular. O autor demonstra como narrativas heroicas continuam a legitimar a violência, o expansionismo e a missão civilizacional americana. A obra é essencial para entender Top Gun como parte de uma tradição mitológica moderna, voltada à formação simbólica da identidade nacional.

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Hobsbawm oferece um panorama histórico da Guerra Fria como conflito ideológico global. Seu trabalho ajuda a situar Top Gun dentro da lógica da contenção do comunismo, mostrando como o confronto não era apenas militar, mas também cultural e simbólico. O livro fornece o contexto macro-histórico necessário para compreender o papel do cinema na legitimação do poder ocidental.

LIPPMANN, Walter. U.S. Foreign Policy: Shield of the Republic. Boston: Little, Brown, 1943.

Lippmann formula a ideia da política externa americana como instrumento de defesa da ordem liberal. Embora anterior a Top Gun, seu pensamento influencia diretamente a mentalidade estratégica da Guerra Fria. A noção de “escudo da república” ajuda a interpretar o serviço militar em terras distantes como missão civilizacional, e não apenas como interesse geopolítico.

DER DERIAN, James. Virtuous War: Mapping the Military-Industrial-Media-Entertainment Network. Boulder: Westview Press, 2001.

O autor analisa a interconexão entre indústria militar, mídia e entretenimento. Demonstra como filmes de guerra e ação funcionam como dispositivos culturais de normalização da presença militar global. Top Gun aparece como exemplo paradigmático de como o cinema transforma tecnologia bélica em espetáculo heroico e pedagogia moral.

CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 2007.

Campbell oferece a estrutura mitológica do “monomito”, ou jornada do herói. Maverick pode ser interpretado dentro desse esquema: chamado à aventura, provas, crise, transformação e reintegração. A obra ajuda a compreender Top Gun como narrativa arquetípica de formação moral, e não apenas como filme de ação.

SCOTT, Tony (Dir.). Top Gun. Paramount Pictures, 1986.

Fonte primária da análise. O filme sintetiza visualmente o imaginário da Guerra Fria, combinando heroísmo, disciplina, tecnologia e aventura. Sua estética, narrativa e construção de personagens refletem a transposição do mito da fronteira para o contexto aéreo e geopolítico do final do século XX.

KAPLAN, Robert D. Warrior Politics: Why Leadership Demands a Pagan Ethos. New York: Random House, 2001.

Kaplan discute a ética do guerreiro como elemento permanente da política internacional. Sua análise ajuda a compreender por que a figura do piloto militar é retratada como herói moral, não apenas como agente técnico. O livro contribui para a leitura de Top Gun como narrativa de formação do caráter através do risco e da hierarquia.

OLAVO DE CARVALHO. O Jardim das Aflições. Campinas: Vide Editorial, 1995.

Embora não trate diretamente da Guerra Fria, a obra oferece uma crítica à modernidade, ao imaginário revolucionário e à dissolução simbólica da ordem espiritual. Pode ser utilizada como contraponto filosófico à visão de missão civilizacional americana, especialmente para leitores interessados em avaliar os limites morais desse imaginário.

Sucessão Empresarial e Geopolítica da Conectividade: da infraestrutura da Sendas à rede global da Amazon

Introdução

A sucessão empresarial não deve ser compreendida apenas como um fenômeno jurídico de transferência de ativos ou encerramento de pessoas jurídicas. Em termos econômicos e geopolíticos, ela representa a continuidade funcional de infraestruturas, rotas, territórios e cadeias logísticas que permanecem operantes mesmo após a extinção formal de uma empresa. O caso da substituição da infraestrutura da Sendas pela Amazon ilustra, de maneira exemplar, como a herança empresarial pode ser reinterpretada dentro do paradigma contemporâneo da geopolítica da conectividade.

Nesse novo regime, o poder econômico e estratégico não se baseia apenas na posse de territórios ou recursos naturais, mas no controle de fluxos — de mercadorias, dados, serviços e acessos. A sucessão da Sendas pela Amazon revela uma transição civilizacional: da economia industrial-nacional para a economia logística-informacional de alcance global.

1. Sucessão empresarial como continuidade funcional

No plano jurídico, a empresa pode deixar de existir com a dissolução da pessoa jurídica. No plano econômico, porém, suas funções raramente desaparecem. Cadeias de suprimento, centros de distribuição, rotas logísticas, contratos implícitos e relações territoriais tendem a ser absorvidos por novos agentes.

A Sendas, enquanto grupo varejista tradicional, estruturou ao longo de décadas:

  • Infraestrutura logística regional

  • Centros de armazenagem

  • Capilaridade urbana

  • Integração com fornecedores

  • Presença territorial estratégica no Sudeste brasileiro

Com sua perda de protagonismo, essas funções não se extinguiram. Foram reaproveitadas por empresas inseridas em um novo paradigma operacional. A Amazon, ao ocupar antigas áreas logísticas e aproveitar a malha já consolidada, não herdou juridicamente a Sendas, mas herdou sua funcionalidade econômica e territorial.

Trata-se de uma sucessão de infraestrutura, não apenas de ativos.

2. Da logística industrial à logística informacional

A Sendas operava segundo a lógica clássica do varejo industrial:

Produção → Armazenagem → Loja física → Consumo local

Já a Amazon opera sob um modelo distinto:

Plataforma digital → Dados → Logística integrada → Distribuição sob demanda

Nesse modelo, o território deixa de ser apenas um espaço de venda e passa a ser um nó logístico dentro de uma rede global. O consumidor não é mais apenas um comprador local, mas um terminal conectado a um sistema planetário de circulação de mercadorias e informações.

A infraestrutura herdada da Sendas, originalmente voltada ao abastecimento regional, passa a servir a uma rede transnacional de conectividade. O mesmo galpão que antes sustentava um varejo físico agora integra uma arquitetura logística global.

3. Geopolítica da conectividade

A geopolítica clássica concentrava-se em:

  • Fronteiras territoriais

  • Rotas marítimas

  • Força militar

  • Controle de recursos naturais

A geopolítica da conectividade, por sua vez, concentra-se em:

  • Infraestrutura logística

  • Plataformas digitais

  • Centros de dados

  • Cadeias globais de suprimento

  • Controle de fluxos informacionais

Empresas como a Amazon tornam-se atores geopolíticos não estatais, capazes de:

  • Redefinir fluxos comerciais

  • Reorganizar economias regionais

  • Condicionar padrões de consumo

  • Influenciar políticas públicas

  • Controlar canais de acesso a bens

Ao ocupar a antiga infraestrutura da Sendas, a Amazon não apenas amplia sua presença no Brasil, mas integra o território nacional à sua rede logística global, reforçando sua posição como potência conectiva.

4. O território como herança estratégica

A infraestrutura da Sendas não era composta apenas por galpões e caminhões. Ela representava:

  • Localização privilegiada

  • Acesso a eixos rodoviários

  • Proximidade de grandes centros consumidores

  • Integração com cadeias regionais

Ao se instalar nesses espaços, a Amazon:

  • Reduz custos de entrada

  • Acelera sua expansão

  • Consolida presença territorial

  • Otimiza sua malha logística

  • Reconfigura o uso econômico do território

Isso caracteriza uma forma contemporânea de poder: o controle da conectividade. Quem controla os fluxos controla o mercado, a circulação e, indiretamente, o comportamento social.

5. Sucessão empresarial como transição civilizacional

A sucessão da Sendas pela Amazon simboliza uma mudança de paradigma:

Economia IndustrialEconomia de Plataformas
Varejo físicoPlataforma digital
Mercado nacionalRede global
Logística regionalLogística planetária
Infraestrutura localInfraestrutura conectiva
Capital produtivoCapital informacional

Não se trata apenas de uma troca de empresas, mas de uma transformação estrutural na forma como o poder econômico é exercido.

A infraestrutura permanece, mas sua função muda. O território permanece, mas seu significado estratégico se amplia. A logística deixa de ser apenas operacional e passa a ser geopolítica.

6. Implicações para o Brasil

A integração da infraestrutura nacional à rede da Amazon:

  • Internacionaliza o mercado interno

  • Subordina fluxos locais a decisões globais

  • Aumenta a dependência logística

  • Redefine padrões de consumo

  • Insere o país na economia da conectividade

Esse processo não é neutro. Ele reorganiza o espaço econômico brasileiro dentro de uma hierarquia global de fluxos, na qual plataformas digitais exercem funções antes reservadas aos Estados.

Conclusão

A sucessão empresarial observada no caso Sendas–Amazon não é apenas um fenômeno econômico ou jurídico, mas um evento geopolítico. A infraestrutura herdada deixa de servir a uma economia industrial nacional e passa a integrar uma rede global de conectividade.

Nesse novo regime, o poder não se mede apenas pela posse de territórios, mas pelo controle dos fluxos que atravessam esses territórios. A sucessão empresarial torna-se, assim, um instrumento de reorganização geopolítica da circulação, da produção e do consumo.

A antiga Sendas estruturou o território. A Amazon o conecta ao mundo.

Bibliografia Comentada

CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede.
Obra fundamental para compreender a transição do capitalismo industrial para o capitalismo informacional. Castells demonstra como as redes de informação, logística e comunicação se tornam a principal infraestrutura do poder contemporâneo. A análise sustenta a ideia de que empresas como a Amazon atuam como nós estratégicos de uma geopolítica da conectividade.

COHEN, Saul Bernard. Geopolitics: The Geography of International Relations.
Cohen amplia o conceito clássico de geopolítica ao incorporar infraestrutura, fluxos econômicos e conectividade como elementos centrais do poder. A obra fornece base teórica para entender como redes logísticas substituem, em parte, o controle territorial tradicional.

HARVEY, David. The Condition of Postmodernity.
Harvey analisa a compressão espaço-tempo promovida pela logística global, pelas tecnologias de transporte e pela financeirização. Sua abordagem ajuda a explicar como infraestruturas herdadas por empresas globais passam a integrar cadeias transnacionais de circulação.

GRAHAM, Stephen; MARVIN, Simon. Splintering Urbanism.
Os autores mostram como a infraestrutura urbana é reconfigurada por redes globais, criando territórios conectados a sistemas transnacionais. O caso Sendas–Amazon ilustra esse fenômeno de reorientação funcional do espaço urbano-logístico.

PARAG KHANNA. Connectography.
Khanna defende que o mundo contemporâneo é estruturado mais por redes de conectividade do que por fronteiras políticas. A obra fundamenta a noção de que empresas logísticas globais exercem poder geopolítico ao controlar fluxos.

BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo.
Braudel demonstra como as infraestruturas econômicas moldam a longa duração histórica. Seu enfoque ajuda a interpretar a sucessão empresarial como continuidade estrutural de funções econômicas, ainda que os agentes mudem.

PORTER, Michael. Competitive Advantage.
Porter fornece o arcabouço para compreender como ativos logísticos, localização e cadeias de valor constituem vantagens estratégicas. A absorção da infraestrutura da Sendas pela Amazon pode ser lida como uma estratégia de redução de custos e ganho territorial.

ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism.
Embora focada no uso de dados, Zuboff mostra como plataformas digitais integram logística, informação e comportamento. Isso reforça a ideia de que a infraestrutura física agora serve a um sistema informacional de controle de fluxos.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço.
Santos oferece uma leitura crítica do espaço como construção técnica, informacional e econômica. Sua obra permite compreender o território não apenas como solo físico, mas como infraestrutura funcional sujeita à reconfiguração por agentes globais.

RIBEIRO, Luiz César de Queiroz. Metropolização, fragmentação e desigualdade.
Analisa como grandes corporações reconfiguram o espaço urbano e regional no Brasil. Ajuda a contextualizar os impactos territoriais da entrada de plataformas globais no mercado nacional.