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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Quando a propaganda define o produto - por que o modelo polonês de comunicação política é incompatível com o Brasil? E por que funciona na Polônia?

Introdução

Na política contemporânea, a propaganda eleitoral costuma ser tratada como um instrumento de persuasão. No entanto, há uma diferença essencial entre propaganda como expressão da identidade e propaganda como substituto da identidade. Essa distinção é decisiva para compreender por que determinados modelos de comunicação política funcionam na Polônia, mas se mostram artificiais, vazios ou ineficazes no Brasil.

O caso de Grzegorz Braun e da Konfederacja ilustra um tipo de propaganda que não cria uma imagem fictícia do candidato, mas manifesta aquilo que ele já é. Em contraste, o “santinho” brasileiro frequentemente constrói uma persona que não corresponde à substância moral, intelectual ou histórica do representado.

1. Propaganda como manifestação da identidade

Na cultura política polonesa — especialmente em seus setores católicos, conservadores e nacionalistas — a propaganda não é concebida como espetáculo, mas como declaração de posição. O material eleitoral tende a ser:

  • Direto

  • Ideológico

  • Confessional

  • Enraizado em valores históricos

  • Coerente com a trajetória do candidato

Grzegorz Braun não precisa “parecer” algo que não é. Sua imagem pública, seu discurso, sua postura religiosa e sua atuação política convergem. O material de campanha, portanto, não promete um produto: ele o define.

A propaganda, nesse contexto, não é cosmética. É ontológica. Ela expressa o ser político do candidato.

2. O santinho brasileiro como simulação

No Brasil, o “santinho” tornou-se um artefato de marketing. Sua função principal não é expressar identidade, mas fabricá-la. O eleitor raramente encontra nele:

  • Coerência entre discurso e prática

  • Clareza ideológica

  • Fundamento moral

  • Identidade civilizacional

Em vez disso, predominam:

  • Slogans genéricos

  • Promessas vazias

  • Imagens artificiais

  • Linguagem emocional sem conteúdo

O resultado é uma propaganda leve, superficial, sem densidade simbólica ou substância política comparável à maizena: branca, neutra, sem identidade própria. Aqui, a propaganda substitui o produto.

3. Cultura polonesa: forma e substância

A Polônia possui uma tradição histórica marcada por:

  • Catolicismo militante

  • Resistência cultural

  • Memória do martírio nacional

  • Rejeição ao relativismo

  • Desconfiança do liberalismo cultural

Nesse contexto, a política não é vista como mero jogo institucional, mas como expressão de uma missão civilizacional. A propaganda precisa refletir essa gravidade.

Por isso, um santinho polonês que:

  • Invoca Deus

  • Afirma valores

  • Defende a pátria

  • Combate ideologias

não é considerado “radical”, mas adequado.

A propaganda casa com a cultura.

4. República, legitimidade e tradição

Na Polônia, tanto o comunismo quanto a república liberal pós-1989 foram percebidos, por amplos setores da população, como estruturas impostas, não como expressões orgânicas da cultura nacional.

A legitimidade, para o polonês católico, não nasce do procedimento eleitoral, mas da conformidade com:

  • A fé

  • A tradição

  • A história

  • A identidade nacional

Logo, a propaganda política precisa refletir esses pilares. Um material neutro, tecnocrático ou ideologicamente diluído seria percebido como estranho à alma polonesa.

5. Por que o modelo brasileiro não funciona na Polônia

O santinho brasileiro clássico:

  • Evita conflitos ideológicos

  • Dilui valores

  • Prioriza marketing

  • Apela à emoção sem conteúdo

Na Polônia, isso seria interpretado como:

  • Falta de convicção

  • Oportunismo

  • Fraqueza moral

  • Artificialidade

A cultura polonesa exige densidade simbólica, não neutralidade.

6. Propaganda cristocêntrica como expressão civilizacional

Quando a propaganda assume explicitamente uma base cristã — como no caso de Braun — ela não está “misturando religião e política”, mas expressando a própria identidade histórica da nação.

Cristo não é um ornamento retórico. É o eixo civilizacional.

Nesse sentido, a propaganda cristocêntrica não persuade: revela.

Conclusão

A propaganda política pode cumprir duas funções:

  1. Expressar a identidade real do candidato

  2. Simular uma identidade inexistente

Na Polônia, o primeiro modelo é culturalmente legítimo. No Brasil, predomina o segundo.

Por isso, o material polonês parece sólido, denso, coerente. E o brasileiro, muitas vezes, parece vazio, leve e artificial.

Onde há forma e substância, há credibilidade. Onde há forma sem substância, há apenas encenação.

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