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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O “fim da História” em H. G. Wells e Francis Fukuyama: continuidade, ruptura e teleologia política

Introdução

A ideia de “fim da História” tornou-se amplamente conhecida no debate político e filosófico contemporâneo a partir da obra de Francis Fukuyama, publicada no contexto do colapso da União Soviética e do aparente triunfo da democracia liberal. Contudo, essa formulação não surge no vácuo. Ela se insere numa tradição intelectual mais antiga, cujas raízes podem ser encontradas, entre outros, em Herbert George Wells e em seu livro The New World Order (1940).

Embora separados por meio século, contextos históricos distintos e diferenças ideológicas relevantes, Wells e Fukuyama compartilham uma estrutura conceitual comum: a crença de que a História possui uma direção, um sentido e um ponto de culminação. Este artigo examina as convergências e divergências entre essas duas formulações do “fim da História”, evidenciando sua base teleológica e suas implicações políticas.

A teleologia histórica em H. G. Wells

Em The New World Order, Wells parte da premissa de que a era dos Estados nacionais soberanos chegou ao fim. Para ele, o desenvolvimento científico, tecnológico e econômico tornou obsoletas as formas tradicionais de organização política. A História, entendida como o conflito entre nações, ideologias e sistemas concorrentes, estaria esgotada.

Nesse sentido, o “fim da História” em Wells não é apenas uma constatação, mas um projeto. Ele propõe explicitamente a construção de uma nova ordem mundial baseada em três pilares:

  1. Coletivismo econômico

  2. Direito internacional centralizado

  3. Educação como instrumento de engenharia social

Wells concebe a nova ordem como uma fase superior da civilização, administrada por elites técnicas e intelectuais, na qual os conflitos ideológicos e nacionais seriam superados por meio da racionalização global. A História política tradicional daria lugar à gestão científica da humanidade.

Trata-se, portanto, de uma visão normativa: a História deve terminar para que a nova ordem possa ser instaurada.

O “Fim da História” em Francis Fukuyama

Já em The End of History and the Last Man (1992), Fukuyama formula a ideia de fim da História em termos analíticos e descritivos. Para ele, a derrota do fascismo e do comunismo significou o colapso das principais alternativas ideológicas à democracia liberal.

Segundo sua tese, a humanidade teria alcançado o estágio final de sua evolução política: um sistema baseado em economia de mercado, direitos individuais e instituições democráticas. A História, entendida como disputa entre grandes modelos ideológicos, estaria encerrada.

Ao contrário de Wells, Fukuyama não propõe uma transformação radical da ordem mundial. Ele afirma que essa ordem já venceu. O fim da História não é um projeto, mas um diagnóstico.

A estrutura filosófica comum: Hegel e a teleologia

Apesar das diferenças de conteúdo, ambos os autores compartilham uma base filosófica comum: a herança hegeliana. Em Hegel, a História é concebida como um processo racional, orientado para a realização progressiva da liberdade.

Wells e Fukuyama adotam essa estrutura:

  • A História tem direção

  • A História possui sentido

  • A História culmina em uma forma superior de organização

Para Wells, essa culminação é a ordem mundial tecnocrática e coletivista. Para Fukuyama, é a democracia liberal. Em ambos os casos, o conflito político é visto como transitório, e o futuro como essencialmente estável.

Projeto versus Diagnóstico

A principal diferença entre os dois autores está no papel que atribuem à ação humana.

Wells defende uma revolução intelectual e institucional consciente, conduzida por elites esclarecidas. Sua nova ordem deve ser construída ativamente. Ele atua como engenheiro social.

Fukuyama, por sua vez, apresenta-se como analista histórico. Ele não prescreve mudanças estruturais profundas, mas descreve a consolidação de um modelo que, segundo ele, já se impôs.

Em termos sintéticos:

  • Wells: “A História acabou; agora precisamos criar a nova ordem.”

  • Fukuyama: “A História acabou; a nova ordem já venceu.”

Continuidade Ideológica e Implicações Políticas

Apesar das diferenças, há uma continuidade conceitual entre os dois autores. Ambos legitimam, direta ou indiretamente, a centralização normativa, o enfraquecimento das soberanias nacionais e a universalização de determinados valores políticos.

Wells fornece o projeto intelectual da governança global. Fukuyama fornece sua legitimação histórica. Em ambos os casos, a pluralidade política e cultural tende a ser relativizada em nome de um suposto destino comum da humanidade.

Conclusão

A ideia de “fim da História” em Fukuyama está, de fato, relacionada à formulação anterior de H. G. Wells, não tanto pelo conteúdo específico, mas pela estrutura filosófica que ambas compartilham.

Ambos operam dentro de uma visão teleológica da História, herdeira de Hegel, segundo a qual o desenvolvimento humano caminha inevitavelmente para uma forma final de organização política.

Wells propõe essa forma como projeto revolucionário. Fukuyama a apresenta como resultado histórico consolidado. Em ambos os casos, a História deixa de ser um campo aberto de possibilidades e passa a ser concebida como um processo com destino fixado — uma concepção que, por si só, carrega profundas implicações políticas, culturais e antropológicas.

Bibliografia Comentada

1. WELLS, H. G. The New World Order. Londres, 1940.

Obra central para a compreensão da proposta de uma ordem mundial tecnocrática e coletivista. Wells não descreve uma conspiração, mas um projeto político explícito, fundamentado na superação dos Estados nacionais, na centralização jurídica e no uso da educação como instrumento de transformação social. Essencial para entender a matriz intelectual da governança global moderna.

2. FUKUYAMA, Francis. The End of History and the Last Man. Nova York: Free Press, 1992.

Livro que popularizou a tese de que a democracia liberal representa o estágio final da evolução política humana. Fukuyama parte de uma leitura hegeliana, mediada por Alexandre Kojève, para sustentar que as grandes disputas ideológicas chegaram ao fim após a Guerra Fria.

3. HEGEL, G. W. F. Filosofia da História. Diversas edições.

Fundamento filosófico da ideia de História como processo racional e teleológico. Hegel concebe o desenvolvimento histórico como a realização progressiva da liberdade, ideia que influencia tanto Wells quanto Fukuyama, ainda que de modos distintos.

4. KOJÈVE, Alexandre. Introdução à Leitura de Hegel. Rio de Janeiro: Contraponto.

Responsável por reinterpretar Hegel no século XX e influenciar diretamente Fukuyama. Kojève defende a noção de que a História termina quando o reconhecimento universal é alcançado, ideia central para a tese do “fim da História”.

5. MORRIS, Brian. H. G. Wells and the End of Culture. Londres: Croom Helm.

Estudo crítico sobre o pensamento político de Wells, mostrando como sua visão tecnocrática estava ligada ao progressismo científico e ao socialismo fabiano.

6. GRAY, John. Black Mass: Apocalyptic Religion and the Death of Utopia. Londres: Penguin.

Análise das ideologias modernas como herdeiras de estruturas religiosas escatológicas. Útil para compreender como o “fim da História” seculariza antigas ideias de redenção e consumação histórica.

7. HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos. São Paulo: Companhia das Letras.

Contextualiza o século XX como período de conflitos ideológicos globais, permitindo avaliar criticamente a tese de Fukuyama à luz dos desdobramentos posteriores.

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