Introdução
A ciência econômica, ao longo de sua história, oscilou entre dois polos metodológicos: a construção de modelos teóricos abstratos e a observação empírica da realidade concreta. Enquanto algumas tradições enfatizam a dedução lógica a partir de premissas formais, outras partem da experiência cotidiana, da análise das circunstâncias e do comportamento efetivo dos agentes econômicos. Este artigo propõe uma reflexão sobre uma metodologia econômica fundada na observação direta dos fenômenos de mercado, na coleta sistemática de dados do cotidiano e no uso da inteligência artificial como instrumento de análise e previsão.
Curiosamente, leitores têm identificado afinidades entre essa abordagem e o pensamento de Alfred Marshall, mesmo sem que haja uma leitura direta de sua obra. Isso sugere que certos princípios econômicos emergem naturalmente da própria realidade observada, independentemente da filiação teórica explícita.
A economia como ciência da experiência concreta
A ação econômica não ocorre em um vácuo teórico, mas em circunstâncias históricas, sociais e culturais específicas. Preços, promoções, escassez, abundância, políticas públicas, crises e ciclos de consumo são vivenciados diariamente pelos indivíduos. Observar esses fenômenos no cotidiano permite captar regularidades que frequentemente escapam a modelos excessivamente abstratos.
Essa abordagem parte do princípio de que a realidade econômica é inteligível a partir da experiência concreta. Grandes promoções, variações abruptas de preços, mudanças no comportamento do consumidor e intervenções estatais amplamente divulgadas pela mídia constituem fatos públicos e notórios. Tais eventos não apenas refletem dinâmicas microeconômicas, mas também produzem impactos macroeconômicos mensuráveis.
Assim, a economia deixa de ser apenas uma disciplina de gabinete e passa a ser uma ciência da observação viva, enraizada na experiência cotidiana.
Registro sistemático e organização dos dados
A observação, para ser cientificamente útil, precisa ser sistematizada. Anotações dispersas não produzem conhecimento estruturado. Por isso, a coleta contínua de informações sobre eventos de mercado — como campanhas promocionais em larga escala, variações de preços, mudanças regulatórias e reações do público — deve ser organizada em bases de dados coerentes.
A mídia de massa desempenha aqui um papel central, pois documenta fatos de grande relevância econômica. O caráter público dessas informações garante sua verificabilidade, enquanto sua recorrência permite a identificação de padrões.
O acúmulo desses dados ao longo do tempo forma um corpus empírico suficientemente robusto para análises comparativas, inferências e projeções.
Inteligência artificial como instrumento analítico
A inteligência artificial não substitui o julgamento humano, mas amplia suas capacidades analíticas. Ao processar grandes volumes de dados, ela permite:
-
Identificar padrões recorrentes
-
Correlacionar variáveis econômicas
-
Detectar tendências de consumo
-
Simular cenários futuros
-
Produzir previsões probabilísticas
Quando alimentada com dados provenientes da realidade concreta, a IA atua como um instrumento de racionalização da experiência empírica. Ela transforma observações dispersas em modelos interpretativos, sem impor previamente uma estrutura ideológica rígida.
Nesse sentido, a IA funciona como uma extensão da inteligência humana aplicada à economia das circunstâncias.
Previsão econômica a partir da realidade observada
Com dados acumulados e analisados sistematicamente, torna-se possível formular previsões plausíveis. Não se trata de profecias deterministas, mas de inferências baseadas em regularidades observáveis.
Por exemplo:
-
Repetições de grandes liquidações indicam excesso de estoque ou retração da demanda.
-
Aumento constante de preços sinaliza inflação setorial.
-
Mudanças súbitas no comportamento do consumidor refletem insegurança econômica.
Esses sinais, quando cruzados com dados históricos, permitem antecipar tendências macroeconômicas, ainda que de forma probabilística.
A previsão, nesse contexto, é um exercício de prudência racional, não de certeza absoluta.
Afinidades com Alfred Marshall e a tradição empírica
Alfred Marshall defendia uma economia enraizada na realidade social, preocupada com o comportamento efetivo dos agentes e com os efeitos práticos das políticas econômicas. Embora sua obra não tenha sido diretamente estudada neste percurso metodológico, leitores identificaram afinidades conceituais.
Isso revela um ponto fundamental: certos princípios econômicos não são produtos exclusivos de escolas teóricas, mas emergem da própria estrutura da realidade. Quem observa o mercado com atenção, disciplina e método tende a reencontrar, por vias empíricas, conclusões semelhantes às da tradição clássica.
A economia, nesse sentido, é menos uma doutrina e mais uma leitura racional da experiência humana organizada.
Conclusão
A economia das circunstâncias propõe uma metodologia fundada na observação do cotidiano, na coleta sistemática de dados públicos e no uso da inteligência artificial como ferramenta analítica. Em vez de partir de modelos abstratos, ela emerge da realidade vivida e busca compreendê-la com rigor racional.
Essa abordagem não rejeita a teoria, mas a subordina à experiência. A inteligência artificial, por sua vez, não substitui o intelecto humano, mas amplia sua capacidade de interpretação.
O resultado é uma economia viva, empírica, circunstancial e orientada para a compreensão concreta dos fenômenos de mercado — uma ciência que nasce da realidade e retorna a ela para validar-se.
Bibliografia Comentada
MARSHALL, Alfred. Principles of Economics.
Obra central da tradição neoclássica, na qual Marshall enfatiza a observação empírica, o comportamento real dos agentes e a importância das circunstâncias históricas. Sua abordagem prática da economia explica por que leitores identificam afinidades entre sua obra e uma metodologia fundada na observação do cotidiano.
ORTEGA Y GASSET, José. Meditações do Quixote.
Introduz a noção de que o homem é inseparável de suas circunstâncias (“Eu sou eu e minha circunstância”). Essa concepção fundamenta a ideia de uma economia enraizada na experiência concreta e no contexto histórico-social.
MENGER, Carl. Princípios de Economia Política.
Base da Escola Austríaca, enfatiza a ação humana e o valor subjetivo. Embora mais teórico, fornece fundamentos para compreender como escolhas individuais observáveis produzem efeitos econômicos objetivos.
HAYEK, Friedrich. O Uso do Conhecimento na Sociedade.
Defende que o conhecimento econômico está disperso na sociedade e emerge da prática cotidiana. Essa tese sustenta a importância da observação empírica e do registro de dados do dia a dia.
SIMON, Herbert. Administrative Behavior.
Introduz o conceito de racionalidade limitada, mostrando que agentes decidem com base em informações incompletas, reforçando a importância da observação realista do comportamento econômico.
MOROZOV, Evgeny. Big Tech: A ascensão dos dados e o futuro da política.
Discute o papel dos dados e da tecnologia na análise social e econômica, fornecendo base crítica para o uso da inteligência artificial como ferramenta analítica.
KAHNEMAN, Daniel. Rápido e Devagar.
Analisa os padrões de decisão humana, oferecendo instrumentos para interpretar comportamentos de consumo observados empiricamente.
FRANKL, Viktor. Em busca de sentido.
Embora não seja uma obra econômica, fundamenta a compreensão da ação humana como orientada por sentido, o que ajuda a interpretar escolhas de consumo e comportamento econômico em contextos concretos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário