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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A face oculta de Mahatma Gandhi: entre o mito, a história e as contradições humanas

Introdução

Mohandas Karamchand Gandhi, mundialmente conhecido como Mahatma Gandhi, é celebrado como um dos maiores símbolos da não violência, da resistência pacífica e da luta pela justiça social. Inspirado por figuras como Liev Tolstói, Henry David Thoreau e pelos ensinamentos de Jesus Cristo — especialmente o Sermão da Montanha —, Gandhi construiu uma trajetória que o transformou no principal líder da independência da Índia e em referência moral para movimentos civis ao redor do mundo.

Contudo, como toda figura histórica elevada ao status de mito, sua biografia também apresenta zonas de sombra. Ao lado do pacifista admirado, existiu um homem marcado por contradições: posições raciais ambíguas, visões controversas sobre castas, comportamento autoritário, práticas sexuais incomuns e concepções profundamente problemáticas sobre mulheres. Este artigo examina essas “faces ocultas” de Gandhi, não com o intuito de destruir seu legado, mas de compreendê-lo de forma mais humana, crítica e historicamente honesta.

1. A formação de Gandhi e o despertar político

Gandhi nasceu em uma pequena cidade indiana e, inicialmente, aspirava seguir a carreira política do pai. Para isso, estudou Direito em Londres, buscando prestígio dentro da estrutura colonial britânica. Seu destino, no entanto, tomou outro rumo quando se mudou para a África do Sul para atuar como advogado.

Ali, sofreu um episódio decisivo: mesmo portando bilhete de primeira classe, foi expulso de um vagão por ser indiano. Esse ato de racismo não apenas o humilhou pessoalmente, mas o despertou para a brutalidade das hierarquias raciais no Império Britânico. A partir desse momento, Gandhi passou a organizar a comunidade indiana local, fundando o Congresso Indiano de Natal e liderando movimentos de desobediência civil baseados no conceito de Satyagraha — “firmeza na verdade”.

2. Racismo e Hierarquias: a ambiguidade moral

Apesar de combater a discriminação contra indianos, Gandhi inicialmente não estendeu essa luta aos africanos negros. Em seus primeiros anos na África do Sul, utilizou termos como “incivilizados” e “selvagens” para descrevê-los. Historiadores como Vinay Lal e Ramachandra Guha reconhecem que Gandhi foi, em determinado período, explicitamente racista.

Embora tenha suavizado esse discurso ao longo da vida, há registros de que continuou defendendo a separação racial em instituições públicas e tribunais, buscando elevar a posição dos indianos sem questionar o status dos negros sul-africanos. Para o historiador Patrick French, esse silêncio diante da opressão africana constitui o “buraco negro” da mitologia gandhiana.

Na Índia, Gandhi também manteve uma postura ambígua em relação ao sistema de castas. Embora afirmasse respeitar os dalits (os chamados “intocáveis”), rejeitou propostas de ações afirmativas defendidas por B. R. Ambedkar, temendo que elas fragmentassem a sociedade. Para críticos como Arundhati Roy, Gandhi não combateu o sistema de castas de forma decisiva e chegou a considerá-lo uma expressão legítima da civilização hindu.

3. Vida Pessoal, Sexualidade e Autoritarismo

Gandhi casou-se aos 13 anos com Kasturba, em um matrimônio infantil comum à época. Mais tarde, tornou-se crítico dessa prática, mas sua relação conjugal foi marcada por controle e imposições unilaterais. Após decidir pelo celibato, impôs essa escolha à esposa sem pleno consentimento.

O líder também desenvolveu “experimentos” de resistência sexual: dormia nu com mulheres jovens — incluindo sua própria sobrinha — para provar sua pureza espiritual. Segundo o biógrafo Jed Adams, essas práticas envolviam estímulos sensoriais sem contato físico e geraram escândalos ainda em vida.

Além disso, Gandhi demonstrava uma postura autoritária em seu convívio diário. Cortava o cabelo de seguidoras como punição moral, repreendia duramente pequenas imprecisões e impunha regras rígidas de comportamento, muitas vezes sem considerar o consentimento ou a dignidade individual.

4. Mulheres, Moralidade e Controle Social

As visões de Gandhi sobre as mulheres são, hoje, amplamente consideradas problemáticas. Ele acreditava que a menstruação era uma manifestação da “distorção da alma feminina” causada pela sexualidade. Defendia que mulheres estupradas perdiam seu valor moral e chegou a sugerir que pais poderiam ser “justificados” em matar filhas violentadas para preservar a honra da família.

Também se opôs ao uso de anticoncepcionais, associando-os à prostituição. Em casos de assédio sexual, culpabilizava as vítimas, chegando a punir mulheres cortando seus cabelos para “evitar” novos abusos.

Essas ideias contribuíram para uma cultura de vergonha, repressão e violência que ainda marca a sociedade indiana contemporânea, como apontam críticos no jornal The Guardian.

5. Economia da Pobreza e rejeição ao industrialismo

Gandhi defendia um modelo econômico baseado na simplicidade, na privação e na rejeição da industrialização ocidental. Para ele, refeições completas e conforto material eram quase pecados contra Deus, pois representariam desigualdade no acesso aos recursos.

Intelectuais como Rabindranath Tagore criticaram essa visão, alertando para seus efeitos negativos sobre o desenvolvimento econômico da Índia. Ainda assim, muitos desses ideais influenciaram políticas públicas no país, contribuindo para décadas de estagnação e pobreza estrutural.

6. Humor, Diplomacia e Legado Final

Apesar de seu rigor moral, Gandhi também possuía um senso de humor irônico e habilidade diplomática. Respondia a críticas com cartas bem-humoradas e tratava até figuras como Hitler e Mussolini de forma cordial — não por admiração ideológica, mas por acreditar que ninguém deveria ser tratado como inimigo absoluto.

Gandhi foi assassinado em 1948 por um extremista hindu que o acusava de traição por aceitar a partilha da Índia com o Paquistão. Mesmo após sua morte, seus filhos pediram clemência ao assassino, tentando honrar o princípio da não violência.

Conclusão

Mahatma Gandhi não foi um santo intocável, mas um ser humano complexo, marcado por virtudes extraordinárias e falhas profundas. Seu compromisso com a não violência e a justiça inspirou milhões, mas suas visões sobre raça, mulheres, sexualidade e hierarquia social revelam contradições que não podem ser ignoradas.

Reconhecer essas “faces ocultas” não destrói seu legado — pelo contrário, humaniza-o. A verdadeira grandeza histórica não está na perfeição moral, mas na capacidade de influenciar o mundo, mesmo carregando limites, erros e sombras. Como o próprio Gandhi acreditava, a humanidade não é definida apenas por suas falhas, mas por sua capacidade de superá-las.

Bibliografia Comentada

ADAMS, Jed. Gandhi: Naked Ambition.
Obra fundamental para compreender os aspectos mais controversos da vida íntima de Gandhi. Adams investiga documentos, testemunhos e relatos históricos para analisar os chamados “experimentos sexuais” do líder, oferecendo uma visão crítica da construção de sua imagem pública.

FRENCH, Patrick. India: A Portrait.
O autor destaca o silêncio de Gandhi em relação à população negra na África do Sul, apontando o que chama de “buraco negro” da mitologia gandhiana. A obra contribui para uma leitura menos idealizada do líder.

GUHA, Ramachandra. Gandhi Before India.
Biografia detalhada que analisa os primeiros anos de Gandhi, especialmente seu período na África do Sul. Guha reconhece o racismo inicial do líder e mostra sua evolução gradual, sem ocultar suas ambiguidades.

LAL, Vinay. The Other Face of Gandhi.
Estudo crítico que questiona a santificação de Gandhi, examinando suas posições sobre raça, política e moralidade. Essencial para quem busca uma abordagem historiográfica mais rigorosa.

ROY, Arundhati. The Doctor and the Saint.
A autora confronta Gandhi a partir da perspectiva de B. R. Ambedkar, denunciando sua conivência com o sistema de castas. O livro é um marco na crítica pós-colonial ao gandhismo.

TAGORE, Rabindranath. Ensaios políticos e culturais.
Tagore criticou abertamente a exaltação da pobreza promovida por Gandhi. Seus textos ajudam a compreender os limites econômicos do ideal gandhiano.

CONNELLAN, Michael. “The Women Who Suffer Under Gandhi’s Legacy”. The Guardian.
Artigo que analisa o impacto das ideias de Gandhi sobre sexualidade, estupro e moral feminina, relacionando-as à persistência da violência de gênero na Índia.

AMBEDKAR, B. R. Annihilation of Caste.
Obra clássica que denuncia o sistema de castas e critica Gandhi por não enfrentá-lo de forma decisiva. Essencial para compreender o conflito entre ambos.

THOREAU, Henry David. Civil Disobedience.
Texto que influenciou diretamente o conceito de Satyagraha. Ajuda a entender as bases filosóficas da resistência pacífica de Gandhi.

TOLSTÓI, Liev. O Reino de Deus Está em Vós.
Obra espiritual que inspirou profundamente Gandhi, especialmente no pacifismo cristão e na rejeição da violência.

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