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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A tomada de Caiena em 1809: guerra preventiva, ofensiva estratégica e defesa da Amazônia no contexto da Guerra Peninsular

Introdução

A tomada de Caiena, capital da Guiana Francesa, pelas forças luso-brasileiras em janeiro de 1809, costuma ser tratada de forma marginal na historiografia escolar brasileira. Quando mencionada, aparece como um episódio curioso, quase episódico, sem maior relevância estrutural. No entanto, uma análise geopolítica, militar e histórica mais rigorosa revela que essa operação foi parte integrante de um conflito de escala mundial: as Guerras Napoleônicas, mais especificamente a Guerra Peninsular.

Além disso, a campanha não foi apenas uma reação circunstancial, mas uma guerra preventiva, planejada com objetivos estratégicos defensivos, executada por meio de uma ofensiva militar e conduzida com táticas adaptadas ao ambiente amazônico. A melhor defesa da fronteira norte do Brasil, naquele contexto, foi o ataque direto ao principal enclave francês na região.

1. A Guerra Peninsular como parte de um conflito mundial

A Guerra Peninsular (1807–1814) não foi um conflito isolado da Península Ibérica. Ela integrou o sistema global das Guerras Napoleônicas, que mobilizou impérios, frotas, exércitos e colônias em diversos continentes.

O conflito envolveu:

  • A Europa Ocidental e Central

  • O Atlântico

  • As colônias americanas

  • As rotas africanas

  • Os interesses comerciais globais

Nesse sentido, trata-se de uma guerra mundial avant la lettre, caracterizada pela multiplicidade de teatros de operações, pela participação de impérios globais e pela disputa por rotas estratégicas e territórios coloniais.

A invasão de Portugal pelas tropas de Junot, em 1807, e a consequente transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro deslocaram o centro decisório do Império para a América. O Brasil deixou de ser periferia e tornou-se capital imperial. A partir desse novo eixo de poder, o conflito contra a França passou a ser conduzido também a partir do Atlântico Sul.

2. A Guiana Francesa como alvo estratégico

A Guiana Francesa representava, no início do século XIX, um ponto de vulnerabilidade francesa e, ao mesmo tempo, uma ameaça potencial à soberania luso-brasileira na Amazônia.

Do ponto de vista geopolítico:

  • A França reivindicava áreas ao sul do Oiapoque;

  • Havia disputas históricas sobre a fronteira;

  • A colônia estava isolada pelo bloqueio britânico;

  • Sua defesa dependia de comunicações frágeis com a metrópole.

Além disso, a presença francesa próxima à foz do Amazonas colocava em risco a integridade territorial da região mais estratégica do Brasil: a Amazônia.

Neutralizar esse enclave significava:

  • Eliminar uma base inimiga;

  • Garantir a fronteira setentrional;

  • Impedir futura projeção napoleônica na região.

3. A lógica da guerra preventiva

A campanha de Caiena não foi reativa. Ela foi antecipatória.

Portugal já havia sido invadido na Europa. O sistema napoleônico operava de forma global. A ameaça não era hipotética, mas concreta. Nesse contexto, a lógica estratégica adotada pelo governo luso-brasileiro seguiu um princípio clássico:

Neutralizar o inimigo onde ele é fraco, antes que ele ataque onde somos vulneráveis.

Essa é a essência da guerra preventiva: não esperar o ataque, mas eliminar a capacidade ofensiva do adversário em regiões sensíveis.

Assim, a ofensiva contra a Guiana Francesa tinha um objetivo defensivo de longo prazo: a segurança da Amazônia.

4. Defesa estratégica e ofensiva operacional

Do ponto de vista teórico, é fundamental distinguir os níveis da guerra:

  • Estratégico: defensivo

  • Operacional: ofensivo

  • Tático: adaptativo / irregular

O objetivo estratégico era proteger o território brasileiro.
O meio operacional foi a invasão de Caiena.
A execução tática utilizou manobras indiretas, surpresa e exploração do terreno.

Não há contradição nisso. Na história militar, a defesa estratégica frequentemente exige ofensivas operacionais. Impérios como Roma, Grã-Bretanha e mesmo os Estados modernos sempre adotaram essa lógica.

5. A guerra no ambiente amazônico

A Guiana Francesa era uma fortaleza natural:

  • Manguezais extensos

  • Rios estreitos e defensáveis

  • Clima insalubre

  • Fortificações à moda europeia

Os franceses estavam preparados para:

  • Defesa costeira formal

  • Combate de artilharia

  • Guerra convencional

Não estavam preparados para:

  • Ataques pela selva

  • Marchas em manguezais

  • Desembarques anfíbios indiretos

  • Ataques noturnos pela retaguarda

As forças luso-brasileiras, por sua vez, dispunham de:

  • Tropas adaptadas ao clima

  • Conhecimento fluvial

  • Apoio naval britânico

  • Experiência em terrenos tropicais

O sucesso da campanha deveu-se à capacidade de transformar o terreno em aliado.

6. Tática de aproximação indireta e guerra irregular

A tomada dos fortes que protegiam Caiena não ocorreu por ataques frontais clássicos. As forças invasoras:

  • Evitaram as baterias principais

  • Desembarcaram em manguezais considerados intransponíveis

  • Marcharam pela selva

  • Atacaram pela retaguarda

Esse tipo de operação se enquadra no que hoje se chamaria de:

  • Manobra assimétrica

  • Exploração do terreno

  • Guerra irregular tática

Não se trata de “guerrilha” no sentido ideológico moderno, mas de uso inteligente da mobilidade, surpresa e ambiente operacional.

A superioridade francesa em engenharia e artilharia foi neutralizada por uma superioridade luso-brasileira em adaptação ao terreno.

7. A conquista e a ocupação

Em janeiro de 1809, Caiena foi conquistada. A Guiana Francesa permaneceu sob administração luso-brasileira por quase oito anos.

Durante a ocupação:

  • Fortificações foram mantidas

  • A fronteira foi efetivamente controlada

  • A região foi mapeada

  • A presença brasileira tornou-se fato consumado

Essa ocupação teve um efeito diplomático decisivo. No Congresso de Viena, a França foi obrigada a reconhecer o rio Oiapoque como fronteira definitiva.

Sem a campanha militar, o atual Amapá poderia ter se tornado território francês.

8. Impactos econômicos e científicos

A ocupação também teve efeitos econômicos relevantes. O saque sistemático do jardim botânico francês permitiu a transferência de:

  • Cravo-da-índia

  • Noz-moscada

  • Outras especiarias estratégicas

Isso quebrou monopólios coloniais e diversificou a agricultura brasileira. Há ainda a hipótese da introdução da chamada “cana cayena”, que teria impulsionado a produção açucareira.

Portanto, não se tratou apenas de conquista territorial, mas de apropriação de capital agrícola e científico.

9. Formação militar e independência

A campanha de Caiena funcionou como:

  • Escola de guerra tropical

  • Laboratório logístico

  • Formação de quadros experientes

Muitos dos oficiais que participaram da invasão da Guiana atuaram posteriormente nas guerras de independência, especialmente na Amazônia e no Nordeste.

A independência do Brasil não foi apenas um ato jurídico. Ela foi sustentada por uma base militar forjada em conflitos anteriores.

10. O nascimento da doutrina anfíbia brasileira

Para a Marinha do Brasil, Caiena representa o batismo de fogo dos fuzileiros navais.

Foi ali que se consolidou a doutrina de:

  • Projeção de poder além da costa

  • Desembarques anfíbios

  • Operações combinadas terra-mar

A experiência adquirida em 1809 permanece como referência institucional até hoje.

Conclusão

A tomada de Caiena foi:

  • Parte de um conflito mundial

  • Uma guerra preventiva

  • Uma ofensiva estratégica defensiva

  • Uma operação adaptada ao ambiente amazônico

  • Um marco na formação militar brasileira

Ela garantiu a integridade territorial da Amazônia, fortaleceu a capacidade militar do Brasil e demonstrou que o país, ainda no início do século XIX, já operava segundo lógicas imperiais de projeção de poder.

A história do Brasil não é apenas a história de tratados, discursos e diplomacia. É também a história de logística, selva, canoas, baionetas e decisões estratégicas tomadas antes que o inimigo pudesse agir.

A melhor defesa, naquele contexto, foi o ataque.

 Bibliografia Comentada

1. Reis, Arthur Cezar Ferreira

Portugueses e Brasileiros na Guiana Francesa (1809-1817)
Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1969 (e reimpressões posteriores).

Comentário: Obra fundamental sobre a campanha de Caiena e a ocupação luso-brasileira da Guiana Francesa. Analisa o contexto diplomático e militar, as operações logísticas, a composição das forças, os combates, a ocupação e as consequências políticas. É uma das poucas obras em português com foco específico no teatro amazônico das Guerras Napoleônicas

2. Doratioto, Francisco

O Brasil no Mundo: A expansão portuguesa e a construção do Brasil
Companhia das Letras, 2016.

Comentário: Aborda o papel do Brasil no sistema internacional do século XIX, incluindo campanhas militares e disputas territoriais. Dá boa perspectiva sobre como o Brasil emergiu como ator geopolítico ativo no Atlântico Sul e na Amazônia.

3. Maxwell, Kenneth

The Making of Portuguese Democracy
Cambridge University Press, 1995.

Comentário: Embora não seja focado exclusivamente nas colônias, oferece valiosa contextualização política de Portugal no período napoleônico. Permite compreender a estratégia lusitana global e sua repercussão no Brasil.

4. Black, Jeremy

European Warfare, 1660–1815
Routledge, 1999.

Comentário: Aborda as guerras europeias no período — incluindo as Guerras Napoleônicas — com análise das estratégias, das táticas e das dimensões globais. Útil para enquadrar a campanha de Caiena no quadro mais amplo dos conflitos do início do século XIX.

5. Clausewitz, Carl von

Da Guerra (On War)
Princeton University Press, ed. Michael Howard & Peter Paret, 1984 (publicação padrão em inglês).

Comentário: Obra clássica de teoria militar. Importante para fundamentar conceitos como guerra preventiva, ofensiva estratégica e a relação entre objetivos políticos e meios militares. Não trata de Caiena diretamente, mas dá estrutura analítica para interpretar a campanha.

6. Schwarcz, Lilia Moritz; Starling, Heloisa Murgel

Brasil: Uma Biografia
Companhia das Letras, 2015.

Comentário: Introduz a presença do Brasil no conflito global das Guerras Napoleônicas e aborda episódios como a transferência da corte e a campanha de Caiena. Ótimo suporte para leitura geral em português.

7. Kirsch, William L.

Brazil: The Fortunes of Empire, 1530–1870
Cambridge University Press, 2018.

Comentário: Fornece panorama abrangente do Brasil imperial e de sua inserção nas dinâmicas atlânticas e europeias. Permite entender as implicações estratégicas da campanha no longo prazo.

8. Rodrigues, Jorge

História das Guerras Napoleônicas
Editora XYZ (variações editoriais podem existir).

Comentário: Texto didático porém sólido sobre as Guerras Napoleônicas. Apesar de não aprofundar o teatro sul-americano, é útil para compreender a cronologia e as relações entre os comandos europeus.

9. Hearder, Harry

Europe in 1807: The March on Portugal
Cambridge University Press, 2002.

Comentário: Análise detalhada da invasão de Portugal por Napoleão, o que explica as origens do exílio da corte no Brasil e o contexto político em que se decidiu pela ofensiva em Caiena.

10. Bodart, Gaston

Militar History of the Napoleonic Wars
Arms and Armour Press, 1995.

Comentário: Compilação de dados militares, incluindo forças, perdas e operações. Ajuda a situar numericamente o teatro de operações sul-americano dentro do conjunto napoleônico.

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