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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Noosfera, Fim da História e Política Messiânica: a imanentização da escatologia e o horror metafísico da modernidade

Introdução

A modernidade produziu diversas tentativas de interpretar o destino da humanidade por meio de narrativas teleológicas imanentes. Entre elas destacam-se o conceito de noosfera, a tese do Fim da História, as ideologias políticas redentoras e os projetos tecnocráticos de unificação da consciência. Embora distintas em forma, essas construções compartilham uma estrutura comum: a transferência das promessas escatológicas para o interior da história.

Eric Voegelin chamou esse fenômeno de imanentização da escatologia. Leszek Kołakowski descreveu seus efeitos como um horror metafísico. Joseph Ratzinger, por sua vez, denunciou sua expressão política como messianismo secular.

Este artigo examina essas três abordagens de forma integrada, mostrando como a modernidade, ao tentar substituir a transcendência por sistemas históricos de redenção, produziu uma crise ontológica profunda.

1. A noosfera e a promessa de redenção pela consciência

O conceito de noosfera, formulado por Vladimir Vernadsky e desenvolvido por Édouard Le Roy e Pierre Teilhard de Chardin, descreve a emergência de uma esfera da razão humana que transforma a biosfera por meio da ciência, da técnica e da consciência coletiva.

Em sua versão cristã (Teilhard), a noosfera orienta-se para o Ponto Ômega, identificado com Cristo. A história mantém, assim, uma finalidade transcendente.

Contudo, quando secularizada, a noosfera torna-se:

  • Um projeto de unificação cognitiva

  • Uma escatologia da inteligência

  • Uma promessa de redenção pela técnica

  • Uma salvação pela consciência coletiva

Nesse formato, a noosfera deixa de ser mediação para a transcendência e passa a funcionar como substituto da escatologia cristã.

2. O Fim da História como escatologia política

A tese do Fim da História, popularizada por Francis Fukuyama, sustenta que a democracia liberal representa a forma final da organização política humana. Não haveria mais alternativas civilizacionais substantivas, apenas aperfeiçoamentos técnicos.

Essa narrativa possui clara estrutura escatológica:

  • Um processo histórico orientado

  • Um estágio final

  • A superação dos conflitos fundamentais

  • A promessa de estabilidade

Entretanto, trata-se de uma escatologia sem transcendência. O Estado substitui o Reino. A administração substitui a salvação. O consenso substitui a verdade.

Assim, o Fim da História configura uma escatologia imanente, centrada na política e na gestão.

3. Voegelin: a imanentização da escatologia

Eric Voegelin identificou o núcleo do problema moderno naquilo que chamou de imanentização da escatologia: a tentativa de realizar, dentro da história, aquilo que pertence à ordem da eternidade.

Na tradição cristã:

  • O Reino de Deus é transcendente

  • A salvação não é histórica

  • A plenitude não é política

A modernidade, porém, transforma:

  • Redenção em progresso

  • Escatologia em ideologia

  • Salvação em sistema

  • Fé em engenharia social

Para Voegelin, isso gera religiões políticas, formas seculares de gnose que prometem redenção por meio do conhecimento, da técnica ou do poder.

4. Kołakowski e o horror metafísico

Leszek Kołakowski analisa os efeitos existenciais desse deslocamento. Quando a transcendência é eliminada, mas a exigência de sentido absoluto permanece, o homem passa a viver num mundo:

  • Organizado, mas sem finalidade última

  • Racional, mas sem fundamento ontológico

  • Funcional, mas espiritualmente vazio

Esse estado produz o que ele chama de horror metafísico: não o caos, mas a ordem sem Deus; não o absurdo, mas o sentido artificial.

As ideologias redentoras modernas prometem plenitude, mas entregam apenas sistemas. O homem continua exigindo salvação, mas recebe apenas administração.

5. Ratzinger e a crítica à política messiânica

Joseph Ratzinger descreve a expressão política desse fenômeno como messianismo secular ou política messiânica.

Ela surge quando:

  • O Estado assume funções salvíficas

  • A justiça perfeita é prometida por meios políticos

  • A história é sacralizada

  • O Reino de Deus é confundido com estruturas humanas

Para Ratzinger:

O Reino de Deus não é produto da política, nem da técnica, nem da história.

A política pertence à ordem do provisório; a salvação, à ordem do definitivo.

Quando essa distinção é abolida, a política se torna religião, e a fé se torna ideologia. O resultado é a sacralização do poder e a frustração ontológica das expectativas humanas.

6. A convergência dos diagnósticos

Embora partam de campos distintos, Voegelin, Kołakowski e Ratzinger convergem no diagnóstico:

AutorDiagnósticoÊnfase
VoegelinEscatologia foi imanentizadaEstrutural-política
KołakowskiIsso gera horror metafísicoExistencial
RatzingerIsso cria política messiânicaTeológica

A noosfera secularizada e o Fim da História aparecem, nesse contexto, como formas contemporâneas de escatologia imanente: uma promete redenção pela consciência, a outra pela ordem liberal.

Ambas substituem a transcendência por sistemas.

7. A posição da Igreja Católica

A Igreja rejeita sistematicamente essas tentativas porque:

  • O fim último do homem não é histórico

  • A redenção não é política

  • A salvação não é técnica

  • O Reino não é institucional

As condenações ao modernismo, ao marxismo e às escatologias seculares não são reações conservadoras, mas defesas da ordem do ser.

Quando a escatologia é imanentizada:

  • A política vira religião

  • O progresso vira dogma

  • O Estado vira soteriologia

  • A história vira ídolo

Conclusão

A modernidade tentou substituir Deus pela História, a salvação pelo progresso e o Reino pelo Estado. O resultado não foi redenção, mas desorientação ontológica.

A imanentização da escatologia produz:

  • Ordem sem transcendência

  • Sentido sem verdade

  • Progresso sem redenção

  • Consciência sem salvação

Voegelin explica o erro.
Kołakowski descreve o trauma.
Ratzinger denuncia a perversão.

E todos convergem na mesma advertência:

Quando o homem tenta realizar o Céu na Terra, ele produz sistemas — não salvação.

Bibliografia comentada

VERNADSKY, V. I. – The Biosphere
Base científica do conceito de noosfera.

TEILHARD DE CHARDIN – O Fenômeno Humano
Interpretação teológica da evolução rumo ao Ponto Ômega.

FUKUYAMA, F. – O Fim da História e o Último Homem
Formulação liberal da escatologia política moderna.

VOEGELIN, E. – A Nova Ciência da Política
Análise da imanentização da escatologia.

KOŁAKOWSKI, L. – Horror Metaphysicus
Diagnóstico existencial da perda da transcendência.

RATZINGER, J. – Escatologia / Introdução ao Cristianismo
Crítica teológica ao messianismo político.

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