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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O santinho como moeda política - da credibilidade como lastro simbólico da representação

Introdução

Na vida econômica, uma moeda só possui valor quando há confiança no seu lastro. Historicamente, esse lastro foi o ouro; na modernidade, é a credibilidade institucional do emissor. Na vida política, ocorre um fenômeno análogo: o material de campanha — especialmente o chamado santinho — só possui valor simbólico quando é sustentado pela credibilidade real do candidato.

Sem lastro, a moeda se desvaloriza. Sem credibilidade, a propaganda se torna fraude simbólica.

O santinho, portanto, pode ser compreendido como uma moeda política, cujo valor depende inteiramente da substância moral, histórica e existencial de quem o emite.

1. O santinho como instrumento de troca simbólica

O santinho não é apenas um panfleto informativo. Ele funciona como:

  • Um símbolo de identidade

  • Uma promessa condensada

  • Um sinal de compromisso

  • Um meio de troca entre candidato e eleitor

Ao entregar um santinho, o candidato oferece ao eleitor uma representação de si mesmo. O eleitor, ao aceitá-lo, concede atenção, expectativa e, potencialmente, o voto. Trata-se de uma transação simbólica.

Assim como a moeda representa valor econômico, o santinho representa valor político.

2. O lastro: quem o candidato é, não o que ele diz

Na economia, o valor da moeda não depende do papel, da tinta ou do design, mas da confiança no emissor. Na política, ocorre o mesmo: o valor do santinho não está no slogan, na estética ou na retórica, mas na identidade real do candidato.

O verdadeiro lastro político é composto por:

  • Histórico público coerente

  • Conduta moral verificável

  • Fidelidade a princípios

  • Enraizamento cultural e civilizacional

  • Correspondência entre discurso e prática

Quando o candidato encarna o que comunica, o santinho possui valor real. Quando apenas simula, o santinho se torna moeda fiduciária sem respaldo.

3. Inflação simbólica e desvalorização da palavra política

Em contextos onde a propaganda é usada para fabricar identidades artificiais, ocorre um processo semelhante à inflação:

  • Multiplicam-se promessas

  • Reduz-se a substância

  • Desvaloriza-se a palavra política

  • Corrói-se a confiança pública

O excesso de santinhos sem lastro gera descrédito estrutural. O eleitor passa a tratar a propaganda como ruído, não como compromisso.

A moeda circula, mas já não compra confiança.

4. Credibilidade como capital político

A credibilidade é o verdadeiro capital político. Sem ela:

  • Não há autoridade

  • Não há legitimidade

  • Não há confiança

  • Não há valor simbólico

O candidato pode imprimir milhões de santinhos, mas, sem lastro, eles permanecem apenas como papel.

A política, assim como a economia, exige fundamentos objetivos de confiança.

5. O contraste cultural: forma sem substância vs. forma com substância

Em culturas políticas marcadas por:

  • Relativismo

  • Marketing excessivo

  • Pragmatismo eleitoral

  • Desvinculação moral

a propaganda tende a se tornar simulação.

Já em culturas onde há:

  • Tradição

  • Memória histórica

  • Fundamento religioso

  • Identidade civilizacional

a propaganda tende a ser expressão.

A forma só tem valor quando reflete substância.

6. A dimensão cristocêntrica do lastro

Do ponto de vista cristão, a credibilidade não é apenas reputação pública. Ela é fruto de:

  • Coerência entre fé e ação

  • Submissão à verdade

  • Fidelidade à ordem moral

  • Responsabilidade diante de Deus

Cristo não legitima a aparência, mas a verdade. Não valida a imagem, mas a substância.

Logo, uma propaganda cristocêntrica só possui valor quando nasce de uma vida cristã autêntica. Caso contrário, torna-se uso instrumental da fé — uma forma de falsificação simbólica.

Conclusão

O santinho é uma moeda política.
A credibilidade é o seu lastro.
A confiança é o seu valor.

Onde há lastro, há autoridade.
Onde não há, há apenas papel impresso.

A crise da representação política não é apenas institucional; é simbólica. E toda crise simbólica começa quando a forma se separa da substância.

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