Introdução
Na política contemporânea, a propaganda eleitoral costuma ser tratada como um instrumento de persuasão. No entanto, há uma diferença essencial entre propaganda como expressão da identidade e propaganda como substituto da identidade. Essa distinção é decisiva para compreender por que determinados modelos de comunicação política funcionam na Polônia, mas se mostram artificiais, vazios ou ineficazes no Brasil.
O caso de Grzegorz Braun e da Konfederacja ilustra um tipo de propaganda que não cria uma imagem fictícia do candidato, mas manifesta aquilo que ele já é. Em contraste, o “santinho” brasileiro frequentemente constrói uma persona que não corresponde à substância moral, intelectual ou histórica do representado.
1. Propaganda como manifestação da identidade
Na cultura política polonesa — especialmente em seus setores católicos, conservadores e nacionalistas — a propaganda não é concebida como espetáculo, mas como declaração de posição. O material eleitoral tende a ser:
-
Direto
-
Ideológico
-
Confessional
-
Enraizado em valores históricos
-
Coerente com a trajetória do candidato
Grzegorz Braun não precisa “parecer” algo que não é. Sua imagem pública, seu discurso, sua postura religiosa e sua atuação política convergem. O material de campanha, portanto, não promete um produto: ele o define.
A propaganda, nesse contexto, não é cosmética. É ontológica. Ela expressa o ser político do candidato.
2. O santinho brasileiro como simulação
No Brasil, o “santinho” tornou-se um artefato de marketing. Sua função principal não é expressar identidade, mas fabricá-la. O eleitor raramente encontra nele:
-
Coerência entre discurso e prática
-
Clareza ideológica
-
Fundamento moral
-
Identidade civilizacional
Em vez disso, predominam:
-
Slogans genéricos
-
Promessas vazias
-
Imagens artificiais
-
Linguagem emocional sem conteúdo
O resultado é uma propaganda leve, superficial, sem densidade simbólica ou substância política comparável à maizena: branca, neutra, sem identidade própria. Aqui, a propaganda substitui o produto.
3. Cultura polonesa: forma e substância
A Polônia possui uma tradição histórica marcada por:
-
Catolicismo militante
-
Resistência cultural
-
Memória do martírio nacional
-
Rejeição ao relativismo
-
Desconfiança do liberalismo cultural
Nesse contexto, a política não é vista como mero jogo institucional, mas como expressão de uma missão civilizacional. A propaganda precisa refletir essa gravidade.
Por isso, um santinho polonês que:
-
Invoca Deus
-
Afirma valores
-
Defende a pátria
-
Combate ideologias
não é considerado “radical”, mas adequado.
A propaganda casa com a cultura.
4. República, legitimidade e tradição
Na Polônia, tanto o comunismo quanto a república liberal pós-1989 foram percebidos, por amplos setores da população, como estruturas impostas, não como expressões orgânicas da cultura nacional.
A legitimidade, para o polonês católico, não nasce do procedimento eleitoral, mas da conformidade com:
-
A fé
-
A tradição
-
A história
-
A identidade nacional
Logo, a propaganda política precisa refletir esses pilares. Um material neutro, tecnocrático ou ideologicamente diluído seria percebido como estranho à alma polonesa.
5. Por que o modelo brasileiro não funciona na Polônia
O santinho brasileiro clássico:
-
Evita conflitos ideológicos
-
Dilui valores
-
Prioriza marketing
-
Apela à emoção sem conteúdo
Na Polônia, isso seria interpretado como:
-
Falta de convicção
-
Oportunismo
-
Fraqueza moral
-
Artificialidade
A cultura polonesa exige densidade simbólica, não neutralidade.
6. Propaganda cristocêntrica como expressão civilizacional
Quando a propaganda assume explicitamente uma base cristã — como no caso de Braun — ela não está “misturando religião e política”, mas expressando a própria identidade histórica da nação.
Cristo não é um ornamento retórico. É o eixo civilizacional.
Nesse sentido, a propaganda cristocêntrica não persuade: revela.
Conclusão
A propaganda política pode cumprir duas funções:
-
Expressar a identidade real do candidato
-
Simular uma identidade inexistente
Na Polônia, o primeiro modelo é culturalmente legítimo. No Brasil, predomina o segundo.
Por isso, o material polonês parece sólido, denso, coerente. E o brasileiro, muitas vezes, parece vazio, leve e artificial.
Onde há forma e substância, há credibilidade. Onde há forma sem substância, há apenas encenação.
Nenhum comentário:
Postar um comentário