Introdução
A noção moderna de pátria, fundada quase exclusivamente no critério jurídico do nascimento e da cidadania, revela-se insuficiente para explicar a experiência concreta de pertença vivida por muitos homens que orientam sua vida segundo um princípio transcendente. Para o católico que toma Cristo como centro ordenador da realidade, a verdadeira pátria não se confunde com o Estado moderno, muito menos com regimes políticos que se estruturam em ruptura com a ordem cristã.
É a partir desse ponto que se torna inteligível a experiência paradoxal de sentir-se estrangeiro em sua própria terra e, ao mesmo tempo, em casa em terras distantes. Tal experiência não é psicológica nem sentimental, mas teológica, civilizacional e ontológica.
1. A pertença fundada na conformidade com o Todo que vem de Deus
A pertença verdadeira não nasce do acaso biológico ou do registro civil, mas da participação numa ordem que reflete o Todo que vem de Deus. Essa ordem — quando historicamente encarnada — manifesta-se na cristandade, entendida não como um regime político fechado, mas como uma integração orgânica entre fé, cultura, direito, costumes e autoridade.
Sob esse prisma, as circunstâncias cristocêntricas da Polônia dizem mais respeito a um católico brasileiro do que as disputas políticas internas da república brasileira contemporânea. Não se trata de preferência ideológica, mas de reconhecimento ontológico: onde há maior conformidade com a ordem cristã, há maior proximidade espiritual.
A política, nesse sentido, não é um fim em si mesma, mas um reflexo da ordem superior que a fundamenta ou a nega.
2. A república brasileira como regime revolucionário e alienante
A república brasileira nasce de um rompimento — não apenas institucional, mas simbólico e espiritual — com a tradição que a precede. Como todo regime revolucionário, ela se organiza a partir da negação de uma ordem anterior e da promessa de uma autonomia humana desvinculada do sagrado.
Esse caráter revolucionário produz alienação. Não no sentido meramente sociológico, mas no sentido profundo: o homem já não reconhece na ordem política um reflexo do Todo, mas um sistema autônomo, fechado em si mesmo, regido por disputas de poder, legalismos formais e picuinhas circunstanciais.
Daí a sensação legítima de exílio interior: viver numa terra onde as estruturas políticas e culturais não apenas ignoram, mas frequentemente hostilizam a ordem cristã, faz do católico um estrangeiro em sua própria pátria jurídica.
3. “Estou no mundo, mas não sou do mundo”: o exílio como condição cristã
Essa condição de estrangeiro não é anômala; ao contrário, ela é plenamente coerente com a antropologia cristã. O cristão está no mundo, mas não pertence ao mundo enquanto sistema fechado em si mesmo. Sua cidadania última não é terrestre, mas celestial.
Contudo, isso não implica fuga da história ou indiferença política. Implica, sim, um critério superior de julgamento: as realidades políticas são avaliadas segundo sua maior ou menor conformidade com a ordem divina.
Assim, o exílio interior torna-se uma forma de lucidez. Ele permite discernir que a verdadeira alienação não é viver fora de um território, mas viver sob uma ordem que rompe com o princípio que dá sentido à realidade.
4. Dois países, um só lar: a unidade espiritual em Cristo
É nesse horizonte que se compreende a afirmação de tomar dois países como um mesmo lar — em Cristo, por Cristo e para Cristo. A Polônia, marcada historicamente por uma resistência profundamente enraizada na fé católica, por São João Paulo II e por uma consciência nacional ligada ao sacrifício e à lealdade, participa de uma ordem espiritual que transcende fronteiras.
Quando dois povos participam, ainda que de modo imperfeito, dessa mesma herança cristã, eles podem ser espiritualmente mais próximos entre si do que dois grupos que compartilham o mesmo território, mas não a mesma visão do Todo.
O que é verdadeiramente alienígena não é o que está fora do mapa nacional, mas o que está fora da cristandade.
5. Ourique como princípio simbólico de integração
O Milagre de Ourique funciona aqui como símbolo fundacional: não apenas de Portugal, mas de um modelo civilizacional no qual a autoridade política se reconhece subordinada a Cristo. Ourique representa a recusa de uma soberania autônoma e a aceitação de uma missão histórica ordenada ao Todo de Deus.
Aquilo que decorre de Ourique — isto é, da integração entre fé, lealdade, missão e ordem — constitui um critério de reconhecimento civilizacional. O que rompe com esse princípio, ainda que juridicamente nacional, torna-se espiritualmente estranho.
Conclusão
A experiência de pertencimento cristão não se deixa reduzir às categorias do Estado moderno. A verdadeira pátria é aquela que participa da ordem do Todo, que reconhece sua origem em Deus e que orienta sua vida histórica segundo esse princípio.
Sentir-se estrangeiro na própria terra, nesse contexto, não é sinal de alienação, mas de fidelidade. E reconhecer em terras distantes um lar espiritual não é fuga, mas lucidez. Pois, em última instância, a unidade que realmente funda a nacionidade não é política nem étnica, mas cristocêntrica.
Bibliografia comentada
AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus.
Obra fundamental para compreender a distinção — e a tensão — entre a cidade dos homens e a Cidade de Deus. Base teológica do conceito de exílio cristão no mundo.
ROYCE, Josiah. A Filosofia da Lealdade.
Essencial para articular a noção de pertença que não se reduz ao individualismo moderno. A lealdade a uma causa superior fornece o arcabouço filosófico da nacionidade espiritual.
CARVALHO, Olavo de. O Jardim das Aflições.
Análise metapolítica da ruptura moderna entre ordem espiritual e poder temporal. A referência a Ourique aparece como símbolo da integração perdida.
TURNER, Frederick Jackson. The Frontier in American History.
Embora trate do mito da fronteira americana, fornece elementos úteis para compreender como narrativas fundacionais moldam a identidade política — por contraste com a tradição cristã europeia.
JOÃO PAULO II. Memória e Identidade.
Reflexão direta sobre nação, cultura, cristianismo e resistência espiritual, especialmente no contexto polonês.
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