Introdução
Na vida econômica, uma moeda só possui valor quando há confiança no seu lastro. Historicamente, esse lastro foi o ouro; na modernidade, é a credibilidade institucional do emissor. Na vida política, ocorre um fenômeno análogo: o material de campanha — especialmente o chamado santinho — só possui valor simbólico quando é sustentado pela credibilidade real do candidato.
Sem lastro, a moeda se desvaloriza. Sem credibilidade, a propaganda se torna fraude simbólica.
O santinho, portanto, pode ser compreendido como uma moeda política, cujo valor depende inteiramente da substância moral, histórica e existencial de quem o emite.
1. O santinho como instrumento de troca simbólica
O santinho não é apenas um panfleto informativo. Ele funciona como:
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Um símbolo de identidade
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Uma promessa condensada
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Um sinal de compromisso
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Um meio de troca entre candidato e eleitor
Ao entregar um santinho, o candidato oferece ao eleitor uma representação de si mesmo. O eleitor, ao aceitá-lo, concede atenção, expectativa e, potencialmente, o voto. Trata-se de uma transação simbólica.
Assim como a moeda representa valor econômico, o santinho representa valor político.
2. O lastro: quem o candidato é, não o que ele diz
Na economia, o valor da moeda não depende do papel, da tinta ou do design, mas da confiança no emissor. Na política, ocorre o mesmo: o valor do santinho não está no slogan, na estética ou na retórica, mas na identidade real do candidato.
O verdadeiro lastro político é composto por:
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Histórico público coerente
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Conduta moral verificável
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Fidelidade a princípios
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Enraizamento cultural e civilizacional
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Correspondência entre discurso e prática
Quando o candidato encarna o que comunica, o santinho possui valor real. Quando apenas simula, o santinho se torna moeda fiduciária sem respaldo.
3. Inflação simbólica e desvalorização da palavra política
Em contextos onde a propaganda é usada para fabricar identidades artificiais, ocorre um processo semelhante à inflação:
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Multiplicam-se promessas
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Reduz-se a substância
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Desvaloriza-se a palavra política
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Corrói-se a confiança pública
O excesso de santinhos sem lastro gera descrédito estrutural. O eleitor passa a tratar a propaganda como ruído, não como compromisso.
A moeda circula, mas já não compra confiança.
4. Credibilidade como capital político
A credibilidade é o verdadeiro capital político. Sem ela:
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Não há autoridade
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Não há legitimidade
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Não há confiança
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Não há valor simbólico
O candidato pode imprimir milhões de santinhos, mas, sem lastro, eles permanecem apenas como papel.
A política, assim como a economia, exige fundamentos objetivos de confiança.
5. O contraste cultural: forma sem substância vs. forma com substância
Em culturas políticas marcadas por:
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Relativismo
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Marketing excessivo
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Pragmatismo eleitoral
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Desvinculação moral
a propaganda tende a se tornar simulação.
Já em culturas onde há:
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Tradição
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Memória histórica
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Fundamento religioso
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Identidade civilizacional
a propaganda tende a ser expressão.
A forma só tem valor quando reflete substância.
6. A dimensão cristocêntrica do lastro
Do ponto de vista cristão, a credibilidade não é apenas reputação pública. Ela é fruto de:
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Coerência entre fé e ação
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Submissão à verdade
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Fidelidade à ordem moral
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Responsabilidade diante de Deus
Cristo não legitima a aparência, mas a verdade. Não valida a imagem, mas a substância.
Logo, uma propaganda cristocêntrica só possui valor quando nasce de uma vida cristã autêntica. Caso contrário, torna-se uso instrumental da fé — uma forma de falsificação simbólica.
Conclusão
O santinho é uma moeda política.
A credibilidade é o seu lastro.
A confiança é o seu valor.
Onde há lastro, há autoridade.
Onde não há, há apenas papel impresso.
A crise da representação política não é apenas institucional; é simbólica. E toda crise simbólica começa quando a forma se separa da substância.
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